sexta-feira, 10 de julho de 2009

Capítulo 44: A Rush of Blood to the Head

- Sabia que você conseguiria, Brett. – disse uma voz que surgia subitamente. Era Locke. – Como você descobriu o que fazer com as bolinhas?
- Um cara que eu encontrei no parque me disse. Um tal de Jimmy Crow. – Reich olhou mais atento. – E ele contou toda uma história, aí para mim fez sentido.
- Aonde ele está? – o velho mago perguntou.
- Não sei, ele repentinamente sumiu. Aí eu não entendi nada. Então fui para casa, tomei banho, e saí de novo. Fui jogar mini-golfe, e quando a bolinha começou a brilhar mais forte eu vim para cá. Porque o tal do Jimmy disse que seria a hora certa.
- Você não tem idéia para onde ele pode ter ido? – Reich insistiu.
- Não. E o que eu faço com isso agora, Locke? – Brett queria saber sobre a bolinha que aprisionava Chris.
- Jogue aqui. - Ao pegar a bolinha na mão, o vampiro atirou-a em um muro. Com a maior força que pôde (e não era pouca). – Para evitar alguma coisa indesejável.
Todos se entreolharam, em silêncio, naquele clima de "e agora?". Até que várias pequenas conversas surgiram, ao mesmo tempo.

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- Você estava observando o tempo inteiro, Locke?
- Sim, Alice.
- E porque não fez nada a respeito sobre a luta?
- Eu não posso. Não posso me envolver nos assuntos dos outros, não é certo. Eu já tinha feito minha parte, dando as bolinhas para você e Brett. E eu confiava em vocês. Assim como confio em Eddie, e Vivian, e Seth. A sua geração está salva.
Alice olhou para o horizonte. Apesar de já serem quase sete da noite, e o céu ter algumas tantas estrelas, parecia que o sol se recusava a retirar sua marca dali. O lado oeste do céu estava todo alaranjado. Exatamente como Becky havia lhe mostrado na sexta à noite. E como em um degradê, o laranja se tornava vermelho, e então violeta. Ela olhou para o céu, maravilhada. E todos que estavam ali no meio da avenida parada também olharam. Aquilo era absurdamente belo. E Alice ficou feliz pela promessa de Becky ter se cumprido.
- Muito obrigado por tudo, Locke.
- Eu é que agradeço. Você tornou meus últimos dois anos um tanto mais felizes e plenos.
Alice sorriu.
- Como você conseguiu entrar no prédio afinal, Brett?
- Ah, foi simples. Eu disse para os guardas que era do serviço de TV a cabo. Foi a primeira balela que me veio na cabeça, e incrivelmente funcionou. Então eu entrei, subi para a cobertura, e a porta estava só encostada. Entrei, e coloquei a bolinha no casaco que estava pendurado do lado da porta. Só pareceu difícil, mas na hora em veio essa idéia da TV a cabo tudo se resolveu. E não tenho a mínima idéia de como funcionou.
- Persuasão sobrenatural. Parece que você leva jeito. – Locke disse.

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- Ainda quer uma luta comigo, Eddie?
- Você não tem mais suas armas. O que podemos fazer?
- Eu vou embora. Acho que eu fiz a coisa errada durante esse tempo todo.
- Sempre algo que tem que ser sacrificado, Jack. Veja a questão do capitalismo versus socialismo, por exemplo. Um deles sacrifica o bem-estar geral em troca da liberdade, o outro faz o contrário. Qual é o melhor?
- Não é uma questão disso...
- Claro que não. Sempre um grupo de pessoas vai preferir um sistema, e outro grupo o outro. O ponto é que: quem tem o direito de escolher uma opção e impor isso a todos os outros que vão ser afetados por essa escolha?
- Ninguém.
- Então, Jack. Você não fez a coisa errada durante todo esse tempo. Sua intenção era boa pelo menos, acredito eu. Mas, quando a situação chega a um ponto como tinha chegado, não se pode simplesmente impor a sua opção. É preciso um consenso.
- Sim. Mas o que percebi foi: nós vampiros não estamos acima dos mortais. Ainda somos pessoas. Então que a lei dos mortais nos inclua também, e que assim seja. Eu vou deixar um aviso no quiosque, e depois partir para a costa leste. Quero minha liberdade de volta, e quero que Los Angeles seja realmente uma cidade livre.
Eddie finalmente viu algo de bom naquele vampiro. Apertou a mão dele, desejou boa sorte, e sua moto sumiu no horizonte. Ao se virar para abraçar Vivian, viu-a de olhos fechados, como se estivesse farejando algo.
- Há um rastro de Glamour fortíssimo por aqui. Misturado com Banalidade. A Sombrinea ainda não foi destruída.
- Como, amor? – Eddie, que jurava ter acabado com aquela quimera duas vezes, perguntou.
- Seth me disse. Tudo o que tem acontecido, essa história de profecia e tudo mais, é apenas a forma que um dos piratas arrumou para acabar com a quimera de estimação de outro. São os joguinhos deles, a maneira que eles encontraram para não se entediar com a eternidade. E é como se fôssemos apenas peças em um tabuleiro, ou coisa assim.
- E o que podemos fazer? – Alice, que já tinha pensado um monte sobre isso, perguntou, dando de ombros.
- Não sei... – Vivian respondeu confusa.
- Ela está certa, linda. Além disso, tem o seu primo. Precisamos salvá-lo ainda. O quê mesmo tem essa quimera?
- Deve ser ela que está possuindo Jimmy.
- Exato. Provavelmente. – Reich observou. – Sabe alguma coisa sobre a Sombrinea, Locke?
- Ela me procurou, um tempo atrás. Devem fazer alguns anos, na verdade. Não me lembro direito.
- E o que ela queria?
- Não sei, ela surgiu em um sonho. Tudo está muito nebuloso agora, mas eu lembro que ela me ofereceu várias coisas. Em troca de um simples lugar para se esconder... meu corpo, no caso.
- Ela provavelmente soube que ia ser destruída, por isso procurou alguns refúgios. Provavelmente os piratas sabem sobre as armações de seus colegas.
- Então... – Eddie disse, impaciente – vamos achar Jimmy logo. Essa quimera já está me cansando.
- Como vamos achá-lo?
- É só seguir o rastro. – Vivian concluiu. – Se ela voltou para Jimmy, deixou um rastro de Glamour. Vamos, logo.
Então Eddie, Reich, Brett, Alice e Locke seguiram pelo caminho que Vivian mostrava. Mas, não precisaram percorrê-lo inteiro; encontraram Jimmy ainda na Ocean Avenue. Visivelmente mal.

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Vivian de forma alguma reconheceria aquele cara que caminhava na direção deles como sendo seu primo. O olhar perturbado, a pele pálida, o cabelo desgrenhado, a enorme tatuagem nas costas; não, aquele não era Jimmy Crow, o primo engraçado e aventureiro que aparecia de vez em quando. Como ela adorava aquele Jimmy. E agora tinha que vê-lo naquela situação. Mais uma obra daqueles malditos piratas. Se ela tivesse condições, caçaria os responsáveis até o fim do mundo.

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- É você que está aí, Jimmy? – Reich perguntou para o próprio Jimmy. Seria uma pergunta engraçada, fosse outra a situação. A resposta veio no mesmo idioma incompreensível lembrando filmes de terror que Alice tinha ouvido no dia anterior.
- A quimera disse que não há mais chance. Ninguém tira ela desse corpo. – Todos olharam para Locke, “como assim ele sabe isso?”. – É aramaico.
Jimmy concentrava a mesma energia roxa na ponta de seu cajado. Ele começaria a acabar com todos ali em breve. Ninguém disse nada, até que Eddie criou suas lâminas de energia novamente.
- Vamos ter que matá-lo, então.
- Amor... não.
- É nossa única escolha, Vivian.
- Isso não é uma escolha. – ela respondeu com algumas lágrimas nos olhos. – Tem que haver algum jeito de trazer meu primo de volta. Não é, tio?
- A cada momento eu tenho mais receio que não.
Vivian olhou longamente para Reich, então para Eddie mais uma vez. Ele estava parado, fitando-a e esperando alguma resposta. Como se a permissão dela fosse a única coisa que ele precisasse para pular em Jimmy e fatiá-lo em zilhões de pedacinhos. A única coisa que ela conseguiu dizer foi:
- Não sei mais o que fazer então.
Eles poderiam estar confusos, mas não se ligaram no fato de que não tinham todo o tempo do mundo. Quando finalmente Eddie resolveu tomar uma atitude, saltou para cima de Jimmy. Ele ergueu seu cajado, e a esfera roxa voou em direção ao peito do carniçal – que ainda tentou criar um escudo protetor, em vão. Ele foi simplesmente arremessado para trás, uns cinco metros, e então começou a se contorcer, agonizando. Alice virou o olhar, aquilo subitamente lhe trouxe más lembranças; tudo o que ela tinha esquecido sobre a outra tarde voltou em um átimo. Vivian correu para tentar ajudá-lo, mas então, repentinamente, Eddie sumiu. No mesmo instante, Jimmy desmaiou.

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Aquela coisa roxa em seu corpo não se comparava de forma alguma a ser mergulhado num lago de ácido, ou arremessado por uma janela e cair alguns andares. Era pior, muito pior. Ele desejava a morte a cada milésimo de segundo que passava naquela situação, cada vez mais e mais. Bem, se lembrou do que Becky tinha lhe dito sobre o destino... então aquela era sua hora. Flashes de momentos bons voavam pela sua cabeça, sem parar. E no momento em que conseguiu abrir os olhos, viu Vivian correndo para ele. Seus olhos cor de mel cheios de lágrimas; ele não queria que ela chorasse. Queria vê-la feliz, mas estava vendo que seria difícil por um tempo. Ela realmente gostava dele. E ele gostava dela mais ainda. Era a pessoa mais importante de sua vida, a amava com todas as forças. Fechou os olhos novamente, se concentrou no rosto dela, e então a dor parou. “Como assim?”, pensou enquanto abria os olhos. E ele não estava mais na Ocean Avenue. Se levantou, olhando ao redor, e viu um pequeno lugar branco e fechado – exatamente como Jimmy tinha criado no dia anterior. E, sentado em um banquinho de três pernas, estava Inimigo. A antiguíssima quimera pirata esqueleto. Que ainda lembrava uma caricatura de Raposa.

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- Edward Reel. Pena que eu não posso dizer que é um prazer revê-lo.
- Você...
O pirata o interrompeu, fazendo um gesto como se estivesse fechando um zíper. E esse zíper era a boca de Eddie; de repente ele não conseguia mais abri-la, ou dizer nada.
- Escute. Eu teria três escolhas agora: simplesmente te exterminar agora mesmo; te mandar para o lugar aonde a Sombrinea está escondida, que é dentro da mente de Jimmy, e então você faz o seu melhor possível para acabar com ela; ou te mandar de volta para a avenida, e sumir com aquele garoto ambicioso. Porque você destruiu a forma física da minha quimera, duas vezes. Não há como refazê-la uma terceira vez. Você tem direito a uma pergunta. – e abriu o zíper imaginário.
- Se você é o pirata que criou a Sombrinea, quem escreveu toda essa história?
- Oculto. – Inimigo fechou o zíper novamente. – Se esse não fosse o trabalho dele, que aliás é igual ao meu, eu estaria um tanto bravo. Sabe, é chato quando alguém destrói uma criação sua. – tirando uma velha pistola de dentro da camisa e colocando no colo, ele abriu o zíper novamente. – Fale. – e apontou a arma para a cabeça de Eddie. Ele não tinha a mínima idéia do que dizer naquela situação, parecia um perder ou perder.
- Não é possível arrumar outro corpo para a Sombrinea que não o de Jimmy?
- Sabe... não. O garoto tem a quantidade exata de poder para maximizar as capacidades da quimera, sem que consiga tomar controle sobre ela quando quiser. E além disso, foi uma escolha dele.
- Foi?
- Sim. Ele aceitou a quimera dentro de si, em troca de poder, compreensão própria, e vida eterna. Aqui está o contrato.
Inimigo desenrolou um pedaço de papel velho. Eddie riu.
- Qual o valor disso?
- É um valor maior do que a sua vida, disso eu tenho certeza. Vida aliás que eu posso terminar quando quiser. – e engatilhou a velha pistola. É, o pirata não estava para brincadeira. – Então, o que vai escolher?

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Quais eram as opções de Eddie? Será que Inimigo realmente o deixaria tentar destruir a Sombrinea? Provavelmente não. Então ele podia entregar sua vida e tudo terminava ali, ou entregar a vida de Jimmy, voltar para a avenida, e ser eternamente o responsável por ter acabado com o primo de Vivian. Ela o perdoaria um dia? Qual a chance?

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- Atire, Inimigo.
- Realmente?
- Sim. Atire. Acabe com isso logo.
- Se é o que você deseja.
Parece que o pirata prolongou aquilo o máximo. Não era possível que demorasse tanto para um dedo esquelético apertar um gatilho. Eddie fechou os olhos; provavelmente o pirata ainda ia querer zoar com a sua cara e ia fazer a bala voar em câmera lenta – ele não queria ver aquilo. Pensou em Vivian uma última vez, e então “Bang!”, a pistola atirou. E nada aconteceu. Eddie abriu os olhos, e viu Inimigo rindo.
- Tolo.
Ele não estava morto. Agora quem ia morrer era aquele pirata. A qualquer custo. Eddie saltou para cima dele, derrubando-o do banquinho. Segurou seu pescoço, dizendo exaltado:
- Qual o direito que vocês têm de fazer isso? Acham que o resto do mundo são só peças para seu joguinho eterno?
- Sim, Edward. É o nosso propósito. Fomos criados para isso.
Eddie socou a cara do esqueleto com toda a força que podia; o crânio saiu totalmente do lugar. Inimigo colocou-o de volta com as duas mãos, e depois empurrou o mago carniçal. Ele foi arremessado e se chocou contra a parede daquela micro-dimensão. Caído no chão, apenas olhou para o pirata que se aproximava com um sabre dourado.
- Isso não faz o menor sentido.
E não fazia. Eddie contemplou os últimos dias de sua vida, desde que tinha sido pego pela Sombrinea pela primeira vez, na quinta-feira. Campos intermináveis de girassóis, um castelo de vidro, pés-de-alface vivos, homens-lagarto sedentos por sangue, piratas esqueletos, bolinhas aprisionadoras de almas, dimensões paralelas.
- Me diga, Edward. Qual o seu propósito?
- Eu já não sei mais.
- Resposta errada.
Bem em sua frente, o pirata ergueu o sabre para dar um último golpe. Então, como se algo tivesse o atingido, ele parou. O sabre caiu. E aquele lugar branco e vazio foi se preenchendo novamente.

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Vivian olhou ao redor, desesperada.
- O que está acontecendo? – perguntou ao seu tio.
- Sinceramente, eu não sei.
Ela olhou ao redor. Brett e Alice, tão perplexos quanto ela. E Locke com o mesmo olhar confuso de seu tio. Todos ficaram em silêncio, tentando entender aquilo, até que Jimmy começou a murmurar, ainda caído e de olhos fechados.
- ...depois que os piratas se forem, ainda haverá a sombra deles... então o caos vai vencer a ordem, e a ordem vai se ver diante de uma escolha, entre a própria vida e a de outros. Mas não importa, essa escolha será errada. Então o caos vai se voltar contra sua própria sombra, criatura se unirá a criador; e de volta ao oceano essa sombra será iluminada, até que o mais antigo de todos assuma seu novo emprego. E esse é o fim da história.
E ao terminar de falar, Jimmy abriu os olhos. Seu cajado tinha desaparecido aos poucos, enquanto ele dizia, assim como sua tatuagem nas costas. A Sombrinea tinha saído dele novamente.
- Jimmy! Você está bem?
- O que está acontecendo?
- Claro, você não lembra. Você acabou de dizer o final da profecia.
- Que profecia?
Reich olhou para Jimmy, pensando por onde começaria a explicar. È, ele realmente não sabia o que estava acontecendo. Mas, antes que pudesse dizer algo, as coisas começaram a sumir ao redor do jovem mago. O campo branco estava voltando.
- De novo não... – disse Alice.
Jimmy olhou para ela, confuso. Ele se lembrava daquela ruiva, só não conseguia dizer de onde. Então o campo branco se expandiu de uma vez, e Eddie surgiu, junto com um pirata esqueleto. E o campo branco sumiu novamente. E o vento parou, e qualquer som que se pudesse ouvir ali foi abafado. Apenas a mesma voz infernal que falava pelo corpo de Jimmy se fez ouvir, agora saindo de Inimigo. A criatura estava unida a seu criador.

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- Lá vamos nós de novo, então. – Eddie disse, enquanto ativava novamente suas lâminas de energia mágica.
- Sinto muito, mas não é bem assim.
Todos olharam para Locke.
- É algo possível de ser feito. Eu já tenho lutado demais nesses últimos dias, para desistir agora. - Eddie, é o que o pirata acabou de dizer, ou a quimera, ou a entidade por trás, não sei. Como se espera vencer uma criatura que existe há 20 mil anos?
O mago carniçal olhou para Locke, com um leve tom de desespero. E não só ele; ninguém ali tinha idéia do que poderia fazer. Faíscas roxas saíam de cada dedo ossudo do pirata esqueleto; suas órbitas oculares vazias preenchidas por chamas negras. Como se a vida daquelas pessoas ali – três magos, dois vampiros, uma carniçal, uma changeling – estivesse por um fio, dependendo da única e simples vontade dele. E realmente estavam.

Um comentário:

Unknown disse...

e o fim se aproxima!
Já pode começar a treinar a pose pra foto da contra-capa.
Um beijo pra vc