Eddie não era muito acostumado a ver dragões por aí. Essa era a segunda vez na verdade. A primeira foi quando foi arrastado a uma bad trip por usar realmente muitas coisas na mesma noite, o que lhe rendeu uma overdose e uma noite no hospital, aos 18 anos. Mas aqueles dragões eram imaginários, com certeza. E esses em cima do prédio tinham uma aparência bem real. Pareciam vigiar ou guardar algo, mas não se podia saber o quê. Um deles o viu, e não esboçou reação nenhuma. Menos mal assim.
E o estranho era que ele estava limpo; não consumia nada tóxico a alguns dias. Seria o sangue muito potente que lhe dava alucinações? Não era possível, ninguém nunca tinha te dito sobre essas histórias. Nem vampiros, nem outros carniçais, nem mesmo seu Avatar. Se bem que ele não ajudava Eddie em nada, em relação a isso, desde que tinha sido abandonado.
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Edward Reel tinha um talento incomum para números, algo sobrenatural; uma noção extremamente precisa da passagem do tempo, e a tal memória fotográfica também. Mas sempre as mentes fortes tendem à rebeldia ou a opressão, psicólogos já disseram algumas vezes. Ele seguiu o primeiro caminho. Conseguiu ser expluso da escola duas vezes, e já se mudou também por isso; foi quando deixou Boston e foi morar na Costa Oeste. "Malibu vai fazer bem ao garoto", disse seu pai. A verdade é que nem ele, tampouco sua mãe, se importaram muito com ele. E quando passou na faculdade, foi morar sozinho. Apenas o que sempre quis. O que acontecia é que nem sua família se importava com ele.
Essa falta rendeu uma carência enorme a Eddie, que começou a se apoiar mais nos amigos. E, como a necessidade de aceitação na adolescência é maior do que em qualquer outra parte da vida, entrou no jogo da classe alta decadente. Álcool (bem, beber era desde os 13 anos), cigarros, cocaína, heroína, magia. Uma chance que poucos têm, e ele jogou fora.
Foi voltando de um show, ele andava sozinho pela rua. Um cara estranho, com umas roupas rasgadas o abordou, e ele tentou ignorar. Porém levou uma rajada de um tipo de energia no peito, e caiu ofegante no chão. Então o sujeito praticamente o arrastou pra um beco próximo, fez surgir uma parede do nada ali tampando a entrada ("Apenas uma ilusão", com uma risadinha boba), e começou a tentar colocar coisas em sua cabeça pelo resto da noite. Eddie não queria aquilo, tudo o que precisava era voltar pra casa e dormir, muito. Talvez por esse motivo o que ouviu ali entrou por um ouvido e saiu pelo outro.
O que se lembra ainda era pouco; ele era um Desperto, um ser humano com uma mente abençoada e que podia moldar a realidade de acordo com o que quisesse (dentro de suas limitações, apesar). Tinha um Avatar, um espírito consciente que olhava por ele e armazenava sua energia mágica (um maldito nome que ele nunca decorou). Haviam outros como ele, organizados em Tradições, clãs reunidos pelas práticas comuns da magia. Além disso, uma guerra tinha acontecido entre as Tradições e uma tal de Tecnocracia, por isso o mundo era assim hoje. "Bem, eu gosto do mundo desta forma", pensou logo que ouviu sobre e tal guerra.
- Não, mas poderia ser muito melhor - o mago respondeu. - E eu estou ouvindo o que você está pensando, desde que eu lhe encontrei por aí. E pode ir embora agora, estou percebendo que por mais que fale será em vão.
- É, acho que sim. - a única coisa que Eddie respondeu, num tom seco. Depois virou as costas e saiu.
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Andando em direção ao metrô (e à casa de seu amor), ele ouviu o Chamado dentro de sua cabeça - "droga, isso não..." - Sabia que era uma força sobrenatural em sua mente, tentando levá-lo a um determinado lugar. Tudo o que ele precisava era resistir. Se esforçou ao máximo que pôde pra combater a voz dentro de si, o impelindo contra seus princípios. E o que as pessoas comuns na rua viam era um cara ajoelhado no chão, com as mãos segurando a cabeça, e gritando coisas desconexas. Depois de alguns poucos e longos minutos, lívido, ele se levantou e continuou a andar. Tinha que chegar rápido, antes que isso voltasse. Pelo menos o tio de Vivian (uma das poucas pessoas que ele temia e respeitava) poderia lhe ajudar. Pelo menos era o que ele esperava.
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Mas com a magia, a "capacidade de moldar a realidade", vieram frustrações. No início se esforçou pra aprender, desenvolveu até uns rudimentos de Entropia e Tempo - pensando que poderia fazer algo a mais de sua vida - mas o que conseguiu foi quase morrer duas vezes. A magia devia ser sutil; a estrutura do universo era como uma teia de seda, em que os Despertos puxavam os fios para mudá-la. Um puxão brusco e tudo se despedaçava, foi o que ele precisou aprender. Então se desanimou e deixou isso de lado. Álcool, cigarros, cocaína, heroína, magia, ácido, amor. Sua "droga" do momento ele conheceu em um show do Paramore. Foi de longe o sorriso mais perfeito e cativante que encontrou, em toda sua vida. E todos seus amigos começaram a lhe chamar de "cara de sorte", depois que conheceram sua nova namorada, Vivian Crow.
Ela era importante para ele, sem dúvida; mas o vazio começou a preenchê-lo novamente. Reel viu que era hora de trabalhar. Aos 18 anos, tentou começar a promover eventos. Não deu certo, ele sempre gastava mais do que arrecadava. A outra saída viável ao seu ver foi o tráfico de drogas, negócio que não tirava impostos, e aonde ele já tinha um mercado consumidor pronto.
O cara que lhe fornecia era um cara chamado Raposa, cujo nome verdadeiro ninguém sabia. Eddie tinha conhecimento de que ele era um dos grandes da cidade, então decidiu falar com ele sobre o serviço. Foi recebido relativamente bem, tomaram um drinque (um sabor que ele achou estranho a princípio, mas até aí sem problemas). O traficante disse que iria pensar, e que era para ele voltar na semana seguinte.
Foi o que fez, os dois tomaram outra dose da bebida ("Na segunda vez o sabor é sempre mais agradável, não acha?", o tom da voz dele era realmente confortador. Como um pai, ou irmão mais velho. O que Eddie ouviu é que deveria voltar na outra noite, pegar o primeiro pacote para revenda.
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- Temos que ir pro ensaio, Vivianne. Me desculpe.
- Não, não tem problema... eu espero aqui mais um pouco.
- Certo então, qualquer coisa me ligue. Te passei meu telefone né?
- Aham, anotei aqui.
- Tudo bem então... vamos aí, Brett.
- Tchau, até logo. - e com isso os dois deixaram-a sozinha na casa.
Ela esperou mais um pouco, uns 15 minutos, mas quando viu que ele realmente não ia chegar, decidiu voltar para sua casa. Era verão, o sol estava se pondo, então decidiu ir a pé. A brisa do crepúsculo era algo que ela adorava. E foi ali na Ocean Avenue, ela viu um furgão parado, e dois caras carregando caixas para uma loja, e um outro sentado na porta. "Noite, moça", ele cumprimentou mexendo o boné quando ela passou. Era um jovem forte, com um certo ar rústico.
Ia respondendo o cumprimento, quando a única coisa que ela não esperaria aconteceu. Os dois carregadores largaram as caixas, correram e se jogaram dentro do furgão segurando ela. O que estava sentado fechou as portas, enquanto o motorista dava partida, e providenciavam mordaça e cordas pra amarrá-la.
- E eu quero te ver quietinha, certo garota?
O que ela fez foi olhar, cheia de dúvidas e revolta. Por que fariam isso com ela?
segunda-feira, 12 de novembro de 2007
Capítulo 4: Paper Walls
Postado por
Luiz Costa
às
15:13
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Um comentário:
aaah naum eh justo. ;x
paroh a bagaça, justo qndo tava ficando bom... ;#
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