- Ela é a tal namoradinha do Eddie, né? - disse Alice, apontando para Vivian.
- Ela mesmo. Com o mesmo all-star cáqui e maquiagem triste de ontem. Mais triste ainda, eu diria.
- E você sabe o que pode ter acontecido com ele, Seth?
- Deve estar inconsciente ainda, e com a mente presa no Sonhar. Como ele pode voltar, eu não sei.
Alguma coisa em Vivian perturbava Alice demais, e algo que ela não podia explicar. Coisas daquele tipo de quando simplesmente não se vai com a cara de uma pessoa.
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Alice Scott era o tipo de pessoa que se pode dizer que teve uma infância difícil. Sua mãe, que ela nunca chegou a conhecer, era uma viciada em crack que a abandonou logo após o parto. Isso foi o que os médicos lhe disseram quando ela procurou saber alguma coisa a respeito. E seu pai a deixou na porta de um orfanato quando ela tinha apenas 5 anos, ou seja, ela tinha pouquíssimas memórias dele. No orfanato, nada melhorou; sem conseguir ser adotada enquanto ainda era nova, teve que ficar lá até os 16 anos, quando pôde pedir emancipação legal. Isso por causa das constantes brigas que arrumava lá: ela sair dali foi como um alívio para os diretores. Foi aí que largou a escola, conseguiu dois empregos (em uma lanchonete e uma lavanderia) e foi lutar pela sua própria vida. Buscar o que lhe faltava.
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Três anos depois, ela conheceu Locke. Por alguns meses, ela reparou naquela pessoa estranha que ia até a lanchonete uma meia-hora antes do final do turno dela, pedia um suco de morango com leite, dois canudos, e o jornal do dia. Ele se sentava sempre na mesma mesa do canto, lia o jornal enquanto mexia o suco com os canudos, pagava a conta e saía. Sem tomar um único gole. E ela estranhamente foi se sentindo atraída cada vez mais por ele; talvez pelo jeito solitário que lhe era tão familiar, ou pela aparência de pessoa que tem bastante histórias pra contar. Várias histórias, mesmo parecendo tão sozinho como ela. E ela foi criando coragem muito aos poucos, para finalmente lhe perguntar porque ele nunca tomava o suco.
- É que eu gosto de olhar o movimento na espuma. É tão... bonito, e singelo, e complexo ao mesmo tempo. - ele respondeu calmamente.
Essa era uma resposta do exato tipo que ela esperava de uma pessoa como ele: algo poético, e que não respondesse absolutamente nada. Ela já ia voltando a passar o pano no balcão, quando ele lhe perguntou olhando no fundo dos olhos:
- E, moça... poderia saber seu nome?
- Bem, eu tenho um crachá aqui, né...
- Sim, eu vi. É que eu acho um nome tão bonito, e sua voz também, por isso eu queria ouvi-lo de você, na verdade.
- Alice... - ela disse, acanhada. Nunca ninguém tinha lhe feito um elogio assim na vida.
- Prazer, sou Locke.
E ele logo foi sentar-se em seu lugar de sempre. E a partir daquele dia, ele começou a fazer questão de sempre ser atendido por ela, e sempre dizê-la boa noite, chamando-a pelo nome.
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- Dá pra reparar que você está encarando os dois, Alice.
- Os dois quem? - ela disse, tentando disfarçar. Mas ninguém disfarçava nada de Seth Daniels Cuervo.
- Locke, e o cara ali conversando com ele.
- Quem é ele?
- Sabia que você ia perguntar... O nome dele é Brett Witter. Conheci ele numa festa do Eddie, era o vocalista que a gente precisava para voltar a tocar. E até ontem ele não era um vampiro, a título de curiosidade.
- Locke estaria falando com ele por causa disso, então?
- Com certeza. Não precisa ficar com ciuminho não, viu.
- Ah, vá...
-//-
Mas uma noite, Locke não foi à lanchonete. E Alice, acostumada em ficá-lo observando, sentiu sua falta. E a surpresa maior foi quando tirou o avental, soltou o cabelo, saiu do serviço, e lá estava ele lhe esperando. "Poderíamos dar uma volta?", e os dois saíram juntos. Conversaram coisas banais, e coisas interessantes também. E ele parou de ler jornal ali, pois a esperava do lado de fora agora, todos os dias. E ela precisava demais disso, pois ele parecia ser a primeira pessoa que realmente entendia ela, o primeiro amigo que ela teve em toda a vida. E os dois passaram a ser mais do que amigos quando ele resolveu contá-la sobre o que realmente era: uma criatura da noite, que precisava de sangue para viver. Ele fez isso tentando protegê-la, pois seria ruim demais a eventualidade dela se apaixonar por ele, uma criatura amaldiçoada. Mas, ela quis se tornar uma vampira também.
- Eu simplesmente não posso fazer isso com você. É uma maldição, entenda.
- Mas eu quero... eu preciso... de você. Pra sempre.
Transtornado com o rumo que as coisas tomaram, ele tomou uma outra decisão. Deu seu sangue a ela, e a tornou uma carniçal. Enquanto ela permanecesse bebendo, viveria indefinidamente, mas não precisaria matar pessoas como ele precisava, ou se esconder da luz do sol. E assim se passaram pouco mais de dois anos, ele ensinando a ela sobre o mundo oculto por trás de Los Angeles.
-//-
Vivian estava conversando com Howie sobre Eddie e Ling e o que fazer em relação a isso, quando de relance olhou para a porta do banheiro, e viu a ruiva que tinha lhe vigiado no cativeiro entrando. A revolta que vinha crescendo dentro de si aumentou, e sem pensar, virou as costas para Howie e foi atrás dela. Alice fumava um cigarro calmamente encostada sobre o balcão do banheiro, olhando para o espelho. Quando percebeu Vivian entrando, disse sarcasticamente:
- Vai querer outro, burguesinha?
- Me diga: quem é você?
- Já te disse, meu nome é Alice. O que mais você quer comigo?
- O que aconteceu com meu namorado?
- Eu não sei o que aconteceu com seu namorado mago carniçal... só isso?
- Como assim?
- Você realmente não sabe de nada. Pobre inocente.
Alice molhou a bituca na pia, jogou no lixo, e já ia saindo, quando Vivian lhe segurou o braço.
- Como é?
- Entenda uma coisa, garota... você não tem a mínima noção do que acontece no mundo ao seu redor. É uma simples garota egoísta e mimada que sempre teve tudo, mas nunca quis nada. Então, faça-me o favor de me soltar, porque, eu tenho nada a ver com você, e tenho mais o que fazer também. - e a garota egoísta e mimada simplesmente olhou sem palavras, e respondeu com um tapa na cara da ruiva que ela tanto estava com raiva. "É, eu realmente tenho pena de você.", Alice respondeu secamente e saiu.
-//-
O que Locke percebeu sobre sua discípula depois de um tempo, é que ela tinha uma qualidade rara: era imune ao Laço de Sangue. Qualquer ser que bebesse o sangue de um vampiro ficava submetido a uma ligação sobrenatural e emocional com seu senhor, depois de três goles. Durante as eras os vampiros usaram isso ao seu favor, conseguindo servos que simplesmente não podiam lhe trair por causa do laço. Mas, diferente de Eddie (outra pessoa com essa rara qualidade), a ligação de Alice com Locke era mais do que uma simples conseqüência, era algo verdadeiro. Então, não havia chance dela traí-lo, como Eddie fez com Raposa, por exemplo. Foi aí que Locke teve uma idéia. Ele daria uma missão a ela, algo sem risco. Ela se passaria por capanga do Raposa, alguém que Locke queria eliminar faz algum tempo. E como isso foi antes do incidente com o mago carniçal, não tinha como dar errado. E um momento oportuno, ele poderia se livrar de um dos seus rivais para sempre.
-//-
Vivian sentou-se num vaso, fechou a porta, e ficou um tempo ali pensando. Seria ela realmente o tipo de pessoa que Alice tinha lhe dito? E porque ela não estava dando a mínima para essa situação, se no dia anterior tinha mantido-a presa? E aonde estaria a pessoa que ela mais queria ver no momento? E ela se lembrou do dia que conheceu Eddie, um show do Paramore, no aniversário de 17 anos dela. Um dos poucos dias realmente felizes da sua vida. E ela se lembrava cada detalhe, como quando andava sozinha e viu ele, num grupo de amigos, de longe o mais popular. E os dois se encararam por um tempo, mas ela, tímida, virou o olhar. E eles continuaram se encarando o show inteiro, até que ele criou coragem para falar com ela bem no final. E conversaram por um longo tempo, e ele chamou ela para tomar sorvete, "qualquer dia desses". Exatamente a coisa que ela mais queria ouvir dele. Com as perguntas a si mesma e as lembranças da única pessoa que ela amava, vieram as lágrimas caindo no chão frio e sujo.
Algum tempo depois, ela saiu, com a maquiagem triste borrada. Ainda mais triste da que Seth tinha reparado. E ao sair, viu uma mulher lindíssima, do tipo que só podia ser uma Sidhe, como ela. Tentou ignorá-la, mas a mulher logo veio falar com ela.
- Vivianne Crow?
- Sim... porque?
- Prazer, meu nome é Becky Summers. Temos um amigo em comum, Ling Ariser. Lembra-se dele?
- Sim, sim. - "Uma das poucas pessoas aparentemente boas que eu conheci no mundo", pensou.
- Pois bem, ele está morto. Sinto muito. E Edward Reel deve estar acordando de seu Sonhar agora. Seria uma boa você ir encontrá-lo.
Os olhos da indie queen brilharam. E brilharam mais ainda quando ela percebeu que não precisaria ir encontrá-lo, ele estava ali. Tinha acabado de entrar no bar, e procurava por ela.
segunda-feira, 30 de março de 2009
Capítulo 13: Misearbile Visu (Ex Malo Bonum)
Postado por
Luiz Costa
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domingo, 29 de março de 2009
Capítulo 12: P.S. We'll Call You When We Get There
- Se não é minha amiga Alice Scott... o que deseja?
Seth Daniels Cuervo, também conhecido como Seth Reel por alguns, e seu sorriso picareta de sempre. Ela nunca tinha visto ele sem essa expressão no rosto.
- Os babados da noite passada. Qual o preço?
- Agora exatamente não quero nada. Fica na conta, o que acha?
Ela pensou por alguns momentos. Bem, não tinha nada a perder, e esses lapsos de memória realmente lhe incomodavam. Precisava saber o que fazer em relação ao Raposa, ou em quem podia confiar além de Locke nesses momentos críticos. "Tudo bem, fazer o que..."
- Então entre, sofá, fique a vontade. Vou pegar um drinque para a gente.
Logo ele voltou, e começou a falar sobre as últimas 24 horas. Era incrível a capacidade dele, de saber de tudo o que acontecia no pequeno mundo sobrenatural à parte de Los Angeles.
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"Tudo começou porque Raposa queria acertar as contas com Eddie Reel, o único que tinha enganado o vampiro mais poderoso da cidade e escapado ileso. Mas, para conseguir isso, ele teve que quitar sua dívida com uma antiga quimera, a qual ele tinha prestado favores anos atrás.
- Quimera?
- Ah sim Alice, são criaturas do Sonhar, o mundo paralelo das fadinhas alegres e saltitantes, e tudo mais. Mas bem, sonhos às vezes se tornam pesadelos, você sabe. Enfim, foi o único jeito que ele descobriu de realmente afetar Eddie. E, como isca, teve que levar a namoradinha dele. Encontrei ela ontem, aliás. Olhos cor de mel, all-star cáqui, maquiagem triste. O que aconteceu foi que ela foi resgatada, pelo duque Ariser. Lembra dele?
Ao invés de lembrar do tal duque, ela lembrou foi da garota. Apenas alguns flashes, ela lhe pedindo um cigarro, "burguesinha".
- Sim sim, continue.
- Então a namoradinha do Eddie fugiu, o duque bateu no seu "patrão", Raposa também fugiu, foi atrás dela, aí encontrou o Eddie, finalmente. Foi então que ele invocou a quimera, que levou o duque feérico para o Sonhar, e a consciência do carniçal também. Então o velho Reich apareceu, criou uma ilusão, e lutou com o Raposa na frente do Hell's Kitchen. Você viu, você e Locke estavam observando tudo de uma janela ali perto. Se esforce pra lembrar, eu sei que você consegue...
Mas o branco continuava. Por algum motivo estranho.
- Mas no final das contas, quem venceu, Raposa ou Reich?
- Nenhum, na verdade. Os dois perderam. Raposa ficou extremamente ferido, e só conseguiu escapar graças à quimera, que também o levou para o Sonhar. Se ele não se recuperou ainda, provavelmente está preso lá. E o velho mago criou mais Paradoxo do que devia, e teve que sair da cidade, encontrar uns colegas de irmandade, para poder juntar Essência e estabilizar sua realidade novamente.
- Sim, sim... mas agora quero os detalhes por trás de tudo. Você sabe me dizer?
- Você sente que sim, não é? E claro que eu sei. Pois bem, vamos começar então, sobre como Raposa conseguiu uma quimera e como conseguiu ferir alguns com ela.
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Vivian, era o que ele mais tinha pensado nas últimas horas. Ainda mais depois de ver o Duque, que tinha salvado a vida dela, morto. E ele nem tinha conseguido agradecer. Como estaria ela? Eddie se sentiu totalmente impotente, com a única vontade de sair daquele lugar (que ele suspeitava ser o reino das fadas, sem saber que estava certo), e poder vê-la de novo. Fazer Raposa pagar pelo que fez já tinha se tornado assunto secundário. Saiu da cabana, vendo que ficar ali não ia adiantar nada. Sem rumo nenhum, voltou para o caminho prateado, e percebeu que a parede invisível tinha sumido. Ele só queria encontrar alguma coisa viva naquela terra estranha. E nem os girassóis contavam: Eddie começou a perceber que depois de ver Ling morto, por onde ele andava as plantas murchavam. Para sorte dos girassóis, logo o campo acabou, e o que apareceu foi um calçadão de tijolos amarelos. E no meio do calçadão, um castelo. Um castelo de vidro, com pássaros de cristal voando ao redor. Nenhum LSD que Eddie havia tomado na vida tinha lhe dado uma visão tão surreal como aquela. Instintivamente, foi pegar um cigarro no bolso, e achou um papel amassado. "Becky Summers, a rainha do castelo de vidro, encontre-a", estava escrito com uma caneta verde-limão. Era bom que os pássaros de cristal fossem com a cara dele.
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- Pois bem, Alice, é isso aí. Não dizem à toa pela noite que se deve temer Michael Raposa Forwell.
- Locke não tem medo dele, e parece que várias outras pessoas também não.
- Sabe, uma coisa é não ter medo, outra é pelo menos respeitar a força e influência. Raposa é uma das pessoas mais poderosas de Los Angeles, disso eu não tenho dúvida, sabe. E Locke... bem, as regras para as pessoas normais não se aplicam muito a ele.
- Como?
- Vai dizer que não sabe sobre seu mestre? Ele é um vampiro que tem quase mil anos. Poucos seres na Terra poderiam se comparar a ele.
- Eu nunca soube disso, Seth. De verdade.
- Bem, agora você sabe... é sexta-feira, quer sair pra beber alguma coisa?
- Me chamando pra sair, então?
- Ah, bater um papo menos sério, seria bom, digo. E eu ainda te pago uma cerveja, hein.
- Ah, vamos, vai. Kitchen?
- Tudo bem, vamos sim. Alice e Seth entraram no carro e foram. Chegando lá, perto de 8 da noite, o que Alice viu foi a tal Vivianne, que Raposa tinha mandado ela ficar de vigia ontem. Seth viu a mesma Vivianne, sem nem um pouquinho de Glamour; um Howie muito tenso com alguma coisa, provavelmente o sumiço do Duque; Brett, seu novo vocalista, com uma aura pálida de vampiro; e Locke usando uma aparência disfarce e tocando violão de forma excepcional no palco. Sentou-se com Alice, sabendo que a noite seria nada calma. E nada curta, também.
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- Estava te esperando, Edward Reel. Por favor, entre. - foi a voz que saiu do castelo quando Eddie apertou a espécie de campainha que havia ali. As portas do castelo se abriram, e ele viu um trono de cristal. Sentada ali, uma mulher cujo rosto ele tinha certeza absoluta de já ter visto a vida inteira. Se pudesse existir alguém mais bela que ela, seria Vivian, apenas.
- Você...
- Estive te esperando, Edward. Por três anos te esperei aqui - ela dizia enquanto se levantava.
- E precisamos conversar antes que você acorde.
- Isso é um sonho?
- Não, isso é o Sonhar. Um outro mundo, que só pela sua presença aqui pode se desfazer num piscar de olhos.
- Porque?
- Isso é algo que ninguém pode explicar. Mas seria bom tomar uma atitude a respeito logo.
- E porque você estava me esperando?
- Porque eu sabia que você viria, uma hora ou outra. Está escrito nas estrelas, você está destinado a algo grande.
- Eu não posso simplesmente viver minha vida como sempre vivi? Qual o sentido de tudo isso?
- Você faz perguntas demais, não acha?
- Apenas enquanto a situação não me dá outra escolha.
- Então pare, e ouça.
- Becky...
- Acalme-se. Não é difícil.
Ouvindo uma voz confortante como aquelas, ele não tinha outra escolha. Então ele se acalmou, e começou a ouvir. Ouvir coisas do tipo que só se ouve em um sonho.
Postado por
Luiz Costa
às
14:46
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