Todos estavam chocados com o que tinha acabado de acontecer. Aquilo não fazia o menor sentido, não era algo que se esperasse em uma situação daquelas. Eddie foi o primeiro que conseguiu dizer alguma coisa:
- Porque isso aconteceu, Morte?
- Inimigo enlouqueceu. Fez coisas que estavam além de seu dever e função. Então, não fazia mais sentido ele continuar existindo se não fosse para cumprir sua tarefa.
- Qual a tarefa de vocês, afinal?
- Movimentar a realidade um pouco. Sabe, mexer, chacoalhar, dar um pouco de graça aos acontecimentos. O Observador estava errado quando conversou com você, mocinha. – e apontou para Vivian, que olhou indignada.
- E para isso vocês ficam usando pessoas como se fossem peças em um joguinho?
- É um joguinho necessário. – Oculto respondeu para ela. – Pense bem, se esse final de semana não tivesse acontecido: Alice e Eddie nunca se conheceriam e nunca seriam os grandes amigos que serão em algum ponto do futuro, você não daria o mínimo valor a sua condição de Changeling que só lhe trouxe benefícios durante sua vida, mesmo que você não tenha percebido; um traficante de heroína que na maioria do tempo só trouxe malefícios ao mundo ainda estaria vivo, e enfim, várias coisas... vocês estão saindo dessa melhor do que entraram.
Vivian não aceitou aquilo naquele momento, e demorou um tempo para entender que tudo tem um lado bom na maior parte do tempo – sim, ela era bem teimosa. Ela abraçou Eddie, que olhou para os piratas com um ar solene; o mesmo de Alice.
- E tome cuidado, você. – Morte disse para Jimmy, que lhe sorriu. – Locke, podemos conversar?
- Claro.
E o vampiro ancião foi embora com os piratas. Enquanto eles se viravam, Brett – que não se manifestava há tempos, perdido em seus pensamentos e nos acontecimentos que aconteciam ao redor - disse um simples "Obrigado". Morte se virou, sorriu, e foi embora. Não se ouviria falar de Locke por alguns meses, até Alice receber uma carta dele. Ele recebeu um convite dos piratas para se juntar a eles, ocupando o lugar de Inimigo; e não aceitou. Ao invés disso viajou para o Alasca, para passar o resto de seus dias em isolamento. Talvez um dia ele voltasse a Los Angeles... ou não.
-//-
- Então... acabou? – Brett perguntou aos outros, enquanto recolhia os dois sabres que tinham ficado caídos no asfalto.
- Tudo ainda está parado, né. – e Alice olhou com visível desaprovação para Jimmy.
- Saiam do meio da rua, por favor.
Jimmy Crow não tinha a mínima idéia de como tinha feito tudo parar, ou do quão grande era a magnitude daquele feito – ele mal se lembrava de como tinha sido seu último dia, aliás. Mas sabia intuitivamente como acabar com aquilo e fazer tudo voltar ao normal; só tinha que esperar o momento certo. Que tinha chegado. Reich, Alice, Brett, Eddie e Vivian subiram para a calçada, então ele ergueu o braço direito e estalou os dedos. Logo um carro virou na esquina mais próxima, os semáforos voltaram a funcionar, pessoas a pé em busca de diversão estavam chegando. Foi algo único, ver uma avenida que nunca pára – nunca mesmo - sendo "reiniciada".
- Agora sim, Brett. Tudo acabou. E eu só quero ir para casa.
-//-
Brett e Alice seguiram para um lado da avenida, Reich e Jimmy para o outro. Eddie e Vivian atravessaram a rua; Eddie só queria ver sua cama – não entrava em casa desde quinta à tarde, e estava absurdamente cansado. E com saudades de Vivian, também.
- Então você e Alice serão grandes amigos um dia?
- Bem, é o que o pirata disse, né. Você ainda não vai com a cara dela?
Vivian olhou em silêncio para o chão um pouco.
- Nada a favor, nada contra. – Mentira. Ela tinha um tanto a favor (acordá-la logo depois da luta com Raposa), e um tanto contra (o que ela tinha lhe dito no banheiro do Hell’s).
- Ah, sabe, é só o jeito meio estranho dela. Mas é uma boa pessoa, no final das contas. Assim como Brett, e Howie...
- E meu primo.
Eddie não tinha o que dizer. Ele nunca conheceu o verdadeiro Jimmy Crow.
- Claro.
Na verdade ele não queria dizer nada, ou pensar nada sobre o que tinha acontecido nos últimos dias. Queria só relaxar a cabeça, curtir um tempo com sua namorada. E aquela noite de domingo foi finalmente uma noite feliz.
-//-
- Não adianta vir me dar sermão, tio.
- Não é sermão. Eu só queria saber o que você fez, e porque fez essa escolha.
- Não sei. Não sei. Me pareceu uma boa escolha no momento, eu acho.
- E desde quando fazer um acordo com uma entidade em troca de poder é uma boa escolha?
- Poder e compreensão. Não é isso que a Irmandade prega, a busca da compreensão?
- Não por esses meios.
- Você mesmo me disse uma vez, "os fins justificam os meios".
Reich ficou em silêncio por uns instantes. Por mais que ele tivesse dito isso, já tinha deixado de acreditar nessa frase há uns cinco anos. Destrancou a porta do carro e entrou.
- Vamos para casa. O que você vai fazer?
- Pegar minhas coisas, depois vou para o aeroporto. O próximo vôo para a Argentina é meu.
- Já vai?
- Não sou mais bem-vindo aqui, e esse era meu plano desde que vim para cá. Qual o sentido de ficar enrolando?
- Você é bem-vindo sim, Jimmy.
- Mas me parece que não da mesma forma que antes. E preciso corrigir meus pecados, sabe.
- A escolha é sua. Se quiser ficar...
- Muito obrigado, tio. Mas só vou pegar minhas coisas e vou embora.
- Tudo bem.
Os dois não trocaram mais uma única palavra até chegaram à casa de Reich, e depois tudo que disseram para o outro foi um "Até mais". Reich estava buscando motivos para entender seu sobrinho (sempre tão centrado, apesar de seu jeito rebelde); e Jimmy buscava motivos para entender a si mesmo. Eles teriam tempo para isso. E eventualmente tudo se resolve, e a vida continua.
-//-
- Vai pegar o metrô, Alice?
- Isso. Já andei o bastante por hoje.
- Não quer uma carona?
- Não precisa. E eu gosto da sensação de estar sozinha na multidão, sabe.
- Certo. Bem, a gente se vê por aí.
Os dois se olharam meio estranhos, e se despediram com um aperto de mãos esquisito. Ela não tinha muito jeito com pessoas mesmo, Brett percebeu. E então ela entrou na estação da Richards, enquanto ele continuou andando para casa. Até ver um rosto conhecido sentado em um banco que lhe era bem familiar. Atravessou a rua meio correndo, ela o viu, e sorriu.
- Emily.
- Boa noite, Brett. Como você está?
- Muito bem. Tranqüilo. E você?
- Indiferente, eu acho. Fui para o quiosque em Brentwood, ver o que estava acontecendo. E lá encontrei um recado na parede, e nada mais. Chris e Raposa estão mortos, Jack foi embora.
- Eu sei, Emily.
- Sabe, querido... por mais que isso pareça que se resolveu, minha vida ficou tão vazia de repente.
- Quanto tempo faz que você está aqui?
- Uns... dez minutos.
Sem saber o que dizer, Brett apenas olhou nos olhos dela, e uma fresca brisa de outono soprou.
- Você está com frio? – ela perguntou.
- Não, eu acho.
- Eu queria um casaco...
Era claro que o que ela queria na verdade era ir para a casa dele de novo. Bem, não era tão claro, mas bastava ele convidar. No entanto, ele tinha Mary lhe esperando. Não fazia o menor sentido ficar ali, conversando com Emily, e se enrolando.
- Sabe, Emily... eu realmente gostei da nossa noite sexta, mas... é o que você disse. Eu não posso dar o que você precisa. E tem alguém me esperando lá em casa. Não faz sentido eu ficar aqui conversando com você e me aproximando cada vez mais se é algo que não dá algum futuro.
- Claro. – Ela respondeu, com um leve sorriso. – Eu já disse, quero tudo de bom pra você.
Brett abraçou-a (ela tinha mais jeito com pessoas do que Alice), e voltou para seu apartamento. Não havia ninguém em casa, apenas um bilhete dizendo "Mais tarde eu volto, meu amor". O que ele poderia fazer? Apenas tomou um banho de meia hora, ligou um som, e ficou refletindo sobre a maluca reviravolta de sua vida desde que entrou no Hell’s Kitchen na quinta-feira. Será que o pirata incluía ele ao dizer "vocês estão saindo dessa melhor do que entraram"? Talvez sim, talvez não. Na verdade, provavelmente sim, foi o que concluiu quando Mary voltou para casa. Beijou-a longamente, olhou em seus brilhantes olhos azuis, e sorriu por tudo ter terminado assim. Se bem que aquele era só um começo.
terça-feira, 14 de julho de 2009
Capítulo 46: The Brilliant Dance
Postado por
Luiz Costa
às
12:36
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