quarta-feira, 29 de abril de 2009

Capítulo 22: When You Look Me In The Eyes

- Estamos indo para onde?
- Dar uma volta, Vivian. Precisamos de você agora.

-//-

- Não diga nada, torna tudo mais fácil.
Mas ela queria dizer zilhões de coisas para ele naquele momento. A tendência desse final-de-semana, e os próprios pressentimentos que Eddie tinha lhe dito a respeito, levavam as coisas a um nível que ela simplesmente não podia mais suportar: a idéia de nunca mais ver seu namorado lhe era difícil demais. Então ela soube o que dizer, "boa sorte". Se desse tudo certo, então ele voltaria.

-//-

- Tio, queria te perguntar uma coisa... você realmente não gosta do Eddie?
- Bem Vivian, ultimamente eu tenho achado que ele é um bom garoto. Tem todos os tipos de problemas, consegue se enrolar com situações que chegam a absurdas, mas no fundo ele tem um bom coração. E o mais importante, ele gosta muito de você. É absolutamente claro, só de ver vocês dois juntos. Assim como você gosta muito dele.
- Então... o senhor não tem nenhum problema quanto a ele?
- Eu tinha, mas não mais. De forma alguma. Enquanto ele te fizer feliz, terá minha bênção. Sempre.
- Que bom.

-//-

Andando pela rua com seu tio, ela se lembrou de quando era criança. Ela fazia aulas de balé, num lugar não muito longe de onde estavam andando agora. Sua tia levava ela de carro de tarde, e seu tio ia buscá-la de noitinha, a pé. Os dois sempre comiam alguma coisa juntos, seja numa lanchonete, ou sorvetes, ou passavam no supermercado e faziam as compras. A vida era mais simples com 7 anos de idade, sem dúvida. Talvez pelo senso de moralidade, que ainda está se desenvolvendo nessa época da vida. Ou pela falta da necessidade de se preocupar com as coisas, o que atormenta os adultos do nosso tempo.

-//-

Logo depois do primeiro sorvete deles, ele ligou para ela no mesmo dia, e marcaram de sair no sábado. Os dois foram jantar num barzinho, que tinha um clima mais sossegado possível. Então caminharam, e finalmente se beijaram na beira de um lago. Continuaram saindo, apenas os dois, por mais um mês mais ou menos, até tornar oficial a relação. Ela não tinha amigos para apresentar, mas queria conhecer os amigos dele. Então ela foi numa festa na casa dele, e absolutamente não se importou. Não com as drogas que davam e sobravam, nem com os amigos estranhos dele, nem mesmo com o fato de o primo dele ter dito que o Eddie perto dela não tinha nada a ver com o Eddie longe dela. Significava que perto dela ele fazia alguma coisa para mudar, ao menos.

-//-

- Amor... você acredita em Deus?
- Há muito tempo não. Mas eu acredito em outras forças, sabe.
- Como o que?
- Bem, dando nome a essas forças... seriam sintonia cósmica, destino, acaso, gravitação, karma... e o amor. Não se explica essas coisas, a meu ver. Elas simplesmente existem.
- Me explique isso então. - Vivian disse num tom de desafio, mas ao mesmo tempo curiosa para ouvir aquilo.
- Sintonia cósmica se baseia no fato de quanto menos você espera do universo, mais coisas ele te traz, e melhores coisas. Destino e acaso são auto-explicativos. Gravitação é aquilo que não se vê, que nos atrai a outras pessoas, a coisas, a idéias. Karma é algo do tipo "o que se faz é o que se paga", os acontecimentos vão de você e voltam para você. E bem, o amor... é inexplicável. Dá pra dizer quando se sente, como eu vou dizer agora que eu amo você, mas não se explica o porquê. Eu simplesmente amo.
Os dois deitados na cama dele, num domingo a tarde qualquer. Aquele dia era realmente inesquecível.

-//-

Então Vivian e Reich passaram por uma quadra aonde todos os postes estavam quebrados. Não se dava para ver muito do céu, por causa dos prédios, mas o pedaço que se via estava perfeitamente limpo. Era como ver um mar imenso de estrelas, mas por uma pequena janelinha. E no céu, se viu uma estrela cadente. Ela logo lembrou da primeira estrela cadente que viu na vida, aos treze anos. E por mais que ela tivesse aprendido na escola, no mesmo dia, que era apenas um pedaço de pedra que atravessou a atmosfera da Terra, nisso ela se recusava a acreditar. Não, preferia a interpretação que leu num poema que sua mãe tinha escrito. "Estrelas cadentes são aquelas que cansaram de ficar paradas e resolveram correr pelo céu". E nesse mesmo dia, ela saiu correndo pelo acampamento, cansada de ficar parada, e cansada de acreditar naquilo tudo que os livros diziam. Então, quando cansou, se deitou num gramado, e viu mais no mínimo cinco estrelas cadentes. E foi ali que ela soube que tinha encontrado o Glamour, mesmo sem saber o que era Glamour, ou não ter idéia de que um dia descobriria sua alma perdida de fada.

-//-

Uma vez Vivian se colocou a pensar sobre o que exatamente era o Glamour. Uma energia mágica das fadas, e tudo mais, mas com qual significado? Lhe disseram que vinha dos sonhos, mas o que diferenciava os sonhos e os pesadelos? Ela foi entendendo que o Glamour não tinha relação com os sonhos, quando a gente dorme, mas com aqueles sonhos que são como metas. As coisas que queremos, bem no fundo, no fundo. E essas coisas que queremos incoscientemente são mais ligadas a sensações, sempre. A sensação de maravilhamento diante de uma estrela cadente, a sensação de completude em uma tarde de domingo com a pessoa que se ama, a sensação de simplicidade quando se é criança e apenas anda pela rua com seu tio. E então ela percebeu, temos coisas assim o tempo inteiro, só falta dar o devido valor a cada uma delas.

-//-

- Tio, para onde estamos indo, afinal?
- De volta a Ocean Avenue. Digamos que precisam do seu testemunho.
- Como assim?
- É uma investigação, sobre o ateliê e os eventos que o precederam. Acho que mais tarde vão lhe explicar melhor.
- Tudo bem.

-//-

Os eventos que precederam o ateliê, na visão dela: ela foi para a casa de Eddie, encontrou duas pessoas que não eram ele lá, então estava caminhando, quando foi atacada e levada. Ficou presa com uma maldita ruiva lhe vigiando, então foi salva por um nobre da corte feérica, depois encontrou seu namorado. Ele desmaiou repentinamente, o Duque sumiu, então no outro dia ela encontrou a ruiva de novo, ouviu que o Duque estava morto, viu Eddie de novo, teve alguns minutos de paz com ele, até ele ter que partir. Qual seria a relação disso com um ateliê de uma artista qualquer que explodiu?

-//-

Porque ela sentia tanta empatia por alguém que conheceu por 10 minutos, só porque essa pessoa surgiu repentinamente e salvou sua vida? O tio dela tinha feito a mesma coisa, e ela não conseguia ver ele de forma diferente do que tinha visto a vida inteira. E era engraçado, pois essa pessoa que ela tinha tanta gratidão estava morta. E ela começou a pensar sobre a morte. Se o Duque não tivesse lhe salvado do tal Raposa, tudo estaria muito diferente no momento. Pelo menos para ela, que não estaria mais ali. O que vinha depois da morte? Vivian não acreditava em céu, inferno, coisas assim. Tampouco em reencarnação para pagar o karma. Eddie e ela tinham conversado sobre o karma, e concluído que ele só funcionava para a mesma vida. O universo não seria injusto a ponto de lhe punir ou recompensar por coisas feitas em uma outra vida, sob outras condições, e etc. Talvez a idéia de voltar tivesse algum sentido; como ela tinha visto em um filme, há cada vez mais pessoas no mundo, e o número de almas continua constante. Por isso que somos bons em apenas algumas coisas; nossas almas são frações das anteriores. Ou bem, podemos reencarnar em outras espécies, e Vivian aceitou muito bem a idéia de que foi um passarinho na anterior, e na próxima um gato. "I'll see you in another life... when we are both cats". Ela adorava esse filme. E teve a idéia de que com certeza tinha encontrado Eddie nas vidas anteriores, e continuaria encontrando nas próximas. Até mesmo como gatos.

terça-feira, 28 de abril de 2009

Capítulo 21: The Times They Are A-Changing

- E aí? - ela vinha dizendo, desviando o olhar, com as mãos nos bolsos da jaqueta.
- Alice, certo?
- Sim... Eddie?
- Muito prazer.
Ele olhava intrigado, sentado no chão, abraçando as pernas, olhando para aquela pessoa que lhe parecia estranha; enquanto ela buscava alguma coisa pra falar. E demorava nessa busca.
- Parece que alguma coisa nos trouxe aqui, então.
- Você encontrou Becky?
- Sim. - e pela primeira vez, Alice olhou nos olhos de Eddie. Os olhos dela eram resolutos, apesar da timidez em relação a ele. E os dele pareciam conformados, e melancólicos como estavam os de Vivian. - Pois então, parece que você ia me guiar para algum lugar. Ou coisa assim.
- Vamos andando, então.
- Para onde?
- Não sei.
E saíram andando sem saber para onde, naturalmente. E quando não se sabe para onde se anda, qualquer caminho serve. O própria ordem com qual funciona o acaso lhe guia para onde você incoscientemente quer ir. E os caminhos são maiores, exatamente por não serem limitados.

-//-

Eddie foi descobrindo que tinha alguns fatos aleatórios em comum com Alice. Os dois gostavam de sangue de vampiro, os dois fumavam Lucky Strike Nites, os dois odiavam televisão e por isso nem tinham em casa, e o filme favorito dos dois era Lords of Dogtown. Pequenos fatos que ajudavam a descontrair aquele clima de urgência e estranha responsabilidade perante ouvir algo do tipo "você será importante nessa história", e coisas assim. Mas era um pouco engraçada aquela idéia, pelo menos. Quando se tem responsabilidades, a vida fica meio que mais alta. E do alto tudo aumenta, e do alto a vida aumenta.

-//-

O Duque. Era o Duque Ariser que estava na cabeça dele. Por mais que não tivesse o conhecido, aquele Glamour lhe dizia que aquilo era parte dele, que Eddie tinha absorvido aquilo ao entrar na cabana no Sonhar. E toda aquela energia precisava voltar ao Sonhar. Eddie não poderia viver guardando tanto Glamour assim, ele precisava se libertar do que estava prendendo aquilo a ele. E precisaria voltar ao Sonhar para isso. Muito em breve.

-//-

- Sabe, Eddie, acho que você deveria falar com Locke.
- Quem é Locke?
- Um amigo meu. Vampiro. Ele parece entender das coisas, sabe. E alguma coisa diz que ele pode te ajudar.
- E aonde encontramos ele?
- Bem, o caminho que a gente está fazendo sem saber pra onde anda é o que leva pra casa dele. Acabei de perceber.
- Então, parece ser o que tem que ser feito.
E a surpresa dos dois após andar mais um pouco foi que ele estava na porta. E esperando por eles. As coisas pareciam estar sincronizadas demais, num nível totalmente além do normal. Mas a corrente dos acontecimentos as vezes toma rumos que parecem forçados, e por mais que possa parecer além do normal, é natural ao menos.

-//-

- Sabe, garoto... acho que você tomou meu sangue.
- Como?
- Ontem, no final da tarde. Por algum motivo eu percebi uma ligação com alguém, igual a que eu sinto com Alice. E quando eu senti que vocês dois estavam vindo para cá, eu vim também.
- Pois então... se eu vim para ver você, deve haver algum motivo. Sabe qual?
- Bem, se isso for a concretização de uma alegoria que leva a uma sabedoria maior, só posso te ensinar uma única coisa. Siga seus instintos. Comigo funcionou por cerca de mil anos.
- Sério?
- Sim. Ou seja, o sangue que Alice tomou, e que você também, carrega habilidades muito fortes. Use-as com sabedoria em sua jornada.
- Bem, então eu vou indo. Boa sorte para vocês. - Eddie sorriu para Alice enquanto dizia isso. Ele gostava dela, de alguma forma estranha. Como uma irmã que só se conhece depois de muito tempo.

-//-

Ele então começou a correr, com um sentimento de que ia explodir a qualquer momento. E isso era uma coisa boa, dava-lhe força, energia, clareza. Bem, ele precisava ir para o Sonhar, mas como? Já tinha ido uma última vez, com uma quimera qualquer. E ele se sentia também ligado a ela agora, como se uma parte das sombras tivesse ficado nele. E ele sabia que ela estava na Ocean Avenue, então ele correu mais ainda para pegá-la. Correndo, o mundo parecia visto do alto. E do alto tudo aumenta, e do alto a vida aumenta.

-//-

Passando pela avenida, a primeira vista tudo parecia exatamente igual a como estava a uns tantos minutos atrás. Mas no fundo, Eddie sabia que havia algo diferente. Parecia haver alguma mobilização em algum sentido. As pessoas se moviam por algo maior. Ou talvez fosse só impressão. Então ele viu a Sombrinea dentro do ateliê (ou do que costumava ser um ateliê). Aproximou-se da barreira policial, abriu os braços, viu a quimera vindo em sua direção, então fechou os olhos. Quando os abriu, estava deitado no meio de uma clareira, em uma floresta de árvores de plástico.

-//-

Howie voltava do parque, afinal, ele queria ainda falar com Reich. E ele viu Eddie de braços abertos, e a Sombrinea indo pegá-lo. Então, quando ela foi engolir ele, a quimera se desfez em pedaços de Glamour branco. E assim como Eddie, a Sombrinea sumiu.

Capítulo 20: Here I Come

Howie estava indo falar com Reich, mas no meio do caminho, parou, por ver alguma cena qualquer. E colocou-se a pensar. Porque sempre haviam elites, nas sociedades, e sempre o povo se revoltava contra elas? Era um conflito estranho, para Howie por um único motivo: aquelas pessoas que estavam nas elites não merecem o lugar que elas têm? Qual o ponto em achar errado alguém que trabalha, dá duro, tem um pouco de sorte, claro, e se dá bem na vida? Então essas pessoas têm filhos, tentam criá-los da melhor forma possível, e o resultado é uma classe média-alta da sociedade. E aqueles que estão em baixo nessa pirâmide social, que não tiveram as mesmas oportunidades, ou as tiveram e não conseguiram usá-las para algum benefício, acham errado essa forma de "distribuição" social. Cada um tem o que merece, e tem aquilo pelo que lutou ou continua lutando. Para Howie, era simples assim. E fodam-se os moralistas revolucionários. Então ele saiu dali, e foi dar uma volta pelo parque. Animado para pensar em algumas questões, sentou-se em um banco, e pôs-se a praticar sua filosofia.

-//-

Ele só sabia que o que viria, viria de algum lado. E ele sentia esse tal lado de alguma forma. Parecia ser a leste, mas as vezes ele mudava um pouco. E o que ele podia fazer era segurar a mão de Vivian, e andar com ela o mais rápido que podiam. Sem ter a mínima idéia para onde.

-//-

"Há uma consciência coletiva no nosso mundo, que se torna um outro mundo a parte, basicamente. E a idéia é se soltar dos conceitos que limitam sua percepção de cada coisa, para assim se libertar e se unir ao coletivo. O eu se torna nós, e sua passagem pelo mundo está completa. Pois tem um sentido, apesar de ter se livrado de sua definição."
Alice gravou exatamente essas palavras. Foi a última idéia que Becky lhe passou na praia. E na qual ela pensava fervorosa e incessantemente enquanto caminhava para encontrar a pessoa que seria sua guia. Era o seu destino tinha lhe apontado, ao menos. Então veio a primeira dúvida: se há um destino, e se o nosso objetivo é soltar-se dos conceitos limitantes, o que impede nosso próprio destino de nos limitar? Como viver junto com ele, mas ao mesmo tempo constantemente quebrando-o?

-//-

- Sabe, amor... eu me sinto como vivendo num filme, nas últimas horas.
- Eu diria mais que parece um livro. Um livro de fantasia bizarra. - disse Eddie, enquanto olhava para os mesmos quatro dragões de sempre.

-//-

Mas porque as sociedades se organizavam assim, em torno do dinheiro? Será que não haveria um outro critério para basear todo nosso estilo de vida, como laços de relacionamento, ou conhecimento? Mas não, tudo gira em torno de trabalhar para produzir, e receber um bem de troca para isso, e com esse bem de troca, obter o necessário a sua sobrevivência e bem-estar. Mas o mundo não precisa de toda essa produção. Grande parte do que se faz é para satisfazer a obsolescência programada. E isso era algo que realmente irritava Howie, a idéia de se fazerem coisas pensando em quando elas vão quebrar e serem repostas. Uma sociedade utópica aonde não se precisaria de trabalho e não haveria o conceito de propriedade privada. Esse sim seria um lugar agradável para viver. Mas, como não ia rolar, que se observe o cerco policial em torno de um ateliê que acabou de explodir, e toda a agitação das pessoas ao redor de algo simples e banal assim.

-//-

- Sabe, eu acho que já passei por esse lugar aqui.
- Sério?
- Sim... ah, ali! Ali é o galpão aonde eu fiquei presa. Com aquela ruiva me vigiando, quando o Duque me salvou.
Eddie pensou um pouco. Porque ele teria sido guiado até ali, após andar aparentemente a esmo todo esse tempo?

-//-

E Alice encontrou uma pequena conclusão. Se você repentinamente deseja viver sem certos conceitos limitantes, logo se adquire uma idéia de que é preciso se libertar disso. Mas o próprio senso de obrigação que vem com esse "eu preciso me libertar" já é uma limitação auto-imposta por si só. Então, aquilo que Becky lhe disse seria uma ilusão? O processo de se libertar já vinha com uma nova "prisão"? Ou não, ela poderia entender que se trata de um processo natural, que devia ser vivido lentamente, que acontecia naturalmente. Bem, não "devia" ser vivido, pois ninguém é obrigado a nada, afinal. Apenas se faz o que parece mais cômodo no momento. É assim que a visão de curto prazo de cada pessoa guia nossas vidas, e é assim que tudo está estruturado. Mas como quebrar essas estruturas é o que mais lhe intrigava agora.

-//-

- Parece que a gente tem que parar aqui.
- Você sente isso, amor?
- Acho que sim. Mas é como se... esse fosse apenas minha parada. Como se você já tivesse percorrido esse caminho, na sua jornada.
- Mas eu quero ficar aqui com você...
- E o que eu mais quero, no mundo inteiro, é ficar com você agora. - os olhos dela estavam mais brilhantes, e felizes e melancólicos ao mesmo tempo, mais do que nunca.

-//-

Felicidade, alegria, amor. As coisas que as pessoas mais costumam buscar. E que buscam, inconscientemente ou conscientemente, sem ter uma noção do que exatamente é isso. Seres humanos vivem cada minuto de suas vidas querendo entender e viver algo que nunca experimentaram, algo já representado milhões de vezes pelas artes, pelas histórias, pela mídia. E quando alguém sente que experimenta algo assim, grava aquele momento para sempre e passa o resto da vida buscando algo que seja pelo menos um reflexo, ou uma lembrança, desse tal momento único e sagrado. Mas o que define o amor, afinal? Um sentimento de atração, de respeito, de carinho, de responsabilidade para com o outro? Amores platônicos, amores impossíveis, amores interesseiros... Todos diferentes, nada têm em comum. Exceto a idéia ilusória de que, por terem um nome em comum, são a mesma coisa em essência. Talvez sejam, talvez tudo o que julgamos e nomeamos como amor tenha uma raiz comum. Ou não, e estamos fadados a perseguir todo o tempo algo que nem sabemos direito o que é. E a tal felicidade, e a tal alegria? É uma coisa momentânea, ou constante? Se diz "eu sou feliz", ou "eu estou feliz"? Howie definitivamente não era feliz. Mas um pouco feliz ele estava, pelo menos. E aquele momento no parque, sentado pensando, foi um dos que ele encontrou algum mínimo de plenitude. E por isso, seria um momento que ele pelo resto de sua vida tentaria lembrar, ou refletir. Pois é assim que todos nós fazemos, vivendo em repetições dos mesmos momentos nos quais nos contentamos com algum sentimento que julgávamos ser assim como o vivemos.

-//-

- É porque eu tenho um pressentimento. Que eu não vou mais te ver depois de agora.
- Não fale isso...
- É que eu realmente sinto isso, sabe. Parece algo tão claro, parece que as idéias surgem na minha cabeça prontas. Mas é algo que eu realmente não quero acreditar.
O problema é que ele não tinha escolha, o que ele sentia realmente estava por acontecer. E então ele viu o tio de Vivian caminhando na direção dos dois sentados.
- Tio! - e Eddie sentiu que ali seria um dos primeiros adeus que ele daria naquele final de semana. Apenas olhou para ela, enquanto ela corria para abraçar o tio.
- Depois a gente conversa, querida... eu preciso é falar com o seu namorado a sós.
- Tudo bem... - ela olhou com um misto de impaciência e tristeza.

-//-

Ela finalmente entendeu as palavras de Becky em um momento fugaz. E sua conclusão foi a de que aquilo era distante demais da realidade dela para ser algo viável. Mas, ao mesmo tempo, muito próximo. Ela não precisaria abandonar conceitos, como o de família, ou amor, ou amizades. O mundo já tinha abandonado ela em relação a isso. Mas o seu eu era forte demais, endurecido por cicatrizes de uma vida toda. Mas, a intenção de Becky na verdade não era que Alice aceitasse tudo aquilo, ou começasse a viver assim. Aquilo era totalmente contrário a ela, sem dúvidas. Porém, se ela entendesse tudo que tinha sido lhe passado, e desse algum valor para aquelas palavras, ela teria mais condições de seguir o caminho que as estrelas tinham lhe traçado. E então, ela simplesmente aceitou a ordem das coisas quando encontrou a pessoa que de acordo com as profecias seria seu guia por essa necessária jornada.

-//-

- Então, Eddie. Que você é parte importante do que está acontecendo, você já sabe, certo?
- Sim. Becky me disse.
- Pois então. Eu preciso levar Vivian embora. É importante que você siga seu instinto, ele que vai te ensinar o que precisa saber.
Eddie olhou para ela, sentada ali ao longe. O pressentimento sobre não vê-la mais ficava mais forte a cada minuto. Mas era algo que ele teria que aprender a lidar.
- Tudo bem, Reich. Mantenha-a segura, por mim.
- Com certeza. Boa sorte, garoto.
- Vou me despedir dela...
- Sim sim, claro.
Eddie caminhou até aonde sua namorada estava, olhou-a nos olhos por alguns longos segundos, e a beijou.
- Não diga nada, torna um pouco mais fácil.
- Só te digo boa sorte, então.
Ele sorriu, e ela também. Então Vivian virou as costas, e foi embora com seu tio. Eddie sentou-se ali, o que parecia a coisa certa a fazer. Fumou um cigarro, e ficou olhando para a estrela vermelha que supostamente estava ali por sua causa. Foi quando ao longe, viu a tal ruiva sobre a qual Vivian tinha lhe contado. Alice, era o nome dela. E seu pressentimento estranho lhe disse duas coisas: primeiro, que o que estava falando para ele não era seu Avatar, e sim todo o Glamour que ele tinha acumulado; e segundo, que ele e Alice iriam ajudar muito um ao outro ainda.

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Capítulo 19: Orange Sky

Brett arrumou pelo menos uma coisa para se confortar: ele poderia ficar com seu rosto. Steve, o cara que chegou com Jack, conseguia dar um jeito em qualquer coisa que surgisse quanto ao seu pequeno problema com o porteiro. Isso graças a Emily, que tinha de alguma forma desenvolvido uma ligação com ele, e com isso vêm os favores, e a vida continua. Ele continuou ouvindo o que Jack Tequila tinha a dizer, e esperando o fluxo das coisas voltar.

-//-

- Quero duas casquinhas com duas bolas de passas ao rum, por favor.
- Ah, você nunca esqueceu o meu favorito...
- Claro Vivian, é o mesmo que o meu. - Eddie respondeu, e sorriu. Era bom estar com ela novamente.

-//-

Locke sentiu-se cansado, pela primeira vez em muito tempo. Ele estava mais sozinho do que nunca, e o mundo parecia exigir demais dele. Exigir não é a palavra certa na verdade, mas ele se sentia tendo que fazer mais coisas do que de costume. Uma idéia lhe veio a cabeça: ir embora. Sair de Los Angeles, sair de lugares aonde há cidades, e ir para outro lugar. Para o meio da neve, talvez. Por mais que ele não conseguisse viver do sangue de animais, poderia dar um jeito. Tornar a caça mais difícil de propósito. Mas ainda precisava colocar um desfecho nessa pequena situação que se desenrolava. Olhou para Jack Tequila, e foi falar com ele. Ainda poderia ajudar a eles de alguma forma.

-//-

Vivian lembrou-se do primeiro sorvete que tomou com Eddie, uma semana depois que eles se conheceram. Ela estava absolutamente ansiosa por esse dia, para vê-lo de novo. Ela não sabia exatamente o que lhe atraía nele, mas parecia ser algo a ver com o olhar, ou o jeito que ele falava. Ele realmente sabia como conversar com alguém. E ela passou duas horas escolhendo uma roupa, algo que não parecesse muito estranha, mas também muito normal. Afinal, ela queria chamar a atenção dele de alguma forma. Pela primeira vez na vida ela quis ser notada por alguém. E quando ela entrou na sorveteria e viu ele sentado ali, fazendo uma flor de papel, se sentiu com sorte. E a flor que ele fez para ela ainda estava guardada na gaveta. No começo os dois estavam meio tímidos, conversando sobre coisas banais, mas depois o papo começou a fluir, mais naturalmente inpossível. Foram andar pelo parque, ele foi levá-la em casa. E ele a deixou, com um beijo na testa, e um "de noite eu te ligo". E ligou mesmo. E ela não conseguiu dormir direito aquela noite, de tão elétrica que estava.

-//-

Reich Crow não estava em Seattle, como tinha dito para sua esposa. Ele se recolheu em um pequeno monastério, nos arredores da cidade, para encontrar seus companheiros da Irmandade. Ele tinha ficado cansado demais, após lutar com o Raposa. E foi interessante, pois ficou sabendo de coisas que não sabia. O que estava começando a acontecer na cidade era apenas parte de algo maior, lhe disseram. E então ele ficou sabendo do ateliê de Emily, uma velha conhecida sua. Resolveu voltar na hora. Logo ao chegar na Ocean Avenue, viu ela conversando com mais três pessoas que não tinha a mínima idéia de quem fossem. E ele foi o quinto a entrar na roda.

-//-

Seth continuava observando de longe a rodinha mais improvável de todos os tempos: um vampiro recém-criado, um vampiro de mil anos, uma artista plástica, o líder anarquista da cidade, e um mago velho. E como ele ouvia a conversa, conseguia dizer com certeza absoluta que eles estavam um tanto errados. O que eles pensavam não tinha muito a ver com o que realmente tinha acontecido. E Michael Raposa Forwell era de certa forma inocente.

-//-

Howie tentou voltar ao bar para dar um jeito em tudo após a explosão, mas a cabeça dele estava cheia demais. Passaram-se uns tantos minutos, e ele voltou para fora. Foi quando olhou para o ateliê, e viu uma sombra parada ali. Devia ser a Sombrinea que Becky tinha lhe falado a respeito. Só podia ser ela, ele incoscientemente sabia sem dúvidas que era ela ali. E ele não tinha a mínima idéia do que fazer a respeito, ou se havia alguma coisa para se fazer a respeito. Viu Reich Crow, junto de pessoas que não exatamente conhecia, e foi falar com ele.

-//-

Eddie também lembrou-se do primeiro sorvete que tomou com Vivian, logo após se conhecerem. E a coisa que mais marcou sua lembrança é que ele estava absurdamente nervoso. Ele não tinha a mínima idéia de como tinha conseguido sair com ela, a menina mais linda que ele já vira em toda a vida. E não que tivesse medo de fazer tudo errado, mas, por algum motivo, ele simplesmente não conseguia ficar exatamente confortável. Na manhã desse dia, ele tinha acordado 8 da manhã, ficado sem o mínimo sono. E ele fumou dois maços inteiros de cigarro apenas na manhã, só por causa da expectativa. E ele nunca viu ela mais linda do que no momento que entrou na sorveteria, com uma blusinha branca, sandálias, e uma bolsa a tiracolo. E naquele momento ela o olhou, e ele sabia que estava feliz. Sem qualquer motivo além da simples presença dela ali.
- Vivian, eu acho que tem alguma coisa errada acontecendo.
- Como?
- Meu Avatar está me dizendo. E ele costuma não errar. Vamos sair daqui.
E Eddie levantou impaciente. Ele tinha que protegê-la. Foi pagar os sorvetes, "e um maço de Lucky Strike Nites, por favor". A noite começava a ficar tensa de novo. Pegou a mão de Vivian, e saíram seguindo a intuição dele.

-//-

Alice achou engraçado, a idéia de que alguém pudesse lhe dizer seu destino. Mas tudo o que Becky dizia fazia tanto sentido, que ela começou a levar isso a sério. Mesmo sendo do tipo que nunca acreditou em horóscopo, ou tarô, ou coisas do tipo. E então Becky lhe mostrou o céu alaranjado que a esperava no domingo, após tudo o que ainda havia para acontecer. E vendo tanta beleza ali, ela acreditou no que ouviu. Saiu caminhando, apanhou uma flor amarela numa árvore qualquer e foi fazer o que tinha que ser feito.

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Capítulo 18: Burnin' Up

- Sabe, Vivian... quero apenas cinco coisas. Primeiro é o amor sem fim. A segunda é ver o outono. A terceira é o grave inverno. Em quarto lugar o verão. A quinta coisa são seus olhos. Não quero dormir sem seus olhos. Não quero ser sem que me olhe. Abro mão da primavera para que continue me olhando.
- Ah, que lindo...
- Pablo Neruda. Lembrei na hora que te vi aqui dentro.
- Senti sua falta.
Eddie e Vivian se beijaram, querendo apenas esquecer do mundo. Mas um barulho de explosão logo os lembrou que a realidade não ia embora tão fácil assim.

-//-

Seth saiu para a rua, apenas para ver o que já esperava que aconteceria. E essa postura que ele tinha assumido em algum ponto de sua vida, a de mero observador do mundo, ainda lhe continuava sendo muito agradável. A sua percepção das coisas, que superava qualquer padrão normal humano, era um "dom" muito condizente com sua curiosidade insaciável. E quando viu Raposa em cima de um prédio, se levantando, olhando para trás, sorrindo e admirando o ateliê que tinha acabado de explodir, ele também apenas sorriu. Então Emily Butterfly parou e olhou, simplesmente sem entender nada, depois gritou e correu. E Brett Witter correu atrás. Os carros na rua pararam, e o trânsito da movimentada avenida entrou em colapso. Os bombeiros não conseguiam chegar ao lugar. Minutos se passaram e a situação só ficava mais caótica. E não havia caos nenhum naquilo, era simplesmente a ordem natural das coisas.

-//-

Emily olhava para todos os lados, desesperada, querendo uma solução para a situação. Sua casa, seu lar, seu trabalho, seu refúgio. Como aquilo poderia estar acontecendo?

-//-

Locke reconheceu o barulho das motos que chegavam ali. Era Jack Tequila e mais alguém dos anarquistas, ou seja, a coisa começava a ficar feia. Eles estacionaram, e foram falar com Emily. E Brett, que estava junto com ela naquela hora por um acaso qualquer, se tornaria peça importante para Jack depois. A questão é que isso cheirava muito a Raposa, para Locke. E como ele até gostava de Emily, queria fazer algo a respeito. Olhou ao redor procurando por Alice, precisava dela para começar alguma coisa. Mas não encontrou. Sentiu que tinha chegado a hora dela descobrir o próprio caminho.

-//-

Os dois estavam abraçados, olhando os bombeiros apagando tudo. E Eddie contava o que ele queria dizer desde a noite anterior, o que ele estava começando a falar quando Ling Ariser apareceu.
- Então, é isso. Sei lá o que você pensa de mim agora, mas é isso tudo que aconteceu.
- Eu ainda penso que você é a pessoa com quem eu mais me importo na vida, Edward Reel. E sobre isso tudo, por mais esquisita que seja essa situação, uma hora tudo se acerta e volta ao normal.
- Quer tomar um sorvete?
- Seria perfeito.
E Vivian e Eddie caminharam pela Ocean Avenue. Sentiam tanta falta um do outro, que naquele momento o resto do mundo não importava. Mesmo que ele estivesse literalmente pegando fogo. E sendo assim, algo a ver com todo o Glamour que Eddie estava absorvendo fazia o mundo não se importar com eles também. E ninguém os viu, nem mesmo Locke, ou Seth Daniels Cuervo. Ninguém os viu caminhando pela avenida, despreocupados com o mundo. O amor tinha se tornado um refúgio, o mais seguro possível.

-//-

Brett até se sentiu um pouco especial, quando Emily o abraçou em um momento de desespero. E depois, quando ele conversava com ela, e o tal Jack Tequila que Locke tinha lhe falado minutos atrás. Ele, um simples vampiro recém-criado sem rumo nenhum na vida, conversando com um importante líder. Mas, pensando bem, ele não tinha porque se sentir especial. Isso tudo lhe parecia uma grande bobagem, e tudo que ele queria para se sentir especial de novo era um copo de vodka com sprite, e poder deitar em seu apartamento ouvindo The Juliana Theory em um volume altíssimo.

-//-

Alice andava por aí. Raposa tinha lhe dito para estar no ponto de encontro deles depois que o ateliê explodisse; e Locke para seguir o que Raposa falava, por hora. Mas isso já estava ficando chato demais. Por mais que ela gostasse e confiasse em Locke, continuar se fazendo de capanga não era mais com ela. Então saiu andando por aí, apenas olhando a noite. Até que ele apareceu na sua frente.
- Pois bem, Alice... estava pensando em faltar ao nosso encontro?
A voz dele era simplesmente insuportável. Toda a arrogância possível, misturada com algo de repugnância em relação a tudo. Ela estava cansada de ouvir aquilo lhe mandando fazer coisas, sempre fazer coisas, e coisas que ela não queria.
- Sim, eu estava. Cansei, sabe. - e foi virando as costas para ir embora. Ele apenas segurou seu braço.
- Acho que isso não é uma escolha que você tenha no momento.
- O que você faria então? Sabe que sem mim esse seu planinho não vai dar certo.
- Bem, só me daria um pouco de trabalho a mais, mas daria sim. Porque tudo é muito maior do que você imagina. Entenda uma coisa, garota... você não tem a mínima noção do que acontece no mundo ao seu redor.
Alice tinha falado essa mesma frase para a tal Vivian, no banheiro do Hell's. Talvez por isso ouvir aquilo lhe deixou com tanta raiva.
- Me solta!
- Se eu te soltar, é para lhe matar. Ninguém brinca comigo assim.
- Acho que eu não fui a primeira, e quem brincou com você antes continua brincando.
Ela se referia a Eddie. E para Raposa, falar de Eddie era como cutucar uma ferida ainda aberta. Ele apenas olhou para ela, exasperado, respirando pesadamente, quando uma voz, calma e serena, se ouviu.
- Essa garota não, Michael. Ela está destinada a um papel importante. E eu não posso deixar você machucá-la.
Alice olhou para trás, e viu uma mulher lindíssima, que tinha certeza que já tinha visto em algum lugar. Então piscou os olhos, e estava com essa mesma mulher, em uma praia que lhe era familiar. A praia perto da lanchonete onde trabalhava. Ela adorava ir lá com Locke, e ficar simplesmente segurando a mão dele e olhando as ondas.
- Alice, muito prazer. Meu nome é Becky Summers. E peço desculpas pela pequena viagem inesperada.

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Capítulo 17: Great Indoors

Duas coisas lhe vieram à cabeça quando entrou na enorme casa de praia: The O.C. e American Pie. A balada ali era uma arquetípica balada de filme americano. Repentinamente, um resto de animação que ele tinha sumiu. E Rachel, que estava andando com ele, também. Mark se viu sozinho em um ambiente que se tornava cada vez mais hostil. A solução: começar a beber logo. Mas lhe ocorreu que cerveja não tinha a mesma graça de antes. O mundo como um todo, aliás. Pegou um copo (do tipo tamanho gigante), e em questão de segundos já tinha achado um lugar para se sentar.

-//-

Duas horas depois, o sofá aonde Mark tinha se sentado se tornara o lugar mais insano da festa inteira. Dizem que o álcool ajuda a aproximar as pessoas, e isso é verdade. Pessoas que ele nunca tinha visto na vida, e não sabia como chegaram ali, virando copos após copos em joguinhos etílicos. E de repente ele se tornou uma estrela. Ele, um simples cara comum, em um momento de fuga. Talvez a pena é que não se lembraria de quase nada depois. É, acontece.

-//-

Quando ele recobrou a consciência - não a que te deixa acordado, mas o tipo de consciência que diz respeito a ter um controle sobre o próprio corpo - estava deitado na areia cantando alguma música do tipo que toca na rádio. Perto dali, uma fogueira acesa, e vários casais, bebendo, conversando, tocando violão. E do seu lado, um copo vazio. Querendo desesperadamente sair dali, ele se levantou e saiu andando. E pensou estar alucinando quando viu um navio pirata navegando pelo mar. E estava alucinando mesmo, na verdade. Até que, depois de andar uns tantos metros, encontrou a mesma mulher lindíssima que tinha visto antes. Mas ela parecia... diferente. E mesmo assim, ele sabia que era ela. Sentada na areia, apenas olhando o movimento das ondas.
- Ei... eu incomodo se sentar aqui?
- Diria que não - ela respondeu. A voz era confortante, e ao mesmo tempo misteriosa, e sábia - Mas infelizmente, vou ter que dizer que sim. As ondas estão conversando comigo.
- Entendo.
- Mas que bons ventos soprem para você esta noite.
Mark saiu, se sentindo estranho. Por algum motivo, ele sabia que os tais ventos iriam soprar mesmo. Lembrou que havia um terminal de metrô ali perto, então resolveu ir embora sozinho mesmo.

-//-

E não foi só o navio pirata. Naquela noite, ele viu duendes sentados em cima de placas, algumas pessoas com pés de bode, uma estrela vermelha que ele nunca tinha visto antes, quatro dragões em cima de um pequeno prédio comercial, e várias e inúmeras bizarrices. E a cada coisa fora do mundano que ele via, passava um tempo, apenas admirando o fantástico que acontecia. E pensando em nunca mais beber assim de novo. A única coisa em que ele não conseguiu achar beleza, foi quando passou pelo mesmo ateliê que tinha explodido antes, e viu uma grande e disforme sombra passando por ali. Como se fosse algo vivo, palpável. Bem, tudo que ele via parecia existir mesmo. É como se um novo mundo tivesse sido aberto para ele.

-//-

"Oi, aqui é a Rachel... tudo bem? Então, você realmente ficou fora de si hoje né... mas tudo bem. Eu só queria te avisar, uma hora você terminou tomando um chá de cogumelos. E eu sei que você não curte muito essas coisas, mas... você não parecia me escutar muito. Então, o que você sentir de estranho já tá explicado. Eu não vou pra casa hoje, mas amanhã de tarde estou aí, vamos conversar. Beijo, e boa noite, se você escutar isso hoje."
Pela primeira vez em séculos, ele tinha um recado na secretária eletrônica. E então, as alucinações que ele teve eram por causa de cogumelos. Tudo explicado. Ainda se sentindo diferente, foi tomar um banho. A água quente caía, parece que em câmera lenta, e escorria por sua pele. Foi uma sensação fantástica. E praticamente encerrou a brisa que ele vinha sentindo. Saindo do banho, ele se sentia sóbrio de novo. Mas muito mudado, o que pareceu é que tinha adquirido uma percepção diferente das coisas. Depois de ver tudo de fantástico que tinha visto, o mundano lhe parecia ainda mais belo depois dessa noite. E então ele se pôs a pensar.

-//-

O quão bom era estar em casa? Porque isso tinha entrado no senso comum de todas as pessoas? O mundo era vasto, e Mark tinha finalmente terminado seu processo, por uma percepção maior das coisas. Experimentando frações de coisas que só existem além da visão e de nossos limitados sentidos. Então lembrou de pequenas cenas que foram os grandes momentos da sua vida: o primeiro beijo com uma menina, no cinema; a madrugada que ficou conversando com Rachel na cobertura do prédio e tomando vinho; o ovo de chocolate gigante que ganhou na páscoa quando tinha 8 anos; a primeira vez que ouviu um "eu te amo", aos 16 anos; e quando completou seu álbum de figurinhas de dinossauros. Então percebeu que sua vida não era tão ruim assim, ela apenas precisava de mais momentos como esse. Mas talvez, se momentos assim fossem mais comuns, eles não seriam tão valiosos. A questão é que em tudo que ele fazia, inconscientemente havia a lembrança de algum desses momentos, o desejo de vivê-los de novo. Mas, todos os seres humanos eram assim. Então, ele se tranqüilizou.

-//-

Andou pela casa brincando de não pisar nas linhas do piso, fumou um cigarro, assistiu um pouco de televisão, ficou acendendo e apagando a luz do banheiro. Bem, aquela falta do que fazer constante aos sábados não era tão ruim assim. Deitou-se, e o dia em que ele mais mudou sua vida terminou ali.

Capítulo 16: 3x5

Mark acordou, e olhou para o relógio ao seu lado, que marcava 10:10. Esses horários iguais vinham lhe perseguindo há semanas. E o problema era que ele não tinha absolutamente nada para fazer. Levantou da cama e foi lavar o rosto no banheiro. "Cada dia mais velho", pensou. A geladeira praticamente vazia, só um resto de coca-cola que ele tinha comprado uns 3 dias atrás. Sua situação de tédio era absolutamente deprimente.

-//-

"Liquidação Wal-Mart, produtos com até 50% de desconto, não perca."
"Então a vespa ataca, derrubando a aranha no chão. Fora de sua teia, ela fica praticamente indefesa."
"E as investigações sobre a explosão do ateliê da artista plástica Emily Butterfly continuam. Mais informações no jornal da tarde."
"Saldão de seminovos na Dan Motors, apenas esse final de semana."
Por mais que Mark tentasse, era impossível a televisão lhe trazer algum entretenimento. Ele deixou ligada e foi folhear uma revista. Andou pela casa brincando de não pisar nas linhas do piso, fumou um cigarro, tomou aquele restinho de coca-cola, ficou acendendo e apagando a luz do banheiro, fez a barba, tomou um banho, e ainda assim continuava impaciente. Na sua secretária eletrônica, nenhum recado. Deitado no sofá ouvindo o som de um canal de música (música chata ainda, por sinal), a campainha tocou. Era Rachel.

-//-

Rachel era vizinha de Mark há alguns meses, e os dois tinham uma bonita amizade. Na verdade, para Mark ela era a única pessoa com quem ele sabia que podia contar, a qualquer hora que precisasse. Ela trazia macarrão, molho, e carne: pelo menos algum almoço ele teria hoje, e com uma boa companhia ainda por cima. Conversaram sobre os assuntos banais de sempre, enquanto comiam.
- E Mark... vai fazer o que hoje a tarde?
- Não sei, acho que nada. Tem alguma idéia?
- Então, é que eu tenho que esperar o cara da internet, ele vai vir em casa lá pras duas... é que eu tinha que ir no shopping buscar meu celular.
- Quer que eu vá? - ele sempre era prestativo com ela.
- Sério? Ah, seria demais.
- Pode deixar, eu vou sim. Mas porque ele está lá?
- É que eu tive que levar pra desbloquear, sabe... uma operadora nova chegou aqui em Los Angeles, e tem umas promoções ótimas. Aí eu comprei um chip, só que não estava funcionando, aí eu levei lá.
- Entendido. E depois que o cara da internet vir, você vai fazer o que?
- Vai ter um churrasco do pessoal da faculdade, na casa da praia da Joey. Lembra dela?
- A do cabelão encaracolado?
- Sim... quer ir?
- Ah, pode ser.
Ele não estava muito animado para falar a verdade. Mas, era melhor do que passar a tarde inteira fazendo o que ele fazia no começo da manhã. Terminaram de almoçar, e ele foi para o shopping. Algo como 20 minutos de casa a pé, até que não seria algo difícil.

-//-

A Ocean Avenue estava estranha para Mark aquele dia. Por mais que fosse sábado a tarde, o horário em que a maioria das pessoas ainda não saíram de casa, estava um fuzuê o lugar. O que ele entendeu é que na noite passada, o ateliê de uma famosa artista da cidade tinha explodido, por algum motivo que ainda não sabiam. E ali se concentrou a imprensa, a polícia, e os curiosos de plantão sempre presentes. Os bares ao redor do ateliê estavam lotados. É como se fosse uma bela desculpa para sair de casa e ficar tomando cerveja a tarde inteira. Bem, eles não estavam errados, na visão de Mark.

-//-

A fonte na entrada do shopping era o que Mark mais gostava daquele lugar. Era realmente algo bem-projetado, e o movimento das luzes e da água era uma das coisas que ele achava mais fascinante, em todo o mundo. Em contraste com as lojas de fast-food barata na praça de alimentação, algo que ele simplesmente não conseguia entender. Como uma comida mal-feita e cara como aquela agradava a toda a população americana? Sorte dele que sempre esteve deslocado dessa nação fast-food. Pegou o celular de Rachel, deu uma volta de quando não se tem idéia do que fazer, e sentou no banco em frente a fonte. Perceber a beleza nas coisas mundanas, foi a maior virtude que ele desenvolveu na vida. Então ele viu passando por ali uma garota de all-star cáqui. E a beleza dela era algo que definitivamente não era mundano.

-//-

Depois Mark voltou para casa, aonde uma amiga de Rachel ia pegar os dois. No carro, totalmente desligado das conversas de mulher rolando, ele ficou lembrando dos churrascos quando era mais novo. Aos 14, 15 anos, os churrasquinhos da turma da escola, e dos conhecidos. Quando todos os caras e todas as meninas querem é ficar com alguém, e todo mundo toma um pouquinho de cerveja e já fica meio bêbado, música que toca na FM, pessoas aleatórias se revezando na churrasqueira (e a carne ruim, o que não importava); toda aquela "pureza" da adolescência. O tempo em que a vida era muito mais fácil, ele era muito mais feliz, e não sabia. Quando saiu de suas divagações, olhou pela janela, e viu no começo da praia uma mulher andando pela areia sozinha. E ela conseguia ser ainda mais linda do que a que ele tinha visto no shopping.

-//-

De longe dava para ouvir o som do tal churrasco da amiga da Rachel. E aquilo parecia que ia lotar de gente, todo mundo curtindo alucinadamente aquilo ali. E então ele se lembrou de outro tipo de churrasco que ia, o churras "político-filosófico". Aconteciam quando ele tinha 17 anos, toda a euforia de pegar mulher dos 15 já tinha passado, e passado bem. Então juntavam uma galerinha, ele e uns seis, sete amigos, compravam cerveja boa e carne boa, e ficavam conversando sobre assuntos quaisquer. Coisas sérias, mas vistas pelo ponto de vista etílico. E daquilo ali, ele sentia ainda mais falta. Enquanto nos churrascos de 14 anos ele se sentia muito mais feliz, nos de 17 ele se senta totalmente feliz. E a vida era completa. Mas, como tudo passa, aquilo ali passou. Inclusive o tempo de ficar dentro do carro. Chegaram no lugar, a amiga de Rachel estacionou, e ele saiu. Parecia que a tarde ia ser difícil. Podia até terminar sendo prazerosa, mas ia ser difícil de qualquer forma.

segunda-feira, 13 de abril de 2009

Capítulo 15: Another Round

A verdade para Howie é que ele estava cansado. Cansado de seu trabalho difícil no Hell's Kitchen (gratificante, muito bem-remunerado, mas cansativo), cansado das situações bizarras que vinham aumentando a cada dia, cansado das brigas com sua mulher, cansado de sua idade. 29 anos, mas para um Changeling aquilo era muito. Ele já tinha visto outros como ele caírem na Banalidade por volta dos 20, no máximo 25. Talvez era a hora de ele parar. A Banalidade chegava a ele também.

-//-

- Ei... você é o Howie, não é?
- Pois não...?
- Então, meu nome é Vivian, sou namorada do Eddie, sabe?
- Ah sim, acho que você estava com ele ontem, né?
- Então, é sobre isso que queria falar com você. Tem um minuto?

-//-

Howie estava preocupado com o sumiço do Duque Ariser, para falar a verdade. Ele simplesmente tinha desaparecido na outra noite, e não atendia o telefone. O que ele sentia por Ling era algo como uma gratidão. Desde o momento de sua Crisálida (quando a parte humana encontra o fragmento de alma feérica que vive ali), o Duque tinha sido como um mentor para ele. Ainda mais quando lhe ofereceu um emprego, quando tinha apenas 16 anos. E ele foi continuando por ali, até virar o gerente. O homem de confiança do dono de um dos bares mais badalados de Los Angeles. E Howie ficou ainda mais preocupado quando a garota do all-star cáqui lhe disse que seu mentor tinha sumido. Repentinamente. E com seu namorado, o tal do Eddie, ele nem se preocupou muito. Talvez por não ir com a cara dele, desde sempre.

-//-

- Você não sabe mesmo como me ajudar?
- Então Vivian, eu realmente queria, até mesmo pelo Ling, mas eu não sei como.
- Que pena.
- Mas uma coisa que eu aprendi com a vida, é a esperar. E essa noite parece uma das que se pode esperar qualquer coisa, mas qualquer coisa boa.
- Bem... vou pensar nisso. Muito obrigada.
Antes de responder um "Disponha", ela virou as costas e foi andando para o banheiro. "Bem, não importa". Mas a história é que Howie meio que disse aquilo sobre esperar da boca pra fora. Ele estava cansado de esperar, de esperar por tudo. E havia algum tempo que tudo que ele queria era um sinal do destino. Algo em que ele aprendera a confiar. Mas, pelo sinal ele tinha que esperar também. Foi quando viu Becky Summers, e o seu sinal chegou.

-//-

Howie já tinha ouvido falar de Becky, tinha a visto algumas vezes no Kitchen também. O que Ling lhe disse depois foi que ela era a antiga Rainha dos Estados Unidos (na corte das fadas, no caso). E que ela havia simplesmente cansado daquilo tudo um dia, passado o trono para a Condessa Bloom (um antigo affair do Duque Ariser), e se mudado para o Sonhar. Ali a vida era mais tranqüila, dizia ela, e mais psicodélica. Ela até poderia ter um castelo de vidro. E desde então, ele não a viu mais. Devia ser algo realmente importante, o que aconteceu para a visita dela. E ela vinha em sua direção.

-//-

- Howie, é um prazer revê-lo.
- O prazer é meu, alteza.
- Por favor, me chame de Becky apenas. E eu tenho más notícias.
- Do que se trata?
- O Duque Ling Ariser. Foi encontrado morto. Sinto muito.
Foi como um choque para ele. O primeiro de vários, na verdade.
- Como isso aconteceu?
- Edward Reel, conhecido como Eddie, sabe quem é?
- Sim.
- Ele encontrou o Duque morto, na cabana dos girassóis. Já ouviu falar desse lugar?
- Acho que não.
- No Sonhar, existe um campo de girassóis, que não tem um fim na verdade. Ele te leva para onde você realmente precisa, mas apenas a partir do momento em que você encontra ou entende o seu Destino. E no meio desse campo há uma cabana, que nunca é a mesma para duas pessoas que entram lá. Mas ali o Cósmico te conta alguma coisa que você precisaria saber mas não saberia normalmente. E Edward encontrou o corpo do Duque ali.
- Entendi. E o que aconteceu com Eddie?
- Ele apareceu no meu castelo. Porque eu estava esperando ele. Por três anos, desde que deixei o trono e me exilei no Sonhar. É porque eu sabia. Então conversamos, e ele acordou. Deve aparecer aqui a qualquer momento.
- Ah, sim. A namorada dele veio me perguntar sobre ele.
- Aonde está ela?
- Acho que foi ao banheiro.
- Vou falar com ela depois.
- Mas, Becky... você descobriu como Eddie morreu?
- Foi uma quimera. A Sombrinea. E ela o pegou ainda no mundo real. - Howie ficou realmente perturbado, então. - Ah, ali está Vivian. Vou falar com ela.

-//-

Howie se lembrou do que tinha ouvido sobre a Sombrinea. Era uma quimera extremamente antiga e poderosa, que foi se formando a partir dos sonhos perturbados das pessoas. Qualquer sonho, por mais bom que fosse, produzia algo que fosse minimamente ruim. E os sonhos bons expulsavam esses traços, até que eles começaram a se acumular e formar uma consciência própria. E era engraçado, como os bons sonhos produziram uma das piores criaturas do Sonhar. Resolveu sair para tomar um ar. E do lado de fora do Kitchen, encontrou Eddie.
- E aí, Howie. Sinto muito pelo Duque, se você já está sabendo.
- Tudo bem, Eddie.

-//-

Mas não estava tudo bem. Após responder Eddie, ele olhou para o céu de relance. E viu uma estrela vermelha, que parecia maculada. E então em um segundo ele entendeu tudo. Bem, não entendeu, mas foi como se pensamentos tivessem surgido em sua mente, com um misto de sua própria percepção, e o Cósmico lhe enviando mensagens rápida e fervorosamente. Eddie estava como um buraco negro de Glamour, sua presença tinha maculado o Sonhar tão profundamente que começavam a aparecer conseqüências no mundo real. A Sombrinea não tinha nada a ver com o Duque, só aconteceu de ele estar ali na hora errada. O que ele sentia pela sua mulher não era nem de perto parecido com amor, era apenas um senso de responsabilidade pela sua filha pequena. Becky estava certa o tempo todo quando lhe dizia sobre o tal Cósmico que agora ele conseguia experimentar. A estrela vermelha era um augúrio para as coisas piorarem a um nível insuportável, após o qual tudo ficaria bem. Mas não para todo mundo, e certamente não para ele. A praia aonde ele ia quando criança era o lugar que ele mais queria ver no momento. Seu sabor de sorvete preferido era o de flocos, embora ele nunca tivesse admitido isso para ninguém. E algo ia explodir naquele momento.

-//-

- Cara... você tem certeza de que tá tudo bem?
Era Eddie balançando o ombro de Howie. Ele estava absorto demais, naquele momento. E o toque de Eddie pareceu queimá-lo. Pelo menos o acordou daquele transe.
- Sim, sim, eu estava apenas... aprendendo. Sua namorada está procurando você, ali dentro. Se eu fosse você iria querer falar com ela.
- Vou lá então, que bom. A gente se vê, Howie.
E Eddie saiu. O gerente sempre estava um pouco estranho, mas naquela noite parecia mais estranho que o normal. Então Eddie entrou no Kitchen, viu Becky, e viu Vivian conversando com ela. Com o olhar mais lindo do que nunca.

-//-

Howie ficou um tempo ali. Olhou para a estrela de novo, olhou para os prédios ao redor. Em cima de um deles, um cara que não lhe era estranho sorriu. E então um barulho aconteceu, e começou o caos. Algo realmente tinha explodido. Um ateliê, no caso.

domingo, 5 de abril de 2009

Capítulo 14: Light Up The Sky

Brett estava tenso, e preocupado com o que tinha feito. O peso do remorso, e a luta constante de seu id com seu superego nas últimas horas estava lhe incomodando. Ele não entendia o que tinha se tornado, o assassino que virou. Por causa de uma única noite com a garota que ele mais desejou por longos anos na escola, a que disse que não podia ser vista perto dele por causa de sua reputação. E ele não conseguia nem tomar um gole de vodka com sprite ali no Kitchen.
Tinha entrado só para dar uma olhada, ver se encontrava Mary e lhe perguntava alguma coisa sobre sua nova condição. Mas ela não estava lá. Já indo embora, quando um pensamento surgiu em sua mente. Uma voz, para falar a verdade.
- Fique aí, não saia não. Terminando o show, vamos conversar. E eu posso lhe explicar o que quiser.
Era Locke quem fazia isso. Telepatia era uma das habilidades do antigo vampiro. E Brett não conseguiria ir embora enquanto não falasse com ele. Uma persuasão sobrenatural também era uma das habilidades do antigo vampiro. Então, sem ter o que fazer, ficou ali. Esperando os minutos que passavam cada vez mais lentos.

-//-

- Pois bem, agora você é um ser imortal. Pode viver... para sempre. - Locke conseguia mascarar suas conversas também. Era um pequeno poder útil, principalmente quando se fala sobre seres que saem a noite chupando sangue, num bar lotado, numa sexta a noite. - Enquanto se alimentar de sangue.
- Mas, sangue de pessoas?
- Por enquanto sim, você é um vampiro recém-criado. Pode se alimentar de animais, ou de pessoas mesmo. Você não precisa matá-las, com o tempo você aprende a se controlar, e tomar apenas o necessário. Tudo vem disso: autocontrole. O que você fez hoje não precisa se repetir.
- E quanto ao corpo trancado no banheiro do meu apartamento?
- Eu posso te ajudar. Na verdade, eu até quero te ajudar.
- Locke, me desculpe se eu parecer paranóico, mas... você sabe... porque você me ajudaria?
- Emily Butterfly. Ela é uma artista, da linhagem dos Toreador...
- Como?
- Clãs. Dizem as histórias que todos os vampiros descendem de alguns poucos, os antediluvianos, os que vieram antes do Dilúvio bíblico. E cada um tinha uma característica diferente, que foi passada para os membros do clã. A linhagem dos Toreador, da qual Emily faz parte, é conhecida por serem os artistas, e tal.
- E qual o meu clã, e qual o seu?
- Eu fui criado como um Toreador, mas eu abandonei o clã e fui seguir meu assuntos. Realmente não me importo com eles, e ninguém aqui se importa muito com essa história também. Quanto ao seu, eu não sei... não cheguei a conhecer a garota que você conheceu ontem. Então você termina sendo um Caitiff, um dos sem clã. Isso não é um problema aqui em Los Angeles, que é um dos chamados estados livres anarquistas.
E Locke contou a Brett sobre a história da cidade. No começo da década de 80, houve uma revolta dos anarquistas contra o príncipe, e foi instaurada uma terra livre. Jack "Tequila", o líder do movimento, convocou uma assembléia, aonde dividiram as áreas da cidade. A única regra era: dentro da área comum, que incluía o centro, e alguns distritos mais movimentados, a lei deveria ser seguida. No resto, cada um fazia o que bem entendesse. E como todos viveram em relativa tranqüilidade, por quase 30 anos já, tudo ficou em paz em Los Angeles.
- Mas o que tem a tal Emily?
- Ela me deve um favor. Então ela faz isso por você, e você fica me devendo uma.
Brett pensou.
- E o que ela poderia fazer por mim?
- Lhe dar um novo rosto, uma nova aparência.
Brett pensou, e hesitou. Aí pensou de novo.
- E ali está ela, acabou de entrar. Continue pensando enquanto falo com ela.

-//-

- Boa noite, Locke.
- Emily... linda como sempre.
E ele não mentia quando falava isso. Ela tinha um tipo físico simplesmente impecável, como uma atriz de cinema, ou algo assim. E ela terminava sendo uma escultura viva, feita por ela mesma.
- Tudo bem com você?
- Tudo ótimo querido, e você?
- Então... eu precisava de algo que você faz melhor do que ninguém.
- E o que seria?
- Um rosto novo. Para o garoto ali, que foi abraçado ontem.
Emily olhou para Brett, visivelmente infeliz consigo mesmo e com o rumo que tudo estava tomando.
- O que aconteceu com ele?
- Matou o porteiro do prédio dele, por causa da fome.
- E não teriam jeitos mais fáceis de resolver isso? Eu mesma consigo ver vários.
- Mas, aí quem fica me devendo um favor é ele, e não mais você. E eu simplesmente não poderia te pedir para fazer o que eu preciso que alguém faça. Bem, ele é o indivíduo perfeito para meu plano.
- Ai ai Locke, só você... tudo bem, então. Me apresente a ele.

-//-

Raposa olhou para o ateliê, e sorriu. Ela era realmente boa no que fazia. Mas, a arte ainda lhe parecia algo insignificante diante de assuntos mais sérios. Então, sorriu de novo, desta vez para o controle remoto em sua mão, e apertou o botão.

-//-

- Algum problema quanto a isso, Brett?
- Vários. Mas, se eu não tenho outra escolha...
Ele já começava a aceitar o fato de que nunca mais seria o mesmo. O que era um tanto perturbador.
- Eu prometo que faço no capricho - Emily disse, em tom de brincadeira.
- Ah, tudo bem... quando vamos ter que fazer isso?
- Bem, hoje eu não tenho nenhum compromisso, então se quiser, vamos até o meu ateliê agora.
- Claro, claro.
Brett topou com Eddie quando saía do bar, os dois trocaram um aceno de cabeça, e ele saiu com Emily. "É ali na frente, pertíssimo", disse ela. E ele se lembrou, já tinha passado por ali várias vezes. Talvez por isso que o rosto dela não lhe era estranho. E o lugar era legal, uma casa diferente das que haviam ali na Ocean Avenue. Já iam atravessando a rua, quando repentinamente um barulho ensurdecedor aconteceu. O ateliê explodiu. Fogo, pessoas gritando, trânsito começando a parar. O caos começava ali.