Duas coisas lhe vieram à cabeça quando entrou na enorme casa de praia: The O.C. e American Pie. A balada ali era uma arquetípica balada de filme americano. Repentinamente, um resto de animação que ele tinha sumiu. E Rachel, que estava andando com ele, também. Mark se viu sozinho em um ambiente que se tornava cada vez mais hostil. A solução: começar a beber logo. Mas lhe ocorreu que cerveja não tinha a mesma graça de antes. O mundo como um todo, aliás. Pegou um copo (do tipo tamanho gigante), e em questão de segundos já tinha achado um lugar para se sentar.
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Duas horas depois, o sofá aonde Mark tinha se sentado se tornara o lugar mais insano da festa inteira. Dizem que o álcool ajuda a aproximar as pessoas, e isso é verdade. Pessoas que ele nunca tinha visto na vida, e não sabia como chegaram ali, virando copos após copos em joguinhos etílicos. E de repente ele se tornou uma estrela. Ele, um simples cara comum, em um momento de fuga. Talvez a pena é que não se lembraria de quase nada depois. É, acontece.
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Quando ele recobrou a consciência - não a que te deixa acordado, mas o tipo de consciência que diz respeito a ter um controle sobre o próprio corpo - estava deitado na areia cantando alguma música do tipo que toca na rádio. Perto dali, uma fogueira acesa, e vários casais, bebendo, conversando, tocando violão. E do seu lado, um copo vazio. Querendo desesperadamente sair dali, ele se levantou e saiu andando. E pensou estar alucinando quando viu um navio pirata navegando pelo mar. E estava alucinando mesmo, na verdade. Até que, depois de andar uns tantos metros, encontrou a mesma mulher lindíssima que tinha visto antes. Mas ela parecia... diferente. E mesmo assim, ele sabia que era ela. Sentada na areia, apenas olhando o movimento das ondas.
- Ei... eu incomodo se sentar aqui?
- Diria que não - ela respondeu. A voz era confortante, e ao mesmo tempo misteriosa, e sábia - Mas infelizmente, vou ter que dizer que sim. As ondas estão conversando comigo.
- Entendo.
- Mas que bons ventos soprem para você esta noite.
Mark saiu, se sentindo estranho. Por algum motivo, ele sabia que os tais ventos iriam soprar mesmo. Lembrou que havia um terminal de metrô ali perto, então resolveu ir embora sozinho mesmo.
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E não foi só o navio pirata. Naquela noite, ele viu duendes sentados em cima de placas, algumas pessoas com pés de bode, uma estrela vermelha que ele nunca tinha visto antes, quatro dragões em cima de um pequeno prédio comercial, e várias e inúmeras bizarrices. E a cada coisa fora do mundano que ele via, passava um tempo, apenas admirando o fantástico que acontecia. E pensando em nunca mais beber assim de novo. A única coisa em que ele não conseguiu achar beleza, foi quando passou pelo mesmo ateliê que tinha explodido antes, e viu uma grande e disforme sombra passando por ali. Como se fosse algo vivo, palpável. Bem, tudo que ele via parecia existir mesmo. É como se um novo mundo tivesse sido aberto para ele.
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"Oi, aqui é a Rachel... tudo bem? Então, você realmente ficou fora de si hoje né... mas tudo bem. Eu só queria te avisar, uma hora você terminou tomando um chá de cogumelos. E eu sei que você não curte muito essas coisas, mas... você não parecia me escutar muito. Então, o que você sentir de estranho já tá explicado. Eu não vou pra casa hoje, mas amanhã de tarde estou aí, vamos conversar. Beijo, e boa noite, se você escutar isso hoje."
Pela primeira vez em séculos, ele tinha um recado na secretária eletrônica. E então, as alucinações que ele teve eram por causa de cogumelos. Tudo explicado. Ainda se sentindo diferente, foi tomar um banho. A água quente caía, parece que em câmera lenta, e escorria por sua pele. Foi uma sensação fantástica. E praticamente encerrou a brisa que ele vinha sentindo. Saindo do banho, ele se sentia sóbrio de novo. Mas muito mudado, o que pareceu é que tinha adquirido uma percepção diferente das coisas. Depois de ver tudo de fantástico que tinha visto, o mundano lhe parecia ainda mais belo depois dessa noite. E então ele se pôs a pensar.
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O quão bom era estar em casa? Porque isso tinha entrado no senso comum de todas as pessoas? O mundo era vasto, e Mark tinha finalmente terminado seu processo, por uma percepção maior das coisas. Experimentando frações de coisas que só existem além da visão e de nossos limitados sentidos. Então lembrou de pequenas cenas que foram os grandes momentos da sua vida: o primeiro beijo com uma menina, no cinema; a madrugada que ficou conversando com Rachel na cobertura do prédio e tomando vinho; o ovo de chocolate gigante que ganhou na páscoa quando tinha 8 anos; a primeira vez que ouviu um "eu te amo", aos 16 anos; e quando completou seu álbum de figurinhas de dinossauros. Então percebeu que sua vida não era tão ruim assim, ela apenas precisava de mais momentos como esse. Mas talvez, se momentos assim fossem mais comuns, eles não seriam tão valiosos. A questão é que em tudo que ele fazia, inconscientemente havia a lembrança de algum desses momentos, o desejo de vivê-los de novo. Mas, todos os seres humanos eram assim. Então, ele se tranqüilizou.
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Andou pela casa brincando de não pisar nas linhas do piso, fumou um cigarro, assistiu um pouco de televisão, ficou acendendo e apagando a luz do banheiro. Bem, aquela falta do que fazer constante aos sábados não era tão ruim assim. Deitou-se, e o dia em que ele mais mudou sua vida terminou ali.
quarta-feira, 15 de abril de 2009
Capítulo 17: Great Indoors
Postado por
Luiz Costa
às
15:00
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