- Estamos indo para onde?
- Dar uma volta, Vivian. Precisamos de você agora.
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- Não diga nada, torna tudo mais fácil.
Mas ela queria dizer zilhões de coisas para ele naquele momento. A tendência desse final-de-semana, e os próprios pressentimentos que Eddie tinha lhe dito a respeito, levavam as coisas a um nível que ela simplesmente não podia mais suportar: a idéia de nunca mais ver seu namorado lhe era difícil demais. Então ela soube o que dizer, "boa sorte". Se desse tudo certo, então ele voltaria.
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- Tio, queria te perguntar uma coisa... você realmente não gosta do Eddie?
- Bem Vivian, ultimamente eu tenho achado que ele é um bom garoto. Tem todos os tipos de problemas, consegue se enrolar com situações que chegam a absurdas, mas no fundo ele tem um bom coração. E o mais importante, ele gosta muito de você. É absolutamente claro, só de ver vocês dois juntos. Assim como você gosta muito dele.
- Então... o senhor não tem nenhum problema quanto a ele?
- Eu tinha, mas não mais. De forma alguma. Enquanto ele te fizer feliz, terá minha bênção. Sempre.
- Que bom.
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Andando pela rua com seu tio, ela se lembrou de quando era criança. Ela fazia aulas de balé, num lugar não muito longe de onde estavam andando agora. Sua tia levava ela de carro de tarde, e seu tio ia buscá-la de noitinha, a pé. Os dois sempre comiam alguma coisa juntos, seja numa lanchonete, ou sorvetes, ou passavam no supermercado e faziam as compras. A vida era mais simples com 7 anos de idade, sem dúvida. Talvez pelo senso de moralidade, que ainda está se desenvolvendo nessa época da vida. Ou pela falta da necessidade de se preocupar com as coisas, o que atormenta os adultos do nosso tempo.
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Logo depois do primeiro sorvete deles, ele ligou para ela no mesmo dia, e marcaram de sair no sábado. Os dois foram jantar num barzinho, que tinha um clima mais sossegado possível. Então caminharam, e finalmente se beijaram na beira de um lago. Continuaram saindo, apenas os dois, por mais um mês mais ou menos, até tornar oficial a relação. Ela não tinha amigos para apresentar, mas queria conhecer os amigos dele. Então ela foi numa festa na casa dele, e absolutamente não se importou. Não com as drogas que davam e sobravam, nem com os amigos estranhos dele, nem mesmo com o fato de o primo dele ter dito que o Eddie perto dela não tinha nada a ver com o Eddie longe dela. Significava que perto dela ele fazia alguma coisa para mudar, ao menos.
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- Amor... você acredita em Deus?
- Há muito tempo não. Mas eu acredito em outras forças, sabe.
- Como o que?
- Bem, dando nome a essas forças... seriam sintonia cósmica, destino, acaso, gravitação, karma... e o amor. Não se explica essas coisas, a meu ver. Elas simplesmente existem.
- Me explique isso então. - Vivian disse num tom de desafio, mas ao mesmo tempo curiosa para ouvir aquilo.
- Sintonia cósmica se baseia no fato de quanto menos você espera do universo, mais coisas ele te traz, e melhores coisas. Destino e acaso são auto-explicativos. Gravitação é aquilo que não se vê, que nos atrai a outras pessoas, a coisas, a idéias. Karma é algo do tipo "o que se faz é o que se paga", os acontecimentos vão de você e voltam para você. E bem, o amor... é inexplicável. Dá pra dizer quando se sente, como eu vou dizer agora que eu amo você, mas não se explica o porquê. Eu simplesmente amo.
Os dois deitados na cama dele, num domingo a tarde qualquer. Aquele dia era realmente inesquecível.
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Então Vivian e Reich passaram por uma quadra aonde todos os postes estavam quebrados. Não se dava para ver muito do céu, por causa dos prédios, mas o pedaço que se via estava perfeitamente limpo. Era como ver um mar imenso de estrelas, mas por uma pequena janelinha. E no céu, se viu uma estrela cadente. Ela logo lembrou da primeira estrela cadente que viu na vida, aos treze anos. E por mais que ela tivesse aprendido na escola, no mesmo dia, que era apenas um pedaço de pedra que atravessou a atmosfera da Terra, nisso ela se recusava a acreditar. Não, preferia a interpretação que leu num poema que sua mãe tinha escrito. "Estrelas cadentes são aquelas que cansaram de ficar paradas e resolveram correr pelo céu". E nesse mesmo dia, ela saiu correndo pelo acampamento, cansada de ficar parada, e cansada de acreditar naquilo tudo que os livros diziam. Então, quando cansou, se deitou num gramado, e viu mais no mínimo cinco estrelas cadentes. E foi ali que ela soube que tinha encontrado o Glamour, mesmo sem saber o que era Glamour, ou não ter idéia de que um dia descobriria sua alma perdida de fada.
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Uma vez Vivian se colocou a pensar sobre o que exatamente era o Glamour. Uma energia mágica das fadas, e tudo mais, mas com qual significado? Lhe disseram que vinha dos sonhos, mas o que diferenciava os sonhos e os pesadelos? Ela foi entendendo que o Glamour não tinha relação com os sonhos, quando a gente dorme, mas com aqueles sonhos que são como metas. As coisas que queremos, bem no fundo, no fundo. E essas coisas que queremos incoscientemente são mais ligadas a sensações, sempre. A sensação de maravilhamento diante de uma estrela cadente, a sensação de completude em uma tarde de domingo com a pessoa que se ama, a sensação de simplicidade quando se é criança e apenas anda pela rua com seu tio. E então ela percebeu, temos coisas assim o tempo inteiro, só falta dar o devido valor a cada uma delas.
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- Tio, para onde estamos indo, afinal?
- De volta a Ocean Avenue. Digamos que precisam do seu testemunho.
- Como assim?
- É uma investigação, sobre o ateliê e os eventos que o precederam. Acho que mais tarde vão lhe explicar melhor.
- Tudo bem.
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Os eventos que precederam o ateliê, na visão dela: ela foi para a casa de Eddie, encontrou duas pessoas que não eram ele lá, então estava caminhando, quando foi atacada e levada. Ficou presa com uma maldita ruiva lhe vigiando, então foi salva por um nobre da corte feérica, depois encontrou seu namorado. Ele desmaiou repentinamente, o Duque sumiu, então no outro dia ela encontrou a ruiva de novo, ouviu que o Duque estava morto, viu Eddie de novo, teve alguns minutos de paz com ele, até ele ter que partir. Qual seria a relação disso com um ateliê de uma artista qualquer que explodiu?
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Porque ela sentia tanta empatia por alguém que conheceu por 10 minutos, só porque essa pessoa surgiu repentinamente e salvou sua vida? O tio dela tinha feito a mesma coisa, e ela não conseguia ver ele de forma diferente do que tinha visto a vida inteira. E era engraçado, pois essa pessoa que ela tinha tanta gratidão estava morta. E ela começou a pensar sobre a morte. Se o Duque não tivesse lhe salvado do tal Raposa, tudo estaria muito diferente no momento. Pelo menos para ela, que não estaria mais ali. O que vinha depois da morte? Vivian não acreditava em céu, inferno, coisas assim. Tampouco em reencarnação para pagar o karma. Eddie e ela tinham conversado sobre o karma, e concluído que ele só funcionava para a mesma vida. O universo não seria injusto a ponto de lhe punir ou recompensar por coisas feitas em uma outra vida, sob outras condições, e etc. Talvez a idéia de voltar tivesse algum sentido; como ela tinha visto em um filme, há cada vez mais pessoas no mundo, e o número de almas continua constante. Por isso que somos bons em apenas algumas coisas; nossas almas são frações das anteriores. Ou bem, podemos reencarnar em outras espécies, e Vivian aceitou muito bem a idéia de que foi um passarinho na anterior, e na próxima um gato. "I'll see you in another life... when we are both cats". Ela adorava esse filme. E teve a idéia de que com certeza tinha encontrado Eddie nas vidas anteriores, e continuaria encontrando nas próximas. Até mesmo como gatos.
quarta-feira, 29 de abril de 2009
Capítulo 22: When You Look Me In The Eyes
Postado por
Luiz Costa
às
13:18
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