Era uma questão de honra Eddie esperar Jack estar armado, pelo menos. E logo que o vampiro tirou duas espadas das costas, – duas espadas exatamente iguais às de Raposa – Eddie deu um longo salto para a frente, já atacando. Tequila aparou imediatamente; ele também tinha a tal Rapidez. Os dois se golpeavam, esquivavam, um aparava os golpes do outro. Alguns chutes, saltos, recuos estratégicos. E, lutando ali no meio da avenida completamente vazia, Eddie logo percebeu dois fatos engraçados: primeiro, suas lâminas não atravessavam as espadas de Jack, como era de se esperar; ou seja, havia algo de especial naquelas espadas. E segundo, o jeito que o vampiro lutava lembrava um tanto o jeito de Raposa. Até parecia que eles tinham aprendido a manejar duas espadas longas juntos.
- Quem te ensinou a lutar, Tequila?
- É o velho estilo da costa oeste, espadas gêmeas. Como era ensinado cem anos atrás.
- É um tanto falho. – disse Eddie, desdenhando de seu oponente. Ao mesmo tempo, fez um círculo com o braço, algo que seu oponente não esperava. Surpreso, Jack foi atingido pela lâmina do mago no lado direito do tronco, em cheio. Ele logo largou uma das espadas e apertou seu ferimento com a mão, por reflexo. Aquilo ardia insuportavelmente. E não era algo facilmente curável usando o poder do sangue. Eddie saltou para trás, e esperou por um momento. Se fosse Raposa, ele já teria o fatiado em pedaços minúsculos. Mas, com Jack, aquele que representava Morte para ele, ele queria uma luta mais justa. Então fogo caiu do céu. Aquela luta terminava naquele momento. E uma nova começava. Porque o Oculto se mostrava.
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Christopher John McCandles nasceu em Nova York, por volta de 1860 – a data é incerta. Filho de uma das famílias burguesas da cidade, foi mandado quando tinha 18 anos para Boston, para estudar em uma renomada universidade da época. Estudou inglês clássico, física, astronomia. Era um dos melhores alunos de sua turma, o que poderia levá-lo a um mestrado. Não foi o que aconteceu. Um de seus professores, um senhor estranho e pálido, que só saía à noite – diziam que ele tinha uma rara doença de pele – o convidou para trabalhar com ele em sua pesquisa. Chris aceitou, e logo descobriu que na verdade a pesquisa não envolvia física ou astronomia, tampouco inglês clássico.
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A verdade é que o professor de Chris era um vampiro, do clã dos Tremere – conhecidos por serem os feiticeiros e conspiradores, e um clã fechado e unido mais do que qualquer outro. Unido é modo de dizer, claro; o egoísmo e instinto animal natural a cada pessoa e ainda mais aguçado nos vampiros (que têm que matar outros humanos para sobreviver) não permitem uma “união” propriamente dita, mas enfim, os Tremere seguiam a uma hierarquia, e assim conseguiam trabalhar para um bem comum. Chris foi transformado em vampiro – era um talento muito grande para ser desperdiçado, dizia seu mestre – e logo começou a praticar magia. Praticou bastante as trilhas das chamas, e a do movimento (assim ele poderia voar um dia, disse seu mestre). E ele também praticou o chamado trato social; seu senhor era o Tremere mais antigo de Boston, logo tinha um lugar no conselho dos anciões. O que tornava o jovem vampiro Chris um mascote para aqueles velhos. Ele abandonou sua família mortal, e ficou vivendo ali.
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Quando Chris tinha por volta de 100 anos, seu mentor lhe mandou em uma missão. Ele devia atravessar o país, ir até Los Angeles, e derrubar o antigo príncipe, assumindo o lugar. E depois de algum tempo, seu mestre iria para lá para ficar com o trono da cidade. Ele apresentou todas as informações, e um plano que não tinha falhas. Chris aceitou a proposta, sabendo que depois iria mudar todo o plano, claro. Então atravessou o país e foi para a costa oeste. Ao chegar lá, uma surpresa: as duas crias do príncipe tinham o abandonado. Ambos foram viajar o país, cada um seguindo seu caminho. Foi muito mais fácil eliminar o príncipe do que pareceria. Então Chris simplesmente persuadiu os outros anciões, que eram poucos, e assumiu o principado.
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O que o senhor de Chris não contava é que sua cria era ainda mais ambiciosa que ele. Ele deveria chegar um mês depois que o novo príncipe tinha assumido o trono; a esse ponto, Chris já tinha criado quatro carniçais, que emboscaram o antigo vampiro na estação de trem. Ele foi capturado, e teve todo seu sangue drenado pela própria cria. Depois, para sumir com evidências, matou os quatro carniçais, e explodiu o trem que trazia seu senhor. Estava livre dos outros Tremere, e agora tinha uma cidade para brincar.
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No começo dos anos 70, surgiu o primeiro problema para Chris. Uma das crias do antigo príncipe voltou, reclamando o principado – que supostamente era seu por direito. Chris logo pensou em exterminar aquele vampiro, mas percebeu que ele era visivelmente mais poderoso que seu senhor. Ao invés disso, resolveu fazer um acordo com ele. Teria uma grande área da cidade como sua, e a liberdade para fazer o que bem entendesse, enquanto não criasse problemas. Assim estava formada a aliança entre Chris McCandles, e Michael Raposa Forwell.
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Um pouco depois que Raposa voltou à cidade, uma outra pessoa também voltou. Emily Butterfly, uma proeminente pintora e escultora de Nova York, resolveu voltar a Los Angeles – sua cidade natal. E logo que chegou foi se apresentar ao príncipe (como manda a etiqueta); ela era uma Toreador. Chris ficou encantado com sua beleza desde o primeiro instante. E ele nunca tinha ficado com nenhuma mulher antes (meio que não tinha tempo para isso); queria aquela artista desesperadamente. E conseguiu, após alguns jantares. Emily nunca soube (ele tinha medo de falar), mas foi a única pessoa que conseguiu fazer Chris pensar em alguma coisa além de si mesmo. Ficaram juntos por quase dez anos. Até que algo os separou.
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O conselho de anciões de Los Angeles era pequeno, formado por apenas 4 vampiros – além do próprio Chris. O que devia ser o representante do clã Brujah era Raposa (que não se importava com essas politicagens), e não havia nenhum do clã Gangrel na cidade. Mas esse conselho não importava muito, no final das contas eram todos fantoches de Chris – que tinha comprado todos ao chegar à cidade. Mas então alguma coisa aconteceu, e todos os quatro anciões foram mortos. Um por noite, um após o outro. E ninguém conseguia dizer como isso acontecia. Até que na quinta noite, quando estava indo visitar Emily em seu carro, Chris foi cercado por motos. O grande responsável por isso era a outra cria do antigo príncipe, “irmão” de Raposa. Seu nome, Jack Tequila. Acompanhado de sua gangue de anarquistas. O objetivo deles era derrubar o principado, e instalar um estado livre. Como era em Seattle – cidade em que Jack tinha passado os últimos cinco anos, aprendendo com outros revolucionários como ele. Jack usou o Chamado para convocar todos os vampiros da cidade. Nem todos apareceram, mas havia um quorum para que uma assembléia fosse possível. E ali, naquela noite, foram apresentadas a Chris duas alternativas: aceitar aquela nova lei, ou ir embora. Ele escolheu a segunda opção. Sabendo que voltaria um dia.
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Chris foi embora aquele dia, mas na noite seguinte voltou para sua cobertura, sem que ninguém soubesse. Fazendo o máximo de esforço possível para não ser visto enquanto montava seu plano, foi estudando ainda mais magia, até descobrir sobre o Sonhar. E depois, sobre a Sombrinea. Era uma antiga quimera consciente, que procurou Chris em determinado momento. Ele viu que aquela criatura seria útil em algum momento, mas não sabia para quê. Até que Raposa o encontrou, e os dois confabularam sobre o assunto. Raposa não gostava de Jack Tequila, por uma única razão: o mentor dos dois gostava mais de Jack. E ele era o “filho renegado”. E caso Chris voltasse ao poder, Raposa poderia ter de volta os benefícios que tinha antes. Então, os dois poderiam criar alguma confusão qualquer na sociedade vampírica, para provar que a idéia de terra anarquista de Tequila era simplesmente ineficiente. Chris foi armando pequenos conflitos aqui e ali, até a noite em que Raposa explodiu o ateliê de Emily. Ele não queria fazer isso com ela, mas não tinha outra escolha. Queria seu trono de volta. E com a Sombrinea fazendo a avenida parar, haveria um ponto para onde todos iriam em algum momento, no final de tudo. E assim aconteceu. Ficou em cima de um prédio, observando a luta entre Jack e o garoto carniçal por um tempo, até encontrar o momento certo. Jogou fogo – pirotecnia sempre dá style points – e desceu para a avenida. Era hora de eliminar os dois únicos empecilhos em seu caminho de uma vez só.
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- Vamos pegá-lo antes. Depois a gente termina isso. – Eddie disse, enquanto curava com magia o ferimento que ele mesmo tinha feito em Jack.
- Pode ser.
Logo que Eddie e Jack começaram a correr na direção de Chris, o antigo príncipe jogou outro jato de chamas, que Eddie desviou com um movimento de seu braço.
- Vai precisar de mais do que isso. – falou em tom de desafio.
- Claro que sim, - e estalou os dedos – vocês são pouco mas ainda dão trabalho.
Uma sombra surgiu atrás de Chris, uma sombra enorme. Eddie reconheceu-a na hora, era a mesma quimera que estava no ateliê de Emily; a mesma que ele tinha destruído ao ir para o Sonhar pela segunda vez. Acabar com ela daquela vez não tinha sido o bastante?
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Enquanto andava pela praia, invisível e perturbado, Jimmy sentiu um bem-estar repentino. E então ele não estava mais invisível, seu cajado tinha sumido, e a tatuagem em suas costas também. Como assim, a Sombrinea tinha saído do corpo dele? Sentou na areia, aliviado, até que alguns momentos depois... ela voltou.
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- O que diabos é isso, Eddie?
- É uma quimera. Criaturas feitas de sonho, têm a ver com as fadas e tal.
Os dois olhavam, parados e apreensivos. Chris também não se movia, e a sombra apenas balançava de um lado para o outro. Era visível a tensão, qualquer um dos quatro ali poderia atacar a qualquer segundo.
- Jogue em Chris quando eu saltar, Jack. – e Eddie jogou para Tequila uma pequena bolinha de fita adesiva amassada. Ele olhou, sem entender, mas resolvendo confiar no garoto da estrela, o que diziam ser o predestinado.
Então o segundo decisivo aconteceu; ao mesmo tempo, a Sombrinea desceu na direção de Eddie, e Eddie saltou na direção dela. Chris abriu as mãos, apontando para a frente, e um jato de fogo – enegrecido e sinistro, por alguma razão – foi jogado em Jack. Ele arremessou a fita adesiva amassada no meio do jato, e alguma estranha aconteceu: o fogo foi sendo puxado pela bolinha, e formou uma grande bola de fogo. Mas, antes de ela atingir Chris, ele fez um outro movimento com a mão; e a bola desviou sua trajetória. De volta para Jack.
- Pegue essa.
Jack teve tempo de saltar para o lado ainda, e não se feriu nem um pouco – apenas chamuscou um pouco seu cabelo, e ficou caído. E ali, caído, ele viu Eddie ainda no ar, depois de seu grande salto em direção à Sombrinea. Ele parecia estar saltando em câmera lenta, como se houvesse algo no ar o atrasando ou roubando sua velocidade magicamente aumentada. Então, antes de atingir a quimera em cheio com suas lâminas de energia, ele ainda soltou uma pequena esfera mágica – da cor das lâminas – em Chris. O vampiro por pouco não viu, estava mais preocupado com Jack Tequila. Mas, conseguiu desviar daquilo; – usar sua trilha do movimento para jogá-la de volta em Eddie não era possível, aquela energia mágica não tinha massa – o que não conseguiu foi fazer alguma coisa para proteger a Sombrinea.
- Tchau de novo, quimera.
E Eddie despedaçou-a com suas lâminas. Ele praticamente dançava no ar, cortando aquela massa disforme de sombras de todos os jeitos possíveis. E os pedaços pareciam dissolver com o vento, o vento que soprava para o litoral. Então, ao terminar, caiu agachado no asfalto. Se ele tinha aprendido alguma coisa nos últimos dias, era que quimeras não dão muito trabalho para destruir.
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Logo depois de se esquivar da esfera de Eddie, Chris usou sua trilha do movimento mais uma vez; desta, para convocar duas espadas que ele tinha deixado no topo do prédio. Eddie percebeu na hora, eram as mesmas que Raposa tinha usado na outra noite. Iguais às de Jack. E os dois vampiros começaram a lutar, e Eddie percebeu que Chris também lutava como os dois outros. O velho estilo da costa oeste, espadas gêmeas. Como era ensinado cem anos atrás.
- Aonde aprendeu a lutar assim, Chris?
- Com seu mestre. Quando o matei e tomei o sangue dele.
Jack titubeou por um momento ao ouvir isso, o que permitiu a Chris atingi-lo no braço. Ele logo regenerou o ferimento com o poder do sangue; era um machucado normal, não feito por uma energia mágica.
- É claro, porque nunca pensei nisso? Você tomou o principado quando eu fui embora...
- Sim. E será meu de novo essa noite. Porque enquanto você relaxou depois de ter a cidade para você, eu continuei praticando e me aperfeiçoando. O mundo pune os preguiçosos, Tequila.
A luta estava equilibrada, mesmo assim. Os dois se atingiam ocasionalmente, mas ainda pareciam ter bastante sangue vampírico para se regenerar. A diferença é que Jack ia ficando cada vez mais cansado, enquanto Chris não mostrava sinal de desgaste algum. Eddie já ia entrar na luta para fazer alguma diferença, mas então viu Reich, Vivian e Alice se aproximando. Finalmente. E também, aquela luta entre Jack e Chris pertencia a eles. Eddie desfez as lâminas mágicas e correu para abraçar Vivian.
- Tudo bem, amor?
- Sim, estou um pouco cansado só. Por isso deixei os dois resolvendo os assuntos deles.
Nesse momento, Chris olhou para as pessoas novas que chegaram ali. Ninguém que ele conhecesse. Então, com um piscar de olhos, – enquanto ele continuava no duelo de espadas com Jack – uma onda de chamas irrompeu do chão, e foi na direção de Eddie e os outros. Eddie tentou pará-la com um movimento de seu braço, mas não adiantou. Foi Reich quem protegeu a todos, criando um escudo protetor. As chamas arderam por mais um tempinho, depois se dissiparam.
- Olhem isso. – disse Alice, tirando a bolinha de vidro de seu bolso. Ela brilhava com uma cor vermelha, e parecia que tinha uma chama dentro. Uma chama enegrecida, como as que Chris convocava magicamente.
Então algo chamou a atenção de todos: uma luz, ofuscante, saindo de dentro do bolso do casaco de Chris. “Brett conseguiu”, Alice pensou. E do alto de um prédio, Locke observava tudo. “O garoto do sangue fraco conseguiu mesmo”. Chris, surpreso, parou por uma fração de segundo para ver o que era aquilo; e foi essa fração que Jack precisou para acertá-lo em cheio no peito, com as duas espadas.
- Te peguei. - Chris respirou fundo, e olhou no fundo dos olhos de Jack. Agarrou os braços do anarquista com toda a força, tentando tirar as espadas, mas com o choque e a dor ele não tinha forças para isso. Então, uma voz se aproximou, correndo pela avenida.
- Alice! Jogue a bolinha nele!
Era Brett, já arremessando a que ela tinha lhe dado. Jimmy tinha lhe dito para o que servia, e aquela era a hora certa. Alice, confiando na pessoa que tinha procurado a tarde inteira em vão, também jogou sua bolinha em Chris. Todos olharam, em suspense. E por algum motivo, como se houvesse alguém brincando de efeitos especiais com o mundo, as bolinhas voaram em câmera lenta pelo ar, cada vez brilhando mais e mais conforme se aproximavam de Chris, e da outra bolinha que Brett tinha escondido em seu bolso – e ele nem tinha percebido. Então, Jack foi arremessado - também em câmera lenta - para trás por alguma força invisível, suas espadas ainda cravadas em seu adversário. As duas bolinhas que voavam vindo de lados opostos se abriram; como uma nuvem de vidro quebrado, amassado e pulverizado. Essa nuvem envolveu Chris, e um clarão branco aconteceu. Todos fecharam os olhos, e quando abriram, Chris tinha sumido. Aonde ele estava parado, havia uma bolinha de vidro caída no chão, maior do que as três que haviam antes. Brett andou para lá, e pegou a bolinha. Dentro dela, ele conseguia ver Chris, aprisionado em alguma dimensão bizarra qualquer.
- Funcionou mesmo. – disse, rindo. Todos olharam, com um misto de surpresa e choque. Como ele tinha feito aquilo?
terça-feira, 7 de julho de 2009
Capítulo 43: The Unforgiven III
Postado por
Luiz Costa
às
11:11
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Um comentário:
Postado por Lizo "Miguxo" Flack às 11:11
medoooooooo
hehehe tá mto bom, lindo...bjao!
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