Folhas de plástico tinham exatamente o gosto que Eddie imaginou que tivessem; um gosto de plástico. Bem, ele estava de volta ao Sonhar, e agora com um maior entendimento sobre o que era aquele mundo. Ou seja, folhas de plástico com gosto de plástico não era uma coisa tão estranha assim, ali. Foi então que viu um gato amarelo em cima de das árvores, sorrindo para ele.
- Bom dia, forasteiro. - a quimera falou.
- Estamos de noite, não?
- Mas a noite é uma parte do dia, não?
- Faz sentido.
- Menos do que parece.
- Como?
- Ainda se fala boa noite por aí. Ainda se fala boa noite de onde você vem?
- Sim.
- Então não faz tanto sentido a noite ser uma parte do dia, porque as pessoas ainda falam boa noite, e não boa noite e bom dia. Mas agora é noite e também é dia. Então eu digo bom dia e você boa noite.
O gato continuou com esse papo por alguns minutos ainda. Eddie estava olhando, sem entender absolutamente nada. Só saiu do seu transe diante daquela bizarrice quando ouviu um "enfim, o que lhe traz aqui?".
- Vim para cá para descobrir, na verdade.
- Para essa floresta?
- Para o Sonhar.
Então o gato ficou em silêncio, e olhou-o longamente.
- Você é o garoto que Becky esperava. Então eu realmente estou no lugar certo.
- Você estava me esperando também?
- Estava esperando alguém que não sabia quem era. Becky me pediu. Então, você aqui significa que os piratas já saíram, cogumelos de Glamour estão florescendo pelo seu mundo, e que a estrela vermelha voltou.
- Como?
- Você é como uma perturbação no Sonhar, antes puxando Glamour de tudo, e agora irradiando tudo o que ficou preso em você. Os piratas são entidades antiguíssimas, sempre citadas em profecias como presságios de eventos importantes. E as profecias que os envolvem não erram. Cogumelos de Glamour aparecem no seu mundo por causa da tênue conexão com o nosso. É como se a sua presença aqui perturbasse também os mundos paralelos. E é assim que funciona. E essa estrela é o seu prazo. Se olhar bem, ela está aumentando.
Eddie olhou para onde o gato apontou. A estrela estava muito maior do que na última vez que tinha olhado para ela, no campo de girassóis.
- E ela vai cair.
- Sim, garoto. Uma estrela cadente é seu prazo. Faça o que tem que fazer, que é o que vai parar ela.
- Não era bom eu correr, então?
- Mas vai correr para onde?
- Não sei.
- Você não precisa correr, há meios mais fáceis.
- Como assim?
- Você vai entender. Me conte alguma coisa do seu mundo.
- O quê?
- Os últimos cinco anos. Como progrediu a cultura pós-moderna nesses cinco anos?
- Para trás.
Isso era algo que incomodava Eddie um tanto. A segunda metade da década de 2000 era um absoluto fracasso em termos de inventividade nas artes, ou nas sociedades. Era como se o mundo tivesse se estagnado no final de 2005, e tudo o que surgiu depois era absoluto lixo demais para fazer alguma diferença na cultura humana. Haviam apenas computadores mais potentes, mas funcionando essencialmente da mesma forma.
- O fim dos tempos está próximo. - o gato lhe respondeu.
- Duvido.
- Porque você duvida?
- A humanidade, por mais irresponsável consigo mesmo que seja, ainda tem o desejo de viver. E cuidado com o que deseja, dizem.
- Principalmente aqui.
- Faz sentido.
- Menos do que parece.
- De novo?
- Se você deseja, quer ter. Então não precisa ter cuidado. Porque por mais irresponsável consigo mesmo que você seja, ainda tem o desejo de viver. Então não ia desejar algo que precisa de cuidado.
Eddie olhou intrigado para o gato metido a filósofo picareta.
- Então o que eu preciso fazer aqui?
- Me dizer seu nome, forasteiro.
- Eddie.
- Tudo bem, vou te chamar de Ted. O que você acha, Ted?
- Pode ser.
- Qual seu refrigerante preferido, Ted?
- Não bebo refrigerante.
- Qual seu melhor dia da semana, Ted?
- Segunda-feira.
- Um bife ou um pé de alface, Ted?
- Um bife. Porque essas perguntas?
- Para descobrir o que você precisa fazer aqui, Ted.
- E o que eu preciso fazer aqui?
- Ficar longe dos pés-de-alface. Ainda mais porque eles estão vindo, Ted.
- Como assim?
O gato apontou com a cabeça. Eddie virou-se e viu um pequeno batalhão de pés-de-alface sedentos por sangue. "Não é possível...", Eddie pensou. Seria engraçado se não fosse tão aterrador.
- Vamos, Ted. - e o gato pulou no ombro de Eddie. - Corra, e muito.
Ted correu, e muito. Ainda mais quando descobriu que não precisava correr, haviam meios mais fáceis. De tanto correr, seus pés começaram a não tocar mais o chão. Então ele estava praticamente voando, a uma velocidade absurda. Os pés-de-alface ficaram para trás, e então ele e o gato pararam.
-//-
- Qual o seu nome, gato?
- Gato.
- Seu nome é gato?
- Gato amarelo, na verdade.
Eddie riu. Queria é entender o seu propósito ali. Estavam no meio de um campo de trigo, que parecia não ter fim em qualquer lado que se olhasse.
- Olhe ali, Ted. Vai começar um incêndio.
- Aonde?
- Ali, lá no fundo. Em três, dois, um.
E o fogo surgiu, repentinamente. Eddie olhou, longamente, e entendeu. O propósito dele era estar ali, parado, olhando. Aquelas chamas eram para ele tão fortes, e simples, e belas, que ele sentia não precisar de mais nada. Então ele olhou para o gato, deixou-o ali e saiu caminhando. Para longe do fogo, e do trigo. Subitamente ele sabia que precisava estar em outro lugar. E o fogo não queimou nem um pouco quando Eddie caminhou por dentro dele.
quinta-feira, 7 de maio de 2009
Capítulo 23: Grapevine Fires
Postado por
Luiz Costa
às
06:53
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