- A garota do Ted. Que legal vê-la aqui.
Um gato amarelo sorridente olhava para Vivian.
- Ted?
- Ted. Ele veio aqui ontem. Seu garoto.
- Eddie, não?
- É, mas eu chamo ele de Ted. Tudo bem, garota do Ted?
- Sim, e você?
- Sim. O que faz aqui?
- Eu preciso ajudar meu primo.
- E porque você achou que vindo para cá ajudaria ele?
Essa foi difícil.
- Não sei... achei que aqui encontraria alguma resposta.
- E encontra, com certeza. Mas depende de qual é a sua pergunta.
- Quem pode me responder o que eu quero?
- Qualquer um. Até você mesma. Só depende de qual é a sua pergunta.
O que aquela quimera queria?
- Qual seu nome?
- Meu nome é gato amarelo. E o seu?
- Vivianne.
- Vivianne. Bonito nome.
- Obrigada.
- Faça assim: siga pela floresta, para além do campo de trigo queimado. Olhe para o lago e o reflexo do céu lhe dirá o que tem que fazer.
- Certo.
- Mas antes, pode me fazer um favor?
- Qual?
- Responder algumas perguntas.
Aquilo cheirava a bizarrice. O gato amarelo era com certeza maluco. Mas, ela teria escolha? E ser legal com cada quimera doida que aparecesse era como uma redenção, por ela ter negado o Glamour em sua vida por tanto tempo.
- Tudo bem.
-//-
- Bate-bola, jogo rápido. Pode ser?
- Tudo bem. - logo antes de ela terminar de falar "tudo bem", o gato já fazia a primeira pergunta. - Apolo ou Dionísio, Vivianne?
- Como...? - respondeu confusa.
- Um dia como leão ou cem anos como carneiro?
Ela pensou, por um momento. Preferia uma vida tranqüila, afinal.
- Cem anos como carneiro.
- Sexo ou amor?
- Amor.
- Prosa ou poesia?
- Poesia.
- Verde ou vermelho?
- Verde.
- Preto ou branco?
- Preto - se deu conta que tinha respondido as últimas quatro sem pensar. Não era difícil, no final das contas.
- E porque o preto? - sim, era difícil.
- Pelo peso.
- Mas branco representa as sete cores juntas... não seria mais pesado então?
- Ah...
- Um herói?
Fácil.
- Reich Crow.
- Um ícone?
- Michael Jackson.
- Um ídolo?
Vivian ficou em silêncio, pensando. Não conseguia achar ninguém. Até o gato interrompê-la.
- Um filme?
- Vanilla Sky.
- Seu dia da semana favorito?
- Quinta-feira.
- Quatro coisas que não vive sem?
- Maquiagem, música, meu namorado... - ela não tinha idéia do que seria a quarta coisa - sei lá, comida.
- Você vem sempre aqui?
- É a primeira vez.
- Cream-cracker ou Aymoré?
- Cream-cracker.
- O que você gosta de passar no cream-cracker?
- Cheddar.
- Você tem uma alimentação saudável?
Era impossível dizer que sim. Se havia algo que Vivian não fazia bem, era comer.
- Não.
- Numa escala de 0 a 10, qual a pontuação que você dá para seus últimos sete dias?
- Algo próximo de zero. - e ela não brincava quando falava isso.
- Sua pontuação para o dia de hoje?
- Cinco.
- A pontuação para o que você espera do resto do dia de hoje?
- Eu espero um dez, sinceramente.
- Então muito obrigado, Vivianne. E boa sorte em seu caminho.
Vivian então andou, para além do campo de trigo queimado. Eddie tinha lhe dito que o Sonhar era um lugar bizarro e surreal, mas ela não imaginava que fosse tanto assim.
-//-
Fazia frio no Sonhar. E Vivian nunca tinha se dado bem com o frio, era uma nascida e criada em Los Angeles. Clima mediterrâneo, verões secos e invernos chuvosos. Ali era meio para final de tarde, e ventava muito. E o vento carregava cinzas; um incêndio tinha acontecido recentemente. E, por algum motivo, Vivian tinha quase certeza de que já tinha visto aquele campo de trigo em algum lugar. Como um déjà vu. Naquele momento Vivian ficou pensando a respeito do assunto por um bom tempo (era só o que se tinha para fazer, afinal de contas), mas depois, conversando com Eddie, ela descobriria que o campo de trigo do Sonhar era exatamente igual a um quadro que ela tinha em sua casa. Um quadro que na verdade era três quadros: o campo de trigo, o campo de trigo em chamas, e o campo de trigo em cinzas. Então o Sonhar era realmente feito de nossos sonhos, memórias, lembranças, impressões. Vivian tinha custado a acreditar isso.
-//-
Ela chegou ao tal lago que o gato amarelo tinha falado, e percebeu que olhar para o reflexo do céu nele seria impossível. O lago estava verde, e borbulhando. Provavelmente aquilo era ácido. Então olhou ao redor, e viu uma cachoeira, que caía em um outro lago, bem menor. E nesse menor também era impossível ver algum reflexo; a água era colorida e cintilante. Vivian podia até não gostar de coisas coloridas (preferia muito mais tons suaves, ou preto, ou branco), mas aquele lago brilhando com mais cores do que é possível nomear era impressionante. E aquela água tinha o mesmo aroma do perfume do seu namorado. Então ela pensou, Eddie tinha encontrado o gato amarelo... era muito possível que ele tivesse passado por aquela cachoeira também. E dado o provável tamanho do Sonhar, qual a chance dos dois percorrerem o mesmo caminho? Vivianne Crow a cada dia que passava acreditava mais em destino, e menos em simples probabilidades. Então ela se fez uma pergunta: o que leva um dado a cair com uma determinada face para cima um sexto das tentativas, se jogado infinitas vezes? Há uma força por trás do acaso?
-//-
Sem ter o que fazer ali diante dos lagos, e sabendo que voltar para a floresta de plástico não adiantaria muito, Vivian seguiu por um caminho qualquer. Afinal, quando não se sabe para onde quer ir, qualquer caminho serve. O gramado terminou, começou um deserto. E uma cratera no meio da areia chamou sua atenção. Era uma cratera enorme, simplesmente colossal. Que eventualmente poderia encher de água, e se tornar um lago. Ela resolveu sentar-se na beira do grande buraco, e pensar na vida. Pensar na vida, sozinha. E depois de alguns minutos, ela não estava mais sozinha.
segunda-feira, 29 de junho de 2009
Capítulo 41: Ballade 4 part 2
Postado por
Luiz Costa
às
12:04
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2 comentários:
Você é um gênio!
Quero muito saber como termina...
te adoro, cretino lindo!
Beijo da Rock
Today's fortune: A well-directed imagination is the source of great deeds
orkut que disse... e eu confirmo
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