terça-feira, 14 de julho de 2009

Capítulo 45: Tuolumne

Depois de algum tempo confuso após ter levantado de seu transe, Jimmy finalmente conseguiu usar sua magia de mente para rever as próprias lembranças. Era um truque útil que ele tinha aprendido, logo no começo de seu treinamento com Reich: recapitular as idéias e ações feitas, para poder entender melhor o que acontece na vida. E pensando de forma organizada, chega-se a soluções muito mais rápida e efetivamente. Foi o que ele precisou, de uma reorganização – estava sem o controle pleno de si havia mais de 24 horas. A cada vez que piscava, tudo sobre seu último dia se tornava mais claro. Então ouviu, como que se fosse uma voz distante, "como se espera vencer uma criatura que existe há mais de 20 mil anos?", e olhou pela última vez para dentro de sua mente. Ter existido por mais tempo não lhe torna necessariamente mais forte, era um de seus ideais. Afinal, por mais que a geração Y fosse a geração perdida, ainda era a geração que tinha em suas mãos a capacidade de mudar o mundo. Uma capacidade que Jimmy Crow tinha naquele momento mais do que qualquer um.

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Inimigo finalmente resolveu atacar. A energia roxa que ele vinha acumulando nas pontas de seus dedos chegou a um nível de concentração altíssimo, e então ele soltou uma pequena bolinha na direção do grupinho que estava ali. Reich sabia do que se tratava aquilo, Locke também. O choque resultante daquela bolinha com qualquer coisa mais densa que o ar seria como uma bomba atômica, ou pior. Os dois aceitaram que aquele era o fim, mas Jimmy e Eddie não. Como que se estivessem pensando juntos e sincronizados, estenderam as mãos para frente, palmas abertas. E a bolinha parou no ar. E começou a aumentar de tamanho.

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Eddie pode ter deixado transparecer um pouco de desespero ao ouvir a tradução que Locke fez da fala de Inimigo, mas ele se recusava a deixar tudo terminar assim do mesmo jeito. E então ele sentiu uma conexão com Jimmy, o tal que até agora só tinha causado problemas por aí. Mas Eddie era a ordem, e ele o caos; como Reich havia lhe dito sobre a profecia. E um mundo sem um pouco de bagunça não é possível, – tudo tende à desordem – assim como um mundo sem uma ordem definida entraria em colapso, pela sua incapacidade de realizar algum trabalho e seguir adiante. Enfim, naquela metáfora da vida que era aquela história, Eddie precisava de Jimmy e vice-versa. Os dois olharam um para o outro no momento em que Inimigo finalmente atacou, e conseguiram pará-lo. Mas então a esfera roxa começou a aumentar, e os dois se viram sem ter o que fazer. Eddie voltava ao desespero, de novo. Jimmy não.

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"Ele realmente é esperto", pensou Reich. Um grande gole de vodka pura desce pela garganta queimando; esse mesmo gole dissolvido em um grande copo de sprite mal é percebido. O que Jimmy estava fazendo – ele era o responsável pela bolinha aumentar, Reich sentiu a fonte – era dissolver a energia no ar. O que se tornou claro ao ele estalar os dedos, e aquilo se dissipar, em uma explosão de poeira roxa. Inimigo riu, e tirou dois sabres de sabe-se-lá-onde. Eddie sorriu; sua parte favorita estava começando.

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Inimigo lutava evidentemente melhor do que Raposa, ou Jack Tequila. E ninguém podia interferir; o pirata tinha criado uma espécie de véu protetor ao redor dos dois enquanto lutavam. E por mais que Eddie tivesse uma afinidade com suas armas, como se fossem extensões do seu próprio corpo, – bem, eram na verdade, extensões de seu corpo e vontade – ele simplesmente não conseguia atingir Inimigo de forma alguma. E o pirata lutava com classe e elegância, sem deixar seu chapéu cair da cabeça. Mas então Eddie percebeu algo no estilo de seu adversário: não passava de uma variação do mesmo "velho estilo da costa oeste, espadas gêmeas". Parecia coisa do destino. E era mesmo. A função dos piratas era o de agentes da realidade, se adaptando à realidade de cada pessoa. E nada fazia mais sentido; se as últimas três pessoas que Eddie tinha encontrado que lutavam com duas espadas lutavam daquele jeito, porque não a quarta?

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A repentina familiaridade que Eddie percebeu no estilo do pirata lhe deu uma boa vantagem: ele já sabia qual era a falha naquele modo de luta. Mas então essa falha desapareceu subitamente; ao atingir um golpe certeiro na lateral de Inimigo (e que fatiaria qualquer um), sua lâmina simplesmente atravessou o pirata, sem causar nenhum mínimo dano. O pirata parou, e gargalhou, enquanto Eddie ficou imóvel. Agora o que Locke tinha dito lhe fazia sentido. Como ele venceria aquilo? Então Inimigo golpeou com seus sabres novamente, e o carniçal saltou para trás, em um reflexo. E Inimigo disse, com a voz que tinha antes de se fundir com a Sombrinea.
- Não adianta escapar, Edward. – as duas espadas começaram a brilhar com a mesma energia roxa de antes. – Estou só enrolando para ter um pouco de diversão. Posso acabar com você a hora que quiser.
- Não pode, não.
Uma voz que Eddie reconhecia de algum lugar disse, em alto e bom tom. Todos se viraram para olhar. Vários piratas, uns dez, vinham andando pela avenida, um do lado do outro. Liderando o grupo, estava Morte. Ali acontecia o grande Deus ex Machina do final de semana. Inimigo olhou, meio que entrando em pânico, e tentou correr; Morte tirou sua pistola do coldre e deu um único tiro. A bala explodiu o crânio do pirata, que caiu no chão e começou a dissolver com o vento. Ficaram ali seus dois sabres dourados. Quem disse que Morte usava uma foice?

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