Depois de responder a Emily o que ela tinha lhe perguntado, e encarar o velho Reich por alguns momentos, Seth se virou e saiu. Então ele teve seu pequeno momento de iluminação, aquele que mudou sua visão do mundo: Seth nunca tinha feito algo de bom para outras pessoas, por simples altruísmo. E ele também nunca tinha feito nada na vida que lhe interessasse; apenas seguia o fluxo das coisas, e deixava as correntes do universo lhe arrastarem. E logo após essa pequena epifania, enquanto caminhava pela Ocean Avenue, passou na frente de uma livraria; em destaque, estava “1809”, a primeira obra de um jovem escritor de Los Angeles – considerado o primeiro dos pós-beat. Esse número, 1809, lhe incomodou por algum tempo – o tempo que Seth demorou para se lembrar o que significava o número 1809. Então ele entendeu: era o ano em que ele tinha nascido. E se era verdade o que ele tinha ouvido sobre a mitologia do mundo em que vivia (uma mitologia que era verdade, no final das contas), 2009 era o seu último ano de vida. E um dos relógios-termômetro da avenida lhe disse que dia era aquela sexta-feira: 20/11/09. Ou seja, tinha pouco mais de um mês ainda, na melhor das hipóteses. O que Seth não sabia era que aquela noite seria sua última.
-//-
Após chegar em casa com Vivian, Reich sentou-se no sofá e ficou pensando. Ele só esperava um sinal, algo que pudesse melhorar a situação que estava se desenrolando, e aparentemente sem controle. Então o sinal que ele esperava chegou. Mas esse sinal terminou por apenas virar a situação de ponta-cabeça.
-//-
- Reich! – Jimmy Crow gritou, em frente ao portão. Ele não tinha nenhum casaco, e o frio daquela noite estava infernal. Ao ver seu tio na porta lhe olhando, ele sorriu. – Boa noite, tio Reich. Estou de volta.
O velho mago correu para abrir o portão, e o abraçou. Fazia exatamente um ano desde a última vez em que ele tinha visto seu discípulo e sobrinho.
- O que faz aqui?
- Ouvi os ventos dizerem que teríamos um espetáculo legal em L.A. nesse final de semana.
- Você chegou atrasado. E está um tanto indefinido ainda o rumo que as coisas tomarão. Entre, por favor. Vou fazer um chá para nós.
Jimmy pegou sua mala no chão, e entrou com Reich. Um chá era exatamente tudo que ele queria; depois, dormir.
-//-
Jimmy Crow era alguém que gostava de viajar. Conhecer lugares e pessoas o mais diferente possíveis era simplesmente a coisa que mais lhe dava prazer em toda a vida. E desde que tinha Despertado para a magia sete anos atrás, e estudado com seu próprio tio, ele não tinha parado mais. Passava pouquíssimos dias por ano em Los Angeles, era um cidadão do mundo todo o resto do tempo. Já tinha cruzado os Estados Unidos de Los Angeles a Nova York dirigindo, viajado de Madri a Vladvostok pegando inúmeros trens e ônibus, e navegado a Oceania inteira em um barco à vela. E seu próximo plano era mochilar por toda a América Latina: passar pelo Atacama, e Macchu Picchu, Titicaca, Amazônia, Punta Del Este, enfim, inúmeros lugares. Depois de passar alguns dias em Los Angeles, seguiria para a Argentina para começar a sua jornada. Mas antes queria saber qual a razão de todo o burburinho que agitava os Akashas de toda parte; os eventos que aconteciam sob o domínio do Mestre Reich. Seu tio e mentor, por acaso.
-//-
Seth andava pela praia; de algum modo, ele sabia que iria encontrá-la ali. Claro, esse algum modo era a premonição sobre coisas em geral que sua condição lhe dava. A mesma que tinha lhe salvado momentos atrás, quando quase morreu atropelado por um ônibus que andava a alta velocidade pela rua que margeava o calçadão. Foi um insight que lhe disse para dar um simples passo para trás, então, o ônibus passou. “Só sobram mais duas vidas”, ele pensou. Quase tinha morrido cinco vezes, pelo que se lembrava: quando enfrentou uma tempestade em alto-mar no meio do século 19, ao levar uma picada de uma cobra-coral, de frio em plena Rússia no inverno, e ao cair de costas em uma piscina vazia, em alguma das festas de Eddie. E mais essa com o ônibus. É, sua morte realmente estava iminente. Então olhou para as estrelas, e reconheceu a constelação de McBacon. Uma que ele mesmo tinha criado – lhe lembrava um McBacon, no final das contas. Depois de contemplá-la longamente enquanto andava por um tempo, viu Becky ali. Exatamente quem ele procurava.
- Boa noite, William.
Seth parou por um momento.
- Como sabe meu nome verdadeiro?
- As ondas me contaram.
- Eu não o ouço faz tanto tempo, que agora ele soa até estranho. Engraçado, isso. Me chame de Seth, por favor.
- Claro. Sente-se, Seth. Eu estava te esperando.
-//-
- E como está Vivian, tio?
- Sua prima está meio mal, por causa do Eddie, e tudo mais. Há uma chance de que ele não volte do Sonhar.
- Entendo. Bem, vou dormir. Amanhã à tarde vou ver o que faço.
- Fique no quarto de hóspedes. Ele sempre foi seu, aliás.
- Boa noite, tio.
- Boa noite.
Jimmy entrou no quarto, e depois de escovar os dentes, tirou a camisa e ficou olhando as manchas em suas costas. Elas estavam um tanto agitadas, o que não era um bom sinal. Virou-se umas três ou quatro vezes antes de pegar no sono; dormiu com os anjos e sonhou com uma avenida.
-//-
- É isso, Seth. Acho que o que você tem a fazer nessa situação é encarar a vida, e ir atrás do que você quer. E há um papel para você em toda essa história. Eu, e você, e cada um que está envolvido tem sua vital importância. Então, simplesmente não se preocupe no que pode dar errado. Faça o que tem que ser feito.
- Obrigado, Becky. Por tudo.
- Eu que agradeço, Seth.
- Então, a gente se vê por aí.
- Olhe para o céu amanhã de noite. Você terá uma surpresa.
O que Seth não sabia era que ele não teria a chance de ver a surpresa que Becky tinha lhe dito, a que depois se tornaria famosa “Champagne Supernova”. Voltou para casa, dormiu com os anjos, e sonhou com a morte. E ao acordar, ele teve certeza de que aquele era realmente seu último dia.
terça-feira, 16 de junho de 2009
Capítulo 35: Pieces Mended
Postado por
Luiz Costa
às
09:16
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Nenhum comentário:
Postar um comentário