segunda-feira, 22 de junho de 2009

Capítulo 36: Stop This Train

Jimmy olhou longamente para o espelho, antes de perceber onde estava se metendo. Reich tinha lhe passado um panorama geral da situação: sobre o ateliê, e a tarefa de Eddie, e a estrela vermelha que tinha surgido, e tudo mais. Então almoçou em casa (Vivian estava dando uma volta, e Jimmy estava com um tanto de saudades dela), e logo depois saiu com seu tio. E depois do almoço o mestre sentiu, seu discípulo estava muito mais poderoso do que na última vez em que ele tinha lhe ensinado algo. Hora de ver o quanto ele tinha aprendido, talvez.

-//-

- Alice? – o interfone dizia.
- Sim...? – ela respondeu, com voz de sono. Já eram duas da tarde de sábado e ela ainda dormia. - Aqui é o Seth.
- Um minuto.
Na verdade Seth esperou uns cinco, enquanto ela lavava o rosto e procurava uma roupa qualquer para abrir a porta. Ela não estava com tanto saco para atender pessoas aquele dia. Queria era passar uma tarde de sábado sem graça, do modo exato como tinham sido essas tardes por sua vida inteira. Mas, depois desse final de semana ela estaria livre, então atender à campainha parecia razoável. Ela gostava dele, no final das contas.
- Boa tarde, Seth Daniels.
- Boa tarde, Alice Scott. Coloca uma roupa, e vamos dar uma volta... – ele disse, com o mesmo sorriso picareta que ela sempre viu.
- Porque?
- Ah, não sei... acho que vai ser divertido.
Ela simplesmente olhou, nem minimamente convencida.
- Eu vou ficar em casa.
- Mas vamos, você sabe, tá acontecendo um monte de coisa, e tal...
- Eu cansei.
- Mas...
- Ah, não dá. Seth...
Uma cara de dó feita de pura picaretagem interrompeu o desânimo dela.
- Alice...
- O que você quer fazer?
- Vamos sei lá, dar uma volta pela avenida, tomar uma cerveja... você que sabe.
- Então tá. Entra aí, vou me arrumar. Liga a TV, ou um som, sei lá...
Seth sentou-se e ficou apenas observando a coleção de cds dela. Havia AC/DC, Iron Maiden, Rolling Stones, Pink Floyd, Kiss, Journey, Aerosmith e... Daft Punk. Engraçado. Nem ligou nada, ficou apenas sentado no sofá pensando em como aproveitar seu dia. E então Alice saiu do banho, enrolada em uma toalha, secando o cabelo. Ela era linda. E ele gostava dela, no final das contas. E como era ela linda. E lhe sorriu, e tudo que ele conseguiu foi sorrir de volta.

-//-

- Vou comprar algum lanche ali, Seth.
- Ah, eu espero aqui...
- Tudo bem. E Alice atravessou a rua pouco movimentada, feliz até. E Seth apenas observando, e pensando em que droga era ela ser uma menina tão foda, algo que ele tinha descoberto há poucos minutos. E ele teria mais uma tarde, no máximo até meia-noite, para... tudo. Inclusive tentar qualquer coisa com Alice. E então ele se iria. Pensou nisso, longamente, e enquanto ela voltava, simplesmente um fio elétrico se soltou de um poste, e desceu ricocheteando e estalando do lado de Seth. Ele percebeu um instante antes – provavelmente sua premonição, a mesma que lhe salvou do ônibus na praia, agindo de novo – e foi um instante suficiente para ele se jogar no chão antes de ser atingido na cara, em cheio. Alice correu para ajudá-lo, mas ele gritou “Não!”, antes de rolar para o lado escapando do fio novamente e pular para longe, para uma distância segura. A sexta vida de suas sete ia embora ali. Seth pensou, será que seu dia inteiro ia ser um inferno?

-//-

Vivian andava pelo shopping, sem ter idéia do que fazer. Sua tia havia lhe contado que Jimmy tinha chegado em LA no dia anterior, mas, ela queria mesmo era ficar sozinha. Sentia a falta de seu primo, mas a presença dele não era o suficiente para preencher o vazio que a falta de Eddie lhe causava. Então simplesmente saiu de casa antes que ele acordasse, apenas para evitar algum contato. Ela não queria contato com ninguém, na verdade.

-//-

Ocean Avenue. Jimmy tinha sonhado com aquele lugar noite passada. E agora estava ali, de volta. A avenida estava um completo fuzuê; além de ser sábado à tarde, havia a história sobre um tal ateliê que poderia ter sido vítima de um ataque terrorista, ou coisas qualquer. Para o jovem mago era claro que aquilo era uma mentira. Ele havia aprendido que, em 90% dos eventos significativos que acontecem no mundo, existe alguma influência de seres sobrenaturais. Como ele. Magos, vampiros, carniçais, fadas, lobisomens, espíritos, anjos, demônios, entidades de todo tipo. Ou seja, hora de averiguar o tal ateliê.

-//-

Howie tinha resolvido tirar sua tarde de sábado para uma coisa: levar sua filha para tomar sorvete de flocos. E enquanto os dois andavam de mãos dadas pela avenida, um cara com cabelo engraçado passou a seu lado. Era alto, magrelo, e estava de regata. Howie sentiu quase que instantaneamente algo de estranho vindo dele; então virou para trás para olhar mais atentamente quando ele passou, e viu uma tatuagem se movendo. Algo como listras de tigre, que pareciam cobrir as costas inteiras do indivíduo. E se Howie não tivesse sentido uma vibração emanando dali, - a mesma que ele sentiu por causa da estrela vermelha - ele apenas acharia que era alguma coisa de sua cabeça. Mas não podia ser simplesmente aquilo... realmente havia algo de errado com aquele cara. E conforme ele voltava a olhar para frente, o cara da tatuagem lhe observava pelo canto do olho. Estranho, no mínimo.

-//-

Faixas de contenção, alguns guardas armados, viaturas com detetives conversando. Era esse o cerco policial que estava ali na avenida. E transeuntes curiosos passando a cada momento. O jovem mago parou ali perto, e olhou bem para o lugar. Devia ser um prédio de dois andares, mas estava um tanto destruído. E parece que havia um prazo para que as coisas fossem removidas, então o resultado final era um monte de entulho. E havia algo mais ali, com certeza. Alguma presença, como se houvesse alguma entidade parada. Mas não era uma entidade, eram apenas restos dela. E ele continuou, captando a energia residual que vinha daquele lugar. Então ele soube o que estava ali antes, era uma quimera. Criaturas feitas de sonhos, do reino das fadas. Parecia uma grande balela, mas seu tio já tinha lhe mostrado o quão reais eram. E Jimmy pensou no nome daquela específica quimera, pensou várias vezes, e então lembrou-se. Sombrinea. Quando repetiu mentalmente, "Sombrinea", a tatuagem em suas costas ardeu. E então a parte de Jimmy que o permitia pensar e agir racionalmente perdeu o controle para uma outra parte. A parte que vivia na tatuagem.

-//-

- Seth! Você está bem? - ela disse, enquanto corria atrapalhada para ajudá-lo depois que o fio já tinha sossegado.
- Sim, Alice... tudo bem. O pior foi o susto.
Ela nunca tinha abraçado ele. Ela talvez nunca tinha abraçado ninguém, provavelmente. Abraçar de verdade. E foi o que ela fez, logo que Seth se levantou. Ele tomou um susto, era a última coisa que ele esperava dela, Alice Scott. E ficou sem jeito, mas gostou daquilo. Ele provavelmente nunca tinha abraçado ninguém de verdade, também.
- Se cuida, Seth Daniels. De verdade.
- Pode deixar. Vamos indo.

-//-

Vivian não estava com mais saco para andar pela rua, por isso voltou para casa. Deitou no sofá, e o telefone tocou. Era para seu tio. Então ela ouviu uns "como assim?", "de onde veio isso?", e "tudo bem, eu vou atrás disso já." - não entendeu nada.
- O que aconteceu, tio?
- Preciso ir atrás do Jimmy.
- Porque?
- Se houvesse um responsável pela estrela vermelha, não seria Eddie. Seria Jimmy. Fique em casa, a gente se fala depois.
- Tá...
Ela ficou parada alguns segundos, de pé, antes de se jogar no sofá de novo. O que seu primo estava arrumando?

-//-

Alice olhou para Seth de relance por um segundo; ele com certeza estava um pouco estranho. Como se estivesse mais entusiasmado com a vida do que o normal. E era como se o sorriso dele fosse verdadeiro, pela primeira vez em muito tempo. Então, os dois viraram a esquina para entrar na Ocean Avenue, e visivelmente tudo estava errado. Em dois quarteirões inteiros ao redor deles, não havia ninguém, ou nada. Sem pessoas, sem carros, sem prédios, sem construções. Apenas um grande espaço vazio e branco. E o estranho era, carros e pessoas que entravam ali naquela área vazia sumiam, simplesmente sem motivo, e subitamente reapareciam do outro lado do espaço vazio.
- Isso cheira a magia. - Seth disse.
- Porque alguém faria isso?
- Não tenho idéia.
E Seth sentia toda a energia daquele feitiço concentrada em um único ponto. Passou alguns segundos se esforçando para achar o tal ponto em sua mente, até que o encontrou. Perto da beira da área vazia estava um cara, com cabelo engraçado, sem camisa, e um cajado na mão. A ponta do cajado faiscava com alguma energia roxa. E ele vinha caminhando na direção de Seth e Alice. E a ponta do cajado parecendo a cada segundo mais perigosa, conforme ele se aproximava.
- Ele é o responsável, Alice.
- Quem é esse cara?
- Eu acho que já vi ele antes. Deve ser Jimmy Crow. Sobrinho do velho Reich, primo de Vivian.
- E o que ele está arrumando?
- Alice, corra.Enquanto Jimmy erguia seu cajado, Alice e Seth tentaram correr para longe dali. Tudo o que conseguiram foi se chocarem contra a "parede" da tal área vazia. Ambos caíram no chão, e olharam para o mago. A esfera de energia roxa que faiscava na ponta do cajado se soltou e voou em cheio na direção de Seth. Ele simplesmente começou a se contorcer, agonizando de dor. E Alice olhou para Jimmy, aterrorizada.

-//-

"Quem é você?", foi tudo o que Alice conseguiu perguntar, ainda sem conseguir se levantar, encurralada no canto daquele micro-universo. A voz que lhe respondeu através daquele corpo de forma alguma podia ser a voz normal daquela pessoa; falava em um idioma que lembrava algum filme de terror, como se fosse vinda do inferno... aliás, aquele cara como um todo lembrava Alice de um filme de terror. Justamente os que ela menos gostava. E quanto a Seth, ele não se lembrava de alguma vez na vida ter sentido alguma dor tão grande quanto aquela. E o que parecia, é que depois de Jimmy - ou quem quer que fosse aquele cara - ter lançado a tal energia roxa em Seth, ele estivesse parado, apenas olhando para sua vítima, talvez travando alguma batalha mental consigo mesmo. Até se ajoelhar de repente no chão, e começar a berrar, com as mãos na cabeça. Alice não podia dizer quem estava sofrendo mais com dores, se era Seth ou Jimmy. Até que de repente Jimmy gritou "Não!", numa voz que agora sim parecia humana, e Seth e Alice se teleportaram. Subitamente apareceram na grama do parque na Richards, na mesma posição em que estavam no meio do campo vazio. A energia roxa que envolvia Seth (e que não deixava Alice tocar nele) tinha sumido, e ele fazia o maior esforço possível do mundo para conseguir apenas ficar com os olhos abertos. Então aquela era sua hora. E Alice lhe disse, "Seth! Você está bem?" de novo, do mesmo jeito como perguntou logo depois do acidente com o fio. O pior é que ele não podia dizer que sim... sua hora tinha chegado.

-//-

Alice havia sido apresentada a Seth por Locke, algum tempo depois de Seth chegar à cidade. Ela era um dos pouquíssimos que sabiam a verdade sobre a condição dele; além do próprio Locke, e Eddie, e algumas pessoas aleatórias em diferentes partes do mundo, que não interessam no momento. E os dois eram amigos por um único motivo, talvez: apenas porque suportavam um ao outro. Alice era do tipo que não gostava de pessoas, e não queria saber delas; e Seth era do tipo que não gostava de pessoas, e usava-as como ferramentas o joguinho que era sua vida. E talvez de certo modo ele também usava Alice, para um favor ou outro de vez em quando; afinal, ela também precisava dele. Por algum motivo, alguns meses antes do final de semana de 20/11/09, ela começou a ter lapsos de memória, sobre dias ou noites em que aconteciam eventos de certa forma significativos no joguinho em que era sua vida. E eles começaram a se tornar cada vez mais freqüentes, conforme o tempo foi passando. E tudo que Alice podia fazer a respeito era perguntar, fosse a Locke ou a Seth, o que tinha acontecido. Ela não lembrava do que tinha acontecido quinta à noite, mas Seth lhe contou tudo. O fato é que ela também não lembraria daquele sábado à tarde, tirando o fato de que Seth tinha morrido. Mas não lembraria de nada que envolvesse Jimmy Crow, ou fios elétricos explodindo.

-//-

Teleportar Seth e Alice para longe foi a primeira coisa que Jimmy fez após voltar à consciência. Então se encostou em uma parede de um prédio qualquer, enquanto observava o campo vazio que ele mesmo tinha criado sumir, e a avenida voltar ao normal. Mas não tinha sido ele que tinha criado aquilo, e sim uma outra consciência dentro de seu corpo. Sua tatuagem ardia mais do que nunca; ele tinha que resistir àquilo. Então a dor foi aumentando, mais a cada segundo que passava. Ele não poderia deixar aquilo voltar, principalmente depois do que tinha acabado de fazer. Então a dor começou a aumentar mais ainda; ele foi escorregando pela parede, até sentar no chão. Estava com as mãos na cabeça, apertando-as, como se adiantasse algo contra o que vinha. Transeuntes quaisquer se aproximavam, "tudo bem, moço?", as vozes falando com ele e o burburinho da avenida ecoavam por sua mente, perturbando-lhe de uma forma absurda. Então Jimmy gritou, "PAREM!", e tudo parou de fato. Tudo ao redor dele começou a sumir. Pessoas, carros, tudo sumia, como se estivesse se pulverizando. O relógio da igreja badalava, - eram cinco e meia da tarde - até ficar em silêncio. Jimmy se levantou; a dor dele tinha sumido, assim como tudo. Olhou para aquela avenida vazia, e ficou pensando o que diabos ele tinha feito. Então algum instinto tomou conta de seu corpo, - um instinto animalesco, nada a ver com a entidade diabólica que tinha tomado conta de si antes - e ele fugiu para longe. Não queria ver a situação bizarra que tinha criado. Que tinha criado sem querer.

-//-

- Seth! Você está bem?
Ele olhou, com os olhos entreabertos. Tudo o que queria era poder responder que sim; tudo o que queria era apenas mais um dia naquele mundo. Ou alguns dias, ou mais um tempo que fosse. Ele realmente não queria morrer naquele momento.
- Alice... se lembra quando eu disse que podia viver só duzentos anos?
- Sim... - e ela entendeu. Se lembrou do que Becky tinha lhe dito sobre destino, e como ele se manifestava. - Você me disse que nasceu em 1809. Só que eu esqueci completamente...
- E eu também. Só que por algum motivo, fui lembrar disso ontem a noite. - cada palavra que Seth dizia era um esforço fora do comum. A magia que Jimmy tinha lhe lançado amortecia cada célula de seu corpo. A dor de ficar semi-paralisado era insuportável.
- Então, por isso que queria sair tanto hoje à tarde?
- Eu só não queria ficar sozinho. E queria aproveitar algum tempo com você.
Alice só ficou olhando para ele, em silêncio. Enquanto Seth foi lentamente fechando os olhos.
- Não... - ela passou a mão por seu rosto. Foi o suficiente para ele os abrir por mais um momento. - Fico feliz de ter conhecido você.
- O prazer é todo meu.
Seguindo algum impulso de seu coração, Alice beijou Seth naquela hora. Quando os lábios dos dois se separaram, ele olhou no fundo dos olhos dela, e adormeceu. Adormeceu para nunca mais acordar. Uma lágrima escorreu do canto do olho de Alice. Ela não podia entender que tudo terminava assim. No segundo após o que Seth fechou os olhos, ela já sentia a falta dele. Sentia falta da mera noção que quando quisesse, poderia vê-lo e dar algumas risadas das picaretagens que ele aprontava. Se levantou, tentando aceitar o fato de que aquele era o destino, o fluxo das coisas. Então, a Ocean Avenue parou.

Nenhum comentário: