- Bom dia, tia.
- Bom dia, Vivian.
- O pé de maracujá deu flores, você viu?
- Não... vou lá dar uma olhada.
Vivian saiu da cozinha para o quintal. As flores de maracujá eram realmente lindas, como sua tia tinha lhe dito. Mas, o que lhe chamou mais a atenção não foram as flores, e sim o duende quimérico que morava debaixo da grande árvore que havia ali. Vivian tinha passado a maioria dos dias dos últimos três anos sem falar uma única palavra com ele. No começo, ele vivia dizendo bom dia para a Changeling, algo que deixou de fazer quando percebeu que ela o ignorava, desejando com todas as forças que ele simplesmente não existisse. Ela não gostava de quimeras. Mas, desde a última noite, em que o Glamour tinha voltado para sua vida, Vivian tinha mudado sua atitude em relação a elas. Agora via como parte de sua vida, algo a se aceitar e tirar o melhor possível.
- Ei, você... se eu pedisse desculpas seria o bastante? – ela disse para o duende, se aproximando lentamente. Ele olhou de volta por um tempo, meio apreensivo, antes de responder.
- Meu nome é Straub.
- Prazer, Vivianne.
- Eu sei seu nome. Moro aqui, né.
- Straub, desculpe por todo esse tempo te ignorando. Sabe, eu não conseguia aceitar tudo isso que acontecia comigo. E ignorar pessoas não é algo legal.
- Que bom que você percebeu, Vivianne. E tudo bem. Como você está?
- Bem feliz, agora. E você?
- Também. E seu primo Jimmy, como está?
- Não sei... faz tempo que não vejo ele.
- Ele estava aqui ontem, esqueceu?
- Como assim?
- Sim... eu vi ele depois do almoço. O menino estava mal...
- Bem, eu saí ontem, mas provavelmente eu saberia se ele estivesse em casa...
- Pergunte ao seu tio.
-//-
- Tio... meu primo estava aqui ontem?
- Jimmy? Não...
- Straub me disse.
- Sério?
- Sim.
- Vou falar com ele.
Alguns minutos depois, Reich voltou ao salão.
- Eddie já acordou?
- Não... quer que eu chame ele?
- Sim, preciso da ajuda dele para algo. É importante.
-//-
- Sim, Reich?
- Edward... chegou a conhecer meu sobrinho Jimmy?
- Não... Vivian me falou algumas vezes dele, mas eu nunca o vi pessoalmente. Porque?
- Ao que parece ele está em Los Angeles. E ele que fez a Ocean Avenue parar. E de alguma forma apagou sua passagem por aqui da mente de todos que o encontraram.
- Entendi. E no que eu posso ajudar?
- Vou fazer um ritual para me comunicar com alguém que possa dizer sobre o que aconteceu ontem à tarde. Para ter uma idéia do que Jimmy aprontou. E preciso da sua ajuda, tanto para fazer o ritual, quanto para conversar com o espírito que vou convocar.
Não demorou muito para Eddie ligar os pontos e perceber com quem Reich queria falar.
- Seth?
- Sim.
- Tudo bem.
- Então, sente-se encostado naquela parede ali, de pernas cruzadas. Coloque as mãos sobre seus joelhos. Feche os olhos, e pense apenas em Seth. Em cada lembrança de momentos alegres que você passou com ele.
Eddie fez o que Reich disse. Não era muito difícil. Os dois viviam jogando videogame juntos, na casa de Seth. Havia o aniversário de Eddie, em que seu primo tinha feito o discurso de homenagem. E as inúmeras tardes fumando maconha no quarto de Eddie, com a porta e as janelas fechadas. E ele poderia pensar em mais coisas, mas um “pode abrir os olhos” o interrompeu. Tinha sido rápido, no final das contas. E ali estava Seth, de pé em sua frente, e um pouco translúcido. Exatamente como Eddie imaginava que eram os espíritos de pessoas mortas.
- E aí, Seth?
- Quem é vivo sempre aparece, né.
Eddie riu da piada. Seu primo não perdia o bom humor, em hipótese alguma.
- Vamos ser rápidos – Reich disse.
- Seth... sabe quem é Jimmy Crow?
- Sim.
- O que ele fez ontem?
- Me matou.
- Como? – Reich perguntou, semi-chocado.
Então Seth contou sobre o que tinha acontecido no campo limpo estranho que Jimmy tinha criado. E sobre como ele estava aparentemente possuído, e lutando contra si mesmo.
- A situação então está mais difícil do que eu pensei. Jimmy está realmente com problemas.
- Ah, que ele tem problemas é algo certo. Com todo o respeito por seu sobrinho.
- Tudo bem, Seth. Obrigado por sua ajuda.
- Não foi nada.
- Feche os olhos, Eddie. Como você o convocou, precisamos fechar a ligação.
- A gente se vê por aí, Seth.
- Espero que não nos encontremos tão cedo por aqui. Até mais.
Então o carniçal fechou os olhos, e ao abri-los, ele tinha se ido. Finalmente Eddie conseguira entender o fato de que Seth realmente estava morto. Quando Reich tinha lhe dito na noite passada, pareceu algo distante demais da realidade para ser possível. Mas sim, era real.
- Você sabe aonde encontrar Alice, Edward?
- Sim, descobri ontem onde ela mora.
- Vamos para lá.
- Certo.
- Chame Vivian. Ela será importante, agora que conversa com quimeras.
- Mas... você também não consegue?
- Sim. Porém ela tem um magnetismo para seres de Glamour, que eu não tenho. Torna tudo mais fácil.
Depois de Vivian trocar de roupa, os três entraram no carro de Reich e foram encontrar Alice. A pessoa que podia mostrar sua visão dos fatos. Com um pouco de magia de mente, claro.
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A verdade é que Alice não tinha ficado muito confortável com a idéia de alguém ler sua mente. Porém, era algo que ela faria por Seth, inclusive. Por isso, aceitou que Reich fizesse o que tinha que ser feito. Não adiantou muito para o mago, que não soube muito além do que Seth tinha lhe contado; ele apenas soube que a avenida parou momentos depois de Jimmy começar a lutar contra a entidade que tomara conta de si. Ou seja, provavelmente tinha sido obra de seu sobrinho mesmo. Contra sua vontade.
- Vai ser impossível encontrar Jimmy enquanto não desamarrarmos alguns nós dessa situação. – Reich disse, depois de um tempo lendo a mente de Alice.
- Como assim?
- Vou ligar para meus colegas da Irmandade, para confirmar.
O mago saiu, e voltou alguns minutos depois. Contou sobre a profecia que estava se desenrolando – sobre a qual Eddie tinha a impressão de que já tinha ouvido um milhão de vezes; mas nunca em detalhes. Era uma história cheia de alegorias, e a maioria Reich conseguia explicar. A moral da história era que Eddie e Jimmy representavam duas forças opostas, a ordem e o caos. O que deveria acontecer no final de tudo era um retorno à situação de equilíbrio anterior, que só aconteceria depois de um processo de quatro partes - os quatro dias daquele final de semana prolongado. Três já tinham se passado: fuga para o castelo, jornada nos sonhos, acerto de contas. Faltava ainda a ida dos piratas.
- Mas, Reich... os piratas foram embora ontem à noite. Depois que você me deu a bússola.
- Eles sim, mas e quem eles representam?
Eddie lembrou-se das caricaturas. Seu Inimigo tinha sido morto. Ainda sobravam dois dos piratas.
- Raposa era o primeiro pirata, já se foi. Jack Tequila, e o tal do antigo príncipe. Chris. São Morte e Oculto, os dois que faltam.
- Então você tem que acabar com eles, é isso? - Alice perguntou.
- Não necessariamente. - Reich respondeu - Mas, é uma das maneiras.
- E como termina meu primo nessa?
- A profecia segue um processo, dividido em partes. Enquanto essa pequena história sobre Jack, e Chris, e a sociedade dos vampiros não se resolver, Jimmy continuará isolado do mundo. Mas pelo menos está garantido que tudo terminará hoje. Essas profecias com piratas não erram. Foi o que aprendi durante minha vida.
Vivian olhou para seu tio, intrigada. Por quantas situações como essa seu tio já não tinha passado? E ela não tinha a mínima idéia do modo como funcionava esse novo mundo.
-//-
"Você verá a morte no terceiro dia, e vai encontrá-la de novo no quarto", era o que Becky tinha lhe dito logo antes de partir. Eddie tinha pensado sobre essas palavras um pouco, mas, naquele momento de silêncio na sala de Alice, era a única coisa que havia em sua mente. Ele tinha visto a morte no terceiro dia, duas vezes; mas também tinha visto Morte. "Mas, antes de partir com ela"... seria mesmo a morte, ou Jack Tequila? Nunca algo lhe pareceu tão complexo, mas, nunca tão simples ao mesmo tempo. Parecia paradoxal, mas a solução estava bem clara. Eddie tinha que fazer o que tivesse que ser feito. Não importavam mais coisas como motivação, ou possibilidades. Sua única escolha era não ter escolhas. As correntes e marés do destino se manifestariam, não importa o que ele tentasse. Olhou por um longo momento para Vivian, e se levantou. Ainda eram duas da tarde, e vampiros não sairiam de suas tocas até de noite. Mas, ele tinha uma idéia. Contou-a para Reich, Alice, e Vivian, então os quatro se separaram. Cada um tinha coisas para fazer.
-//-
Brett tinha instalado um santuário de pássaros no parque da esquina da Ocean Avenue com a Richards, logo depois de comprar seu atual apartamento. E ele se dedicava a colocar comida para eles todos os dias - quando era possível, pelo menos - e ficar observando, apenas. Então, de tarde, depois de terminar a complicada tarefa que Locke lhe deu, ele resolveu passar no parque. Primeira surpresa, a Ocean Avenue estava completamente vazia. Não se viam pessoas nas ruas, tampouco carros em movimento. Parecia que o mundo tinha esquecido que aquele lugar existia. Segunda surpresa, havia alguém sentado no meio do santuário de pássaros. E esse alguém tinha criado seu próprio santuário. Uma esfera de energia roxa circundava o lugar, e, no meio da esfera, um cara com cabelo engraçado e sem camisa meditava em posição de lótus, com os olhos fechados. E ele tinha uma tatuagem definitivamente estranha: manchas e listras, como de um tigre, que se mexiam. E por mais que Brett por algum motivo tivesse achado imprudente encostar naquela esfera roxa, foi o que ele fez. Coisas que a curiosidade e os instintos aprontam com a gente. E ao tocar sua mão no campo de energia, ele sentiu uma dor incomparável. Gritou, e instintivamente usou o poder do seu sangue para suprimir a dor. Mas, ao gritar, o cara que meditava ali sentado abriu os olhos e olhou para ele. Tinha olhos vermelhos, e um olhar perfurante. A esfera se desfez, gradualmente. E lá estava Brett se metendo em problemas de novo.
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Chris acordou, no instante exato em que o sol sumiu no horizonte. Alguma coisa estava errada.
sábado, 27 de junho de 2009
Capítulo 39: The Unforgiven II
Postado por
Luiz Costa
às
12:34
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