- A garota do Ted. Que legal vê-la aqui.
Um gato amarelo sorridente olhava para Vivian.
- Ted?
- Ted. Ele veio aqui ontem. Seu garoto.
- Eddie, não?
- É, mas eu chamo ele de Ted. Tudo bem, garota do Ted?
- Sim, e você?
- Sim. O que faz aqui?
- Eu preciso ajudar meu primo.
- E porque você achou que vindo para cá ajudaria ele?
Essa foi difícil.
- Não sei... achei que aqui encontraria alguma resposta.
- E encontra, com certeza. Mas depende de qual é a sua pergunta.
- Quem pode me responder o que eu quero?
- Qualquer um. Até você mesma. Só depende de qual é a sua pergunta.
O que aquela quimera queria?
- Qual seu nome?
- Meu nome é gato amarelo. E o seu?
- Vivianne.
- Vivianne. Bonito nome.
- Obrigada.
- Faça assim: siga pela floresta, para além do campo de trigo queimado. Olhe para o lago e o reflexo do céu lhe dirá o que tem que fazer.
- Certo.
- Mas antes, pode me fazer um favor?
- Qual?
- Responder algumas perguntas.
Aquilo cheirava a bizarrice. O gato amarelo era com certeza maluco. Mas, ela teria escolha? E ser legal com cada quimera doida que aparecesse era como uma redenção, por ela ter negado o Glamour em sua vida por tanto tempo.
- Tudo bem.
-//-
- Bate-bola, jogo rápido. Pode ser?
- Tudo bem. - logo antes de ela terminar de falar "tudo bem", o gato já fazia a primeira pergunta. - Apolo ou Dionísio, Vivianne?
- Como...? - respondeu confusa.
- Um dia como leão ou cem anos como carneiro?
Ela pensou, por um momento. Preferia uma vida tranqüila, afinal.
- Cem anos como carneiro.
- Sexo ou amor?
- Amor.
- Prosa ou poesia?
- Poesia.
- Verde ou vermelho?
- Verde.
- Preto ou branco?
- Preto - se deu conta que tinha respondido as últimas quatro sem pensar. Não era difícil, no final das contas.
- E porque o preto? - sim, era difícil.
- Pelo peso.
- Mas branco representa as sete cores juntas... não seria mais pesado então?
- Ah...
- Um herói?
Fácil.
- Reich Crow.
- Um ícone?
- Michael Jackson.
- Um ídolo?
Vivian ficou em silêncio, pensando. Não conseguia achar ninguém. Até o gato interrompê-la.
- Um filme?
- Vanilla Sky.
- Seu dia da semana favorito?
- Quinta-feira.
- Quatro coisas que não vive sem?
- Maquiagem, música, meu namorado... - ela não tinha idéia do que seria a quarta coisa - sei lá, comida.
- Você vem sempre aqui?
- É a primeira vez.
- Cream-cracker ou Aymoré?
- Cream-cracker.
- O que você gosta de passar no cream-cracker?
- Cheddar.
- Você tem uma alimentação saudável?
Era impossível dizer que sim. Se havia algo que Vivian não fazia bem, era comer.
- Não.
- Numa escala de 0 a 10, qual a pontuação que você dá para seus últimos sete dias?
- Algo próximo de zero. - e ela não brincava quando falava isso.
- Sua pontuação para o dia de hoje?
- Cinco.
- A pontuação para o que você espera do resto do dia de hoje?
- Eu espero um dez, sinceramente.
- Então muito obrigado, Vivianne. E boa sorte em seu caminho.
Vivian então andou, para além do campo de trigo queimado. Eddie tinha lhe dito que o Sonhar era um lugar bizarro e surreal, mas ela não imaginava que fosse tanto assim.
-//-
Fazia frio no Sonhar. E Vivian nunca tinha se dado bem com o frio, era uma nascida e criada em Los Angeles. Clima mediterrâneo, verões secos e invernos chuvosos. Ali era meio para final de tarde, e ventava muito. E o vento carregava cinzas; um incêndio tinha acontecido recentemente. E, por algum motivo, Vivian tinha quase certeza de que já tinha visto aquele campo de trigo em algum lugar. Como um déjà vu. Naquele momento Vivian ficou pensando a respeito do assunto por um bom tempo (era só o que se tinha para fazer, afinal de contas), mas depois, conversando com Eddie, ela descobriria que o campo de trigo do Sonhar era exatamente igual a um quadro que ela tinha em sua casa. Um quadro que na verdade era três quadros: o campo de trigo, o campo de trigo em chamas, e o campo de trigo em cinzas. Então o Sonhar era realmente feito de nossos sonhos, memórias, lembranças, impressões. Vivian tinha custado a acreditar isso.
-//-
Ela chegou ao tal lago que o gato amarelo tinha falado, e percebeu que olhar para o reflexo do céu nele seria impossível. O lago estava verde, e borbulhando. Provavelmente aquilo era ácido. Então olhou ao redor, e viu uma cachoeira, que caía em um outro lago, bem menor. E nesse menor também era impossível ver algum reflexo; a água era colorida e cintilante. Vivian podia até não gostar de coisas coloridas (preferia muito mais tons suaves, ou preto, ou branco), mas aquele lago brilhando com mais cores do que é possível nomear era impressionante. E aquela água tinha o mesmo aroma do perfume do seu namorado. Então ela pensou, Eddie tinha encontrado o gato amarelo... era muito possível que ele tivesse passado por aquela cachoeira também. E dado o provável tamanho do Sonhar, qual a chance dos dois percorrerem o mesmo caminho? Vivianne Crow a cada dia que passava acreditava mais em destino, e menos em simples probabilidades. Então ela se fez uma pergunta: o que leva um dado a cair com uma determinada face para cima um sexto das tentativas, se jogado infinitas vezes? Há uma força por trás do acaso?
-//-
Sem ter o que fazer ali diante dos lagos, e sabendo que voltar para a floresta de plástico não adiantaria muito, Vivian seguiu por um caminho qualquer. Afinal, quando não se sabe para onde quer ir, qualquer caminho serve. O gramado terminou, começou um deserto. E uma cratera no meio da areia chamou sua atenção. Era uma cratera enorme, simplesmente colossal. Que eventualmente poderia encher de água, e se tornar um lago. Ela resolveu sentar-se na beira do grande buraco, e pensar na vida. Pensar na vida, sozinha. E depois de alguns minutos, ela não estava mais sozinha.
segunda-feira, 29 de junho de 2009
Capítulo 41: Ballade 4 part 2
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Luiz Costa
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Capítulo 40: Beat It
Um longo banho de meia hora, e um beijo na testa de Mary. Tudo o que Brett precisou antes de sair naquela manhã. Não tinha a mínima idéia do porque Locke tinha lhe pedido para fazer aquilo, mas não importava. Pegou o endereço que Alice deixou (uma cobertura em um prédio num subúrbio de classe alta em Los Angeles), sua carteira (seu carro estava com pouquíssima gasolina), e as duas bolinhas de vidro de Locke. Uma era para ele, e a outra tinha que ser deixada escondida no apartamento. Mas o que diabos eram aquelas bolinhas?
-//-
- Reich e Vivian?
- Boa tarde, Howie. Desculpe incomodá-lo no domingo à tarde.
- Tudo bem. Do que precisam?
- Algo simples. O Trod do Hell's Kitchen ainda está aberto?
- Creio que sim. A morte do Duque não o fecharia, certo?
Reich pensou por um tempo. Ele não conhecia tanto sobre as fadas assim.
- Provavelmente não. Você nos acompanharia até lá?
- Do que precisam?
- Vivian tem que entrar no Sonhar. Seria de grande ajuda.
- Vamos então.
-//-
Brett simplesmente não conseguia entender como pessoas conseguiam morar naqueles prédios gigantes e fechados dos subúrbios de classe alta. Eram lugares um tanto desumanos, vazios, impessoais. E por mais que as pequenas ruas e alamedas fossem repletas de árvores, o lugar ainda assim parecia artificial demais. E não se via uma única viva alma pelas ruas daquele lugar, apenas carrões de vidros sempre fechados, dirigidos por pessoas fechadas em seus micro-mundos. Ele provavelmente podia circular por aquelas ruas apenas por ter um Porsche - um outro carro qualquer não entraria ali de jeito nenhum. Então, parou na frente do prédio que era o marcado. Ficava bem no centro do bairro, em um quarteirão redondo; todas as outras ruas terminavam ali, saindo em uma distribuição radial. Grades de ferro cercavam o prédio, e haviam dois guardas armados na guarita em frente ao portão. Como ele entraria ali?
-//-
Eddie e Alice passaram em frente à lanchonete em que ela tinha almoçado no dia anterior; imediatamente ela se lembrou de Seth, e o fio elétrico que tinha estourado. Como se Eddie tivesse adivinhado seu pensamento, disse:
- Difícil acreditar que ele se foi, né?
Alice apenas olhou, triste.
- Ontem eu passei andando aqui nesse mesmo lugar com ele.
- Seth era um bom vivant. E ele conseguia escapar de cada situação...
- O que eu quero é resolver essa história dos seus piratas logo. Para então poder ir atrás de Jimmy.
- Mas não foi bem culpa dele, né?
- Não importa.
- A hora dele tinha chegado Alice, só. Não adianta... - Eddie interrompeu o que dizia, quando lhe foi lançado um olhar de reprovação. - Bem, enfim, você que sabe.
- Sabe, por mais que Becky tenha me falado sobre destino... e eu sei que ela disse a mesma coisa para você e para Seth também, isso não é algo que simplesmente se deixa passar. Foi chocante, o que eu passei ontem. E não é só porque uma coisa devia acontecer que ela é justificável. Isso não é desculpa.
Então repentinamente, Alice parou de andar e falar. Tirou uma bolinha de vidro de seu bolso, que brilhava com uma luz verde.
- O que é isso?
- Locke me deixou essa bolinha. Ela brilharia quando fosse a hora. Vamos atrás de Brett.
- O que ele tem a ver com tudo isso, no final das contas?
- Não sei. Mas Locke viu alguma coisa nele, que não sei. E ele me ensinou coisa demais, para eu simplesmente ignorar o último pedido que ele me fez. Além disso, é pelo bem maior da tal grande profecia, e esse blá-blá-blá todo.
E o engraçado era que o apartamento de Brett ficava bem no caminho que Seth e Alice tinham andado no outro dia. Coincidências da vida.
-//-
A caminho do Hell's, Vivian ligou uma rádio qualquer. Estava tocando Michael Jackson. Fazia cinco meses que ele tinha morrido, e ela ainda não acreditava naquilo. É estranho, a absoluta nenhuma diferença que a morte de um ícone da cultura pop faz em nossas vidas, e ao mesmo tempo a comoção geral que isso causa. Ainda mais nesse caso; se tratava de Michael Jackson. O ícone absoluto de toda uma geração. E no exato instante que a música terminou, os três chegaram ao Hell's Kitchen. Howie abriu a sala de estoque, aonde havia um alçapão.
- Está aqui. É só descer por aqui, e você deve sair no Sonhar.
Reich e Vivian se entreolharam por um momento. Ela sabia o que tinha que fazer, e queria fazer isso o mais rápido possível. Queria apenas que tudo terminasse logo, e ela pudesse voltar para casa e dormir abraçada com Eddie.
-//-
Ao tocarem a campainha, não foi Brett que atendeu, e sim uma garota de grandes olhos azuis brilhantes e maquiagem borrada. Se Eddie tivesse que defini-la com uma única expressão, seria provavelmente "glamour barato". Ele e Alice se entreolharam; quem era ela, e aonde estava o vampiro que Alice queria ver por algum motivo?
- Oi...?
- Hmm... Brett está?
- Não. Quem são vocês?
- Eu sou Eddie, ela é Alice. Diga pra ele que a gente veio então, quando ele aparecer.
- Eu imagino como ele teria saído de casa. Hoje. De dia.
Eddie a cada segundo tinha cada vez mais certeza de que fosse lá o que Brett estivesse arrumando, aquela pessoa ali com certeza era maluca.
- Bem, qual o seu nome?
- Mary, Caillat. É um prazer. - disse, estendendo a mão. Alice simplesmente olhou indiferente, no mínimo esperando que aquela doida entrasse em combustâo espontânea; Eddie, que tinha sido aprendido a ser mais polido, cumprimentou-a. Ela era gelada... provavelmente ela que tinha transformado Brett em vampiro. Mulheres, sempre virando a vida da gente de cabeça pra baixo.
- Foi um prazer. Qualquer coisa, a gente se vê, então.
E saíram atrás de Brett. Mas ele não seria encontrado. Por estar com Jimmy.
-//-
- Se cuide, Vivianne.
- Pode deixar, tio. Até mais, Howie.
- Tchau. Boa sorte.
Vivian puxou o alçapão, e pulou. Caiu por algum tempo, como se fosse uma grande altura. E então estava em uma clareira. Em uma floresta de árvores de plástico.
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Luiz Costa
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sábado, 27 de junho de 2009
Capítulo 39: The Unforgiven II
- Bom dia, tia.
- Bom dia, Vivian.
- O pé de maracujá deu flores, você viu?
- Não... vou lá dar uma olhada.
Vivian saiu da cozinha para o quintal. As flores de maracujá eram realmente lindas, como sua tia tinha lhe dito. Mas, o que lhe chamou mais a atenção não foram as flores, e sim o duende quimérico que morava debaixo da grande árvore que havia ali. Vivian tinha passado a maioria dos dias dos últimos três anos sem falar uma única palavra com ele. No começo, ele vivia dizendo bom dia para a Changeling, algo que deixou de fazer quando percebeu que ela o ignorava, desejando com todas as forças que ele simplesmente não existisse. Ela não gostava de quimeras. Mas, desde a última noite, em que o Glamour tinha voltado para sua vida, Vivian tinha mudado sua atitude em relação a elas. Agora via como parte de sua vida, algo a se aceitar e tirar o melhor possível.
- Ei, você... se eu pedisse desculpas seria o bastante? – ela disse para o duende, se aproximando lentamente. Ele olhou de volta por um tempo, meio apreensivo, antes de responder.
- Meu nome é Straub.
- Prazer, Vivianne.
- Eu sei seu nome. Moro aqui, né.
- Straub, desculpe por todo esse tempo te ignorando. Sabe, eu não conseguia aceitar tudo isso que acontecia comigo. E ignorar pessoas não é algo legal.
- Que bom que você percebeu, Vivianne. E tudo bem. Como você está?
- Bem feliz, agora. E você?
- Também. E seu primo Jimmy, como está?
- Não sei... faz tempo que não vejo ele.
- Ele estava aqui ontem, esqueceu?
- Como assim?
- Sim... eu vi ele depois do almoço. O menino estava mal...
- Bem, eu saí ontem, mas provavelmente eu saberia se ele estivesse em casa...
- Pergunte ao seu tio.
-//-
- Tio... meu primo estava aqui ontem?
- Jimmy? Não...
- Straub me disse.
- Sério?
- Sim.
- Vou falar com ele.
Alguns minutos depois, Reich voltou ao salão.
- Eddie já acordou?
- Não... quer que eu chame ele?
- Sim, preciso da ajuda dele para algo. É importante.
-//-
- Sim, Reich?
- Edward... chegou a conhecer meu sobrinho Jimmy?
- Não... Vivian me falou algumas vezes dele, mas eu nunca o vi pessoalmente. Porque?
- Ao que parece ele está em Los Angeles. E ele que fez a Ocean Avenue parar. E de alguma forma apagou sua passagem por aqui da mente de todos que o encontraram.
- Entendi. E no que eu posso ajudar?
- Vou fazer um ritual para me comunicar com alguém que possa dizer sobre o que aconteceu ontem à tarde. Para ter uma idéia do que Jimmy aprontou. E preciso da sua ajuda, tanto para fazer o ritual, quanto para conversar com o espírito que vou convocar.
Não demorou muito para Eddie ligar os pontos e perceber com quem Reich queria falar.
- Seth?
- Sim.
- Tudo bem.
- Então, sente-se encostado naquela parede ali, de pernas cruzadas. Coloque as mãos sobre seus joelhos. Feche os olhos, e pense apenas em Seth. Em cada lembrança de momentos alegres que você passou com ele.
Eddie fez o que Reich disse. Não era muito difícil. Os dois viviam jogando videogame juntos, na casa de Seth. Havia o aniversário de Eddie, em que seu primo tinha feito o discurso de homenagem. E as inúmeras tardes fumando maconha no quarto de Eddie, com a porta e as janelas fechadas. E ele poderia pensar em mais coisas, mas um “pode abrir os olhos” o interrompeu. Tinha sido rápido, no final das contas. E ali estava Seth, de pé em sua frente, e um pouco translúcido. Exatamente como Eddie imaginava que eram os espíritos de pessoas mortas.
- E aí, Seth?
- Quem é vivo sempre aparece, né.
Eddie riu da piada. Seu primo não perdia o bom humor, em hipótese alguma.
- Vamos ser rápidos – Reich disse.
- Seth... sabe quem é Jimmy Crow?
- Sim.
- O que ele fez ontem?
- Me matou.
- Como? – Reich perguntou, semi-chocado.
Então Seth contou sobre o que tinha acontecido no campo limpo estranho que Jimmy tinha criado. E sobre como ele estava aparentemente possuído, e lutando contra si mesmo.
- A situação então está mais difícil do que eu pensei. Jimmy está realmente com problemas.
- Ah, que ele tem problemas é algo certo. Com todo o respeito por seu sobrinho.
- Tudo bem, Seth. Obrigado por sua ajuda.
- Não foi nada.
- Feche os olhos, Eddie. Como você o convocou, precisamos fechar a ligação.
- A gente se vê por aí, Seth.
- Espero que não nos encontremos tão cedo por aqui. Até mais.
Então o carniçal fechou os olhos, e ao abri-los, ele tinha se ido. Finalmente Eddie conseguira entender o fato de que Seth realmente estava morto. Quando Reich tinha lhe dito na noite passada, pareceu algo distante demais da realidade para ser possível. Mas sim, era real.
- Você sabe aonde encontrar Alice, Edward?
- Sim, descobri ontem onde ela mora.
- Vamos para lá.
- Certo.
- Chame Vivian. Ela será importante, agora que conversa com quimeras.
- Mas... você também não consegue?
- Sim. Porém ela tem um magnetismo para seres de Glamour, que eu não tenho. Torna tudo mais fácil.
Depois de Vivian trocar de roupa, os três entraram no carro de Reich e foram encontrar Alice. A pessoa que podia mostrar sua visão dos fatos. Com um pouco de magia de mente, claro.
-//-
A verdade é que Alice não tinha ficado muito confortável com a idéia de alguém ler sua mente. Porém, era algo que ela faria por Seth, inclusive. Por isso, aceitou que Reich fizesse o que tinha que ser feito. Não adiantou muito para o mago, que não soube muito além do que Seth tinha lhe contado; ele apenas soube que a avenida parou momentos depois de Jimmy começar a lutar contra a entidade que tomara conta de si. Ou seja, provavelmente tinha sido obra de seu sobrinho mesmo. Contra sua vontade.
- Vai ser impossível encontrar Jimmy enquanto não desamarrarmos alguns nós dessa situação. – Reich disse, depois de um tempo lendo a mente de Alice.
- Como assim?
- Vou ligar para meus colegas da Irmandade, para confirmar.
O mago saiu, e voltou alguns minutos depois. Contou sobre a profecia que estava se desenrolando – sobre a qual Eddie tinha a impressão de que já tinha ouvido um milhão de vezes; mas nunca em detalhes. Era uma história cheia de alegorias, e a maioria Reich conseguia explicar. A moral da história era que Eddie e Jimmy representavam duas forças opostas, a ordem e o caos. O que deveria acontecer no final de tudo era um retorno à situação de equilíbrio anterior, que só aconteceria depois de um processo de quatro partes - os quatro dias daquele final de semana prolongado. Três já tinham se passado: fuga para o castelo, jornada nos sonhos, acerto de contas. Faltava ainda a ida dos piratas.
- Mas, Reich... os piratas foram embora ontem à noite. Depois que você me deu a bússola.
- Eles sim, mas e quem eles representam?
Eddie lembrou-se das caricaturas. Seu Inimigo tinha sido morto. Ainda sobravam dois dos piratas.
- Raposa era o primeiro pirata, já se foi. Jack Tequila, e o tal do antigo príncipe. Chris. São Morte e Oculto, os dois que faltam.
- Então você tem que acabar com eles, é isso? - Alice perguntou.
- Não necessariamente. - Reich respondeu - Mas, é uma das maneiras.
- E como termina meu primo nessa?
- A profecia segue um processo, dividido em partes. Enquanto essa pequena história sobre Jack, e Chris, e a sociedade dos vampiros não se resolver, Jimmy continuará isolado do mundo. Mas pelo menos está garantido que tudo terminará hoje. Essas profecias com piratas não erram. Foi o que aprendi durante minha vida.
Vivian olhou para seu tio, intrigada. Por quantas situações como essa seu tio já não tinha passado? E ela não tinha a mínima idéia do modo como funcionava esse novo mundo.
-//-
"Você verá a morte no terceiro dia, e vai encontrá-la de novo no quarto", era o que Becky tinha lhe dito logo antes de partir. Eddie tinha pensado sobre essas palavras um pouco, mas, naquele momento de silêncio na sala de Alice, era a única coisa que havia em sua mente. Ele tinha visto a morte no terceiro dia, duas vezes; mas também tinha visto Morte. "Mas, antes de partir com ela"... seria mesmo a morte, ou Jack Tequila? Nunca algo lhe pareceu tão complexo, mas, nunca tão simples ao mesmo tempo. Parecia paradoxal, mas a solução estava bem clara. Eddie tinha que fazer o que tivesse que ser feito. Não importavam mais coisas como motivação, ou possibilidades. Sua única escolha era não ter escolhas. As correntes e marés do destino se manifestariam, não importa o que ele tentasse. Olhou por um longo momento para Vivian, e se levantou. Ainda eram duas da tarde, e vampiros não sairiam de suas tocas até de noite. Mas, ele tinha uma idéia. Contou-a para Reich, Alice, e Vivian, então os quatro se separaram. Cada um tinha coisas para fazer.
-//-
Brett tinha instalado um santuário de pássaros no parque da esquina da Ocean Avenue com a Richards, logo depois de comprar seu atual apartamento. E ele se dedicava a colocar comida para eles todos os dias - quando era possível, pelo menos - e ficar observando, apenas. Então, de tarde, depois de terminar a complicada tarefa que Locke lhe deu, ele resolveu passar no parque. Primeira surpresa, a Ocean Avenue estava completamente vazia. Não se viam pessoas nas ruas, tampouco carros em movimento. Parecia que o mundo tinha esquecido que aquele lugar existia. Segunda surpresa, havia alguém sentado no meio do santuário de pássaros. E esse alguém tinha criado seu próprio santuário. Uma esfera de energia roxa circundava o lugar, e, no meio da esfera, um cara com cabelo engraçado e sem camisa meditava em posição de lótus, com os olhos fechados. E ele tinha uma tatuagem definitivamente estranha: manchas e listras, como de um tigre, que se mexiam. E por mais que Brett por algum motivo tivesse achado imprudente encostar naquela esfera roxa, foi o que ele fez. Coisas que a curiosidade e os instintos aprontam com a gente. E ao tocar sua mão no campo de energia, ele sentiu uma dor incomparável. Gritou, e instintivamente usou o poder do seu sangue para suprimir a dor. Mas, ao gritar, o cara que meditava ali sentado abriu os olhos e olhou para ele. Tinha olhos vermelhos, e um olhar perfurante. A esfera se desfez, gradualmente. E lá estava Brett se metendo em problemas de novo.
-//-
Chris acordou, no instante exato em que o sol sumiu no horizonte. Alguma coisa estava errada.
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quarta-feira, 24 de junho de 2009
Capítulo 38: The Unforgiven
- Então, vou indo nessa. – ela disse, vendo que não teria muito o que fazer enquanto Reich curava Eddie de seus ferimentos.
- Obrigado por tudo, Alice.
- Era uma luta minha também, Eddie. As chaves do seu carro.
- Ah, não é meu... é do Brett. Seria muito pedir para você deixar na casa dele?
- Brett... Aquele cara de cabelo comprido que parece o Emile Hirsch?
- Ele mesmo. Sabe aonde é?
- Então, engraçado... Locke me pediu um último favor, eu teria que ir na casa dele de qualquer jeito hoje cedo. Então já faço isso.
- O que ele teria a ver com tudo isso?
- Ah, nem eu entendi direito... e Locke me disse para não contar para ninguém.
- Tudo bem. Até mais, Alice.
- A gente se vê por aí. Tchau Reich, tchau Vivian.
- Obrigado por trazê-lo de volta – Vivian disse, envergonhada. Até que ela parecia ser uma boa pessoa, no final das contas.
Alice saiu da casa de Reich, e viu um nascer do sol mais amarelo que o normal. Então pensou no pôr-do-sol que Becky tinha lhe prometido, e imaginou aonde ela estaria naquele momento. O que Alice tinha aprendido nos últimos dias foi: haviam pessoas boas no mundo, era só uma questão de saber encontrá-las. Dirigiu até a Ocean Avenue, - estranhando por que diabos não havia nenhum carro ou pessoa na rua – e encontrou sua padaria favorita fechada. O que estava acontecendo? Foi até uma outra qualquer que achou no meio do caminho, tomou um café triplo extra-forte (com quilos de açúcar), comeu alguns pães-de-queijo, fumou um cigarro, e enrolou mais um pouquinho antes de ir para o endereço que Locke tinha lhe passado. Brett teria uma surpresa agradável, disso ela sabia.
-//-
Junto com as chaves do carro estava o controle remoto da garagem do prédio, ou seja, isso não seria problema. Tampouco para entrar no apartamento – de algum modo, Locke tinha uma cópia da chave. Era um prédio de flats, um tanto agradável. Pôsteres de bandas alternativas pela sala, um som moderno, uma coleção de cds. E um fato engraçado: ali não havia televisão. Alice também não tinha TV, e nem Eddie, pelo que ele tinha lhe dito. Coincidências quaisquer que se encontra pela vida. A questão era: ela já tinha entrado no apartamento, como fazer para acordar Brett agora? Como se acorda uma pessoa que nunca se viu na vida, em sua própria casa?
-//-
- Então Jack, o que vai ser feito?
- Não tenho idéia, Emily. O que estava falando com o garoto da estrela?
- Fui ajudá-lo. Ele disse que iria atrás de Raposa.
- Ele acha que tem chance? – um dos caras da gangue de Jack lhe perguntou.
- Não custa ter esperança. – Tequila disse – Afinal, se livrar de Raposa seria uma boa para todos, no final das contas.
- E quanto a Chris? – Emily ainda estava puta da vida com ele, claro.
- Isso vai ter que ficar para amanhã. O sol está quase nascendo. Mas com certeza tomaremos alguma providência. Encontraremos Chris em no máximo 24 horas, ou não me chamo Jack Tequila.
-//-
A sorte de Alice foi que, enquanto ela pensava em como acordar Brett, Brett acordou sozinho.
- Bom dia.
- Quem é você? – ele disse, um tanto assustado.
- Desculpe-me pela invasão. Meu nome é Alice. Locke me mandou aqui para falar com você.
Brett ainda devia um favor ao vampiro que tinha mexido os pauzinhos e salvado sua pele. Então, tinha que ouvir atentamente o que ela dizia, sem outra escolha.
- Tudo bem. Do que se trata?
- Primeira coisa é uma boa notícia. Você não precisa se esconder do sol.
- Como assim? Não sou um vampiro?
- Acho que Locke lhe disse sobre todos os vampiros descenderem de alguns ancestrais comuns, certo?
- Sim. De antes do dilúvio, e tal...
- Então, é assim: cada vez que a maldição é passada, ela se torna mais fraca. Até que chega um ponto em que ela se torna tão fraca, que o vampiro é quase um mortal. São os chamados vampiros de sangue ralo. E você é um deles. E entre outras coisas, você não é mais afetado pela luz solar, como os vampiros mais antigos.
- Sério?
- Foi o que Locke me disse. Bom, abra as cortinas e veja por você mesmo.
Brett relutou por um momento. Será que ele podia confiar nela? Bem, se ele tivesse que passar o resto da eternidade sem ver o sol (que ele tanto admirava), seria um saco. Ou seja, valia a pena arriscar. Cautelosamente, ele foi puxando a cordinha da persiana devagar. E qual foi a sua surpresa ao colocar uma parte do braço debaixo dos raios de sol da manhã que por ali entravam e constatar que realmente não acontecia nada. Ele estava livre para poder sair quando quisesse. – Porque ele não me disse sobre isso antes?
- Talvez estava esperando um momento oportuno. Bem, é o tipo de coisa que ele faria.
- Certo... então, o que eu vou ter que fazer em retribuição ao favor?
- É algo simples.
Realmente, com Alice contando, parecia simples. O que ele não sabia é que terminaria sendo muito mais difícil do que parecia.
-//-
Não demorou mais do que meia hora para Reich conseguir curar os ferimentos de Eddie, de maneira perfeita. Vivian não sabia que seu tio era um mago, até a volta que os dois tiveram logo depois dela se separar de Eddie pela última vez. Ela olhava, surpresa com o que ele era capaz. Alguém que olhasse para o carniçal depois desse processo de cura de forma alguma diria que ele tinha quase sido morto pouco tempo atrás.
- Vou para o salão meditar. Acho que vocês têm o que conversar.
- Muito obrigado, Reich.
- Não foi nada, filho. Descanse, pode ser que tenhamos o que fazer mais tarde.
Enquanto o mago saía pela porta da sala, Eddie sorria para Vivian. Ela fechou a porta e apenas falou “Não diga nada, torna tudo mais fácil”, assim como ele tinha lhe dito na noite de sexta-feira. Desarmado pela frase que era dele próprio, Eddie não conseguiu responder nada. Ela apenas se aproximou, e o beijou. Com o beijo mais molhado que ele já tivera em toda a vida. E o melhor, também.
- Como eu queria te ver, Vivianne Crow.
- Eu que o diga. Eu sabia que você voltaria.
- Que bom que sua intuição é muito melhor que a minha.
- Vamos dormir, você está cansado – Vivian disse, sorrindo.
Enquanto iam para o quarto de mãos dadas, Eddie pensou no quanto valia a pena dizer para ela sobre o resto de seu destino, que Becky tinha lhe dito. Sua intuição podia estar errada, quando ele pensou que nunca mais veria Vivian, antes de entrar no Sonhar. Mas provavelmente o que Becky Summers tinha lhe contado na praia seria verdade. Não, ele poderia falar com Vivian no outro dia, depois de acordarem. Deitaram abraçados, e ele pegou no sono. A primeira vez que conseguiu dormir bem em muito tempo. Desde que tinha se tornado um carniçal, talvez. E dormiu feliz, apenas por estar com ela. Ainda que tivesse coisas a resolver no outro dia. O destino sempre bate em nossa porta, no final das contas.
-//-
O garoto da estrela tinha chegado. Era o sinal de que as coisas provavelmente chegariam a um final logo. Mas ele não se importava, sabia que sairia vitorioso no final das contas. Não fazia sentido aquela profecia. Um mero carniçal não era páreo algum, não importa quem fosse. Era importante se livrar dele logo, sim, mas a cidade já estava para acordar. E aquilo podia ficar para o domingo. Chris parou no topo de seu prédio, e entrou em sua cobertura. O palácio do antigo príncipe de Los Angeles. E, caso o seu plano desse certo, – e claro que daria, era um plano perfeito – ele logo seria o príncipe novamente. Sem Jack Tequila, ou anarquistas inúteis atrapalhando a ordem natural das coisas. Afinal, ele era o topo da cadeia alimentar. E tinha que cumprir seu papel. Deitou-se em sua cama king size, fechou os olhos, e dormiu.
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Luiz Costa
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terça-feira, 23 de junho de 2009
Capítulo 37: Confortably Numb
- Vai fazer o que hoje à noite, Rachel?
- Não sei... acho que vou ficar em casa mesmo. Amanhã eu abro a loja, 9 horas. Vai sair?
- Ah, eu queria sim. Segunda de manhã eu nunca tenho nada pra fazer, então acho que é uma boa começar a aproveitar as noites de domingo.
- Vai pra onde?
- Então, eu estava pensando naquele bar que a gente foi uma vez. Hell's Kitchen, sabe?
- Sim... eu lembro. Nossa, aonde fica mesmo?
- Então, eu não consigo lembrar de jeito nenhum. Sei que é no centro, mas não lembro o endereço não.
- Que estranho. É em um lugar tão conhecido...
- Pois é.
Mark não conseguiria encontrar o Hell's Kitchen naquela noite de domingo, tampouco qualquer outro endereço da Ocean Avenue.
-//-
Após Alice lhe beijar, Seth fechou os olhos. E quando os abriu, estava em um lugar completamente diferente. Um túnel escuro, com uma luz no final. "Esperava mais da morte", pensou. Aquilo era um tanto clássico demais para ele. Sem ter o que fazer, caminhou em direção à luz. Ao ser tocado por ela, uma energia que nunca tinha sentido antes inundou seu corpo e sua mente. E quando a ofuscação passou e ele conseguiu ver com clareza, ali estavam várias cópias de si mesmo. Nove, na verdade. E ele era o décimo. Sentados ao redor de uma mesa, cada um começou a falar sobre o que ele tinha feito em toda sua vida. Aquilo era como um relatório de tudo o que Seth tinha feito em seus duzentos anos que foram permitidos em nosso mundo. Para depois ele ser julgado e mandado para um outro lugar, para aproveitar o resto de sua existência. E o que eram duzentos anos, comparados à toda uma eternidade?
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Reich andava, apressadamente e preocupado. As profecias tinham sido interpretadas um pouco erroneamente. E ele não queria ver seu sobrinho se metendo em problemas, ou criando problemas - o que era pior. Então, ao chegar à Ocean Avenue, ele percebeu que tinha chegado tarde demais. A avenida estava parada. Um campo mágico bloqueava a entrada de pessoas comuns ali (por comuns, entenda-se que não tenham nada a ver com os acontecimentos daquele final de semana), e também a simples lembrança de que aquele lugar existia. Jimmy normalmente nunca teria a capacidade de produzir alguma magia de tal magnitude; nem mesmo ele, mestre dos Akashas, poderia fazer aquilo. Seriam necessários no mínimo vários magos, juntos em um ritual, para parar - e apagar das mentes comuns - uma avenida inteira. Usando sua Consicência, tentou rastrear Jimmy. O pior: ele estava fora de alcance. E procurá-lo usando meios mundanos por toda Los Angeles seria no mínimo mais difícil do que encontrar uma agulha em um palheiro. Então concentrou-se em seu sobrinho mais uma vez, e subitamente ele desapareceu. Não só fisicamente, mas também da mente de Reich. Pela mesma razão que Alice se esqueceu de inúmeras coisas sobre sua própria vida, Reich se esqueceu que Jimmy estava em na cidade. E Vivian também. A avenida ficaria parada por todo sábado, e domingo, e ninguém poderia fazer nada a respeito nesse meio-tempo. O responsável por aquilo tinha se isolado do mundo, em seu próprio micro-universo. Assim como o jovem mago enlouquecido tinha isolado a Ocean Avenue de todos, tinha isolado a si mesmo também.
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Domingo, sete da noite, e Mark andava pelo centro. Tentando encontrar de qualquer forma aquele bar, que o começava a incomodar profundamente. Ele não sabia porque, mas queria estar lá. O que era estranho; era só um lugar legal para sair e passar algumas horas. Um bar com um bom som, pessoas que parecem interessantes, e cerveja relativamente barata. E que ele não encontrava de jeito nenhum. E alguma coisa estava visivelmente errada naquele rolê. Como se faltasse uma rua. Andar pelo centro estava começando a deixar Mark desorientado. As esquinas pareciam todas erradas. Haviam alguns cruzamentos movimentados demais, e outros movimentados de menos. Menos no nível de quase parados. Nada fazia sentido. E o pior começou quando Mark percebeu que não sabia mais como voltar para casa. A avenida pela qual ele sempre tinha andado parecia não existir mais. Ou será que ela nunca tinha existido? Será que ele ainda estava sob os efeitos da noite de ontem?
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Cansado de andar e andar e não chegar a lugar nenhum, Mark parou. Encostou-se em um lugar qualquer, pensando no que poderia estar acontecendo. Olhando para aquele céu levemente violeta, que dava continuidade a um pôr-do-sol alaranjado que se tornou vermelho com o tempo. Era sem dúvida o céu mais belo que Mark tinha visto em toda sua vida - provavelmente causado por causa de restos da explosão no céu da noite anterior. Alguma coisa lhe dizia isso, e naquele momento, ele lembrava... no sábado o céu também estava violeta. Então um letreiro de neon lhe chamou a atenção, pelo bonito contraste que fazia com o céu. "Aulas de teatro". Aquele letreiro salvou sua vida. Finalmente ele conseguiu se localizar, após tanto andar dando voltas - a rua que fazia esquina com a da escola de teatro era a que levava para seu apartamento. E, a caminho de casa, Mark começou a pensar em fazer teatro. Alguma coisa para ocupar sua vida, que tinha estado ociosa até demais nos últimos tempos. Tentar não custava nada, e quem sabe aquilo seria bom para ele. Chegou em casa, ficou enrolando alguns minutos, e dormiu. Afinal, o outro dia seria segunda, e de tarde ele teria que trabalhar.
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- Você acha que foi uma pessoa boa durante sua vida, Seth Daniels Cuervo? - suas cópias lhe perguntaram em uníssono. Mais uma pergunta que ele tinha que responder naquele estranho julgamento. Seth então começou a pensar em uma resposta - era sábio pensar antes de falar, naquela situação. Mas a resposta já estava em sua cabeça desde a noite anterior. "Não", respondeu calmamente, olhando para baixo.
- Você estava ciente de que não era uma pessoa boa?
- Também não. Percebi isso menos de 24 horas atrás.
- E tentou fazer algo para mudar sua condição depois disso?
- Tentei apenas fazer um bem para minha própria vida. Talvez assim o resto viesse. Foi o que pensei. Bem, não sei na verdade. A conclusão que tive é que, se encontrasse o meu próprio estar bem, e isso fosse verdadeiro, só então poderia fazer um bem a outra pessoa. É pretensioso querer melhorar a vida dos outros quando não se tem qualidade em sua própria.
- Boa resposta, Seth. E quem diria, seu último dia salvou toda sua eternidade. Você está cansado. Descanse em paz, da forma que quiser. O paraíso é todo seu, para moldá-lo como quiser.
Então os nove Seths que lhe receberam ali se levantaram de suas cadeiras, e lhe fizeram uma reverência. Ao fundo da sala, um portal se abriu. Era impossível ver o que estava do outro lado. Seth Daniels Cuervo apenas levantou-se, e cruzou a porta, que se fechou atrás dele. Então aproveitou toda sua eternidade, descansando em paz. Confortavelmente adormecido, e com bons sonhos.
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segunda-feira, 22 de junho de 2009
Capítulo 36: Stop This Train
Jimmy olhou longamente para o espelho, antes de perceber onde estava se metendo. Reich tinha lhe passado um panorama geral da situação: sobre o ateliê, e a tarefa de Eddie, e a estrela vermelha que tinha surgido, e tudo mais. Então almoçou em casa (Vivian estava dando uma volta, e Jimmy estava com um tanto de saudades dela), e logo depois saiu com seu tio. E depois do almoço o mestre sentiu, seu discípulo estava muito mais poderoso do que na última vez em que ele tinha lhe ensinado algo. Hora de ver o quanto ele tinha aprendido, talvez.
-//-
- Alice? – o interfone dizia.
- Sim...? – ela respondeu, com voz de sono. Já eram duas da tarde de sábado e ela ainda dormia. - Aqui é o Seth.
- Um minuto.
Na verdade Seth esperou uns cinco, enquanto ela lavava o rosto e procurava uma roupa qualquer para abrir a porta. Ela não estava com tanto saco para atender pessoas aquele dia. Queria era passar uma tarde de sábado sem graça, do modo exato como tinham sido essas tardes por sua vida inteira. Mas, depois desse final de semana ela estaria livre, então atender à campainha parecia razoável. Ela gostava dele, no final das contas.
- Boa tarde, Seth Daniels.
- Boa tarde, Alice Scott. Coloca uma roupa, e vamos dar uma volta... – ele disse, com o mesmo sorriso picareta que ela sempre viu.
- Porque?
- Ah, não sei... acho que vai ser divertido.
Ela simplesmente olhou, nem minimamente convencida.
- Eu vou ficar em casa.
- Mas vamos, você sabe, tá acontecendo um monte de coisa, e tal...
- Eu cansei.
- Mas...
- Ah, não dá. Seth...
Uma cara de dó feita de pura picaretagem interrompeu o desânimo dela.
- Alice...
- O que você quer fazer?
- Vamos sei lá, dar uma volta pela avenida, tomar uma cerveja... você que sabe.
- Então tá. Entra aí, vou me arrumar. Liga a TV, ou um som, sei lá...
Seth sentou-se e ficou apenas observando a coleção de cds dela. Havia AC/DC, Iron Maiden, Rolling Stones, Pink Floyd, Kiss, Journey, Aerosmith e... Daft Punk. Engraçado. Nem ligou nada, ficou apenas sentado no sofá pensando em como aproveitar seu dia. E então Alice saiu do banho, enrolada em uma toalha, secando o cabelo. Ela era linda. E ele gostava dela, no final das contas. E como era ela linda. E lhe sorriu, e tudo que ele conseguiu foi sorrir de volta.
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- Vou comprar algum lanche ali, Seth.
- Ah, eu espero aqui...
- Tudo bem. E Alice atravessou a rua pouco movimentada, feliz até. E Seth apenas observando, e pensando em que droga era ela ser uma menina tão foda, algo que ele tinha descoberto há poucos minutos. E ele teria mais uma tarde, no máximo até meia-noite, para... tudo. Inclusive tentar qualquer coisa com Alice. E então ele se iria. Pensou nisso, longamente, e enquanto ela voltava, simplesmente um fio elétrico se soltou de um poste, e desceu ricocheteando e estalando do lado de Seth. Ele percebeu um instante antes – provavelmente sua premonição, a mesma que lhe salvou do ônibus na praia, agindo de novo – e foi um instante suficiente para ele se jogar no chão antes de ser atingido na cara, em cheio. Alice correu para ajudá-lo, mas ele gritou “Não!”, antes de rolar para o lado escapando do fio novamente e pular para longe, para uma distância segura. A sexta vida de suas sete ia embora ali. Seth pensou, será que seu dia inteiro ia ser um inferno?
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Vivian andava pelo shopping, sem ter idéia do que fazer. Sua tia havia lhe contado que Jimmy tinha chegado em LA no dia anterior, mas, ela queria mesmo era ficar sozinha. Sentia a falta de seu primo, mas a presença dele não era o suficiente para preencher o vazio que a falta de Eddie lhe causava. Então simplesmente saiu de casa antes que ele acordasse, apenas para evitar algum contato. Ela não queria contato com ninguém, na verdade.
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Ocean Avenue. Jimmy tinha sonhado com aquele lugar noite passada. E agora estava ali, de volta. A avenida estava um completo fuzuê; além de ser sábado à tarde, havia a história sobre um tal ateliê que poderia ter sido vítima de um ataque terrorista, ou coisas qualquer. Para o jovem mago era claro que aquilo era uma mentira. Ele havia aprendido que, em 90% dos eventos significativos que acontecem no mundo, existe alguma influência de seres sobrenaturais. Como ele. Magos, vampiros, carniçais, fadas, lobisomens, espíritos, anjos, demônios, entidades de todo tipo. Ou seja, hora de averiguar o tal ateliê.
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Howie tinha resolvido tirar sua tarde de sábado para uma coisa: levar sua filha para tomar sorvete de flocos. E enquanto os dois andavam de mãos dadas pela avenida, um cara com cabelo engraçado passou a seu lado. Era alto, magrelo, e estava de regata. Howie sentiu quase que instantaneamente algo de estranho vindo dele; então virou para trás para olhar mais atentamente quando ele passou, e viu uma tatuagem se movendo. Algo como listras de tigre, que pareciam cobrir as costas inteiras do indivíduo. E se Howie não tivesse sentido uma vibração emanando dali, - a mesma que ele sentiu por causa da estrela vermelha - ele apenas acharia que era alguma coisa de sua cabeça. Mas não podia ser simplesmente aquilo... realmente havia algo de errado com aquele cara. E conforme ele voltava a olhar para frente, o cara da tatuagem lhe observava pelo canto do olho. Estranho, no mínimo.
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Faixas de contenção, alguns guardas armados, viaturas com detetives conversando. Era esse o cerco policial que estava ali na avenida. E transeuntes curiosos passando a cada momento. O jovem mago parou ali perto, e olhou bem para o lugar. Devia ser um prédio de dois andares, mas estava um tanto destruído. E parece que havia um prazo para que as coisas fossem removidas, então o resultado final era um monte de entulho. E havia algo mais ali, com certeza. Alguma presença, como se houvesse alguma entidade parada. Mas não era uma entidade, eram apenas restos dela. E ele continuou, captando a energia residual que vinha daquele lugar. Então ele soube o que estava ali antes, era uma quimera. Criaturas feitas de sonhos, do reino das fadas. Parecia uma grande balela, mas seu tio já tinha lhe mostrado o quão reais eram. E Jimmy pensou no nome daquela específica quimera, pensou várias vezes, e então lembrou-se. Sombrinea. Quando repetiu mentalmente, "Sombrinea", a tatuagem em suas costas ardeu. E então a parte de Jimmy que o permitia pensar e agir racionalmente perdeu o controle para uma outra parte. A parte que vivia na tatuagem.
-//-
- Seth! Você está bem? - ela disse, enquanto corria atrapalhada para ajudá-lo depois que o fio já tinha sossegado.
- Sim, Alice... tudo bem. O pior foi o susto.
Ela nunca tinha abraçado ele. Ela talvez nunca tinha abraçado ninguém, provavelmente. Abraçar de verdade. E foi o que ela fez, logo que Seth se levantou. Ele tomou um susto, era a última coisa que ele esperava dela, Alice Scott. E ficou sem jeito, mas gostou daquilo. Ele provavelmente nunca tinha abraçado ninguém de verdade, também.
- Se cuida, Seth Daniels. De verdade.
- Pode deixar. Vamos indo.
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Vivian não estava com mais saco para andar pela rua, por isso voltou para casa. Deitou no sofá, e o telefone tocou. Era para seu tio. Então ela ouviu uns "como assim?", "de onde veio isso?", e "tudo bem, eu vou atrás disso já." - não entendeu nada.
- O que aconteceu, tio?
- Preciso ir atrás do Jimmy.
- Porque?
- Se houvesse um responsável pela estrela vermelha, não seria Eddie. Seria Jimmy. Fique em casa, a gente se fala depois.
- Tá...
Ela ficou parada alguns segundos, de pé, antes de se jogar no sofá de novo. O que seu primo estava arrumando?
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Alice olhou para Seth de relance por um segundo; ele com certeza estava um pouco estranho. Como se estivesse mais entusiasmado com a vida do que o normal. E era como se o sorriso dele fosse verdadeiro, pela primeira vez em muito tempo. Então, os dois viraram a esquina para entrar na Ocean Avenue, e visivelmente tudo estava errado. Em dois quarteirões inteiros ao redor deles, não havia ninguém, ou nada. Sem pessoas, sem carros, sem prédios, sem construções. Apenas um grande espaço vazio e branco. E o estranho era, carros e pessoas que entravam ali naquela área vazia sumiam, simplesmente sem motivo, e subitamente reapareciam do outro lado do espaço vazio.
- Isso cheira a magia. - Seth disse.
- Porque alguém faria isso?
- Não tenho idéia.
E Seth sentia toda a energia daquele feitiço concentrada em um único ponto. Passou alguns segundos se esforçando para achar o tal ponto em sua mente, até que o encontrou. Perto da beira da área vazia estava um cara, com cabelo engraçado, sem camisa, e um cajado na mão. A ponta do cajado faiscava com alguma energia roxa. E ele vinha caminhando na direção de Seth e Alice. E a ponta do cajado parecendo a cada segundo mais perigosa, conforme ele se aproximava.
- Ele é o responsável, Alice.
- Quem é esse cara?
- Eu acho que já vi ele antes. Deve ser Jimmy Crow. Sobrinho do velho Reich, primo de Vivian.
- E o que ele está arrumando?
- Alice, corra.Enquanto Jimmy erguia seu cajado, Alice e Seth tentaram correr para longe dali. Tudo o que conseguiram foi se chocarem contra a "parede" da tal área vazia. Ambos caíram no chão, e olharam para o mago. A esfera de energia roxa que faiscava na ponta do cajado se soltou e voou em cheio na direção de Seth. Ele simplesmente começou a se contorcer, agonizando de dor. E Alice olhou para Jimmy, aterrorizada.
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"Quem é você?", foi tudo o que Alice conseguiu perguntar, ainda sem conseguir se levantar, encurralada no canto daquele micro-universo. A voz que lhe respondeu através daquele corpo de forma alguma podia ser a voz normal daquela pessoa; falava em um idioma que lembrava algum filme de terror, como se fosse vinda do inferno... aliás, aquele cara como um todo lembrava Alice de um filme de terror. Justamente os que ela menos gostava. E quanto a Seth, ele não se lembrava de alguma vez na vida ter sentido alguma dor tão grande quanto aquela. E o que parecia, é que depois de Jimmy - ou quem quer que fosse aquele cara - ter lançado a tal energia roxa em Seth, ele estivesse parado, apenas olhando para sua vítima, talvez travando alguma batalha mental consigo mesmo. Até se ajoelhar de repente no chão, e começar a berrar, com as mãos na cabeça. Alice não podia dizer quem estava sofrendo mais com dores, se era Seth ou Jimmy. Até que de repente Jimmy gritou "Não!", numa voz que agora sim parecia humana, e Seth e Alice se teleportaram. Subitamente apareceram na grama do parque na Richards, na mesma posição em que estavam no meio do campo vazio. A energia roxa que envolvia Seth (e que não deixava Alice tocar nele) tinha sumido, e ele fazia o maior esforço possível do mundo para conseguir apenas ficar com os olhos abertos. Então aquela era sua hora. E Alice lhe disse, "Seth! Você está bem?" de novo, do mesmo jeito como perguntou logo depois do acidente com o fio. O pior é que ele não podia dizer que sim... sua hora tinha chegado.
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Alice havia sido apresentada a Seth por Locke, algum tempo depois de Seth chegar à cidade. Ela era um dos pouquíssimos que sabiam a verdade sobre a condição dele; além do próprio Locke, e Eddie, e algumas pessoas aleatórias em diferentes partes do mundo, que não interessam no momento. E os dois eram amigos por um único motivo, talvez: apenas porque suportavam um ao outro. Alice era do tipo que não gostava de pessoas, e não queria saber delas; e Seth era do tipo que não gostava de pessoas, e usava-as como ferramentas o joguinho que era sua vida. E talvez de certo modo ele também usava Alice, para um favor ou outro de vez em quando; afinal, ela também precisava dele. Por algum motivo, alguns meses antes do final de semana de 20/11/09, ela começou a ter lapsos de memória, sobre dias ou noites em que aconteciam eventos de certa forma significativos no joguinho em que era sua vida. E eles começaram a se tornar cada vez mais freqüentes, conforme o tempo foi passando. E tudo que Alice podia fazer a respeito era perguntar, fosse a Locke ou a Seth, o que tinha acontecido. Ela não lembrava do que tinha acontecido quinta à noite, mas Seth lhe contou tudo. O fato é que ela também não lembraria daquele sábado à tarde, tirando o fato de que Seth tinha morrido. Mas não lembraria de nada que envolvesse Jimmy Crow, ou fios elétricos explodindo.
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Teleportar Seth e Alice para longe foi a primeira coisa que Jimmy fez após voltar à consciência. Então se encostou em uma parede de um prédio qualquer, enquanto observava o campo vazio que ele mesmo tinha criado sumir, e a avenida voltar ao normal. Mas não tinha sido ele que tinha criado aquilo, e sim uma outra consciência dentro de seu corpo. Sua tatuagem ardia mais do que nunca; ele tinha que resistir àquilo. Então a dor foi aumentando, mais a cada segundo que passava. Ele não poderia deixar aquilo voltar, principalmente depois do que tinha acabado de fazer. Então a dor começou a aumentar mais ainda; ele foi escorregando pela parede, até sentar no chão. Estava com as mãos na cabeça, apertando-as, como se adiantasse algo contra o que vinha. Transeuntes quaisquer se aproximavam, "tudo bem, moço?", as vozes falando com ele e o burburinho da avenida ecoavam por sua mente, perturbando-lhe de uma forma absurda. Então Jimmy gritou, "PAREM!", e tudo parou de fato. Tudo ao redor dele começou a sumir. Pessoas, carros, tudo sumia, como se estivesse se pulverizando. O relógio da igreja badalava, - eram cinco e meia da tarde - até ficar em silêncio. Jimmy se levantou; a dor dele tinha sumido, assim como tudo. Olhou para aquela avenida vazia, e ficou pensando o que diabos ele tinha feito. Então algum instinto tomou conta de seu corpo, - um instinto animalesco, nada a ver com a entidade diabólica que tinha tomado conta de si antes - e ele fugiu para longe. Não queria ver a situação bizarra que tinha criado. Que tinha criado sem querer.
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- Seth! Você está bem?
Ele olhou, com os olhos entreabertos. Tudo o que queria era poder responder que sim; tudo o que queria era apenas mais um dia naquele mundo. Ou alguns dias, ou mais um tempo que fosse. Ele realmente não queria morrer naquele momento.
- Alice... se lembra quando eu disse que podia viver só duzentos anos?
- Sim... - e ela entendeu. Se lembrou do que Becky tinha lhe dito sobre destino, e como ele se manifestava. - Você me disse que nasceu em 1809. Só que eu esqueci completamente...
- E eu também. Só que por algum motivo, fui lembrar disso ontem a noite. - cada palavra que Seth dizia era um esforço fora do comum. A magia que Jimmy tinha lhe lançado amortecia cada célula de seu corpo. A dor de ficar semi-paralisado era insuportável.
- Então, por isso que queria sair tanto hoje à tarde?
- Eu só não queria ficar sozinho. E queria aproveitar algum tempo com você.
Alice só ficou olhando para ele, em silêncio. Enquanto Seth foi lentamente fechando os olhos.
- Não... - ela passou a mão por seu rosto. Foi o suficiente para ele os abrir por mais um momento. - Fico feliz de ter conhecido você.
- O prazer é todo meu.
Seguindo algum impulso de seu coração, Alice beijou Seth naquela hora. Quando os lábios dos dois se separaram, ele olhou no fundo dos olhos dela, e adormeceu. Adormeceu para nunca mais acordar. Uma lágrima escorreu do canto do olho de Alice. Ela não podia entender que tudo terminava assim. No segundo após o que Seth fechou os olhos, ela já sentia a falta dele. Sentia falta da mera noção que quando quisesse, poderia vê-lo e dar algumas risadas das picaretagens que ele aprontava. Se levantou, tentando aceitar o fato de que aquele era o destino, o fluxo das coisas. Então, a Ocean Avenue parou.
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terça-feira, 16 de junho de 2009
Capítulo 35: Pieces Mended
Depois de responder a Emily o que ela tinha lhe perguntado, e encarar o velho Reich por alguns momentos, Seth se virou e saiu. Então ele teve seu pequeno momento de iluminação, aquele que mudou sua visão do mundo: Seth nunca tinha feito algo de bom para outras pessoas, por simples altruísmo. E ele também nunca tinha feito nada na vida que lhe interessasse; apenas seguia o fluxo das coisas, e deixava as correntes do universo lhe arrastarem. E logo após essa pequena epifania, enquanto caminhava pela Ocean Avenue, passou na frente de uma livraria; em destaque, estava “1809”, a primeira obra de um jovem escritor de Los Angeles – considerado o primeiro dos pós-beat. Esse número, 1809, lhe incomodou por algum tempo – o tempo que Seth demorou para se lembrar o que significava o número 1809. Então ele entendeu: era o ano em que ele tinha nascido. E se era verdade o que ele tinha ouvido sobre a mitologia do mundo em que vivia (uma mitologia que era verdade, no final das contas), 2009 era o seu último ano de vida. E um dos relógios-termômetro da avenida lhe disse que dia era aquela sexta-feira: 20/11/09. Ou seja, tinha pouco mais de um mês ainda, na melhor das hipóteses. O que Seth não sabia era que aquela noite seria sua última.
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Após chegar em casa com Vivian, Reich sentou-se no sofá e ficou pensando. Ele só esperava um sinal, algo que pudesse melhorar a situação que estava se desenrolando, e aparentemente sem controle. Então o sinal que ele esperava chegou. Mas esse sinal terminou por apenas virar a situação de ponta-cabeça.
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- Reich! – Jimmy Crow gritou, em frente ao portão. Ele não tinha nenhum casaco, e o frio daquela noite estava infernal. Ao ver seu tio na porta lhe olhando, ele sorriu. – Boa noite, tio Reich. Estou de volta.
O velho mago correu para abrir o portão, e o abraçou. Fazia exatamente um ano desde a última vez em que ele tinha visto seu discípulo e sobrinho.
- O que faz aqui?
- Ouvi os ventos dizerem que teríamos um espetáculo legal em L.A. nesse final de semana.
- Você chegou atrasado. E está um tanto indefinido ainda o rumo que as coisas tomarão. Entre, por favor. Vou fazer um chá para nós.
Jimmy pegou sua mala no chão, e entrou com Reich. Um chá era exatamente tudo que ele queria; depois, dormir.
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Jimmy Crow era alguém que gostava de viajar. Conhecer lugares e pessoas o mais diferente possíveis era simplesmente a coisa que mais lhe dava prazer em toda a vida. E desde que tinha Despertado para a magia sete anos atrás, e estudado com seu próprio tio, ele não tinha parado mais. Passava pouquíssimos dias por ano em Los Angeles, era um cidadão do mundo todo o resto do tempo. Já tinha cruzado os Estados Unidos de Los Angeles a Nova York dirigindo, viajado de Madri a Vladvostok pegando inúmeros trens e ônibus, e navegado a Oceania inteira em um barco à vela. E seu próximo plano era mochilar por toda a América Latina: passar pelo Atacama, e Macchu Picchu, Titicaca, Amazônia, Punta Del Este, enfim, inúmeros lugares. Depois de passar alguns dias em Los Angeles, seguiria para a Argentina para começar a sua jornada. Mas antes queria saber qual a razão de todo o burburinho que agitava os Akashas de toda parte; os eventos que aconteciam sob o domínio do Mestre Reich. Seu tio e mentor, por acaso.
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Seth andava pela praia; de algum modo, ele sabia que iria encontrá-la ali. Claro, esse algum modo era a premonição sobre coisas em geral que sua condição lhe dava. A mesma que tinha lhe salvado momentos atrás, quando quase morreu atropelado por um ônibus que andava a alta velocidade pela rua que margeava o calçadão. Foi um insight que lhe disse para dar um simples passo para trás, então, o ônibus passou. “Só sobram mais duas vidas”, ele pensou. Quase tinha morrido cinco vezes, pelo que se lembrava: quando enfrentou uma tempestade em alto-mar no meio do século 19, ao levar uma picada de uma cobra-coral, de frio em plena Rússia no inverno, e ao cair de costas em uma piscina vazia, em alguma das festas de Eddie. E mais essa com o ônibus. É, sua morte realmente estava iminente. Então olhou para as estrelas, e reconheceu a constelação de McBacon. Uma que ele mesmo tinha criado – lhe lembrava um McBacon, no final das contas. Depois de contemplá-la longamente enquanto andava por um tempo, viu Becky ali. Exatamente quem ele procurava.
- Boa noite, William.
Seth parou por um momento.
- Como sabe meu nome verdadeiro?
- As ondas me contaram.
- Eu não o ouço faz tanto tempo, que agora ele soa até estranho. Engraçado, isso. Me chame de Seth, por favor.
- Claro. Sente-se, Seth. Eu estava te esperando.
-//-
- E como está Vivian, tio?
- Sua prima está meio mal, por causa do Eddie, e tudo mais. Há uma chance de que ele não volte do Sonhar.
- Entendo. Bem, vou dormir. Amanhã à tarde vou ver o que faço.
- Fique no quarto de hóspedes. Ele sempre foi seu, aliás.
- Boa noite, tio.
- Boa noite.
Jimmy entrou no quarto, e depois de escovar os dentes, tirou a camisa e ficou olhando as manchas em suas costas. Elas estavam um tanto agitadas, o que não era um bom sinal. Virou-se umas três ou quatro vezes antes de pegar no sono; dormiu com os anjos e sonhou com uma avenida.
-//-
- É isso, Seth. Acho que o que você tem a fazer nessa situação é encarar a vida, e ir atrás do que você quer. E há um papel para você em toda essa história. Eu, e você, e cada um que está envolvido tem sua vital importância. Então, simplesmente não se preocupe no que pode dar errado. Faça o que tem que ser feito.
- Obrigado, Becky. Por tudo.
- Eu que agradeço, Seth.
- Então, a gente se vê por aí.
- Olhe para o céu amanhã de noite. Você terá uma surpresa.
O que Seth não sabia era que ele não teria a chance de ver a surpresa que Becky tinha lhe dito, a que depois se tornaria famosa “Champagne Supernova”. Voltou para casa, dormiu com os anjos, e sonhou com a morte. E ao acordar, ele teve certeza de que aquele era realmente seu último dia.
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Luiz Costa
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terça-feira, 2 de junho de 2009
Capítulo 34: Total Eclipse of the Heart
Alice abriu o pequeno portão com um grampo de cabelo; para ela isso não era um problema. Ela e Eddie andaram pelo pequeno corredor que seguia para dentro da toca, fazendo o máximo de silêncio possível. Então chegaram a uma pequena sala, a porta estava entreaberta, e ali estava Raposa. Como se tivesse os esperando.
- Câmeras de vigilância. Precisariam ser um pouco mais espertos se quisessem me pegar de surpresa. – desligou a televisão com o controle remoto e se levantou da poltrona aonde estava. – Vocês têm alguma coisa para dizer, ou posso acabar com isso logo?
- Não tenha tantas esperanças assim, Raposa. – Eddie respondeu, como se nunca tivesse sido tão sério assim em toda a vida.
- Não são esperanças. São simples fatos. Vocês apenas acham que são alguma coisa.
- Porque Vivian? Porque não podia ter ido logo atrás de mim de uma vez?
- Não seria a mesma coisa. E eu queria ver você sofrer um pouco. Devia ter acabado com ela logo quando tive a oportunidade.
- Você não faria isso.
- Claro que sim. Aquela menina medíocre simplesmente não é nada.
- Assim como você. – Alice, que ainda não tinha dito nada, respondeu. No mesmo instante tirou uma faca do casaco, e a jogou em Raposa.
-//-
Raposa logo ativou sua Rapidez, e se esquivou da faca de Alice como se ela tivesse sido jogada em câmera lenta. Logo puxou duas espadas de trás da poltrona, e foi para cima da ruiva. Mas, ela também tinha Rapidez, assim como Eddie. Graças ao poderoso sangue de Locke que eles tinham tomado. Mesmo não sendo vampiros, e mesmo Raposa sendo consideravelmente poderoso, a luta estava em um páreo justo. Alice pulou para o lado, criando uma distração para que seu companheiro pudesse se preparar. Eddie sabia intuitivamente o que o sangue de Emily tinha lhe dado, e usando os próprios ossos, criou estacas que saíam de seus braços – como as lâminas de Glamour que ele tinha desenvolvido no Sonhar. Tentou golpear Raposa, mas tudo o que conseguiu foi pegar de raspão em seu ombro. E as espadas dele começaram a pingar ácido. Um ácido verde, assim como o da criatura dos tentáculos do Sonhar. Definitivamente perigoso.
-//-
Alice, desarmada, começou a jogar as coisas que estavam ali em cima de Raposa. Primeiro a televisão, depois a pequena mesa que estava embaixo, e também uma cadeira. O vampiro simplesmente ignorava aqueles objetos em suas costas, enquanto lutava com Eddie. Os dois esquivavam e aparavam todos os golpes um do outro; a luta estava praticamente em um impasse. Dependia de quem se cansasse primeiro. Mas então Alice arremessou a poltrona – como ela e Eddie tinham combinado. O peso foi demais para Raposa simplesmente ignorar; Eddie então conseguiu perfurar a barriga do vampiro com sua estaca de ossos. O inimigo pareceu atordoado por um instante, e nesse instante Eddie tentou perfurar seu coração com o outro braço. Raposa segurou a estaca que chegava perto, e a quebrou com uma só mão. Então quebrou a outra que estava dentro de si, e regenerou o buraco em seu corpo como se fosse uma coisinha qualquer.
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Na fração de segundo em que Eddie parou após ter suas duas armas quebradas, Raposa contra-atacou. As suas espadas já estavam no chão; ele segurou o carniçal e o arremessou contra a vidraça que havia ali na sala. Sem conseguir resistir, Eddie apenas viveu cada sensação que passou por seu corpo naquele minúsculo átimo: o choque contra o vidro reforçado, cada caco que entrou em seu corpo enquanto ele atravessava a janela, o vento gelado do fim da madrugada soprando enquanto caía de uma altura de dois andares, e o impacto ao cair no monte de entulho que havia lá embaixo. A dor era tão grande que ele não sentia dor nenhuma, tampouco sensação nenhuma. Como se seu corpo estivesse completamente anestesiado. Fechou os olhos, e viu toda sua vida passando em sua frente. Então era verdade o que diziam sobre a morte.
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Alice olhou chocada enquanto Eddie era arremessado. Talvez eles tivessem mesmo subestimado Raposa, ou superestimado a si mesmos. Mas, não era hora de desistir. Ela acabaria com o maldito vampiro, ou morreria tentando. Rapidamente saltou e pegou as espadas que ele tinha deixado no chão; enquanto isso, seu inimigo criava garras em ambas as mãos. Pingavam o mesmo ácido que havia nas espadas. E Alice então criou um pouco de esperança quando acertou um golpe de sorte – logo na primeira vez em que atacou, decepou uma das mãos do vampiro.
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Eddie estava entre a vida e a morte, pela milionésima vez em um único final de semana prolongado. Mas daquela vez, ele sentia que estava mais próximo da morte do que em qualquer outra ocasião. E também se sentia como se precisasse estar mais vivo do que nunca. Se lembrou de quando era uma criança, e de tudo o que vivera até ali. Dezenove anos era muito pouco tempo para viver. E como diziam, só os bons morrem jovens. Ele se considerava uma pessoa boa? O que era uma pessoa boa? Não importava, não era a hora dele morrer ali. Gastou quase todo o sangue vampírico que tinha em seu corpo para se curar o máximo que podia, então levantou e percebeu que estava em algum lugar do mesmo quarteirão. A janela pela qual Raposa tinha lhe arremessado estava fechada, coberta com um grosso ferro. Fazia sentido, para bloquear a luz solar que mataria qualquer vampiro. Então ele viu o sol nascendo, e viu que aquilo estava fácil demais. Ativou sua Rapidez novamente, e voltou pulando por cima de muros o mais rápido que podia.
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O fato é que mesmo com Raposa sem uma das mãos, a luta ainda estava difícil demais para Alice. Ela claramente não tinha a mesma agilidade ou habilidade que Eddie, e, espadas não eram muito seu departamento. Então, no momento que viu Eddie voltando para dentro, ela teve uma intuição. Usou algum sangue que ainda tinha para aumentar sua força, e chutou o vampiro com toda sua vontade. Raposa se chocou contra a parede, e caiu. Foi uma distração suficiente para Eddie agarrá-lo, e, enquanto ele segurava o inimigo, ela golpeou-o com as espadas o máximo que podia. Raposa tinha que gastar seu sangue para se regenerar, o que manteve a força de Eddie relativamente muito maior que a dele. O carniçal carregou seu inimigo por alguma distância, antes de jogá-lo na rua, sob o sol que nascia. O vampiro apenas teve tempo de gritar um pouco, enquanto queimava freneticamente. Vendo que aquilo tinha finalmente acabado, Eddie suspirou longamente e abraçou Alice. Poderia ir para casa.
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- Eddie... olhe para você.
Em sua coxa, lado do tronco, e no ombro, Eddie tinha ferimentos iguais ao que Ling Ariser estava logo antes de ser engolido pela quimera sombra, ainda na quinta-feira. E não dava pra sentir nada ali. Aquele ácido era diferente do ácido da quimera dos tentáculos; simplesmente queimava sem causar nenhuma dor.
- Alice... pode me levar para um lugar agora?
- Claro, aonde é?
- Para a casa de Vivian. O tio dela pode me curar.
- Vamos.
Eddie entregou as chaves do Porsche de Brett a ela, e simplesmente pediu que ela fosse o mais rápido possível. Fazendo o melhor que podia, ela conseguiu chegar lá em 10 minutos. Os dois não disseram uma palavra o caminho inteiro, de tão cansados que estavam pela batalha. Que tinha sido uma vitória, afinal.
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Ao chegarem à casa de Vivian, Reich estava esperando-os na porta.
- Entre, Eddie. E sente-se no sofá. Vamos dar um jeito nisso. Alice, acorde Vivian, por favor. Ela terá uma surpresa.
Enquanto o mago dizia palavras mágicas estranhas e aplicava umas folhas e pomadas sobre os ferimentos, Alice entrou. Ali, olhou a garota que tanto lhe odiava, por alguma razão qualquer.
- Vivian... – ela abriu os olhos e olhou, espantada com o que via. – Seu namorado está de volta. Vá encontrá-lo na sala. Ela sabia que ele voltaria. Tinha certeza absoluta disso. Pulou da cama, agradeceu a Alice com toda a boa vontade, e ficou parada na porta da sala, sorrindo por ele estar de volta. Ele também sorriu. Tudo o que queria ver no momento era ela.
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Luiz Costa
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11:16
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