E de onde ele tiraria coragem para falar com senhor Reich agora?, Eddie pensou. Os dois nunca foram muito chegados, sempre rolava aquela troca de olhares não-amigável. E o motivo, ele nunca soube. Talvez a preocupação com aquele cara estranho que tinha o coração de sua sobrinha, devia ser isso. Enfim, ignorando todos esses motivos, ele tocou a campainha. Quem atendeu não foi Reich, mas sua esposa.
- Olá Edward... a Vivian não está...
- Não senhora, eu precisava é falar com seu marido.
- Reich? Ah sim, vou chamar ele.
Ele entrou, e percebeu a surpresa no olhar do dono da casa. Os dois foram até o salão do Dojo (o tio de Vivian ensinava artes marciais), e ali sentaram para sua conversa.
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O primeiro ensaio da nova banda de Brett foi algo meio leve, mais conversas mesmo, alguma zoeira, e uns covers fáceis. A proposta do resto da banda era algo mais "pop", tipo post-grunge; e ele não iria reclamar. Mas compondo, colocaria as guitarras complexas que tanto lhe fascinavam, com certeza. Enfim, no final da sessão, os caras chamaram ele pra ir no Hell's Kitchen.
- Caralho, todo mundo freqüenta esse lugar?
- Bem, se achar uma cena underground melhor...
Era algo a se considerar. Sua última noite lá não tinha sido das melhores, mas, passar a quinta no tédio não lhe renderia nada. Dane-se tudo, pegou o Porsche e foi logo atrás deles.
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E na terceira noite, aquela em que Raposa daria a mercadoria, foi servido a ele a bebida estranha novamente. Eddie começou a imaginar o que seria aquilo, a única coisa que o traficante servia a suas visitas - ou a ele, pelo menos. Foi quando começou a ouvir uma história estranha, que lhe deixou talvez mais surpreso que na noite em que descobriu ser um mago.
A verdade é que Raposa era um vampiro; sim, os que bebem sangue, andam só de noite, vivem para sempre, e têm poderes sobrenaturais diversos. E o que ele bebeu durante as três noites era o sangue daquele vampiro, o que lhe transformaria num ser que chamavam de carniçal. Eddie viveria para sempre enquanto tomasse sangue de vampiros, mas também estava submetido a algo chamado Laço de Sangue. Um sentimento artificial mais forte do que amor, ódio ou qualquer outra coisa, provocado pelo sangue.
Isso foi o que ele ouviu. Teoricamente, ele era um escravo do Raposa agora. Mas, na prática, ele não sentia nada. Nenhum desejo de servir, realmente nada. Mas achou melhor entrar no jogo, e pelo menos fingir que o que ouvia era verdade. Pegou uma carga razoável de heroína e voltou para casa.
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- O que precisa aqui, filho? - Eddie estranhou esse "filho", pensou que nunca ouviria isso de seu quase-sogro (a mãe de Vivian tinha morrido em um desastre aéreo, e ela nunca conheceu seu pai; portanto sua família era seus tios).
- Então senhor, é que eu estou com uns problemas, e achei que se houvesse alguém que poderia me ajudar, seria o senhor.
- Senhor não, me chame de você... e porque achou isso? - a expressão severa, mas calma do velho sensei inspirava confiança.
- Foi como uma intuição... o senhor é diferente das outras pessoas, não é?
- Se esse "outras pessoas" se referir a você, minha sobrinha, seu ex-patrão, então eu não sou. Primeira lição, tudo é relativo.
Ele pensou no significado dessas palavras. E apenas ficou mais intrigado com o que ouvia. Como não respondesse nada, Reich continuou a falar.
- Todos nós quatro fazemos coisas que as pessoas comum não conseguem. Cada um à sua maneira. E sua intuição é algo que se chama Consciência, a capacidade dos magos de perceberem o sobrenatural. Foi com isso que eu vi que você tinha um certo poder, muito pouco explorado. Um potencial enorme, que ficou estagnado nessa sua idéia de ser um carniçal.
- Mas o que eu posso fazer? Tentei desenvolver essa magia, e quase morri...
- É por falta de fazer a coisa corretamente. Isso que você tentava era magia vulgar, sempre traz a destruição. O segredo é ser discreto, tentar enganar o universo.
- Como fazer isso?
- Vamos dar uma volta pela rua que eu te explico.
No que estavam saindo, o telefone tocou. "Só um momento, que já vamos."
- Alô?
- Senhor Reich? - uma voz desconhecida disse.
- Ele mesmo, quem fala?
- Quero que me faça um favor: encontre o namorado da sua sobrinha, e diga que ele fez a escolha errada hoje. Apenas isso.
- Quem tá... - tentou dizer para um telefone mudo. A confiança do velho era algo que poucas coisas abalavam, mas isso o deixou realmente assustado. - Vamos então, vou começar a lhe ensinar as coisas - disse para Eddie, tentando disfarçar a preocupação em sua voz.
- Aconteceu alguma coisa?
- Não, nada.
Essa resposta não convenceu o jovem mago, que começou a ficar imaginando coisas. O que dizia ele, quando falou que Vivian em "Se esse "outras pessoas" se referir a você, minha sobrinha, seu ex-patrão"? Dúvidas ficaram povoando sua mente, enquanto ele via seu novo mentor explodir fios elétricos "por acidente".
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Ela acordou num cômodo semi-iluminado, jogada num canto; já era noite. A primeira coisa que viu foi a lua cheia, da pequena janela no alto da parede. Foi quando observou o resto do quarto que viu uma ruiva, sentada numa cadeira, a olhando atentamente.
- Até que enfim hein... demorou pra acordar.
Última coisa que se lembrava era do letreiro "Hell's Kitchen", ainda na Ocean Avenue.
quarta-feira, 14 de novembro de 2007
Capítulo 5: Mr. Confusion
Postado por
Luiz Costa
às
16:35
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Um comentário:
continua lizinho !
tá emocionante ^^
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