Howie estava indo falar com Reich, mas no meio do caminho, parou, por ver alguma cena qualquer. E colocou-se a pensar. Porque sempre haviam elites, nas sociedades, e sempre o povo se revoltava contra elas? Era um conflito estranho, para Howie por um único motivo: aquelas pessoas que estavam nas elites não merecem o lugar que elas têm? Qual o ponto em achar errado alguém que trabalha, dá duro, tem um pouco de sorte, claro, e se dá bem na vida? Então essas pessoas têm filhos, tentam criá-los da melhor forma possível, e o resultado é uma classe média-alta da sociedade. E aqueles que estão em baixo nessa pirâmide social, que não tiveram as mesmas oportunidades, ou as tiveram e não conseguiram usá-las para algum benefício, acham errado essa forma de "distribuição" social. Cada um tem o que merece, e tem aquilo pelo que lutou ou continua lutando. Para Howie, era simples assim. E fodam-se os moralistas revolucionários. Então ele saiu dali, e foi dar uma volta pelo parque. Animado para pensar em algumas questões, sentou-se em um banco, e pôs-se a praticar sua filosofia.
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Ele só sabia que o que viria, viria de algum lado. E ele sentia esse tal lado de alguma forma. Parecia ser a leste, mas as vezes ele mudava um pouco. E o que ele podia fazer era segurar a mão de Vivian, e andar com ela o mais rápido que podiam. Sem ter a mínima idéia para onde.
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"Há uma consciência coletiva no nosso mundo, que se torna um outro mundo a parte, basicamente. E a idéia é se soltar dos conceitos que limitam sua percepção de cada coisa, para assim se libertar e se unir ao coletivo. O eu se torna nós, e sua passagem pelo mundo está completa. Pois tem um sentido, apesar de ter se livrado de sua definição."
Alice gravou exatamente essas palavras. Foi a última idéia que Becky lhe passou na praia. E na qual ela pensava fervorosa e incessantemente enquanto caminhava para encontrar a pessoa que seria sua guia. Era o seu destino tinha lhe apontado, ao menos. Então veio a primeira dúvida: se há um destino, e se o nosso objetivo é soltar-se dos conceitos limitantes, o que impede nosso próprio destino de nos limitar? Como viver junto com ele, mas ao mesmo tempo constantemente quebrando-o?
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- Sabe, amor... eu me sinto como vivendo num filme, nas últimas horas.
- Eu diria mais que parece um livro. Um livro de fantasia bizarra. - disse Eddie, enquanto olhava para os mesmos quatro dragões de sempre.
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Mas porque as sociedades se organizavam assim, em torno do dinheiro? Será que não haveria um outro critério para basear todo nosso estilo de vida, como laços de relacionamento, ou conhecimento? Mas não, tudo gira em torno de trabalhar para produzir, e receber um bem de troca para isso, e com esse bem de troca, obter o necessário a sua sobrevivência e bem-estar. Mas o mundo não precisa de toda essa produção. Grande parte do que se faz é para satisfazer a obsolescência programada. E isso era algo que realmente irritava Howie, a idéia de se fazerem coisas pensando em quando elas vão quebrar e serem repostas. Uma sociedade utópica aonde não se precisaria de trabalho e não haveria o conceito de propriedade privada. Esse sim seria um lugar agradável para viver. Mas, como não ia rolar, que se observe o cerco policial em torno de um ateliê que acabou de explodir, e toda a agitação das pessoas ao redor de algo simples e banal assim.
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- Sabe, eu acho que já passei por esse lugar aqui.
- Sério?
- Sim... ah, ali! Ali é o galpão aonde eu fiquei presa. Com aquela ruiva me vigiando, quando o Duque me salvou.
Eddie pensou um pouco. Porque ele teria sido guiado até ali, após andar aparentemente a esmo todo esse tempo?
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E Alice encontrou uma pequena conclusão. Se você repentinamente deseja viver sem certos conceitos limitantes, logo se adquire uma idéia de que é preciso se libertar disso. Mas o próprio senso de obrigação que vem com esse "eu preciso me libertar" já é uma limitação auto-imposta por si só. Então, aquilo que Becky lhe disse seria uma ilusão? O processo de se libertar já vinha com uma nova "prisão"? Ou não, ela poderia entender que se trata de um processo natural, que devia ser vivido lentamente, que acontecia naturalmente. Bem, não "devia" ser vivido, pois ninguém é obrigado a nada, afinal. Apenas se faz o que parece mais cômodo no momento. É assim que a visão de curto prazo de cada pessoa guia nossas vidas, e é assim que tudo está estruturado. Mas como quebrar essas estruturas é o que mais lhe intrigava agora.
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- Parece que a gente tem que parar aqui.
- Você sente isso, amor?
- Acho que sim. Mas é como se... esse fosse apenas minha parada. Como se você já tivesse percorrido esse caminho, na sua jornada.
- Mas eu quero ficar aqui com você...
- E o que eu mais quero, no mundo inteiro, é ficar com você agora. - os olhos dela estavam mais brilhantes, e felizes e melancólicos ao mesmo tempo, mais do que nunca.
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Felicidade, alegria, amor. As coisas que as pessoas mais costumam buscar. E que buscam, inconscientemente ou conscientemente, sem ter uma noção do que exatamente é isso. Seres humanos vivem cada minuto de suas vidas querendo entender e viver algo que nunca experimentaram, algo já representado milhões de vezes pelas artes, pelas histórias, pela mídia. E quando alguém sente que experimenta algo assim, grava aquele momento para sempre e passa o resto da vida buscando algo que seja pelo menos um reflexo, ou uma lembrança, desse tal momento único e sagrado. Mas o que define o amor, afinal? Um sentimento de atração, de respeito, de carinho, de responsabilidade para com o outro? Amores platônicos, amores impossíveis, amores interesseiros... Todos diferentes, nada têm em comum. Exceto a idéia ilusória de que, por terem um nome em comum, são a mesma coisa em essência. Talvez sejam, talvez tudo o que julgamos e nomeamos como amor tenha uma raiz comum. Ou não, e estamos fadados a perseguir todo o tempo algo que nem sabemos direito o que é. E a tal felicidade, e a tal alegria? É uma coisa momentânea, ou constante? Se diz "eu sou feliz", ou "eu estou feliz"? Howie definitivamente não era feliz. Mas um pouco feliz ele estava, pelo menos. E aquele momento no parque, sentado pensando, foi um dos que ele encontrou algum mínimo de plenitude. E por isso, seria um momento que ele pelo resto de sua vida tentaria lembrar, ou refletir. Pois é assim que todos nós fazemos, vivendo em repetições dos mesmos momentos nos quais nos contentamos com algum sentimento que julgávamos ser assim como o vivemos.
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- É porque eu tenho um pressentimento. Que eu não vou mais te ver depois de agora.
- Não fale isso...
- É que eu realmente sinto isso, sabe. Parece algo tão claro, parece que as idéias surgem na minha cabeça prontas. Mas é algo que eu realmente não quero acreditar.
O problema é que ele não tinha escolha, o que ele sentia realmente estava por acontecer. E então ele viu o tio de Vivian caminhando na direção dos dois sentados.
- Tio! - e Eddie sentiu que ali seria um dos primeiros adeus que ele daria naquele final de semana. Apenas olhou para ela, enquanto ela corria para abraçar o tio.
- Depois a gente conversa, querida... eu preciso é falar com o seu namorado a sós.
- Tudo bem... - ela olhou com um misto de impaciência e tristeza.
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Ela finalmente entendeu as palavras de Becky em um momento fugaz. E sua conclusão foi a de que aquilo era distante demais da realidade dela para ser algo viável. Mas, ao mesmo tempo, muito próximo. Ela não precisaria abandonar conceitos, como o de família, ou amor, ou amizades. O mundo já tinha abandonado ela em relação a isso. Mas o seu eu era forte demais, endurecido por cicatrizes de uma vida toda. Mas, a intenção de Becky na verdade não era que Alice aceitasse tudo aquilo, ou começasse a viver assim. Aquilo era totalmente contrário a ela, sem dúvidas. Porém, se ela entendesse tudo que tinha sido lhe passado, e desse algum valor para aquelas palavras, ela teria mais condições de seguir o caminho que as estrelas tinham lhe traçado. E então, ela simplesmente aceitou a ordem das coisas quando encontrou a pessoa que de acordo com as profecias seria seu guia por essa necessária jornada.
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- Então, Eddie. Que você é parte importante do que está acontecendo, você já sabe, certo?
- Sim. Becky me disse.
- Pois então. Eu preciso levar Vivian embora. É importante que você siga seu instinto, ele que vai te ensinar o que precisa saber.
Eddie olhou para ela, sentada ali ao longe. O pressentimento sobre não vê-la mais ficava mais forte a cada minuto. Mas era algo que ele teria que aprender a lidar.
- Tudo bem, Reich. Mantenha-a segura, por mim.
- Com certeza. Boa sorte, garoto.
- Vou me despedir dela...
- Sim sim, claro.
Eddie caminhou até aonde sua namorada estava, olhou-a nos olhos por alguns longos segundos, e a beijou.
- Não diga nada, torna um pouco mais fácil.
- Só te digo boa sorte, então.
Ele sorriu, e ela também. Então Vivian virou as costas, e foi embora com seu tio. Eddie sentou-se ali, o que parecia a coisa certa a fazer. Fumou um cigarro, e ficou olhando para a estrela vermelha que supostamente estava ali por sua causa. Foi quando ao longe, viu a tal ruiva sobre a qual Vivian tinha lhe contado. Alice, era o nome dela. E seu pressentimento estranho lhe disse duas coisas: primeiro, que o que estava falando para ele não era seu Avatar, e sim todo o Glamour que ele tinha acumulado; e segundo, que ele e Alice iriam ajudar muito um ao outro ainda.
terça-feira, 28 de abril de 2009
Capítulo 20: Here I Come
Postado por
Luiz Costa
às
10:58
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