- Vai fazer o que hoje à noite, Rachel?
- Não sei... acho que vou ficar em casa mesmo. Amanhã eu abro a loja, 9 horas. Vai sair?
- Ah, eu queria sim. Segunda de manhã eu nunca tenho nada pra fazer, então acho que é uma boa começar a aproveitar as noites de domingo.
- Vai pra onde?
- Então, eu estava pensando naquele bar que a gente foi uma vez. Hell's Kitchen, sabe?
- Sim... eu lembro. Nossa, aonde fica mesmo?
- Então, eu não consigo lembrar de jeito nenhum. Sei que é no centro, mas não lembro o endereço não.
- Que estranho. É em um lugar tão conhecido...
- Pois é.
Mark não conseguiria encontrar o Hell's Kitchen naquela noite de domingo, tampouco qualquer outro endereço da Ocean Avenue.
-//-
Após Alice lhe beijar, Seth fechou os olhos. E quando os abriu, estava em um lugar completamente diferente. Um túnel escuro, com uma luz no final. "Esperava mais da morte", pensou. Aquilo era um tanto clássico demais para ele. Sem ter o que fazer, caminhou em direção à luz. Ao ser tocado por ela, uma energia que nunca tinha sentido antes inundou seu corpo e sua mente. E quando a ofuscação passou e ele conseguiu ver com clareza, ali estavam várias cópias de si mesmo. Nove, na verdade. E ele era o décimo. Sentados ao redor de uma mesa, cada um começou a falar sobre o que ele tinha feito em toda sua vida. Aquilo era como um relatório de tudo o que Seth tinha feito em seus duzentos anos que foram permitidos em nosso mundo. Para depois ele ser julgado e mandado para um outro lugar, para aproveitar o resto de sua existência. E o que eram duzentos anos, comparados à toda uma eternidade?
-//-
Reich andava, apressadamente e preocupado. As profecias tinham sido interpretadas um pouco erroneamente. E ele não queria ver seu sobrinho se metendo em problemas, ou criando problemas - o que era pior. Então, ao chegar à Ocean Avenue, ele percebeu que tinha chegado tarde demais. A avenida estava parada. Um campo mágico bloqueava a entrada de pessoas comuns ali (por comuns, entenda-se que não tenham nada a ver com os acontecimentos daquele final de semana), e também a simples lembrança de que aquele lugar existia. Jimmy normalmente nunca teria a capacidade de produzir alguma magia de tal magnitude; nem mesmo ele, mestre dos Akashas, poderia fazer aquilo. Seriam necessários no mínimo vários magos, juntos em um ritual, para parar - e apagar das mentes comuns - uma avenida inteira. Usando sua Consicência, tentou rastrear Jimmy. O pior: ele estava fora de alcance. E procurá-lo usando meios mundanos por toda Los Angeles seria no mínimo mais difícil do que encontrar uma agulha em um palheiro. Então concentrou-se em seu sobrinho mais uma vez, e subitamente ele desapareceu. Não só fisicamente, mas também da mente de Reich. Pela mesma razão que Alice se esqueceu de inúmeras coisas sobre sua própria vida, Reich se esqueceu que Jimmy estava em na cidade. E Vivian também. A avenida ficaria parada por todo sábado, e domingo, e ninguém poderia fazer nada a respeito nesse meio-tempo. O responsável por aquilo tinha se isolado do mundo, em seu próprio micro-universo. Assim como o jovem mago enlouquecido tinha isolado a Ocean Avenue de todos, tinha isolado a si mesmo também.
-//-
Domingo, sete da noite, e Mark andava pelo centro. Tentando encontrar de qualquer forma aquele bar, que o começava a incomodar profundamente. Ele não sabia porque, mas queria estar lá. O que era estranho; era só um lugar legal para sair e passar algumas horas. Um bar com um bom som, pessoas que parecem interessantes, e cerveja relativamente barata. E que ele não encontrava de jeito nenhum. E alguma coisa estava visivelmente errada naquele rolê. Como se faltasse uma rua. Andar pelo centro estava começando a deixar Mark desorientado. As esquinas pareciam todas erradas. Haviam alguns cruzamentos movimentados demais, e outros movimentados de menos. Menos no nível de quase parados. Nada fazia sentido. E o pior começou quando Mark percebeu que não sabia mais como voltar para casa. A avenida pela qual ele sempre tinha andado parecia não existir mais. Ou será que ela nunca tinha existido? Será que ele ainda estava sob os efeitos da noite de ontem?
-//-
Cansado de andar e andar e não chegar a lugar nenhum, Mark parou. Encostou-se em um lugar qualquer, pensando no que poderia estar acontecendo. Olhando para aquele céu levemente violeta, que dava continuidade a um pôr-do-sol alaranjado que se tornou vermelho com o tempo. Era sem dúvida o céu mais belo que Mark tinha visto em toda sua vida - provavelmente causado por causa de restos da explosão no céu da noite anterior. Alguma coisa lhe dizia isso, e naquele momento, ele lembrava... no sábado o céu também estava violeta. Então um letreiro de neon lhe chamou a atenção, pelo bonito contraste que fazia com o céu. "Aulas de teatro". Aquele letreiro salvou sua vida. Finalmente ele conseguiu se localizar, após tanto andar dando voltas - a rua que fazia esquina com a da escola de teatro era a que levava para seu apartamento. E, a caminho de casa, Mark começou a pensar em fazer teatro. Alguma coisa para ocupar sua vida, que tinha estado ociosa até demais nos últimos tempos. Tentar não custava nada, e quem sabe aquilo seria bom para ele. Chegou em casa, ficou enrolando alguns minutos, e dormiu. Afinal, o outro dia seria segunda, e de tarde ele teria que trabalhar.
-//-
- Você acha que foi uma pessoa boa durante sua vida, Seth Daniels Cuervo? - suas cópias lhe perguntaram em uníssono. Mais uma pergunta que ele tinha que responder naquele estranho julgamento. Seth então começou a pensar em uma resposta - era sábio pensar antes de falar, naquela situação. Mas a resposta já estava em sua cabeça desde a noite anterior. "Não", respondeu calmamente, olhando para baixo.
- Você estava ciente de que não era uma pessoa boa?
- Também não. Percebi isso menos de 24 horas atrás.
- E tentou fazer algo para mudar sua condição depois disso?
- Tentei apenas fazer um bem para minha própria vida. Talvez assim o resto viesse. Foi o que pensei. Bem, não sei na verdade. A conclusão que tive é que, se encontrasse o meu próprio estar bem, e isso fosse verdadeiro, só então poderia fazer um bem a outra pessoa. É pretensioso querer melhorar a vida dos outros quando não se tem qualidade em sua própria.
- Boa resposta, Seth. E quem diria, seu último dia salvou toda sua eternidade. Você está cansado. Descanse em paz, da forma que quiser. O paraíso é todo seu, para moldá-lo como quiser.
Então os nove Seths que lhe receberam ali se levantaram de suas cadeiras, e lhe fizeram uma reverência. Ao fundo da sala, um portal se abriu. Era impossível ver o que estava do outro lado. Seth Daniels Cuervo apenas levantou-se, e cruzou a porta, que se fechou atrás dele. Então aproveitou toda sua eternidade, descansando em paz. Confortavelmente adormecido, e com bons sonhos.
terça-feira, 23 de junho de 2009
Capítulo 37: Confortably Numb
Postado por
Luiz Costa
às
09:58
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Nenhum comentário:
Postar um comentário