segunda-feira, 6 de julho de 2009

Capítulo 42: Walking At Night, Alone

Inundada de pensamentos, ela não teve muita reação quando alguém sentou do seu lado na beirada da cratera. Apenas olhar, lentamente, não se importando muito com quem era. E então surpreendeu-se.
- Seth? - perguntou assombrada.
Sim, era Seth. Seth Daniels Cuervo, primo de seu namorado. Que pelo que ela tinha ouvido, tinha morrido na tarde anterior, após viver duzentos anos. E ele não era primo de Eddie, na verdade; tratava-se apenas de uma historinha combinada entre os dois.
- Boa tarde, Vivian. Quem é viva sempre aparece.
- E em qual você foi se meter, hein?
- Ah, tinha chegado minha hora. Não importa tanto assim.
Vivian suspirou, abraçando os joelhos. Seth ainda parecia um sabe-tudo, picareta, e falastrão, mas ele parecia entristecido também. Com o típico "não importa" que ainda continua importando.
- E o que você faz por aqui?
- Fiz um acordo com o cara que toma conta das almas por aí.
- Sério?
- Sim. Eu tinha três grandes méritos, foi o que ele disse. Consegui tirar o melhor da bênção que foi me dada, usei todo o tempo que me foi dado, e ainda tive uma boa intenção no final das contas. Então, me fizeram uma proposta. Eu vinha para cá, descobria o máximo possível, e falaria com você o que fosse relevante quando fosse a hora. Porque o tal cara sabia que você viria. Ele já sabia da história inteira.
Na atual situação das coisas, ela não duvidaria de jeito nenhum de que aquilo era simplesmente uma pequena fábula escrita por um maluco qualquer, que tinha o poder (ou a tarefa) de tornar reais histórias escritas em tábulas de pedra. Ou papiros, ou pó estelar. Qualquer coisa que se use para escrever profecias.
- E ah Vivian, tem o fato de seu tio e Eddie terem me convocado em tão pouco tempo. Pareceu para Morte que eu era alguém importante.
- Morte é o tal que fez o acordo com você?
- Sim. O primeiro dos piratas.
- Espera aí... Eddie nos falou sobre eles.
- É, Morte me falou sobre Eddie também. A moral da história é que existem vários piratas; não só Morte, Oculto e Inimigo. Como Tempo, Acaso, Amor...
- E eles têm algum propósito.
- Se divertir, realizar seus sonhos malucos. São quimeras, antiguíssimas, mas ainda quimeras. Tudo o que eles fazem é cada um criar suas histórias de ficção, que sempre se realizam, e também interferir nas histórias criadas pelos outros.
- Então isso tudo...
- É uma história criada por uma quimera que não tinha o que fazer. Oculto, no caso.
Seth começou a contar para Vivian sobre os motivos que levaram as coisas a chegar do jeito que estavam, no domingo à tarde. No final das contas, tudo se resumia a uma oportunidade que Oculto tinha visto para bagunçar um pouco as coisas, usando o Glamour que tinha saído de Vivian e ido para Eddie, e a quimera que Inimigo tinha criado muito tempo atrás, chamada Sombrinea. Feita da pura essência das coisas ruins que nossa mente bloqueia quando sonhamos, ela tinha esperado muito tempo para agir. Então Chris e Jimmy descobriram coisas a respeito dessa quimera (cada um de seu jeito, em algum momento diferente), e resolveram usá-la em benefício próprio. Jimmy queria um maior poder e compreensão sobre si mesmo; foi enganado. Chris queria de volta o principado de Los Angeles para si... também tinha sido enganado. O que Oculto queria era apenas neutralizar a Sombrinea, e teve que criar toda uma armação para isso. Vivian começou a ver alguma credibilidade nas tais teorias da conspiração; ela vivia uma dessas naquele exato momento. E não era possível simplesmente aceitar ser apenas uma personagem emprestada para alguma história de um maluco; ela valia mais que isso. Pelo menos era o que pensava. Despediu-se de Seth, e fez o possível para voltar o mais rápido possível ao mundo real. Ela tinha que falar a verdade, para Eddie, para seu tio, para todos. Saírem daquela história de profecia que na verdade não passava de uma grande mentira. A pena é que Vivian chegou um pouco tarde demais.

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Reich não tinha idéia de quanto tempo Vivian demoraria no Sonhar, e também não queria ficar ali alugando Howie. Logo voltou para casa; Vivian ligaria para ele buscá-la quando ela chegasse. E ele também tinha o que fazer: logo que entrou, foi direto para o salão no fundo, puxou a estante com a parede falsa atrás, pegou algumas velas especiais, e acendeu-as em um círculo. Tinha alguns contatos no mundo espiritual para encontrar.

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- Qual o seu nome? – o cara do cabelo engraçado disse, um tanto mais calmo do que parecia estar.
- Brett Witter. Você é...?
- Jimmy Crow. E não chegue perto demais, pode ser perigoso.
- Como?
- Estou com uns problemas. O que você tem no seu bolso?
Brett tinha meio que se esquecido da bolinha de vidro, que tinha estado inerte até então. Quando ele a tirou, “Joga aí”, e mandou para Jimmy, ela começou a brilhar com uma cor roxa, a mesma da esfera de energia.
- Aonde conseguiu isso? – o mago perguntou, ao mandar de volta.
- Ganhei hoje de manhã.
- Já brilhou alguma vez antes?
- Não.
- Vai brilhar quando chegar a hora.
- Você sabe do que se trata isso?
- Sim. Originalmente deviam ser doze, divididas em trios. Mas só um dos trios restou. Foram criadas por um mago, mais de mil anos atrás.
Brett sempre se fascinava com histórias de fantasia medieval. E ouviu com muita atenção o que Jimmy tinha para lhe falar. O mundo era muito maior do que aquele que a gente vê, com certeza. Até que Jimmy simplesmente desapareceu do parque, deixando para trás apenas seu cajado. Brett olhou, surpreso, e deu de ombros. Fazer o quê?

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- Tudo o que eu queria agora era uma garrafa de rum. E a propósito, um maço de cigarros também. – disse Eddie, enquanto pegava o último.
- Eu tenho aqui, qualquer coisa.
- Ah, é que sei lá, eu gosto de ter o meu, sabe.
- Eu também.
Alice estava aparentemente abatida, cansada; e provavelmente chateada também. Sem dúvidas ela queria que tudo aquilo terminasse logo, mas bem... quem não queria? Então os dois saíram do prédio de Brett, sem ter a mínima idéia de onde encontrá-lo. E a cada segundo Eddie queria mais e mais um pouco de álcool; ele não bebia nada desde quinta à noite.
- Vai continuar procurando Brett?
- Sim.
- Acho que vou dar um rolê por aí. Aproveitar esse final de tarde.
- Certo. Eu vou para a Ocean Avenue. Qualquer coisa a gente se encontra lá depois que anoitecer.
- Sim. Até mais, Alice.
- Tchau.
E assim, eles se separaram em uma esquina. Alice foi reto, para a avenida – que não estava bloqueada para ela – e Eddie virou, indo para um boteco qualquer que viu ali. Logo fez amizade com pessoas aleatórias que ali bebiam no domingo à tarde, assistiu o jogo de beisebol na televisão (ele sempre tinha achado um saco, mas até que gostou de ver aquele), e bebeu. Rum, cachaça, vodka, conhaque, uísque. Só não bebeu tequila.

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Três horas em um bar foram mais do que o suficiente para deixar Eddie um tanto bêbado. “Minha melhor forma”, ele sempre pensava. E ao se dar conta de que já tinha anoitecido, deixou o bar, em direção à avenida. Então virou a esquina do parque da Richards, e viu um carro que lhe parecia conhecido passando. Era Reich.
- Edward!
- Oi...? – disse, meio tonto.
- Você está bem?
- Melhor do que nunca.
- Vai indo para onde?
- Para... lá. – disse, apontando um lugar qualquer na avenida.
- Eu lhe daria uma carona, mas é um caminho que você tem que fazer sozinho. Escute, Edward. Descobri algo que lhe pode ser muito útil.
- O quê?
- Quinta eu lhe disse, o segredo da magia é enganar o universo, criar coincidências. Lembra?
- Sim.
- Mas estamos em uma situação atípica. Você é um dos protagonistas de uma profecia. E essa avenida foi isolada do resto do mundo por Jimmy. Aqui, não há necessidade de enganar nada ou ninguém. Nada precisa ser uma coincidência, porque qualquer coisa está sendo aceita pela realidade. Por mais irreal que seja.
- Então...
- Então, por influência das quimeras, você tem poderes basicamente ilimitados. Os únicos parâmetros limitantes são sua compreensão sobre si mesmo, e sua imaginação.
Era como se Eddie estivesse no Sonhar novamente, com aquela quantidade absurda de Glamour que lhe permitiu criar lâminas de energia, correr a velocidades incríveis, e atomizar um deserto. Repentinamente, Eddie saltou, com toda a força que podia. Chegou a uma altura de 12 andares. Era um salto respeitável.
- Muito obrigado, Reich. Foi uma boa informação.
- Estou fazendo minha parte, certo? E cuidado com o que faz... destruir a avenida ou coisas do tipo não é desejável.
- Claro. O senhor vai pegar Vivian agora?
- Sim. Ela acabou de voltar.
- A gente se encontra depois, então.

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Eddie estava com uma vontade imensa de sair correndo por aí o mais rápido que pudesse, saltar de prédio em prédio, brincar de Homem-Aranha, ou coisas bobas e aleatórias do tipo. Mas ainda havia três problemas para ele lidar: Jack Tequila, o tal do Chris, e o primo de Vivian. E considerando o quão previsível Tequila parecia ser, era um tanto óbvio que ele estaria ali na Ocean Avenue à noite. Aquela avenida era um dos maiores points de Los Angeles, afinal. E a intuição de Eddie não errava; uma moto passou por ele empinando, virou um pouco à frente, e parou. Dali desceu Jack Tequila em pessoa.
- Boa noite, garoto da estrela.
Eddie olhou para ele, longamente. Não havia porque poupar aquele vampiro que se achava a própria lei. O mago carniçal fez um leve movimento com o braço direito, e uma lâmina surgiu – exatamente igual às que ele tinha criado no Sonhar, e novamente de ossos usando o sangue de Emily.
- O que você quer? – Jack perguntou. Eddie não respondeu, apenas fez o mesmo movimento com o outro braço. Outra lâmina. – Você quer lutar?
A resposta era mais do que imediata. Ele tinha perdido a paciência já, há muito tempo. Não se importava mais com as conseqüências de nada, mesmo.
- Sim, eu quero.

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