terça-feira, 14 de julho de 2009

Epílogo: Rock and Roll All Nite

- Bem, boa noite amigos... é um prazer recebê-los aqui novamente. A razão da festa de hoje é o lançamento do EP Cheap Fiction, de uma banda chamada Mossdeep, que já tocou aqui antes, e agora voltou com nova formação. E eu conheço pessoalmente todos eles, então posso garantir a qualidade. Palmas para a Mossdeep! – disse Eddie, enquanto Brett, Hawk e os dois outros integrantes subiam no palco.
- Obrigado, Eddie, obrigado a todos.
- Não tem de quê. Mas, antes deles começarem, uma outra coisa importante. Há exatamente um ano atrás, faleceu o idealizador desse bar, saudoso Ling Ariser. Tem sido um prazer incomparável ser o host aqui do Hell’s Kitchen, mas pra sempre lembraremos de Ling. Um minuto de silêncio, por favor.
E Eddie e Howie se olharam nesse momento. Howie tinha herdado o bar de Ling, – ele não tinha nenhum parente, então o testamento era livre – mas sabia que não seria capaz de manter o mesmo espírito de antes. Além disso, queria se aposentar, então contratou Eddie para ser o gerente e host do bar. De quarta a domingo, inclusive feriados, e um salário ótimo. Era o melhor emprego que Eddie poderia sonhar em conseguir em toda sua vida.
- Então agora, com vocês, Mossdeep. Muito obrigado por terem vindo.
E com uma reverência ao público, Eddie desceu do palco e abraçou Vivian.
- Você foi ótimo amor, como sempre.
- São seus olhos, querida... – disse com um sorriso. – Agora estou mais tranqüilo, tenho mais tempo para você.
Vivian sorriu de volta e lhe beijou.
- Eles estão realmente bons, não?
- Pois é. Brett tem uma voz realmente boa.
- E quando eu vi ele com Seth na sua casa ano passado, nem botava tanta fé assim...
- Falando em Seth...
Alice tinha acabado de entrar no Hell’s. E, por mais improvável que fosse, de mãos dadas com um cara. Ela estava... namorando?
- Não.
- Parece que sim. Ela está vindo pra cá.
E ela estava um tanto feliz, ainda. E o cara tinha um jeito esquisito, mas parecia bem também.
- Boa noite, Eddie, Vivian.
- Boa noite, Alice.
- Esse aqui é Mark... meu namorado. Mark, Eddie e Vivian, dois amigos meus. E Eddie é o gerente aqui do Hell’s.
- Muito prazer.
- Amor, pega uma cerveja pra mim?
- Claro.
- Eu te acompanho, Mark. – disse Vivian.
Ele apenas assentou com a cabeça. Não parecia ser do tipo que puxava assuntos. Vivian, pelo contrário, estava muito menos tímida desde que tinha entrado na faculdade – cursava história contemporânea, artes plásticas, literatura.

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- E quem é o tal sujeito aí?
- Lembra quando me perguntou como estavam as aulas de teatro, e eu disse que tinha um carinha interessante lá?
- Sim. E logo depois você largou o curso.
- Pois é. Depois que ele largou. Aí então passaram-se alguns meses, e a gente se encontrou por acaso na rua. Começamos a sair, e deu no que deu.
- Faz quanto tempo que você tem saído com ele?
- Desde agosto, eu acho.
- E escondendo o ouro, hein?
- Ah, até esses dias atrás não era grande coisa. E a gente não se vê mais, também...
- Essa vida de trabalhador, né...
- Sei. Como se trabalhar no Hell’s não fosse só diversão pra você.
- Ah, ter cinco dias da semana presos em algo é meio um pouco do que eu considero trabalho. Mas é legal. Esse último ano tem sido bom. Mas e o Mark? Fale mais sobre ele.
- Ah, não tem muito o que dizer. Ele é um fofo, sabe. Parece meio maluco, e quieto, mas quando a gente está sozinho ele é muito legal comigo. E acho que é só isso que eu precisava, de carinho.
- Alice tá apaixonada...
- Ah, vá... – ela disse, dando um tapinha no braço de Eddie.
- Fico feliz por você.
- Muito obrigada. É o que Becky disse, um dia eu me daria bem quanto a isso.
Eddie olhou para ela, se concentrando no que Becky tinha lhe dito.
- Becky disse que eu morreria no final daquele domingo.

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- É a primeira vez que você vem aqui, Mark?
- É a segunda, na verdade. Mas a outra faz tempo já. Se me lembro bem, seu namorado não era o gerente.
- É, ele começou aqui faz quase um ano.
- Entendi. É, um lugar legal.
- Sim, eu sei. Você trabalha?
- Trabalho no shopping, numa loja de artigos esportivos. E você?
- Estudo. Faculdade.
- Legal.
Sim, Mark era o tipo de pessoa que não puxava assuntos. Bem, era o jeito dele, quanto a isso Vivian não tinha o que fazer.
- Vou ao banheiro Mark, com licença. Foi um prazer lhe conhecer.

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- Sabe, Eddie... é o que eu estive pensando naquela sexta-feira, e algum tempo depois também. Do que adianta se prender ao destino, achando que ele é inevitável? É muito mais sábio fazer a sua parte para melhorar sua vida independente dele, e o que acontecer aconteceu. E também, quem disse que o destino é algo imutável?
- Faz sentido.
- Então. Becky me ensinou bastante, mas várias coisas eu aprendi por conta própria. Acho que com você também foi assim.
- Com certeza.
- Então relaxe, gerente do Hell’s Kitchen. Você tem aquilo que sempre quis. Me dá um abraço, vai.
- Nunca achei que fosse ouvir isso de você, Alice Scott.
- Pois é. Aproveite que estou feliz hoje.
Os dois sorriram, e olharam para Mark voltando com duas cervejas.
- Vou cuidar dos meus deveres então. Porque alguém tem que trabalhar aqui, né.
- A gente se fala, Eddie.
- Aproveite a noite. Você também, Mark.
Alice e Mark ficaram bem ali, tomando suas cervejas, e aproveitando o máximo um ao outro enquanto a banda de Brett tocava; não fazia muito o estilo de nenhum dos dois, afinal. Então, depois do final do show, Eddie – que vira e mexe dava uma de DJ – colocou uma seleção especial de Daft Punk. Alice chamou Mark para dançar com ela; ele resistiu, "você sabe, eu não levo jeito", ela pediu de novo, e os dois foram. Trombaram com Brett e Mary também dançando; – ele continuava feliz com aquela maluca, foi o que Alice pensou – era uma bela sexta-feira, afinal.

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- E então Howie, o que está achando da festa?
- Excelente, Eddie. Fico realmente feliz por ter lhe dado esse emprego.
- É um prazer pra mim, você sabe. Aliás, eu ia te perguntar... e a audiência quarta, como foi?
Howie não ia muito mesmo com a cara de Eddie, isso era verdade. Mas desde que ele tinha sido contratado, – o novo dono do Hell's tinha um bom pressentimento que Eddie era a pessoa certa para o serviço, além de Ling que vivia elogiando o elogiando – os dois tinham se tornado cada vez mais próximos. E isso era bom para o rabugento Howie (que foi amolecendo, na verdade), que não tinha amigos além do Duque.
- Então... Laura ficou com a guarda.
- Que pena...
- Ah, não tem tanto problema. Eu posso ver Alissa todos os finais de semana, e durante as férias escolares dela também. Acho que isso é até melhor pra mim, sabe.
- Ah, que bom. Quantos anos ela tem mesmo?
- Sete. E como ela cresce rápido, viu.
- Eu imagino. Um dia vou ter minhas crianças também.
- É extremamente gratificante.
- Imagino. Bem, já que estamos falando de crianças, vou voltar para a patroa.
- Claro.
- Tudo de bom, Howie.
- Você também.
- E apareça mais aqui. Você é o dono desse lugar, afinal.
- Bem, de quarta a sexta, quem sabe.

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Depois da seleção especial de Daft Punk, um som mais sussa começou. Era a hora em que o bar começava a esvaziar. "Vamos embora, amor?", Mary disse para Brett; e os dois saíram, a pé. Ela, falando sem parar sobre um assunto qualquer, não percebeu quando Brett ficou olhando fixamente para o ateliê de Emily. Estava fechado, e ela pintando as paredes do lado de dentro. Tinha demorado um ano para que as investigações fossem concluídas – e arquivadas – e tudo fosse reformado. A reinaguração ia ser no domingo à noite, com um coquetel ali mesmo. E Brett se lembraria das horas que passou com Emily para sempre, embora estivesse mais do que satisfeito com sua namorada. Emily estava muito acima dele, e ele tinha aprendido a se meter com gente do seu próprio calibre. E ainda sentia muita falta de beber vodka com sprite.

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Eddie pensou estar alucinando quando viu Ling Ariser, Becky Summers e Seth Daniels Cuervo sentados no balcão do bar. Os três conversavam, bebendo e sorrindo, e quando Eddie os viu, sorriram para ele também. Ele fechou os olhos, balançou a cabeça, e quando abriu, não estavam mais lá. Não podia ser o álcool, ele tinha diminuído seu consumo por causa do trabalho; nem sangue vampírico, a última vez que ele tinha tomado tinha sido o de Emily, logo antes de ir atrás de Raposa. E pelo que ele sabia, Alice tinha parado também. Os dois agora eram mortais novamente, e tinham menos uma coisa em comum. Bem, não importava, Eddie estava feliz por ter visto aquelas pessoas – que lhe faziam falta – mais uma vez.
- Pessoal, vamos fechar daqui a pouco. – disse no microfone – Saidera é por conta da casa.
O bar já estava quase vazio, eram 4 da manhã. Ele ficou na porta, cumprimentando os clientes que saíam (como Ling sempre fazia no tempo dele), e depois dispensou os funcionários. Ele estava cansado, arrumaria o bar no outro dia antes de abrir.
- Pronto, amor. Vamos?
- Claro, senhor gerente. – disse Vivian antes de lhe beijar.
Os dois saíram, Eddie trancou a porta, abriu o carro (comprado com seu polpudo salário), e os dois foram para a casa dele. Havia sido uma bela noite.

Capítulo 46: The Brilliant Dance

Todos estavam chocados com o que tinha acabado de acontecer. Aquilo não fazia o menor sentido, não era algo que se esperasse em uma situação daquelas. Eddie foi o primeiro que conseguiu dizer alguma coisa:
- Porque isso aconteceu, Morte?
- Inimigo enlouqueceu. Fez coisas que estavam além de seu dever e função. Então, não fazia mais sentido ele continuar existindo se não fosse para cumprir sua tarefa.
- Qual a tarefa de vocês, afinal?
- Movimentar a realidade um pouco. Sabe, mexer, chacoalhar, dar um pouco de graça aos acontecimentos. O Observador estava errado quando conversou com você, mocinha. – e apontou para Vivian, que olhou indignada.
- E para isso vocês ficam usando pessoas como se fossem peças em um joguinho?
- É um joguinho necessário. – Oculto respondeu para ela. – Pense bem, se esse final de semana não tivesse acontecido: Alice e Eddie nunca se conheceriam e nunca seriam os grandes amigos que serão em algum ponto do futuro, você não daria o mínimo valor a sua condição de Changeling que só lhe trouxe benefícios durante sua vida, mesmo que você não tenha percebido; um traficante de heroína que na maioria do tempo só trouxe malefícios ao mundo ainda estaria vivo, e enfim, várias coisas... vocês estão saindo dessa melhor do que entraram.
Vivian não aceitou aquilo naquele momento, e demorou um tempo para entender que tudo tem um lado bom na maior parte do tempo – sim, ela era bem teimosa. Ela abraçou Eddie, que olhou para os piratas com um ar solene; o mesmo de Alice.
- E tome cuidado, você. – Morte disse para Jimmy, que lhe sorriu. – Locke, podemos conversar?
- Claro.
E o vampiro ancião foi embora com os piratas. Enquanto eles se viravam, Brett – que não se manifestava há tempos, perdido em seus pensamentos e nos acontecimentos que aconteciam ao redor - disse um simples "Obrigado". Morte se virou, sorriu, e foi embora. Não se ouviria falar de Locke por alguns meses, até Alice receber uma carta dele. Ele recebeu um convite dos piratas para se juntar a eles, ocupando o lugar de Inimigo; e não aceitou. Ao invés disso viajou para o Alasca, para passar o resto de seus dias em isolamento. Talvez um dia ele voltasse a Los Angeles... ou não.

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- Então... acabou? – Brett perguntou aos outros, enquanto recolhia os dois sabres que tinham ficado caídos no asfalto.
- Tudo ainda está parado, né. – e Alice olhou com visível desaprovação para Jimmy.
- Saiam do meio da rua, por favor.
Jimmy Crow não tinha a mínima idéia de como tinha feito tudo parar, ou do quão grande era a magnitude daquele feito – ele mal se lembrava de como tinha sido seu último dia, aliás. Mas sabia intuitivamente como acabar com aquilo e fazer tudo voltar ao normal; só tinha que esperar o momento certo. Que tinha chegado. Reich, Alice, Brett, Eddie e Vivian subiram para a calçada, então ele ergueu o braço direito e estalou os dedos. Logo um carro virou na esquina mais próxima, os semáforos voltaram a funcionar, pessoas a pé em busca de diversão estavam chegando. Foi algo único, ver uma avenida que nunca pára – nunca mesmo - sendo "reiniciada".
- Agora sim, Brett. Tudo acabou. E eu só quero ir para casa.

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Brett e Alice seguiram para um lado da avenida, Reich e Jimmy para o outro. Eddie e Vivian atravessaram a rua; Eddie só queria ver sua cama – não entrava em casa desde quinta à tarde, e estava absurdamente cansado. E com saudades de Vivian, também.
- Então você e Alice serão grandes amigos um dia?
- Bem, é o que o pirata disse, né. Você ainda não vai com a cara dela?
Vivian olhou em silêncio para o chão um pouco.
- Nada a favor, nada contra. – Mentira. Ela tinha um tanto a favor (acordá-la logo depois da luta com Raposa), e um tanto contra (o que ela tinha lhe dito no banheiro do Hell’s).
- Ah, sabe, é só o jeito meio estranho dela. Mas é uma boa pessoa, no final das contas. Assim como Brett, e Howie...
- E meu primo.
Eddie não tinha o que dizer. Ele nunca conheceu o verdadeiro Jimmy Crow.
- Claro.
Na verdade ele não queria dizer nada, ou pensar nada sobre o que tinha acontecido nos últimos dias. Queria só relaxar a cabeça, curtir um tempo com sua namorada. E aquela noite de domingo foi finalmente uma noite feliz.

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- Não adianta vir me dar sermão, tio.
- Não é sermão. Eu só queria saber o que você fez, e porque fez essa escolha.
- Não sei. Não sei. Me pareceu uma boa escolha no momento, eu acho.
- E desde quando fazer um acordo com uma entidade em troca de poder é uma boa escolha?
- Poder e compreensão. Não é isso que a Irmandade prega, a busca da compreensão?
- Não por esses meios.
- Você mesmo me disse uma vez, "os fins justificam os meios".
Reich ficou em silêncio por uns instantes. Por mais que ele tivesse dito isso, já tinha deixado de acreditar nessa frase há uns cinco anos. Destrancou a porta do carro e entrou.
- Vamos para casa. O que você vai fazer?
- Pegar minhas coisas, depois vou para o aeroporto. O próximo vôo para a Argentina é meu.
- Já vai?
- Não sou mais bem-vindo aqui, e esse era meu plano desde que vim para cá. Qual o sentido de ficar enrolando?
- Você é bem-vindo sim, Jimmy.
- Mas me parece que não da mesma forma que antes. E preciso corrigir meus pecados, sabe.
- A escolha é sua. Se quiser ficar...
- Muito obrigado, tio. Mas só vou pegar minhas coisas e vou embora.
- Tudo bem.
Os dois não trocaram mais uma única palavra até chegaram à casa de Reich, e depois tudo que disseram para o outro foi um "Até mais". Reich estava buscando motivos para entender seu sobrinho (sempre tão centrado, apesar de seu jeito rebelde); e Jimmy buscava motivos para entender a si mesmo. Eles teriam tempo para isso. E eventualmente tudo se resolve, e a vida continua.

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- Vai pegar o metrô, Alice?
- Isso. Já andei o bastante por hoje.
- Não quer uma carona?
- Não precisa. E eu gosto da sensação de estar sozinha na multidão, sabe.
- Certo. Bem, a gente se vê por aí.
Os dois se olharam meio estranhos, e se despediram com um aperto de mãos esquisito. Ela não tinha muito jeito com pessoas mesmo, Brett percebeu. E então ela entrou na estação da Richards, enquanto ele continuou andando para casa. Até ver um rosto conhecido sentado em um banco que lhe era bem familiar. Atravessou a rua meio correndo, ela o viu, e sorriu.
- Emily.
- Boa noite, Brett. Como você está?
- Muito bem. Tranqüilo. E você?
- Indiferente, eu acho. Fui para o quiosque em Brentwood, ver o que estava acontecendo. E lá encontrei um recado na parede, e nada mais. Chris e Raposa estão mortos, Jack foi embora.
- Eu sei, Emily.
- Sabe, querido... por mais que isso pareça que se resolveu, minha vida ficou tão vazia de repente.
- Quanto tempo faz que você está aqui?
- Uns... dez minutos.
Sem saber o que dizer, Brett apenas olhou nos olhos dela, e uma fresca brisa de outono soprou.
- Você está com frio? – ela perguntou.
- Não, eu acho.
- Eu queria um casaco...
Era claro que o que ela queria na verdade era ir para a casa dele de novo. Bem, não era tão claro, mas bastava ele convidar. No entanto, ele tinha Mary lhe esperando. Não fazia o menor sentido ficar ali, conversando com Emily, e se enrolando.
- Sabe, Emily... eu realmente gostei da nossa noite sexta, mas... é o que você disse. Eu não posso dar o que você precisa. E tem alguém me esperando lá em casa. Não faz sentido eu ficar aqui conversando com você e me aproximando cada vez mais se é algo que não dá algum futuro.
- Claro. – Ela respondeu, com um leve sorriso. – Eu já disse, quero tudo de bom pra você.
Brett abraçou-a (ela tinha mais jeito com pessoas do que Alice), e voltou para seu apartamento. Não havia ninguém em casa, apenas um bilhete dizendo "Mais tarde eu volto, meu amor". O que ele poderia fazer? Apenas tomou um banho de meia hora, ligou um som, e ficou refletindo sobre a maluca reviravolta de sua vida desde que entrou no Hell’s Kitchen na quinta-feira. Será que o pirata incluía ele ao dizer "vocês estão saindo dessa melhor do que entraram"? Talvez sim, talvez não. Na verdade, provavelmente sim, foi o que concluiu quando Mary voltou para casa. Beijou-a longamente, olhou em seus brilhantes olhos azuis, e sorriu por tudo ter terminado assim. Se bem que aquele era só um começo.

Capítulo 45: Tuolumne

Depois de algum tempo confuso após ter levantado de seu transe, Jimmy finalmente conseguiu usar sua magia de mente para rever as próprias lembranças. Era um truque útil que ele tinha aprendido, logo no começo de seu treinamento com Reich: recapitular as idéias e ações feitas, para poder entender melhor o que acontece na vida. E pensando de forma organizada, chega-se a soluções muito mais rápida e efetivamente. Foi o que ele precisou, de uma reorganização – estava sem o controle pleno de si havia mais de 24 horas. A cada vez que piscava, tudo sobre seu último dia se tornava mais claro. Então ouviu, como que se fosse uma voz distante, "como se espera vencer uma criatura que existe há mais de 20 mil anos?", e olhou pela última vez para dentro de sua mente. Ter existido por mais tempo não lhe torna necessariamente mais forte, era um de seus ideais. Afinal, por mais que a geração Y fosse a geração perdida, ainda era a geração que tinha em suas mãos a capacidade de mudar o mundo. Uma capacidade que Jimmy Crow tinha naquele momento mais do que qualquer um.

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Inimigo finalmente resolveu atacar. A energia roxa que ele vinha acumulando nas pontas de seus dedos chegou a um nível de concentração altíssimo, e então ele soltou uma pequena bolinha na direção do grupinho que estava ali. Reich sabia do que se tratava aquilo, Locke também. O choque resultante daquela bolinha com qualquer coisa mais densa que o ar seria como uma bomba atômica, ou pior. Os dois aceitaram que aquele era o fim, mas Jimmy e Eddie não. Como que se estivessem pensando juntos e sincronizados, estenderam as mãos para frente, palmas abertas. E a bolinha parou no ar. E começou a aumentar de tamanho.

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Eddie pode ter deixado transparecer um pouco de desespero ao ouvir a tradução que Locke fez da fala de Inimigo, mas ele se recusava a deixar tudo terminar assim do mesmo jeito. E então ele sentiu uma conexão com Jimmy, o tal que até agora só tinha causado problemas por aí. Mas Eddie era a ordem, e ele o caos; como Reich havia lhe dito sobre a profecia. E um mundo sem um pouco de bagunça não é possível, – tudo tende à desordem – assim como um mundo sem uma ordem definida entraria em colapso, pela sua incapacidade de realizar algum trabalho e seguir adiante. Enfim, naquela metáfora da vida que era aquela história, Eddie precisava de Jimmy e vice-versa. Os dois olharam um para o outro no momento em que Inimigo finalmente atacou, e conseguiram pará-lo. Mas então a esfera roxa começou a aumentar, e os dois se viram sem ter o que fazer. Eddie voltava ao desespero, de novo. Jimmy não.

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"Ele realmente é esperto", pensou Reich. Um grande gole de vodka pura desce pela garganta queimando; esse mesmo gole dissolvido em um grande copo de sprite mal é percebido. O que Jimmy estava fazendo – ele era o responsável pela bolinha aumentar, Reich sentiu a fonte – era dissolver a energia no ar. O que se tornou claro ao ele estalar os dedos, e aquilo se dissipar, em uma explosão de poeira roxa. Inimigo riu, e tirou dois sabres de sabe-se-lá-onde. Eddie sorriu; sua parte favorita estava começando.

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Inimigo lutava evidentemente melhor do que Raposa, ou Jack Tequila. E ninguém podia interferir; o pirata tinha criado uma espécie de véu protetor ao redor dos dois enquanto lutavam. E por mais que Eddie tivesse uma afinidade com suas armas, como se fossem extensões do seu próprio corpo, – bem, eram na verdade, extensões de seu corpo e vontade – ele simplesmente não conseguia atingir Inimigo de forma alguma. E o pirata lutava com classe e elegância, sem deixar seu chapéu cair da cabeça. Mas então Eddie percebeu algo no estilo de seu adversário: não passava de uma variação do mesmo "velho estilo da costa oeste, espadas gêmeas". Parecia coisa do destino. E era mesmo. A função dos piratas era o de agentes da realidade, se adaptando à realidade de cada pessoa. E nada fazia mais sentido; se as últimas três pessoas que Eddie tinha encontrado que lutavam com duas espadas lutavam daquele jeito, porque não a quarta?

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A repentina familiaridade que Eddie percebeu no estilo do pirata lhe deu uma boa vantagem: ele já sabia qual era a falha naquele modo de luta. Mas então essa falha desapareceu subitamente; ao atingir um golpe certeiro na lateral de Inimigo (e que fatiaria qualquer um), sua lâmina simplesmente atravessou o pirata, sem causar nenhum mínimo dano. O pirata parou, e gargalhou, enquanto Eddie ficou imóvel. Agora o que Locke tinha dito lhe fazia sentido. Como ele venceria aquilo? Então Inimigo golpeou com seus sabres novamente, e o carniçal saltou para trás, em um reflexo. E Inimigo disse, com a voz que tinha antes de se fundir com a Sombrinea.
- Não adianta escapar, Edward. – as duas espadas começaram a brilhar com a mesma energia roxa de antes. – Estou só enrolando para ter um pouco de diversão. Posso acabar com você a hora que quiser.
- Não pode, não.
Uma voz que Eddie reconhecia de algum lugar disse, em alto e bom tom. Todos se viraram para olhar. Vários piratas, uns dez, vinham andando pela avenida, um do lado do outro. Liderando o grupo, estava Morte. Ali acontecia o grande Deus ex Machina do final de semana. Inimigo olhou, meio que entrando em pânico, e tentou correr; Morte tirou sua pistola do coldre e deu um único tiro. A bala explodiu o crânio do pirata, que caiu no chão e começou a dissolver com o vento. Ficaram ali seus dois sabres dourados. Quem disse que Morte usava uma foice?

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Capítulo 44: A Rush of Blood to the Head

- Sabia que você conseguiria, Brett. – disse uma voz que surgia subitamente. Era Locke. – Como você descobriu o que fazer com as bolinhas?
- Um cara que eu encontrei no parque me disse. Um tal de Jimmy Crow. – Reich olhou mais atento. – E ele contou toda uma história, aí para mim fez sentido.
- Aonde ele está? – o velho mago perguntou.
- Não sei, ele repentinamente sumiu. Aí eu não entendi nada. Então fui para casa, tomei banho, e saí de novo. Fui jogar mini-golfe, e quando a bolinha começou a brilhar mais forte eu vim para cá. Porque o tal do Jimmy disse que seria a hora certa.
- Você não tem idéia para onde ele pode ter ido? – Reich insistiu.
- Não. E o que eu faço com isso agora, Locke? – Brett queria saber sobre a bolinha que aprisionava Chris.
- Jogue aqui. - Ao pegar a bolinha na mão, o vampiro atirou-a em um muro. Com a maior força que pôde (e não era pouca). – Para evitar alguma coisa indesejável.
Todos se entreolharam, em silêncio, naquele clima de "e agora?". Até que várias pequenas conversas surgiram, ao mesmo tempo.

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- Você estava observando o tempo inteiro, Locke?
- Sim, Alice.
- E porque não fez nada a respeito sobre a luta?
- Eu não posso. Não posso me envolver nos assuntos dos outros, não é certo. Eu já tinha feito minha parte, dando as bolinhas para você e Brett. E eu confiava em vocês. Assim como confio em Eddie, e Vivian, e Seth. A sua geração está salva.
Alice olhou para o horizonte. Apesar de já serem quase sete da noite, e o céu ter algumas tantas estrelas, parecia que o sol se recusava a retirar sua marca dali. O lado oeste do céu estava todo alaranjado. Exatamente como Becky havia lhe mostrado na sexta à noite. E como em um degradê, o laranja se tornava vermelho, e então violeta. Ela olhou para o céu, maravilhada. E todos que estavam ali no meio da avenida parada também olharam. Aquilo era absurdamente belo. E Alice ficou feliz pela promessa de Becky ter se cumprido.
- Muito obrigado por tudo, Locke.
- Eu é que agradeço. Você tornou meus últimos dois anos um tanto mais felizes e plenos.
Alice sorriu.
- Como você conseguiu entrar no prédio afinal, Brett?
- Ah, foi simples. Eu disse para os guardas que era do serviço de TV a cabo. Foi a primeira balela que me veio na cabeça, e incrivelmente funcionou. Então eu entrei, subi para a cobertura, e a porta estava só encostada. Entrei, e coloquei a bolinha no casaco que estava pendurado do lado da porta. Só pareceu difícil, mas na hora em veio essa idéia da TV a cabo tudo se resolveu. E não tenho a mínima idéia de como funcionou.
- Persuasão sobrenatural. Parece que você leva jeito. – Locke disse.

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- Ainda quer uma luta comigo, Eddie?
- Você não tem mais suas armas. O que podemos fazer?
- Eu vou embora. Acho que eu fiz a coisa errada durante esse tempo todo.
- Sempre algo que tem que ser sacrificado, Jack. Veja a questão do capitalismo versus socialismo, por exemplo. Um deles sacrifica o bem-estar geral em troca da liberdade, o outro faz o contrário. Qual é o melhor?
- Não é uma questão disso...
- Claro que não. Sempre um grupo de pessoas vai preferir um sistema, e outro grupo o outro. O ponto é que: quem tem o direito de escolher uma opção e impor isso a todos os outros que vão ser afetados por essa escolha?
- Ninguém.
- Então, Jack. Você não fez a coisa errada durante todo esse tempo. Sua intenção era boa pelo menos, acredito eu. Mas, quando a situação chega a um ponto como tinha chegado, não se pode simplesmente impor a sua opção. É preciso um consenso.
- Sim. Mas o que percebi foi: nós vampiros não estamos acima dos mortais. Ainda somos pessoas. Então que a lei dos mortais nos inclua também, e que assim seja. Eu vou deixar um aviso no quiosque, e depois partir para a costa leste. Quero minha liberdade de volta, e quero que Los Angeles seja realmente uma cidade livre.
Eddie finalmente viu algo de bom naquele vampiro. Apertou a mão dele, desejou boa sorte, e sua moto sumiu no horizonte. Ao se virar para abraçar Vivian, viu-a de olhos fechados, como se estivesse farejando algo.
- Há um rastro de Glamour fortíssimo por aqui. Misturado com Banalidade. A Sombrinea ainda não foi destruída.
- Como, amor? – Eddie, que jurava ter acabado com aquela quimera duas vezes, perguntou.
- Seth me disse. Tudo o que tem acontecido, essa história de profecia e tudo mais, é apenas a forma que um dos piratas arrumou para acabar com a quimera de estimação de outro. São os joguinhos deles, a maneira que eles encontraram para não se entediar com a eternidade. E é como se fôssemos apenas peças em um tabuleiro, ou coisa assim.
- E o que podemos fazer? – Alice, que já tinha pensado um monte sobre isso, perguntou, dando de ombros.
- Não sei... – Vivian respondeu confusa.
- Ela está certa, linda. Além disso, tem o seu primo. Precisamos salvá-lo ainda. O quê mesmo tem essa quimera?
- Deve ser ela que está possuindo Jimmy.
- Exato. Provavelmente. – Reich observou. – Sabe alguma coisa sobre a Sombrinea, Locke?
- Ela me procurou, um tempo atrás. Devem fazer alguns anos, na verdade. Não me lembro direito.
- E o que ela queria?
- Não sei, ela surgiu em um sonho. Tudo está muito nebuloso agora, mas eu lembro que ela me ofereceu várias coisas. Em troca de um simples lugar para se esconder... meu corpo, no caso.
- Ela provavelmente soube que ia ser destruída, por isso procurou alguns refúgios. Provavelmente os piratas sabem sobre as armações de seus colegas.
- Então... – Eddie disse, impaciente – vamos achar Jimmy logo. Essa quimera já está me cansando.
- Como vamos achá-lo?
- É só seguir o rastro. – Vivian concluiu. – Se ela voltou para Jimmy, deixou um rastro de Glamour. Vamos, logo.
Então Eddie, Reich, Brett, Alice e Locke seguiram pelo caminho que Vivian mostrava. Mas, não precisaram percorrê-lo inteiro; encontraram Jimmy ainda na Ocean Avenue. Visivelmente mal.

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Vivian de forma alguma reconheceria aquele cara que caminhava na direção deles como sendo seu primo. O olhar perturbado, a pele pálida, o cabelo desgrenhado, a enorme tatuagem nas costas; não, aquele não era Jimmy Crow, o primo engraçado e aventureiro que aparecia de vez em quando. Como ela adorava aquele Jimmy. E agora tinha que vê-lo naquela situação. Mais uma obra daqueles malditos piratas. Se ela tivesse condições, caçaria os responsáveis até o fim do mundo.

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- É você que está aí, Jimmy? – Reich perguntou para o próprio Jimmy. Seria uma pergunta engraçada, fosse outra a situação. A resposta veio no mesmo idioma incompreensível lembrando filmes de terror que Alice tinha ouvido no dia anterior.
- A quimera disse que não há mais chance. Ninguém tira ela desse corpo. – Todos olharam para Locke, “como assim ele sabe isso?”. – É aramaico.
Jimmy concentrava a mesma energia roxa na ponta de seu cajado. Ele começaria a acabar com todos ali em breve. Ninguém disse nada, até que Eddie criou suas lâminas de energia novamente.
- Vamos ter que matá-lo, então.
- Amor... não.
- É nossa única escolha, Vivian.
- Isso não é uma escolha. – ela respondeu com algumas lágrimas nos olhos. – Tem que haver algum jeito de trazer meu primo de volta. Não é, tio?
- A cada momento eu tenho mais receio que não.
Vivian olhou longamente para Reich, então para Eddie mais uma vez. Ele estava parado, fitando-a e esperando alguma resposta. Como se a permissão dela fosse a única coisa que ele precisasse para pular em Jimmy e fatiá-lo em zilhões de pedacinhos. A única coisa que ela conseguiu dizer foi:
- Não sei mais o que fazer então.
Eles poderiam estar confusos, mas não se ligaram no fato de que não tinham todo o tempo do mundo. Quando finalmente Eddie resolveu tomar uma atitude, saltou para cima de Jimmy. Ele ergueu seu cajado, e a esfera roxa voou em direção ao peito do carniçal – que ainda tentou criar um escudo protetor, em vão. Ele foi simplesmente arremessado para trás, uns cinco metros, e então começou a se contorcer, agonizando. Alice virou o olhar, aquilo subitamente lhe trouxe más lembranças; tudo o que ela tinha esquecido sobre a outra tarde voltou em um átimo. Vivian correu para tentar ajudá-lo, mas então, repentinamente, Eddie sumiu. No mesmo instante, Jimmy desmaiou.

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Aquela coisa roxa em seu corpo não se comparava de forma alguma a ser mergulhado num lago de ácido, ou arremessado por uma janela e cair alguns andares. Era pior, muito pior. Ele desejava a morte a cada milésimo de segundo que passava naquela situação, cada vez mais e mais. Bem, se lembrou do que Becky tinha lhe dito sobre o destino... então aquela era sua hora. Flashes de momentos bons voavam pela sua cabeça, sem parar. E no momento em que conseguiu abrir os olhos, viu Vivian correndo para ele. Seus olhos cor de mel cheios de lágrimas; ele não queria que ela chorasse. Queria vê-la feliz, mas estava vendo que seria difícil por um tempo. Ela realmente gostava dele. E ele gostava dela mais ainda. Era a pessoa mais importante de sua vida, a amava com todas as forças. Fechou os olhos novamente, se concentrou no rosto dela, e então a dor parou. “Como assim?”, pensou enquanto abria os olhos. E ele não estava mais na Ocean Avenue. Se levantou, olhando ao redor, e viu um pequeno lugar branco e fechado – exatamente como Jimmy tinha criado no dia anterior. E, sentado em um banquinho de três pernas, estava Inimigo. A antiguíssima quimera pirata esqueleto. Que ainda lembrava uma caricatura de Raposa.

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- Edward Reel. Pena que eu não posso dizer que é um prazer revê-lo.
- Você...
O pirata o interrompeu, fazendo um gesto como se estivesse fechando um zíper. E esse zíper era a boca de Eddie; de repente ele não conseguia mais abri-la, ou dizer nada.
- Escute. Eu teria três escolhas agora: simplesmente te exterminar agora mesmo; te mandar para o lugar aonde a Sombrinea está escondida, que é dentro da mente de Jimmy, e então você faz o seu melhor possível para acabar com ela; ou te mandar de volta para a avenida, e sumir com aquele garoto ambicioso. Porque você destruiu a forma física da minha quimera, duas vezes. Não há como refazê-la uma terceira vez. Você tem direito a uma pergunta. – e abriu o zíper imaginário.
- Se você é o pirata que criou a Sombrinea, quem escreveu toda essa história?
- Oculto. – Inimigo fechou o zíper novamente. – Se esse não fosse o trabalho dele, que aliás é igual ao meu, eu estaria um tanto bravo. Sabe, é chato quando alguém destrói uma criação sua. – tirando uma velha pistola de dentro da camisa e colocando no colo, ele abriu o zíper novamente. – Fale. – e apontou a arma para a cabeça de Eddie. Ele não tinha a mínima idéia do que dizer naquela situação, parecia um perder ou perder.
- Não é possível arrumar outro corpo para a Sombrinea que não o de Jimmy?
- Sabe... não. O garoto tem a quantidade exata de poder para maximizar as capacidades da quimera, sem que consiga tomar controle sobre ela quando quiser. E além disso, foi uma escolha dele.
- Foi?
- Sim. Ele aceitou a quimera dentro de si, em troca de poder, compreensão própria, e vida eterna. Aqui está o contrato.
Inimigo desenrolou um pedaço de papel velho. Eddie riu.
- Qual o valor disso?
- É um valor maior do que a sua vida, disso eu tenho certeza. Vida aliás que eu posso terminar quando quiser. – e engatilhou a velha pistola. É, o pirata não estava para brincadeira. – Então, o que vai escolher?

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Quais eram as opções de Eddie? Será que Inimigo realmente o deixaria tentar destruir a Sombrinea? Provavelmente não. Então ele podia entregar sua vida e tudo terminava ali, ou entregar a vida de Jimmy, voltar para a avenida, e ser eternamente o responsável por ter acabado com o primo de Vivian. Ela o perdoaria um dia? Qual a chance?

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- Atire, Inimigo.
- Realmente?
- Sim. Atire. Acabe com isso logo.
- Se é o que você deseja.
Parece que o pirata prolongou aquilo o máximo. Não era possível que demorasse tanto para um dedo esquelético apertar um gatilho. Eddie fechou os olhos; provavelmente o pirata ainda ia querer zoar com a sua cara e ia fazer a bala voar em câmera lenta – ele não queria ver aquilo. Pensou em Vivian uma última vez, e então “Bang!”, a pistola atirou. E nada aconteceu. Eddie abriu os olhos, e viu Inimigo rindo.
- Tolo.
Ele não estava morto. Agora quem ia morrer era aquele pirata. A qualquer custo. Eddie saltou para cima dele, derrubando-o do banquinho. Segurou seu pescoço, dizendo exaltado:
- Qual o direito que vocês têm de fazer isso? Acham que o resto do mundo são só peças para seu joguinho eterno?
- Sim, Edward. É o nosso propósito. Fomos criados para isso.
Eddie socou a cara do esqueleto com toda a força que podia; o crânio saiu totalmente do lugar. Inimigo colocou-o de volta com as duas mãos, e depois empurrou o mago carniçal. Ele foi arremessado e se chocou contra a parede daquela micro-dimensão. Caído no chão, apenas olhou para o pirata que se aproximava com um sabre dourado.
- Isso não faz o menor sentido.
E não fazia. Eddie contemplou os últimos dias de sua vida, desde que tinha sido pego pela Sombrinea pela primeira vez, na quinta-feira. Campos intermináveis de girassóis, um castelo de vidro, pés-de-alface vivos, homens-lagarto sedentos por sangue, piratas esqueletos, bolinhas aprisionadoras de almas, dimensões paralelas.
- Me diga, Edward. Qual o seu propósito?
- Eu já não sei mais.
- Resposta errada.
Bem em sua frente, o pirata ergueu o sabre para dar um último golpe. Então, como se algo tivesse o atingido, ele parou. O sabre caiu. E aquele lugar branco e vazio foi se preenchendo novamente.

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Vivian olhou ao redor, desesperada.
- O que está acontecendo? – perguntou ao seu tio.
- Sinceramente, eu não sei.
Ela olhou ao redor. Brett e Alice, tão perplexos quanto ela. E Locke com o mesmo olhar confuso de seu tio. Todos ficaram em silêncio, tentando entender aquilo, até que Jimmy começou a murmurar, ainda caído e de olhos fechados.
- ...depois que os piratas se forem, ainda haverá a sombra deles... então o caos vai vencer a ordem, e a ordem vai se ver diante de uma escolha, entre a própria vida e a de outros. Mas não importa, essa escolha será errada. Então o caos vai se voltar contra sua própria sombra, criatura se unirá a criador; e de volta ao oceano essa sombra será iluminada, até que o mais antigo de todos assuma seu novo emprego. E esse é o fim da história.
E ao terminar de falar, Jimmy abriu os olhos. Seu cajado tinha desaparecido aos poucos, enquanto ele dizia, assim como sua tatuagem nas costas. A Sombrinea tinha saído dele novamente.
- Jimmy! Você está bem?
- O que está acontecendo?
- Claro, você não lembra. Você acabou de dizer o final da profecia.
- Que profecia?
Reich olhou para Jimmy, pensando por onde começaria a explicar. È, ele realmente não sabia o que estava acontecendo. Mas, antes que pudesse dizer algo, as coisas começaram a sumir ao redor do jovem mago. O campo branco estava voltando.
- De novo não... – disse Alice.
Jimmy olhou para ela, confuso. Ele se lembrava daquela ruiva, só não conseguia dizer de onde. Então o campo branco se expandiu de uma vez, e Eddie surgiu, junto com um pirata esqueleto. E o campo branco sumiu novamente. E o vento parou, e qualquer som que se pudesse ouvir ali foi abafado. Apenas a mesma voz infernal que falava pelo corpo de Jimmy se fez ouvir, agora saindo de Inimigo. A criatura estava unida a seu criador.

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- Lá vamos nós de novo, então. – Eddie disse, enquanto ativava novamente suas lâminas de energia mágica.
- Sinto muito, mas não é bem assim.
Todos olharam para Locke.
- É algo possível de ser feito. Eu já tenho lutado demais nesses últimos dias, para desistir agora. - Eddie, é o que o pirata acabou de dizer, ou a quimera, ou a entidade por trás, não sei. Como se espera vencer uma criatura que existe há 20 mil anos?
O mago carniçal olhou para Locke, com um leve tom de desespero. E não só ele; ninguém ali tinha idéia do que poderia fazer. Faíscas roxas saíam de cada dedo ossudo do pirata esqueleto; suas órbitas oculares vazias preenchidas por chamas negras. Como se a vida daquelas pessoas ali – três magos, dois vampiros, uma carniçal, uma changeling – estivesse por um fio, dependendo da única e simples vontade dele. E realmente estavam.

terça-feira, 7 de julho de 2009

Capítulo 43: The Unforgiven III

Era uma questão de honra Eddie esperar Jack estar armado, pelo menos. E logo que o vampiro tirou duas espadas das costas, – duas espadas exatamente iguais às de Raposa – Eddie deu um longo salto para a frente, já atacando. Tequila aparou imediatamente; ele também tinha a tal Rapidez. Os dois se golpeavam, esquivavam, um aparava os golpes do outro. Alguns chutes, saltos, recuos estratégicos. E, lutando ali no meio da avenida completamente vazia, Eddie logo percebeu dois fatos engraçados: primeiro, suas lâminas não atravessavam as espadas de Jack, como era de se esperar; ou seja, havia algo de especial naquelas espadas. E segundo, o jeito que o vampiro lutava lembrava um tanto o jeito de Raposa. Até parecia que eles tinham aprendido a manejar duas espadas longas juntos.
- Quem te ensinou a lutar, Tequila?
- É o velho estilo da costa oeste, espadas gêmeas. Como era ensinado cem anos atrás.
- É um tanto falho. – disse Eddie, desdenhando de seu oponente. Ao mesmo tempo, fez um círculo com o braço, algo que seu oponente não esperava. Surpreso, Jack foi atingido pela lâmina do mago no lado direito do tronco, em cheio. Ele logo largou uma das espadas e apertou seu ferimento com a mão, por reflexo. Aquilo ardia insuportavelmente. E não era algo facilmente curável usando o poder do sangue. Eddie saltou para trás, e esperou por um momento. Se fosse Raposa, ele já teria o fatiado em pedaços minúsculos. Mas, com Jack, aquele que representava Morte para ele, ele queria uma luta mais justa. Então fogo caiu do céu. Aquela luta terminava naquele momento. E uma nova começava. Porque o Oculto se mostrava.

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Christopher John McCandles nasceu em Nova York, por volta de 1860 – a data é incerta. Filho de uma das famílias burguesas da cidade, foi mandado quando tinha 18 anos para Boston, para estudar em uma renomada universidade da época. Estudou inglês clássico, física, astronomia. Era um dos melhores alunos de sua turma, o que poderia levá-lo a um mestrado. Não foi o que aconteceu. Um de seus professores, um senhor estranho e pálido, que só saía à noite – diziam que ele tinha uma rara doença de pele – o convidou para trabalhar com ele em sua pesquisa. Chris aceitou, e logo descobriu que na verdade a pesquisa não envolvia física ou astronomia, tampouco inglês clássico.

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A verdade é que o professor de Chris era um vampiro, do clã dos Tremere – conhecidos por serem os feiticeiros e conspiradores, e um clã fechado e unido mais do que qualquer outro. Unido é modo de dizer, claro; o egoísmo e instinto animal natural a cada pessoa e ainda mais aguçado nos vampiros (que têm que matar outros humanos para sobreviver) não permitem uma “união” propriamente dita, mas enfim, os Tremere seguiam a uma hierarquia, e assim conseguiam trabalhar para um bem comum. Chris foi transformado em vampiro – era um talento muito grande para ser desperdiçado, dizia seu mestre – e logo começou a praticar magia. Praticou bastante as trilhas das chamas, e a do movimento (assim ele poderia voar um dia, disse seu mestre). E ele também praticou o chamado trato social; seu senhor era o Tremere mais antigo de Boston, logo tinha um lugar no conselho dos anciões. O que tornava o jovem vampiro Chris um mascote para aqueles velhos. Ele abandonou sua família mortal, e ficou vivendo ali.

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Quando Chris tinha por volta de 100 anos, seu mentor lhe mandou em uma missão. Ele devia atravessar o país, ir até Los Angeles, e derrubar o antigo príncipe, assumindo o lugar. E depois de algum tempo, seu mestre iria para lá para ficar com o trono da cidade. Ele apresentou todas as informações, e um plano que não tinha falhas. Chris aceitou a proposta, sabendo que depois iria mudar todo o plano, claro. Então atravessou o país e foi para a costa oeste. Ao chegar lá, uma surpresa: as duas crias do príncipe tinham o abandonado. Ambos foram viajar o país, cada um seguindo seu caminho. Foi muito mais fácil eliminar o príncipe do que pareceria. Então Chris simplesmente persuadiu os outros anciões, que eram poucos, e assumiu o principado.

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O que o senhor de Chris não contava é que sua cria era ainda mais ambiciosa que ele. Ele deveria chegar um mês depois que o novo príncipe tinha assumido o trono; a esse ponto, Chris já tinha criado quatro carniçais, que emboscaram o antigo vampiro na estação de trem. Ele foi capturado, e teve todo seu sangue drenado pela própria cria. Depois, para sumir com evidências, matou os quatro carniçais, e explodiu o trem que trazia seu senhor. Estava livre dos outros Tremere, e agora tinha uma cidade para brincar.

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No começo dos anos 70, surgiu o primeiro problema para Chris. Uma das crias do antigo príncipe voltou, reclamando o principado – que supostamente era seu por direito. Chris logo pensou em exterminar aquele vampiro, mas percebeu que ele era visivelmente mais poderoso que seu senhor. Ao invés disso, resolveu fazer um acordo com ele. Teria uma grande área da cidade como sua, e a liberdade para fazer o que bem entendesse, enquanto não criasse problemas. Assim estava formada a aliança entre Chris McCandles, e Michael Raposa Forwell.

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Um pouco depois que Raposa voltou à cidade, uma outra pessoa também voltou. Emily Butterfly, uma proeminente pintora e escultora de Nova York, resolveu voltar a Los Angeles – sua cidade natal. E logo que chegou foi se apresentar ao príncipe (como manda a etiqueta); ela era uma Toreador. Chris ficou encantado com sua beleza desde o primeiro instante. E ele nunca tinha ficado com nenhuma mulher antes (meio que não tinha tempo para isso); queria aquela artista desesperadamente. E conseguiu, após alguns jantares. Emily nunca soube (ele tinha medo de falar), mas foi a única pessoa que conseguiu fazer Chris pensar em alguma coisa além de si mesmo. Ficaram juntos por quase dez anos. Até que algo os separou.

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O conselho de anciões de Los Angeles era pequeno, formado por apenas 4 vampiros – além do próprio Chris. O que devia ser o representante do clã Brujah era Raposa (que não se importava com essas politicagens), e não havia nenhum do clã Gangrel na cidade. Mas esse conselho não importava muito, no final das contas eram todos fantoches de Chris – que tinha comprado todos ao chegar à cidade. Mas então alguma coisa aconteceu, e todos os quatro anciões foram mortos. Um por noite, um após o outro. E ninguém conseguia dizer como isso acontecia. Até que na quinta noite, quando estava indo visitar Emily em seu carro, Chris foi cercado por motos. O grande responsável por isso era a outra cria do antigo príncipe, “irmão” de Raposa. Seu nome, Jack Tequila. Acompanhado de sua gangue de anarquistas. O objetivo deles era derrubar o principado, e instalar um estado livre. Como era em Seattle – cidade em que Jack tinha passado os últimos cinco anos, aprendendo com outros revolucionários como ele. Jack usou o Chamado para convocar todos os vampiros da cidade. Nem todos apareceram, mas havia um quorum para que uma assembléia fosse possível. E ali, naquela noite, foram apresentadas a Chris duas alternativas: aceitar aquela nova lei, ou ir embora. Ele escolheu a segunda opção. Sabendo que voltaria um dia.

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Chris foi embora aquele dia, mas na noite seguinte voltou para sua cobertura, sem que ninguém soubesse. Fazendo o máximo de esforço possível para não ser visto enquanto montava seu plano, foi estudando ainda mais magia, até descobrir sobre o Sonhar. E depois, sobre a Sombrinea. Era uma antiga quimera consciente, que procurou Chris em determinado momento. Ele viu que aquela criatura seria útil em algum momento, mas não sabia para quê. Até que Raposa o encontrou, e os dois confabularam sobre o assunto. Raposa não gostava de Jack Tequila, por uma única razão: o mentor dos dois gostava mais de Jack. E ele era o “filho renegado”. E caso Chris voltasse ao poder, Raposa poderia ter de volta os benefícios que tinha antes. Então, os dois poderiam criar alguma confusão qualquer na sociedade vampírica, para provar que a idéia de terra anarquista de Tequila era simplesmente ineficiente. Chris foi armando pequenos conflitos aqui e ali, até a noite em que Raposa explodiu o ateliê de Emily. Ele não queria fazer isso com ela, mas não tinha outra escolha. Queria seu trono de volta. E com a Sombrinea fazendo a avenida parar, haveria um ponto para onde todos iriam em algum momento, no final de tudo. E assim aconteceu. Ficou em cima de um prédio, observando a luta entre Jack e o garoto carniçal por um tempo, até encontrar o momento certo. Jogou fogo – pirotecnia sempre dá style points – e desceu para a avenida. Era hora de eliminar os dois únicos empecilhos em seu caminho de uma vez só.

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- Vamos pegá-lo antes. Depois a gente termina isso. – Eddie disse, enquanto curava com magia o ferimento que ele mesmo tinha feito em Jack.
- Pode ser.
Logo que Eddie e Jack começaram a correr na direção de Chris, o antigo príncipe jogou outro jato de chamas, que Eddie desviou com um movimento de seu braço.
- Vai precisar de mais do que isso. – falou em tom de desafio.
- Claro que sim, - e estalou os dedos – vocês são pouco mas ainda dão trabalho.
Uma sombra surgiu atrás de Chris, uma sombra enorme. Eddie reconheceu-a na hora, era a mesma quimera que estava no ateliê de Emily; a mesma que ele tinha destruído ao ir para o Sonhar pela segunda vez. Acabar com ela daquela vez não tinha sido o bastante?

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Enquanto andava pela praia, invisível e perturbado, Jimmy sentiu um bem-estar repentino. E então ele não estava mais invisível, seu cajado tinha sumido, e a tatuagem em suas costas também. Como assim, a Sombrinea tinha saído do corpo dele? Sentou na areia, aliviado, até que alguns momentos depois... ela voltou.

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- O que diabos é isso, Eddie?
- É uma quimera. Criaturas feitas de sonho, têm a ver com as fadas e tal.
Os dois olhavam, parados e apreensivos. Chris também não se movia, e a sombra apenas balançava de um lado para o outro. Era visível a tensão, qualquer um dos quatro ali poderia atacar a qualquer segundo.
- Jogue em Chris quando eu saltar, Jack. – e Eddie jogou para Tequila uma pequena bolinha de fita adesiva amassada. Ele olhou, sem entender, mas resolvendo confiar no garoto da estrela, o que diziam ser o predestinado.
Então o segundo decisivo aconteceu; ao mesmo tempo, a Sombrinea desceu na direção de Eddie, e Eddie saltou na direção dela. Chris abriu as mãos, apontando para a frente, e um jato de fogo – enegrecido e sinistro, por alguma razão – foi jogado em Jack. Ele arremessou a fita adesiva amassada no meio do jato, e alguma estranha aconteceu: o fogo foi sendo puxado pela bolinha, e formou uma grande bola de fogo. Mas, antes de ela atingir Chris, ele fez um outro movimento com a mão; e a bola desviou sua trajetória. De volta para Jack.
- Pegue essa.
Jack teve tempo de saltar para o lado ainda, e não se feriu nem um pouco – apenas chamuscou um pouco seu cabelo, e ficou caído. E ali, caído, ele viu Eddie ainda no ar, depois de seu grande salto em direção à Sombrinea. Ele parecia estar saltando em câmera lenta, como se houvesse algo no ar o atrasando ou roubando sua velocidade magicamente aumentada. Então, antes de atingir a quimera em cheio com suas lâminas de energia, ele ainda soltou uma pequena esfera mágica – da cor das lâminas – em Chris. O vampiro por pouco não viu, estava mais preocupado com Jack Tequila. Mas, conseguiu desviar daquilo; – usar sua trilha do movimento para jogá-la de volta em Eddie não era possível, aquela energia mágica não tinha massa – o que não conseguiu foi fazer alguma coisa para proteger a Sombrinea.
- Tchau de novo, quimera.
E Eddie despedaçou-a com suas lâminas. Ele praticamente dançava no ar, cortando aquela massa disforme de sombras de todos os jeitos possíveis. E os pedaços pareciam dissolver com o vento, o vento que soprava para o litoral. Então, ao terminar, caiu agachado no asfalto. Se ele tinha aprendido alguma coisa nos últimos dias, era que quimeras não dão muito trabalho para destruir.

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Logo depois de se esquivar da esfera de Eddie, Chris usou sua trilha do movimento mais uma vez; desta, para convocar duas espadas que ele tinha deixado no topo do prédio. Eddie percebeu na hora, eram as mesmas que Raposa tinha usado na outra noite. Iguais às de Jack. E os dois vampiros começaram a lutar, e Eddie percebeu que Chris também lutava como os dois outros. O velho estilo da costa oeste, espadas gêmeas. Como era ensinado cem anos atrás.
- Aonde aprendeu a lutar assim, Chris?
- Com seu mestre. Quando o matei e tomei o sangue dele.
Jack titubeou por um momento ao ouvir isso, o que permitiu a Chris atingi-lo no braço. Ele logo regenerou o ferimento com o poder do sangue; era um machucado normal, não feito por uma energia mágica.
- É claro, porque nunca pensei nisso? Você tomou o principado quando eu fui embora...
- Sim. E será meu de novo essa noite. Porque enquanto você relaxou depois de ter a cidade para você, eu continuei praticando e me aperfeiçoando. O mundo pune os preguiçosos, Tequila.
A luta estava equilibrada, mesmo assim. Os dois se atingiam ocasionalmente, mas ainda pareciam ter bastante sangue vampírico para se regenerar. A diferença é que Jack ia ficando cada vez mais cansado, enquanto Chris não mostrava sinal de desgaste algum. Eddie já ia entrar na luta para fazer alguma diferença, mas então viu Reich, Vivian e Alice se aproximando. Finalmente. E também, aquela luta entre Jack e Chris pertencia a eles. Eddie desfez as lâminas mágicas e correu para abraçar Vivian.
- Tudo bem, amor?
- Sim, estou um pouco cansado só. Por isso deixei os dois resolvendo os assuntos deles.
Nesse momento, Chris olhou para as pessoas novas que chegaram ali. Ninguém que ele conhecesse. Então, com um piscar de olhos, – enquanto ele continuava no duelo de espadas com Jack – uma onda de chamas irrompeu do chão, e foi na direção de Eddie e os outros. Eddie tentou pará-la com um movimento de seu braço, mas não adiantou. Foi Reich quem protegeu a todos, criando um escudo protetor. As chamas arderam por mais um tempinho, depois se dissiparam.
- Olhem isso. – disse Alice, tirando a bolinha de vidro de seu bolso. Ela brilhava com uma cor vermelha, e parecia que tinha uma chama dentro. Uma chama enegrecida, como as que Chris convocava magicamente.
Então algo chamou a atenção de todos: uma luz, ofuscante, saindo de dentro do bolso do casaco de Chris. “Brett conseguiu”, Alice pensou. E do alto de um prédio, Locke observava tudo. “O garoto do sangue fraco conseguiu mesmo”. Chris, surpreso, parou por uma fração de segundo para ver o que era aquilo; e foi essa fração que Jack precisou para acertá-lo em cheio no peito, com as duas espadas.
- Te peguei. - Chris respirou fundo, e olhou no fundo dos olhos de Jack. Agarrou os braços do anarquista com toda a força, tentando tirar as espadas, mas com o choque e a dor ele não tinha forças para isso. Então, uma voz se aproximou, correndo pela avenida.
- Alice! Jogue a bolinha nele!
Era Brett, já arremessando a que ela tinha lhe dado. Jimmy tinha lhe dito para o que servia, e aquela era a hora certa. Alice, confiando na pessoa que tinha procurado a tarde inteira em vão, também jogou sua bolinha em Chris. Todos olharam, em suspense. E por algum motivo, como se houvesse alguém brincando de efeitos especiais com o mundo, as bolinhas voaram em câmera lenta pelo ar, cada vez brilhando mais e mais conforme se aproximavam de Chris, e da outra bolinha que Brett tinha escondido em seu bolso – e ele nem tinha percebido. Então, Jack foi arremessado - também em câmera lenta - para trás por alguma força invisível, suas espadas ainda cravadas em seu adversário. As duas bolinhas que voavam vindo de lados opostos se abriram; como uma nuvem de vidro quebrado, amassado e pulverizado. Essa nuvem envolveu Chris, e um clarão branco aconteceu. Todos fecharam os olhos, e quando abriram, Chris tinha sumido. Aonde ele estava parado, havia uma bolinha de vidro caída no chão, maior do que as três que haviam antes. Brett andou para lá, e pegou a bolinha. Dentro dela, ele conseguia ver Chris, aprisionado em alguma dimensão bizarra qualquer.
- Funcionou mesmo. – disse, rindo. Todos olharam, com um misto de surpresa e choque. Como ele tinha feito aquilo?

segunda-feira, 6 de julho de 2009

Capítulo 42: Walking At Night, Alone

Inundada de pensamentos, ela não teve muita reação quando alguém sentou do seu lado na beirada da cratera. Apenas olhar, lentamente, não se importando muito com quem era. E então surpreendeu-se.
- Seth? - perguntou assombrada.
Sim, era Seth. Seth Daniels Cuervo, primo de seu namorado. Que pelo que ela tinha ouvido, tinha morrido na tarde anterior, após viver duzentos anos. E ele não era primo de Eddie, na verdade; tratava-se apenas de uma historinha combinada entre os dois.
- Boa tarde, Vivian. Quem é viva sempre aparece.
- E em qual você foi se meter, hein?
- Ah, tinha chegado minha hora. Não importa tanto assim.
Vivian suspirou, abraçando os joelhos. Seth ainda parecia um sabe-tudo, picareta, e falastrão, mas ele parecia entristecido também. Com o típico "não importa" que ainda continua importando.
- E o que você faz por aqui?
- Fiz um acordo com o cara que toma conta das almas por aí.
- Sério?
- Sim. Eu tinha três grandes méritos, foi o que ele disse. Consegui tirar o melhor da bênção que foi me dada, usei todo o tempo que me foi dado, e ainda tive uma boa intenção no final das contas. Então, me fizeram uma proposta. Eu vinha para cá, descobria o máximo possível, e falaria com você o que fosse relevante quando fosse a hora. Porque o tal cara sabia que você viria. Ele já sabia da história inteira.
Na atual situação das coisas, ela não duvidaria de jeito nenhum de que aquilo era simplesmente uma pequena fábula escrita por um maluco qualquer, que tinha o poder (ou a tarefa) de tornar reais histórias escritas em tábulas de pedra. Ou papiros, ou pó estelar. Qualquer coisa que se use para escrever profecias.
- E ah Vivian, tem o fato de seu tio e Eddie terem me convocado em tão pouco tempo. Pareceu para Morte que eu era alguém importante.
- Morte é o tal que fez o acordo com você?
- Sim. O primeiro dos piratas.
- Espera aí... Eddie nos falou sobre eles.
- É, Morte me falou sobre Eddie também. A moral da história é que existem vários piratas; não só Morte, Oculto e Inimigo. Como Tempo, Acaso, Amor...
- E eles têm algum propósito.
- Se divertir, realizar seus sonhos malucos. São quimeras, antiguíssimas, mas ainda quimeras. Tudo o que eles fazem é cada um criar suas histórias de ficção, que sempre se realizam, e também interferir nas histórias criadas pelos outros.
- Então isso tudo...
- É uma história criada por uma quimera que não tinha o que fazer. Oculto, no caso.
Seth começou a contar para Vivian sobre os motivos que levaram as coisas a chegar do jeito que estavam, no domingo à tarde. No final das contas, tudo se resumia a uma oportunidade que Oculto tinha visto para bagunçar um pouco as coisas, usando o Glamour que tinha saído de Vivian e ido para Eddie, e a quimera que Inimigo tinha criado muito tempo atrás, chamada Sombrinea. Feita da pura essência das coisas ruins que nossa mente bloqueia quando sonhamos, ela tinha esperado muito tempo para agir. Então Chris e Jimmy descobriram coisas a respeito dessa quimera (cada um de seu jeito, em algum momento diferente), e resolveram usá-la em benefício próprio. Jimmy queria um maior poder e compreensão sobre si mesmo; foi enganado. Chris queria de volta o principado de Los Angeles para si... também tinha sido enganado. O que Oculto queria era apenas neutralizar a Sombrinea, e teve que criar toda uma armação para isso. Vivian começou a ver alguma credibilidade nas tais teorias da conspiração; ela vivia uma dessas naquele exato momento. E não era possível simplesmente aceitar ser apenas uma personagem emprestada para alguma história de um maluco; ela valia mais que isso. Pelo menos era o que pensava. Despediu-se de Seth, e fez o possível para voltar o mais rápido possível ao mundo real. Ela tinha que falar a verdade, para Eddie, para seu tio, para todos. Saírem daquela história de profecia que na verdade não passava de uma grande mentira. A pena é que Vivian chegou um pouco tarde demais.

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Reich não tinha idéia de quanto tempo Vivian demoraria no Sonhar, e também não queria ficar ali alugando Howie. Logo voltou para casa; Vivian ligaria para ele buscá-la quando ela chegasse. E ele também tinha o que fazer: logo que entrou, foi direto para o salão no fundo, puxou a estante com a parede falsa atrás, pegou algumas velas especiais, e acendeu-as em um círculo. Tinha alguns contatos no mundo espiritual para encontrar.

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- Qual o seu nome? – o cara do cabelo engraçado disse, um tanto mais calmo do que parecia estar.
- Brett Witter. Você é...?
- Jimmy Crow. E não chegue perto demais, pode ser perigoso.
- Como?
- Estou com uns problemas. O que você tem no seu bolso?
Brett tinha meio que se esquecido da bolinha de vidro, que tinha estado inerte até então. Quando ele a tirou, “Joga aí”, e mandou para Jimmy, ela começou a brilhar com uma cor roxa, a mesma da esfera de energia.
- Aonde conseguiu isso? – o mago perguntou, ao mandar de volta.
- Ganhei hoje de manhã.
- Já brilhou alguma vez antes?
- Não.
- Vai brilhar quando chegar a hora.
- Você sabe do que se trata isso?
- Sim. Originalmente deviam ser doze, divididas em trios. Mas só um dos trios restou. Foram criadas por um mago, mais de mil anos atrás.
Brett sempre se fascinava com histórias de fantasia medieval. E ouviu com muita atenção o que Jimmy tinha para lhe falar. O mundo era muito maior do que aquele que a gente vê, com certeza. Até que Jimmy simplesmente desapareceu do parque, deixando para trás apenas seu cajado. Brett olhou, surpreso, e deu de ombros. Fazer o quê?

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- Tudo o que eu queria agora era uma garrafa de rum. E a propósito, um maço de cigarros também. – disse Eddie, enquanto pegava o último.
- Eu tenho aqui, qualquer coisa.
- Ah, é que sei lá, eu gosto de ter o meu, sabe.
- Eu também.
Alice estava aparentemente abatida, cansada; e provavelmente chateada também. Sem dúvidas ela queria que tudo aquilo terminasse logo, mas bem... quem não queria? Então os dois saíram do prédio de Brett, sem ter a mínima idéia de onde encontrá-lo. E a cada segundo Eddie queria mais e mais um pouco de álcool; ele não bebia nada desde quinta à noite.
- Vai continuar procurando Brett?
- Sim.
- Acho que vou dar um rolê por aí. Aproveitar esse final de tarde.
- Certo. Eu vou para a Ocean Avenue. Qualquer coisa a gente se encontra lá depois que anoitecer.
- Sim. Até mais, Alice.
- Tchau.
E assim, eles se separaram em uma esquina. Alice foi reto, para a avenida – que não estava bloqueada para ela – e Eddie virou, indo para um boteco qualquer que viu ali. Logo fez amizade com pessoas aleatórias que ali bebiam no domingo à tarde, assistiu o jogo de beisebol na televisão (ele sempre tinha achado um saco, mas até que gostou de ver aquele), e bebeu. Rum, cachaça, vodka, conhaque, uísque. Só não bebeu tequila.

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Três horas em um bar foram mais do que o suficiente para deixar Eddie um tanto bêbado. “Minha melhor forma”, ele sempre pensava. E ao se dar conta de que já tinha anoitecido, deixou o bar, em direção à avenida. Então virou a esquina do parque da Richards, e viu um carro que lhe parecia conhecido passando. Era Reich.
- Edward!
- Oi...? – disse, meio tonto.
- Você está bem?
- Melhor do que nunca.
- Vai indo para onde?
- Para... lá. – disse, apontando um lugar qualquer na avenida.
- Eu lhe daria uma carona, mas é um caminho que você tem que fazer sozinho. Escute, Edward. Descobri algo que lhe pode ser muito útil.
- O quê?
- Quinta eu lhe disse, o segredo da magia é enganar o universo, criar coincidências. Lembra?
- Sim.
- Mas estamos em uma situação atípica. Você é um dos protagonistas de uma profecia. E essa avenida foi isolada do resto do mundo por Jimmy. Aqui, não há necessidade de enganar nada ou ninguém. Nada precisa ser uma coincidência, porque qualquer coisa está sendo aceita pela realidade. Por mais irreal que seja.
- Então...
- Então, por influência das quimeras, você tem poderes basicamente ilimitados. Os únicos parâmetros limitantes são sua compreensão sobre si mesmo, e sua imaginação.
Era como se Eddie estivesse no Sonhar novamente, com aquela quantidade absurda de Glamour que lhe permitiu criar lâminas de energia, correr a velocidades incríveis, e atomizar um deserto. Repentinamente, Eddie saltou, com toda a força que podia. Chegou a uma altura de 12 andares. Era um salto respeitável.
- Muito obrigado, Reich. Foi uma boa informação.
- Estou fazendo minha parte, certo? E cuidado com o que faz... destruir a avenida ou coisas do tipo não é desejável.
- Claro. O senhor vai pegar Vivian agora?
- Sim. Ela acabou de voltar.
- A gente se encontra depois, então.

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Eddie estava com uma vontade imensa de sair correndo por aí o mais rápido que pudesse, saltar de prédio em prédio, brincar de Homem-Aranha, ou coisas bobas e aleatórias do tipo. Mas ainda havia três problemas para ele lidar: Jack Tequila, o tal do Chris, e o primo de Vivian. E considerando o quão previsível Tequila parecia ser, era um tanto óbvio que ele estaria ali na Ocean Avenue à noite. Aquela avenida era um dos maiores points de Los Angeles, afinal. E a intuição de Eddie não errava; uma moto passou por ele empinando, virou um pouco à frente, e parou. Dali desceu Jack Tequila em pessoa.
- Boa noite, garoto da estrela.
Eddie olhou para ele, longamente. Não havia porque poupar aquele vampiro que se achava a própria lei. O mago carniçal fez um leve movimento com o braço direito, e uma lâmina surgiu – exatamente igual às que ele tinha criado no Sonhar, e novamente de ossos usando o sangue de Emily.
- O que você quer? – Jack perguntou. Eddie não respondeu, apenas fez o mesmo movimento com o outro braço. Outra lâmina. – Você quer lutar?
A resposta era mais do que imediata. Ele tinha perdido a paciência já, há muito tempo. Não se importava mais com as conseqüências de nada, mesmo.
- Sim, eu quero.