Mark acordou, e olhou para o relógio ao seu lado, que marcava 10:10. Esses horários iguais vinham lhe perseguindo há semanas. E o problema era que ele não tinha absolutamente nada para fazer. Levantou da cama e foi lavar o rosto no banheiro. "Cada dia mais velho", pensou. A geladeira praticamente vazia, só um resto de coca-cola que ele tinha comprado uns 3 dias atrás. Sua situação de tédio era absolutamente deprimente.
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"Liquidação Wal-Mart, produtos com até 50% de desconto, não perca."
"Então a vespa ataca, derrubando a aranha no chão. Fora de sua teia, ela fica praticamente indefesa."
"E as investigações sobre a explosão do ateliê da artista plástica Emily Butterfly continuam. Mais informações no jornal da tarde."
"Saldão de seminovos na Dan Motors, apenas esse final de semana."
Por mais que Mark tentasse, era impossível a televisão lhe trazer algum entretenimento. Ele deixou ligada e foi folhear uma revista. Andou pela casa brincando de não pisar nas linhas do piso, fumou um cigarro, tomou aquele restinho de coca-cola, ficou acendendo e apagando a luz do banheiro, fez a barba, tomou um banho, e ainda assim continuava impaciente. Na sua secretária eletrônica, nenhum recado. Deitado no sofá ouvindo o som de um canal de música (música chata ainda, por sinal), a campainha tocou. Era Rachel.
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Rachel era vizinha de Mark há alguns meses, e os dois tinham uma bonita amizade. Na verdade, para Mark ela era a única pessoa com quem ele sabia que podia contar, a qualquer hora que precisasse. Ela trazia macarrão, molho, e carne: pelo menos algum almoço ele teria hoje, e com uma boa companhia ainda por cima. Conversaram sobre os assuntos banais de sempre, enquanto comiam.
- E Mark... vai fazer o que hoje a tarde?
- Não sei, acho que nada. Tem alguma idéia?
- Então, é que eu tenho que esperar o cara da internet, ele vai vir em casa lá pras duas... é que eu tinha que ir no shopping buscar meu celular.
- Quer que eu vá? - ele sempre era prestativo com ela.
- Sério? Ah, seria demais.
- Pode deixar, eu vou sim. Mas porque ele está lá?
- É que eu tive que levar pra desbloquear, sabe... uma operadora nova chegou aqui em Los Angeles, e tem umas promoções ótimas. Aí eu comprei um chip, só que não estava funcionando, aí eu levei lá.
- Entendido. E depois que o cara da internet vir, você vai fazer o que?
- Vai ter um churrasco do pessoal da faculdade, na casa da praia da Joey. Lembra dela?
- A do cabelão encaracolado?
- Sim... quer ir?
- Ah, pode ser.
Ele não estava muito animado para falar a verdade. Mas, era melhor do que passar a tarde inteira fazendo o que ele fazia no começo da manhã. Terminaram de almoçar, e ele foi para o shopping. Algo como 20 minutos de casa a pé, até que não seria algo difícil.
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A Ocean Avenue estava estranha para Mark aquele dia. Por mais que fosse sábado a tarde, o horário em que a maioria das pessoas ainda não saíram de casa, estava um fuzuê o lugar. O que ele entendeu é que na noite passada, o ateliê de uma famosa artista da cidade tinha explodido, por algum motivo que ainda não sabiam. E ali se concentrou a imprensa, a polícia, e os curiosos de plantão sempre presentes. Os bares ao redor do ateliê estavam lotados. É como se fosse uma bela desculpa para sair de casa e ficar tomando cerveja a tarde inteira. Bem, eles não estavam errados, na visão de Mark.
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A fonte na entrada do shopping era o que Mark mais gostava daquele lugar. Era realmente algo bem-projetado, e o movimento das luzes e da água era uma das coisas que ele achava mais fascinante, em todo o mundo. Em contraste com as lojas de fast-food barata na praça de alimentação, algo que ele simplesmente não conseguia entender. Como uma comida mal-feita e cara como aquela agradava a toda a população americana? Sorte dele que sempre esteve deslocado dessa nação fast-food. Pegou o celular de Rachel, deu uma volta de quando não se tem idéia do que fazer, e sentou no banco em frente a fonte. Perceber a beleza nas coisas mundanas, foi a maior virtude que ele desenvolveu na vida. Então ele viu passando por ali uma garota de all-star cáqui. E a beleza dela era algo que definitivamente não era mundano.
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Depois Mark voltou para casa, aonde uma amiga de Rachel ia pegar os dois. No carro, totalmente desligado das conversas de mulher rolando, ele ficou lembrando dos churrascos quando era mais novo. Aos 14, 15 anos, os churrasquinhos da turma da escola, e dos conhecidos. Quando todos os caras e todas as meninas querem é ficar com alguém, e todo mundo toma um pouquinho de cerveja e já fica meio bêbado, música que toca na FM, pessoas aleatórias se revezando na churrasqueira (e a carne ruim, o que não importava); toda aquela "pureza" da adolescência. O tempo em que a vida era muito mais fácil, ele era muito mais feliz, e não sabia. Quando saiu de suas divagações, olhou pela janela, e viu no começo da praia uma mulher andando pela areia sozinha. E ela conseguia ser ainda mais linda do que a que ele tinha visto no shopping.
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De longe dava para ouvir o som do tal churrasco da amiga da Rachel. E aquilo parecia que ia lotar de gente, todo mundo curtindo alucinadamente aquilo ali. E então ele se lembrou de outro tipo de churrasco que ia, o churras "político-filosófico". Aconteciam quando ele tinha 17 anos, toda a euforia de pegar mulher dos 15 já tinha passado, e passado bem. Então juntavam uma galerinha, ele e uns seis, sete amigos, compravam cerveja boa e carne boa, e ficavam conversando sobre assuntos quaisquer. Coisas sérias, mas vistas pelo ponto de vista etílico. E daquilo ali, ele sentia ainda mais falta. Enquanto nos churrascos de 14 anos ele se sentia muito mais feliz, nos de 17 ele se senta totalmente feliz. E a vida era completa. Mas, como tudo passa, aquilo ali passou. Inclusive o tempo de ficar dentro do carro. Chegaram no lugar, a amiga de Rachel estacionou, e ele saiu. Parecia que a tarde ia ser difícil. Podia até terminar sendo prazerosa, mas ia ser difícil de qualquer forma.
quarta-feira, 15 de abril de 2009
Capítulo 16: 3x5
Postado por
Luiz Costa
às
11:42
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