terça-feira, 18 de dezembro de 2007

Capítulo 11: Wake Up The Voiceless

E ali começava o segundo dia do fim de semana fatídico. Vivian tinha levado Eddie para casa, e esperado seu tio a noite inteira. Mas ele não voltara, tampouco ela descobriu alguma forma de acordar o namorado. Ele continuava ali, em coma, como se estivesse morto; a não ser sua respiração. Acabou adormecendo ao lado dele, deitada no tapete do quarto. E era quase 6 da tarde quando acordou, assustada com a hora.
- Tia, cadê meu tio?
- Ele me disse que foi viajar, Vivian. Tinha que ir pra Seattle atrás dos negócios da firma, e ia pegar o avião ontem.
- Mas ele falou quando voltava?
- Disse que no máximo até segunda feira. Ele ia ver o irmão dele também.
- Ah, tudo bem.
E ela ficou atordoada com isso. Quem poderia lhe ajudar agora? Ia falar com Howie mais tarde. Apesar do Hell's Kitchen lhe parecer um lugar amaldiçoado agora, depois da última noite. -//-"Em que raios de lugar eu tô?", primeira coisa que Eddie pensou ao acordar. Ele se levantou, e tudo que viu foi um campo de girassóis imenso, que parecia não ter fim (ou pelo menos ia até o horizonte), e um simples caminho prateado perto de onde ele estava, cortando tudo aquilo, como uma estrada. O céu mais estrelado que ele já vira em toda sua vida, sem nuvens, e nada para o cobrir. Uma imensa lua cheia brilhava exatamente no centro da abóbada celeste, iluminando bastante a noite. Paisagem mais linda que ele tinha visto (ou chegaria a ver) na vida.
Sem muitas perspectivas em relação a ficar parado ali, resolveu começar a andar no caminho prateado. Para pelo menos encontrar alguém, ou chegar a algum lugar. Por cerca de quatro horas, não foi o que aconteceu. Apenas girassóis. E o mais estranho para ele é que não havia cansaço físico nenhum, apenas o tédio de andar, andar e não chegar a lugar algum.-//-Alice olhou fixamente para o teto de seu quarto, ao instintivamente despertar. E não se lembrava de absolutamente nada da última noite. Sua memória mais recente era estar sentada com Locke, na beirada do prédio. E só. Não sabia o que acontecera com Reich ou Raposa, tampouco como chegara em casa. As dúvidas permeavam sua mente, e haviam tantos lugares aonde ela poderia encontrar respostas, que tampouco sabia por onde começar. Pensou, pensou, e decidiu-se. Iria visitar seu velho amigo Seth Reel, conhecido por ser um excelente negociador. Um negociador de informaçoes e segredos.-//-E Brett acordou, deitado em sua cama, se sentindo um pouco estranho. Já era de noite, e ele sentiu uma fome absurda. Olhou para o lado procurando por Mary, e tudo que achou foi um bilhete em cima do criado mudo, "Boa sorte, meu querido. Acho que você vai precisar". Foi até a geladeira pegar alguma coisa pra comer, tudo que tinha ali eram algumas frutas. Logo pegou uma ameixa e mordeu, mas na hora de engolir... foi estranho. Parecia não descer. Ele fez um esforço a mais, e logo vomitou. "Que droga está acontecendo?", pensou o mesmo ao não conseguir comer nada, tampouco beber um simples gole de água.
E então a campainha tocou. "Seu Brett!", era o porteiro, querendo uma coisa qualquer. Meio atordoado ainda, ele foi e abriu a porta. Foi quando olhou, por reflexo, para a jugular saltada do gordo funcionário, que percebeu que só queria um tipo de alimento. A Fome o descontrolou, ele puxou o humano para dentro e primeira coisa que fez foi morder seu pescoço.
Aquela sensação sim, era boa. O líquido descia como algo enebriante, aquecendo todo seu interior, lhe revigorando. Foi sem querer, mas chupou o porteiro até a última gota. Só depois que tomou consciência do que tinha feito, o desespero lhe bateu à cabeça. Não conseguia raciocinar direito. Escondeu o corpo no banheiro, e logo começou a arrumar suas coisas, mais por instinto do que por saber o que estava fazendo.-//-

Uma parede invisível, era o que parecia a coisa que surgiu no meio do caminho prateado. Eddie olhou, pensou. O jeito seria sair e andar por fora dele, para o meio dos girassóis. Sua sorte foi que viu uma casinha de madeira, uns 100 metros adiante, em uma pequena depressão. Assim que ele saiu do caminho, viu uma estrela vermelha, aparentemente macabra, brilhando no céu. Era a única, parecia macular toda aquela perfeição.
"Enfim, dane-se, vamos ver quem eu encontro ali na cabana"; e não encontrou ninguém. Bateu, gritou, tudo em vão. Ao seu redor (e desde que chegara ali) não viu ninguém, então resolveu arrombar mesmo a porta. Ling Ariser, adormecido (ao menos o que parecia) e com as mesmas roupas, estava ali. Além dele, uma pequena mesa, uma cama, um armário de madeira, e só. Exatamente como Eddie sempre imaginara uma cabana no meio do nada.
Tentou acordá-lo, mas percebeu que ele não estava dormindo. Ele estava morto.

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Sua coleção do The Juliana Theory (discografia completa e autografada, incluindo o Live e o EP), iPod, roupa para uns três ou quatro dias, e o diário. Sim, Brett tinha um diário. Com só essas coisas na mochila, pegou a chave do carro e a de casa, e saiu. Tinha que ir até o estacionamento do Kitchen ainda para pegar o Porsche e seguir na estrada. Então, era melhor chegar lá rápido.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

Capítulo 10: Polaroid Blues

Foi tudo meio rápido demais para Eddie. "E ele tem um ferimento muito estranho na perna", tinha terminado de dizer para Vivian. Então, seguindo um instinto, viu Raposa encostado em um prédio. O vampiro estalou os dedos, e uma sombra do tipo das que seguiam Vivian, porém muito maior, surgiu no céu. E em um súbito movimento mergulhou na direção de Ling, com sua enorme boca (se aquilo poderia ser chamado de boca) aberta. O Duque apenas teve tempo de olhar para trás e se ver sendo engolido no último instante. Logo depois, sumiu. E a sombra vinha em sua direção. Ele tentou se desviar, mas tudo que conseguiu fazer foi jogar Vivian para o lado para tirá-la do caminho. "É a mim que ela quer, então é só a mim que terá." Encarou de frente a abominação, e ao ser engolido viu apenas um clarão. "Então é assim a morte?", foi seu último pensamento na noite.

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Vodka com sprite representava para Brett todo uma época, e para Mary também, e talvez mais milhares de adolescentes quando começam a beber. Sem gastar muito, e pretendendo apenas ficarem chapados. Mas, para ele, vodka e sprite era a vida. Podia ser também qualquer outra soda, em relação a isso não havia problema. E apenas sorriu para Stuffs quando pegou a garrafa na prateleira do supermercado, tentando imaginar o que aquela noite ainda lhe reservaria. Certamente alguma coisa boa.
O mesmo de sempre; drinques, conversas, risadas, música, uma caricatura do outro (como em Vanilla Sky, - ambos tinham especial vontade de viver cenas de cinema na vida real, - mas nenhum desenhava tão bem assim). Então os dois sentam-se mais perto, a preguiça de ir pegar mais bebida fala mais alto, e de colocar um outro cd pra tocar idem. O que resta são os beijos, que viram amassos e assim por diante.

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E Vivian não entendeu absolutamente nada do que se passou ali. Repentinamente, o Duque sumiu. Então, seu namorado a empurrou para o lado, e depois caiu desmaiad. Ela logo tentou acordá-lo, mas ele não esboçava reação nenhuma. Parecia... em coma. Ou um sono muito profundo pelo menos. O que estava acontecendo com seu mundo, que andava ainda pior que antes? Sentou-se na calçada ao lado de Eddie, segurou sua mão e começou a chorar. Ela precisava de alguma resposta. Não suportaria mais muito tempo vivendo assim. Foi quando viu seu celular no bolso do namorado, e resolveu ligar para casa.
O telefone tocou uma, duas, três vezes. Então começou a fazer um chiado insuportável. Ela olhou ao redor, e viu de novo o cara da cicatriz, vindo em sua direção.
- Senhorita Crow, parece que nos encontramos novamente... é a quarta vez, estou correto?
Ela apenas olhou, apreensiva. Não tinha tido uma boa impressão dele, ainda mais depois do que aconteceu no parque. Resolveu não responder nada, e tampouco olhar para o rosto do estranho.
- Acho que ainda não me apresentei... pode me chamar de Michael. Michael Forwell.
Então ela se lembrou da velha magia de fadas que ela tinha aprendido por instinto, muito tempo atrás. Era só dizer uma ordem simples, que as pessoas em geral cumpriam. Não funcionava sempre, mas não custava tentar.
- SAIA! - ela gritou, tentando fazer funcionar. "SAI!", e nada. Recuando acuada, e notando que as pessoas que passavam por ali perto pareciam não ouvir nada. Era como se ela e o tal Michael estivessem em outro mundo, alheio àquela realidade.
- Não adianta tentar usar seus truques de Sininho. Tudo o que você queria não era que isso saísse de sua vida? Pois então, saiu. Você se entregou à Banalidade, Crow. Você é uma pessoa comum. E não vai conseguir me dominar, nunca.
- O que você quer comigo então, senhor Forwell? - ela disse, usando todo o sarcasmo que conseguia.
- Você. Para mim, tem o valor de um bem de troca agora.
- Como? - uma outra voz disse, vindo de trás do Raposa. Vivianne olhou, surpresa. Parecia muito com seu tio. Mas ele estava diferente. Mais forte, com mais vigor, como se estivesse mais novo. E tinha uma esfera de energia em sua mão, que tremeluzia e parecia viva, ansiando por destruição.
- Tio Reich?
- Vivian, minha querida, preciso que se afaste. O mais longe possível. Isso é por você, por Ling e por seu namorado também.
- Mas...
- Por favor. É tudo o que lhe peço. Encontre Howie, é o gerente do Kitchen; e diga sobre o Duque. Depois, pegue Eddie e vá para um local seguro. - E ela ouviu na sua mente, "casa". Não sabia como seu tio era capaz daquilo, mas resolveu confiar nele apenas.

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- E acha que vai ser preciso que eu faça mesmo isso? - Alice perguntou a Locke.
- Não sei, tudo mudou agora né. Hoje ainda é quinta, e está acontecendo tanta coisa. Pra ver se o planinho que o Raposa lhe deu vai acontecer sábado, acho que só haverá certeza uns 10 minutos antes da hora certa.
- Então, por enquanto, não farei nada?
- Não, fique tranqüila. Aliás, quero ver se ele vai sobreviver a essa batalha com o velho Reich.
Protegidos pela Ofuscação, os dois conversavam sentados no parapeito da janela. Mestre e discípula, observando a ruína de seus inimigos.

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Só houve uma coisa que Brett achou intrigante: quando Mary mordeu seu pescoço e começou a chupar seu sangue. Mas o prazer, o êxtase, era tanto que ele nem se importou muito. E aquilo culminou no melhor orgasmo da sua vida.