segunda-feira, 30 de março de 2009

Capítulo 13: Misearbile Visu (Ex Malo Bonum)

- Ela é a tal namoradinha do Eddie, né? - disse Alice, apontando para Vivian.
- Ela mesmo. Com o mesmo all-star cáqui e maquiagem triste de ontem. Mais triste ainda, eu diria.
- E você sabe o que pode ter acontecido com ele, Seth?
- Deve estar inconsciente ainda, e com a mente presa no Sonhar. Como ele pode voltar, eu não sei.
Alguma coisa em Vivian perturbava Alice demais, e algo que ela não podia explicar. Coisas daquele tipo de quando simplesmente não se vai com a cara de uma pessoa.

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Alice Scott era o tipo de pessoa que se pode dizer que teve uma infância difícil. Sua mãe, que ela nunca chegou a conhecer, era uma viciada em crack que a abandonou logo após o parto. Isso foi o que os médicos lhe disseram quando ela procurou saber alguma coisa a respeito. E seu pai a deixou na porta de um orfanato quando ela tinha apenas 5 anos, ou seja, ela tinha pouquíssimas memórias dele. No orfanato, nada melhorou; sem conseguir ser adotada enquanto ainda era nova, teve que ficar lá até os 16 anos, quando pôde pedir emancipação legal. Isso por causa das constantes brigas que arrumava lá: ela sair dali foi como um alívio para os diretores. Foi aí que largou a escola, conseguiu dois empregos (em uma lanchonete e uma lavanderia) e foi lutar pela sua própria vida. Buscar o que lhe faltava.

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Três anos depois, ela conheceu Locke. Por alguns meses, ela reparou naquela pessoa estranha que ia até a lanchonete uma meia-hora antes do final do turno dela, pedia um suco de morango com leite, dois canudos, e o jornal do dia. Ele se sentava sempre na mesma mesa do canto, lia o jornal enquanto mexia o suco com os canudos, pagava a conta e saía. Sem tomar um único gole. E ela estranhamente foi se sentindo atraída cada vez mais por ele; talvez pelo jeito solitário que lhe era tão familiar, ou pela aparência de pessoa que tem bastante histórias pra contar. Várias histórias, mesmo parecendo tão sozinho como ela. E ela foi criando coragem muito aos poucos, para finalmente lhe perguntar porque ele nunca tomava o suco.
- É que eu gosto de olhar o movimento na espuma. É tão... bonito, e singelo, e complexo ao mesmo tempo. - ele respondeu calmamente.
Essa era uma resposta do exato tipo que ela esperava de uma pessoa como ele: algo poético, e que não respondesse absolutamente nada. Ela já ia voltando a passar o pano no balcão, quando ele lhe perguntou olhando no fundo dos olhos:
- E, moça... poderia saber seu nome?
- Bem, eu tenho um crachá aqui, né...
- Sim, eu vi. É que eu acho um nome tão bonito, e sua voz também, por isso eu queria ouvi-lo de você, na verdade.
- Alice... - ela disse, acanhada. Nunca ninguém tinha lhe feito um elogio assim na vida.
- Prazer, sou Locke.
E ele logo foi sentar-se em seu lugar de sempre. E a partir daquele dia, ele começou a fazer questão de sempre ser atendido por ela, e sempre dizê-la boa noite, chamando-a pelo nome.

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- Dá pra reparar que você está encarando os dois, Alice.
- Os dois quem? - ela disse, tentando disfarçar. Mas ninguém disfarçava nada de Seth Daniels Cuervo.
- Locke, e o cara ali conversando com ele.
- Quem é ele?
- Sabia que você ia perguntar... O nome dele é Brett Witter. Conheci ele numa festa do Eddie, era o vocalista que a gente precisava para voltar a tocar. E até ontem ele não era um vampiro, a título de curiosidade.
- Locke estaria falando com ele por causa disso, então?
- Com certeza. Não precisa ficar com ciuminho não, viu.
- Ah, vá...

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Mas uma noite, Locke não foi à lanchonete. E Alice, acostumada em ficá-lo observando, sentiu sua falta. E a surpresa maior foi quando tirou o avental, soltou o cabelo, saiu do serviço, e lá estava ele lhe esperando. "Poderíamos dar uma volta?", e os dois saíram juntos. Conversaram coisas banais, e coisas interessantes também. E ele parou de ler jornal ali, pois a esperava do lado de fora agora, todos os dias. E ela precisava demais disso, pois ele parecia ser a primeira pessoa que realmente entendia ela, o primeiro amigo que ela teve em toda a vida. E os dois passaram a ser mais do que amigos quando ele resolveu contá-la sobre o que realmente era: uma criatura da noite, que precisava de sangue para viver. Ele fez isso tentando protegê-la, pois seria ruim demais a eventualidade dela se apaixonar por ele, uma criatura amaldiçoada. Mas, ela quis se tornar uma vampira também.
- Eu simplesmente não posso fazer isso com você. É uma maldição, entenda.
- Mas eu quero... eu preciso... de você. Pra sempre.
Transtornado com o rumo que as coisas tomaram, ele tomou uma outra decisão. Deu seu sangue a ela, e a tornou uma carniçal. Enquanto ela permanecesse bebendo, viveria indefinidamente, mas não precisaria matar pessoas como ele precisava, ou se esconder da luz do sol. E assim se passaram pouco mais de dois anos, ele ensinando a ela sobre o mundo oculto por trás de Los Angeles.

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Vivian estava conversando com Howie sobre Eddie e Ling e o que fazer em relação a isso, quando de relance olhou para a porta do banheiro, e viu a ruiva que tinha lhe vigiado no cativeiro entrando. A revolta que vinha crescendo dentro de si aumentou, e sem pensar, virou as costas para Howie e foi atrás dela. Alice fumava um cigarro calmamente encostada sobre o balcão do banheiro, olhando para o espelho. Quando percebeu Vivian entrando, disse sarcasticamente:
- Vai querer outro, burguesinha?
- Me diga: quem é você?
- Já te disse, meu nome é Alice. O que mais você quer comigo?
- O que aconteceu com meu namorado?
- Eu não sei o que aconteceu com seu namorado mago carniçal... só isso?
- Como assim?
- Você realmente não sabe de nada. Pobre inocente.
Alice molhou a bituca na pia, jogou no lixo, e já ia saindo, quando Vivian lhe segurou o braço.
- Como é?
- Entenda uma coisa, garota... você não tem a mínima noção do que acontece no mundo ao seu redor. É uma simples garota egoísta e mimada que sempre teve tudo, mas nunca quis nada. Então, faça-me o favor de me soltar, porque, eu tenho nada a ver com você, e tenho mais o que fazer também. - e a garota egoísta e mimada simplesmente olhou sem palavras, e respondeu com um tapa na cara da ruiva que ela tanto estava com raiva. "É, eu realmente tenho pena de você.", Alice respondeu secamente e saiu.

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O que Locke percebeu sobre sua discípula depois de um tempo, é que ela tinha uma qualidade rara: era imune ao Laço de Sangue. Qualquer ser que bebesse o sangue de um vampiro ficava submetido a uma ligação sobrenatural e emocional com seu senhor, depois de três goles. Durante as eras os vampiros usaram isso ao seu favor, conseguindo servos que simplesmente não podiam lhe trair por causa do laço. Mas, diferente de Eddie (outra pessoa com essa rara qualidade), a ligação de Alice com Locke era mais do que uma simples conseqüência, era algo verdadeiro. Então, não havia chance dela traí-lo, como Eddie fez com Raposa, por exemplo. Foi aí que Locke teve uma idéia. Ele daria uma missão a ela, algo sem risco. Ela se passaria por capanga do Raposa, alguém que Locke queria eliminar faz algum tempo. E como isso foi antes do incidente com o mago carniçal, não tinha como dar errado. E um momento oportuno, ele poderia se livrar de um dos seus rivais para sempre.

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Vivian sentou-se num vaso, fechou a porta, e ficou um tempo ali pensando. Seria ela realmente o tipo de pessoa que Alice tinha lhe dito? E porque ela não estava dando a mínima para essa situação, se no dia anterior tinha mantido-a presa? E aonde estaria a pessoa que ela mais queria ver no momento? E ela se lembrou do dia que conheceu Eddie, um show do Paramore, no aniversário de 17 anos dela. Um dos poucos dias realmente felizes da sua vida. E ela se lembrava cada detalhe, como quando andava sozinha e viu ele, num grupo de amigos, de longe o mais popular. E os dois se encararam por um tempo, mas ela, tímida, virou o olhar. E eles continuaram se encarando o show inteiro, até que ele criou coragem para falar com ela bem no final. E conversaram por um longo tempo, e ele chamou ela para tomar sorvete, "qualquer dia desses". Exatamente a coisa que ela mais queria ouvir dele. Com as perguntas a si mesma e as lembranças da única pessoa que ela amava, vieram as lágrimas caindo no chão frio e sujo.
Algum tempo depois, ela saiu, com a maquiagem triste borrada. Ainda mais triste da que Seth tinha reparado. E ao sair, viu uma mulher lindíssima, do tipo que só podia ser uma Sidhe, como ela. Tentou ignorá-la, mas a mulher logo veio falar com ela.
- Vivianne Crow?
- Sim... porque?
- Prazer, meu nome é Becky Summers. Temos um amigo em comum, Ling Ariser. Lembra-se dele?
- Sim, sim. - "Uma das poucas pessoas aparentemente boas que eu conheci no mundo", pensou.
- Pois bem, ele está morto. Sinto muito. E Edward Reel deve estar acordando de seu Sonhar agora. Seria uma boa você ir encontrá-lo.
Os olhos da indie queen brilharam. E brilharam mais ainda quando ela percebeu que não precisaria ir encontrá-lo, ele estava ali. Tinha acabado de entrar no bar, e procurava por ela.

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