domingo, 31 de maio de 2009

Capítulo 33: Leave The Pieces

- Eddie? O que você quer aqui?
- Vamos conversar, Howie. É importante.
- Entre.
Aquilo era algo que Eddie achou que nunca ia ver: O Hell’s vazio e trancado em pleno sábado à noite.
- Como estão as coisas?
- Ah, você sabe... nada bem.
- Becky se foi, Howie. Além de Ling. Realmente, não são bons tempos.
- Como foi no Sonhar?
- Me ajudou a esclarecer algumas coisas. Mas acho que o que tem acontecido aqui é mais importante. Porque a avenida parou?
- Não tenho idéia. Eu vim pra cá às 6 da tarde, e tudo já estava estranho assim. E desde então fiquei aqui, para ver se acontece alguma coisa.
- Entendo. Aliás, você teria uma bússola por aí, Howie?
- Não. Não tenho.
- Então, acho que vou indo. A gente se vê. E boa sorte.
- Pra você também.

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- Você voltou, filho.
- Sim senhor.
- Já lhe disse pra me chamar de você, Eddie... não?
- Desculpa.
- O que conseguiu no Sonhar?
- Alguma experiência a mais. Mas... só.
- Bonito o céu que você conseguiu, aliás.
- Foi Becky, né.
- E o Glamour que ainda lhe sobrava.
- Porque eu absorvi todo esse Glamour, aliás?
- Começou com Vivian. Ela tinha renunciado a isso, então o Glamour fugiu dela para algum lugar. Você foi o caminho mais fácil, era a pessoa com mais Banalidade que havia ali perto. Então, como se não fosse o suficiente para um anular ao outro, você começou a absorver mais e mais Glamour, enquanto ficava apenas cada vez mais banal. Até o ponto em que você começou a ver quimeras, o que foi quinta-feira. E nisso antigas profecias foram reinvindicadas, e deu no que deu.
- E o que eu tenho para fazer agora então, Reich?
- Você sabe o que tem que fazer. No fundo, sabe. Por isso você sempre se deu bem na vida, sua intuição é forte. Então, simplesmente vá atrás do que quer. E tudo se resolve.
- Certo. E porque a Ocean Avenue parou?
- Aconteceu coisa demais, desde que você entrou no Sonhar, e durante o dia. Tudo isso levou ao que vemos aqui. Já ouviu sobre termodinâmica? Se a quantidade de entropia em um sistema chega a um máximo, ele simplesmente congela. É mais ou menos assim o que aconteceu. Eventos demais.
- Como o que, por exemplo?
- O antigo príncipe dos vampiros está querendo seu lugar de volta. O ateliê de uma peça importante na sociedade explodiu. Bem, do ateliê você sabe. E mais muita coisa que ainda não foi revelada. E ah, seu primo Seth está morto.
Aquilo sim foi um choque para Eddie. Seth morto? Não, não era possível.
- Como? – disse, atônito.
- Ele era um Observador. Nunca ouviu sobre esse mito?
- Não.
- Por alguma razão, sempre existe uma pessoa no mundo que consegue ver e ouvir e sentir além dos limites normais dos humanos, e de qualquer limite de qualquer pessoa. E por alguma razão, só pode existir um Observador, e ele não pode viver mais do que duzentos anos. É o tempo que o Universo lhe dá para aproveitar e aprender. E a hora de Seth chegou. Sinto muito.
- Tudo bem.
- Fique com isso, Eddie. – Reich tirou uma bússola do bolso e estendeu para ele, com um sorriso no rosto. – E vá encontrar Jack Tequila. Os piratas podem lhe dizer aonde.
- Muito obrigado, senhor.

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- Você voltou, Edward.
- Sim. Com o que vocês pediram. – ele disse, entregando a bússola nas mãos de Morte.
- Olhe bem para onde ela aponta... é para onde você tem que ir agora.
Eddie olhou bem para a agulha, e viu que ela apontava para um cartaz em um poste, já no calçadão da praia. Era um anúncio de casas à venda, em Brentwood, um bairro um tanto longe dali. Ir andando não era uma possibilidade muito viável, e não haveria ônibus ou metrô àquela hora da madrugada. Ele viu os piratas virando para ir embora, se despediu deles, e começou a andar. A conjuntura cósmica seria bondosa, com certeza.

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- Eddie?
- Brett, certo?
- Sim.
- Você ia pular naquele mortal ali, não?
- Eu ia. Preciso de sangue agora.
- Se controle. Ele não está bem.
- Como assim?
- Não sei, eu sinto Glamour nele.
- Entendi. E a sua vida como o escolhido que pode salvar tudo, como tem sido?
- Um monte de coisas pra fazer. – Então uma idéia surgiu na cabeça de Eddie, como se uma lâmpada tivesse sido acesa. – Brett, cadê seu carro?
- Estacionado no Hell’s Kitchen. Desde quinta-feira.
- Eu preciso dele.
- Como?
- Preciso estar em Brentwood, e logo. Faz parte da tal vida como escolhido, sabe...
Brett olhou bem. Ele não precisaria do carro, de qualquer maneira. E andar pela noite estava um tanto confortável, depois de tudo o que tinha acontecido. Simplesmente tirou as chaves do bolso, e estendeu para Eddie.
- Me diga aonde eu posso deixar o carro e as chaves quando não precisar mais.
- Pode levar no meu prédio. Richards, 2097, apartamento 34. Pare o carro na frente, e deixe a chave na minha caixa de correio. Ah, é um Porsche amarelo, se você não se lembra.
- Lembro sim. Muito obrigado, Brett.
- É legal fazer alguma coisa para resolver a situação, sabe.
- Pois é. E como andam as coisas pra você?
- Tudo estranho demais. Mas a gente dá um jeito.
- Com certeza. Vou indo nessa. Até qualquer hora, meu caro. – e os dois se abraçaram, antes de cada um seguir seu caminho. Eddie correu de volta ao Hell’s, pegou o Porsche e seguiu para Brentwood.

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Quando Eddie entrou no quiosque, o silêncio caiu sobre o lugar. Nenhum rosto conhecido ali, a não ser o de Morte e Oculto. Mas Eddie nunca tinha visto aquelas pessoas antes.
- Quem é você? – o cara que parecia com Morte lhe perguntou.
- Meu nome é Edward Reel. Os piratas me mandaram para cá.
- Você é o garoto da estrela. Meu nome é Jack Tequila. Sente-se, por favor.
- Prefiro ficar de pé. E do que se trata essa reuniãozinha, afinal?
- Estamos discutindo sobre os fatos que têm acontecido desde ontem, e o que faremos em relação a eles no futuro. Se tiver algo a acrescentar, fique a vontade; caso contrário, continuaremos de onde paramos.
- Por hora, nada a dizer. – Eddie disse, enquanto encostava em um dos pilares e acendia um cigarro. – Não se importam, né?
- Não.
- Então, continuando meu raciocínio... – o Oculto disse – é visível a incapacidade de nosso líder de manter a ordem na cidade. Temos visto isso desde ontem, e ainda mais com o que aconteceu hoje à tarde. Nenhum do nosso sangue pode ter agido, e mesmo assim a situação está em um nível insuportável.
- O que você sugere então, Chris?
- Que se esqueça essa idéia de estado anarquista. Todos os vampiros que estão nessa cidade desde antes da sua revolução podem dizer sobre o caos que tem acontecido aqui. Você e sua gangue intervêm tanto, Jack, que essa idéia de liberdade foi corrompida. Quem manda é a sua milícia, essa história de cada um faz o que quer está errada. Eu sou a favor da reinstalação do Principado.
- E para você ser o príncipe novamente, Chris?
- Bem, nos vinte anos em que fui príncipe, a cidade viveu em relativa paz. Comparada ao que é hoje.
- Foi você que explodiu meu ateliê, seu maldito. – uma voz feminina surgiu na reunião repentinamente. – Faz tudo parte do seu planinho.
- Como, Emily? – Jack Tequila perguntou.
- Chris pagou Raposa para explodir meu ateliê. Provavelmente ele está ligado ao que aconteceu hoje à tarde também.
- De onde você tirou isso? – ele perguntou de volta, claramente se fazendo de mal informado.
- Seth Daniels Cuervo me disse.
- E quem seria Seth Daniels Cuervo?
- Ele era o Observador de nossa era. – Eddie respondeu. Disso as pessoas ali não sabiam, mas, pelo menos conheciam a lenda do Observador.
- Então, a história é real? – Jack perguntou.
- Sim.
- E aonde encontramos Seth?
- Ele morreu. Hoje à tarde. O prazo dele nesse mundo acabou.
- Ótima prova que vocês têm contra mim. A palavra de um cara que supostamente é uma lenda, mas que já está morto.
- Chris, o engraçado dessa situação é que ninguém tem provas. – Jack disse. – Temos apenas o que todos nós vimos, e o que Emily e Edward acabaram de trazer para nós. E todas as evidências apontam contra você. Sabemos que é sua cara, esperar pacientemente mais de 25 anos para executar um plano que não poderia ter falhas e tomar seu lugar de volta. Todos sabem que você nunca esteve contente com a situação.
- Tudo bem. Então é assim. Certo. Eu sou o culpado por tudo. Apenas provei que sua forma de gestão dessa cidade é falha, e que com simples coisas dá para desconstruir o mundinho utópico que você fabricou. O que você vai fazer agora, Jack Tequila?
- Bem, há a punição padrão para essas coisas.
Jack, em questão de frações de segundo, tirou uma estaca do bolso, e a arremessou contra Chris, bem no peito. Em uma fração de segundo menor ainda, ele simplesmente fez um movimento com a mão, e a estaca desviou seu caminho, e acertou Eddie. Em cheio. Então, Chris saiu voando dali, em uma velocidade que claramente nenhum deles conseguia alcançar.

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- Eddie! Espere!
Ele parou e esperou, já na alameda que levava à rua sem saída.
- Emily, certo?
- Sim. O que você vai fazer agora?
- Resolver um antigo problema meu. Acertar as contas com Raposa.
- Eu posso te ajudar de alguma forma?
- Não sei.
- Você é um carniçal, certo?
- Sim.
- Então, faça bom proveito disso. Abra a boca. - Emily cortou o próprio pulso com sua unha, e despejou um tanto de sangue na boca de Eddie. – Agora você pode fazer coisas que não conseguia antes.
- Eu sinto isso a cada sangue diferente que tomo.
- Bem, é assim que acontece. Boa sorte, Edward.
- Obrigado.

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- Você quer realmente fazer isso, Alice? É perigoso, você sabe.
- Sim, eu sei. Mas é algo que tem me incomodado, e que eu sei que se não resolver, vai voltar depois. Então, vamos nessa.
- Tudo bem. Aliás, o que você fazia sentada na calçada essa hora?
- Perdi o sono. O dia foi muito longo. Aí fica aquela história, você fica tão cansado que não dorme.
- E o que aconteceu durante o dia?
- Hmm... não lembro. Droga, de novo.
- Amnésia?
- Sim. Quinta tive a mesma coisa. Pelo menos eu tinha Seth para me contar o que aconteceu.
- Agora não mais.
- Sinto muito pelo seu primo, Eddie.
- Sinto muito pelo seu amigo, Alice.
- Tudo bem. É ali o lugar.
- Sim, me lembro. Certo, faltam vinte minutos para as seis. A gente fuma um cigarro, enquanto vê o que faz. E entramos daqui a dez minutos.
- Por mim tudo bem.
Enquanto acendia seu cigarro, Eddie desejou algo a Raposa. Que ele aproveitasse da melhor forma possível seus últimos minutos de existência. Olhou para Alice, e sorriu por ela estar ali. E ele não precisar fazer tudo sozinho.

sábado, 30 de maio de 2009

Capítulo 32: Journeyman

Duas das pessoas que Eddie mais admirava tinham se ido. Ling Ariser ele conhecia desde que começara a freqüentar o Hell’s Kitchen; já Becky Summers ele tinha encontrado pela primeira vez dois dias atrás. E mesmo que ele nunca tivesse sabido da verdadeira natureza de Ling até o momento em que ele morreu, Eddie sempre imaginaria ele exatamente como um nobre da corte das fadas. E ele tinha se ido. Para sempre. Então ele estava caminhando de volta à Ocean Avenue; queria falar com uma das pessoas que conheceram tanto Becky como Ling melhor do que ele. E também saber porque tudo estava parado. Aquela avenida definitivamente não estava normal. Eddie bateu na porta fechada do Kitchen uma, duas, três vezes. Então Howie, a pessoa que ele queria mesmo ver, abriu.

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E o que seria do Hell’s Kitchen agora? Aquele era um dos poucos lugares em que Eddie se sentia realmente à vontade. Não poderia acabar, assim. Mesmo que aquele fosse o penúltimo dia de vida dele, Los Angeles seria uma cidade um tanto mais chata sem o Hell’s Kitchen. E já que ele estava salvando aquilo que ama, tomar uma atitude quanto ao bar seria apropriado. Mas isso não cabia a ele, cabia a Howie. E a um eventual testamento que Ling tivesse deixado. E Eddie intuitivamente sabia quem tinha que ver depois de Howie; quem lhe arrumaria a bússola que os piratas pediram. E ele estava ali por perto da Ocean Avenue, sua Consciência lhe dizia (“a capacidade dos magos de perceberem o sobrenatural”). E não estava com Vivian, infelizmente.

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Se Eddie ainda tinha alguma idéia ou perspectiva sobre o que era a “realidade comum”, Reich acabara com ela facilmente. Era como se tudo estivesse se desfazendo. Era como se o status quo das coisas fosse apenas uma grande brincadeira, e Eddie tivesse que viver situações bizarras, uma atrás de outra, sem nenhum motivo aparente. Apenas porque ele era um escolhido. E ele tinha escolha? Pegar um avião e fugir de Los Angeles para sempre? Era uma alternativa, mas não, ele tinha seu maldito senso de dever. E o pior é que ele sabia com toda a certeza que estava fazendo a coisa certa. De volta à praia, contemplou o céu violeta mais uma vez, conversou com Morte, Inimigo e Oculto, e despediu-se deles. Esqueletos piratas, nunca mais.

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Reich tinha lhe dito aonde ele precisava ir. E era longe. Bem, a apatia daquela situação lhe tirava qualquer senso de urgência que pudesse ter. E, em um instante, ele viu um simples mortal andando. E um cara, que ele conhecia, pronto para atacar. Vampiros atrás de sangue. E lembrando-se do que Becky lhe disse, “salvar o que nem conhece”, Eddie correu e segurou o vampiro. E depois que o mortal passou, eles conversaram. E aí Eddie conseguiu um jeito mais fácil de chegar aonde devia.

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No final de uma alameda, havia uma pequena rua sem saída interditada. Ela apenas parecia sem saída na verdade; algum tipo de magia de ilusão ocultava o verdadeiro lugar das pessoas comuns. Era só subir a rua sem saída como se ela não fosse uma rua sem saída, e se chegava a uma praça gramada, com um quiosque no meio. E ali acontecia uma reunião. Algumas pessoas que Eddie nunca tinha visto, e entre elas, duas que ele já vira. Oculto, e Morte. Morte parecia ser o líder da reunião, mediador das discussões; e Oculto era como o antagonista. Bem, não existia essa história de bonzinho ou malvado, ainda mais no mundo dos vampiros. A verdade é que quando Eddie entrou no recinto, o clima da reunião mudou. E todos os holofotes se voltaram para ele.

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Não. Ele tinha escapado da morte três vezes já. E Becky tinha lhe dito que ele partiria apenas no quarto dia. Ou seja, não era uma simples estaca em seu peito que ia acabar com sua vida. Antes que qualquer um pudesse vir lhe ajudar, Eddie arrancou a estaca e saiu dali. A mulher com cara de atriz veio falar com ele, e lhe deu algo precioso. Porque Morte e Oculto não lhe interessavam mais, era hora de ir atrás do Inimigo. Raposa ainda tinha uma dívida séria com ele. E o dia do pagamento tinha chegado.

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“Eddie!”, ele ouviu enquanto dirigia. Imediatamente parou e sorriu. Era a pessoa que poderia ajudá-lo em sua tarefa. Ele poderia acertar tudo sozinho, mas seria um tanto mais difícil. E Eddie se identificava com ela, faria sentido os dois fazerem isso juntos. Conversaram durante o caminho, alguns rudimentos de estratégia. E quando o relógio marcou dez para seis da manhã, Eddie e Alice entraram. Na toca da raposa.

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Capítulo 31: Champagne Supernova

- Você por aqui... – disse, ainda sorrindo em vê-la novamente. 
- Boa noite, Edward. É um prazer encontrá-lo de novo. 
- O prazer é meu, Becky. 
- Como foi sua jornada? 
- Bem, quase morri, causei um pouco de estrago, vi alguns lugares belíssimos, e pensei bastante na vida. Foi proveitoso, sabe. 
- Que bom. Lembra de quando lhe contei seu destino? 
- Sim, claro. No castelo de vidro. Que eu ia ser recusado, expulso e exilado; teria a vida que sempre quis, encontraria um modo de moldar meu universo, e mantê-lo para sempre; teria o amor perfeito, e daria um amor-perfeito; e andaria pelos meus sonhos. 
- Existe uma segunda parte. Não é meio estranho o fato de que você já passou por todo o seu destino? 
- Faz sentido. E você sabe a segunda parte? 
- Eu sempre soube. Só não podia lhe contar antes. Você verá a morte no terceiro dia, e vai encontrá-la de novo no quarto. Mas, antes de partir com ela, vai salvar aquilo que ama, aquilo de que não gosta e aquilo que nem conhece. E nesse ato encontrará a satisfação que nunca teve. 
- E você não sabe o que exatamente isso significa, certo? 
- Nem vou chegar a saber. 
- Como assim? 
- Eu preciso ir embora. O mundo não é mais o meu. Sabe, fico feliz de ter lhe encontrado, Edward. Parece que eu ajudei alguém de verdade. E nisso tive um propósito. Então, até logo. 
- Até. 
Eddie esperava que ela virasse e saísse andando, mas não foi isso o que aconteceu. Ela tocou seu braço por um momento, e simplesmente começou a se dissolver com a brisa que batia. Dela saíam pedaços em formas de raios, lentos no começo, mas depois mais rapidamente. Isso enquanto ela dizia “Eu vou estar em você, Edward, e em Vivianne, e em todos que você quer bem; e no vento, e no sol, e no ar, e nas estrelas.” – foi realmente algo que passava de qualquer limite de surrealidade que podia ter visto no Sonhar. E então, aconteceu algo mais inesperado ainda: os últimos raios, os mais rápidos de todos, começaram a voar para cima; olhando para cima, Eddie viu a estrela vermelha, realmente grande e um tanto perto, e com certeza os raios voavam em direção a ela. Como se estivessem a bombardeando várias vezes, a estrela explodiu. Foi simplesmente a coisa mais impressionante que ele tinha visto, ou viria, a vida inteira. Como uma supernova, luz e Glamour voaram para todos os lados. Foi um belo clarão de raios brancos e vermelhos, que quando atingiram Eddie o fizeram se sentir mais vivo do que nunca. Ficou olhando maravilhado, antes de se sentar e começar a pensar sobre a própria morte. 

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Mark, ao acordar no domingo às 4 da tarde, se lembrou da explosão no céu que tinha visto na noite do dia anterior. Foi simplesmente a coisa mais impressionante que ele tinha visto naquela noite que também tinha sido simplesmente impressionante. E ficou feliz quando, ainda deitado na cama, Rachel entrou no seu quarto de surpresa para lhe perguntar se ele tinha visto a tal da “Champagne Supernova”. Era a notícia sensação dos intervalos da TV, uma misteriosa explosão que tinha sido testemunhada por milhares, talvez milhões, mas por alguma razão, não apareceu em nenhuma foto ou gravação de ninguém. Pessoas comuns na rua falavam sobre o que tinham visto, e o canal prometia para de noite um especial com a presença de cientistas falando sobre possíveis causas do acontecido. Mark sinceramente não se importava com nada do que passava na televisão. Ele tinha visto, ao vivo. 

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Ao se sentar, Eddie contemplou o céu, agora violeta depois da explosão. As estrelas brilhavam ainda mais. Ver a morte no terceiro dia, seria o que aconteceu no lago e com os lagartos no deserto? E vê-la de novo no quarto, para partir. Então seu destino era isso, ia ter mais aquela noite, e morrer. Para salvar aquilo que ama, o que não gosta, e o que nem conhece? Valeria a pena? Certamente sim, por uma única razão. Vivian. Naquela noite, ele sabia isso mais do que nunca. Mas tinha essa parte dos outros, e de quem nem conhecia. Eddie contemplou sua vida, e viu o que tinha feito dela nos últimos tempos: festas. Recebia pessoas em sua casa praticamente todos os dias. Sem parar. E todos pareciam felizes. Na verdade, todos eram felizes ali. Repentinamente, Eddie percebeu que tinha uma vocação na vida: a de satisfazer os outros. E aquilo o satisfazia também; tudo o que ele sempre quis a vida inteira foi ver as pessoas ao seu redor felizes. A felicidade dele dependia disso, no final das contas. Então, ele faria o que tivesse que ser feito. E por isso, até morreria. Ao se levantar com uma pose heróica, viu um navio se aproximando da praia. Ele sentia que devia esperar ali. Então, quando o navio parou, dali desceram três piratas. Três piratas esqueletos. 

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- Edward Reel. O garoto da profecia. 
- Saudações – foi a melhor resposta que ele conseguiu dizer para um pirata esqueleto. 
- Meu nome é Morte – o pirata que se apresentou continuou falando. - Esse é Oculto, e esse é Inimigo. 
Eddie notou algo no rosto (ou crânio?) do Inimigo. Era como uma caricatura de Raposa, perfeitamente reconhecível. Imediatamente perguntou sobre o fato. 
- Nós somos diferentes para cada pessoa que olha para nós. 
- E têm os rostos de pessoas que eu conheço? 
- Ou que ainda vai conhecer. É como diz a profecia. 
Olhando para Morte e Oculto, ele não conseguia reconhecer ninguém. Mas se Raposa era seu inimigo, então pelo menos ele já poderia saber quem ia matá-lo, quando encontrasse essa pessoa. 
- E o que significa o Oculto? 
- Quem está por trás dos eventos que têm acontecido. 
- E vocês não sabem quem é, certo? 
- Não. Isso cabe a você, garoto. 
- Então qual a função de vocês aqui? 
- Achei que você tivesse entendido. – Morte respondeu. – Quando encontrou o velho do pântano. Ele é apenas mais uma entidade, como eu, Oculto, e Inimigo. E não somos nós que temos uma função para você; na verdade o que acontece é o contrário. 
- O que posso fazer por vocês, então? 
- Precisamos de uma bússola, Edward. Acha que pode conseguir isso? 
- Se é o que eu tenho para fazer. 
- Estamos lhe esperando. Boa sorte em sua nova jornada. Eddie olhou uma última vez para os três piratas, e foi-se. Mais uma vez ele tinha ouvido que tinha uma jornada a fazer; e aquela provavelmente seria a última. Era hora de conseguir uma bússola; era hora de tratar dos assuntos mundanos.

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Capítulo 30: Sweetest Goodbye

- Quem é Chris, Emily?
- Um antigo affair. Coisa de trinta anos atrás. Deixa pra lá.
- É que sei lá, você pareceu meio mal quando Seth disse o nome dele...
- Sim, fiquei. Sabe, às vezes pessoas saem da sua vida, de vez. E então surgem subitamente do nada de novo. Ainda mais o que Seth disse, sobre o ateliê e tal. É difícil acreditar em coisas assim.
Emily parecia um tanto triste. Andaram em silêncio mais um tempo, até que Brett percebeu o lugar para onde andavam, incoscientemente: o parque da Ocean Avenue com a Richards. Aquele que ele colocava comida para os pássaros todo dia, - e que agora teria que colocar de noite - e aonde tinha se sentado com Mary Stuffs na noite anterior. Chegava até a ser engraçado, o jeito como aquele parque fazia uma grande parte da sua vida.
- Vamos sentar ali? - Emily perguntou, apontando para um banco aleatório. Não chegava a ser bem aleatório, era exatamente o mesmo que ele tinha se sentado com Stuffs. Incapaz de recusar a um pedido de Emily, e sem vontade de escolher um outro qualquer e sugerir para ela, ele sentou. As coisas não tinham cara de que terminariam bem aquela noite. Ou então terminariam muito melhor do que o esperado.

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Ela olhava triste, para pontos quaisquer no ambiente. Claro que não tinha o mínimo interesse no que via, estava perdida nos próprios pensamentos. Ele apenas fitava seus olhos com um sorriso bobo no rosto. Ficaram assim por vários minutos.
- Do que você tem medo, Brett?
- Altura. Beiradas, pra falar a verdade. Qualquer lugar em que haja a possibilidade de cair mais do que dois metros.
- Beiradas são tão... emocionantes. - Emily falou, enquanto subia no banco do parque, com os braços abertos. - Não sei, às vezes eu queria me jogar de um prédio. Pra saber como é cair, sabe.
- Dizem que dá pra se ver a vida inteira diante dos olhos, enquanto está caindo. Pelo menos com o Tom Cruise foi assim.
- Quem é Tom Cruise?
- Um ator famoso, no Vanilla Sky... ah, você não gosta de filmes, lembrei. Deixa pra lá.
- Tudo bem. - ela disse, voltando a se concentrar em se equilibrar na ponta dos pés na beirada do banco do parque. Brett apenas sorria. Aquela mulher era um tanto maluca. E um tanto atraente.
- E do que você tem medo, Emily?
- Acho que... de matadouros de vacas. Sabe, aonde fazem hambúrgueres, e tal. Aquilo é um tanto horripilante. - Definitivamente, esse era um medo engraçado. Mas fazia todo sentido. - E tenho medo de laboratórios também. Todas aquelas pessoas de branco, mexendo com líquidos estranhos e microscópios e coisas ininteligíveis.
- Por curiosidade... em que ano você nasceu?
- 1925. Aqui em L.A. mesmo.
- E como é ver mais de oitenta anos passando?
- É... não sei. Eu não consigo pensar na minha vida sem todo esse tempo que passou. Não é algo que se explique, simplesmente aconteceu. É o acaso, sabe. Ou o destino. Não sei.
- Qual dos dois faz mais sentido pra você?
- Os dois juntos. - Melhor resposta para Brett, impossível. - Há um caminho traçado, mas os acidentes de percurso que acontecem o redefinem completamente. E aí não temos mais idéia de onde viemos, ou para onde vamos. - Emily desceu do banco e se sentou, com o rosto pertíssimo do de Brett. - Assim como eu não sei para onde a noite absurdamente estranha de hoje vai. - Ele olhou-a nos olhos por um momento, e tentou beijá-la. Tudo que ela fez foi virar a cabeça para o lado e sorrir de volta. - Ainda não, querido. Ainda não. Você precisa aprender mais um pouco.

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- Como eram os filmes em 1925?
- Eu não me lembro né, tinha acabado de nascer.
- Ah é... então, como era em 1945?
- Não tinha cores. Era um tanto chato. Por isso que eu não gosto até hoje.
- Mesmo com as cores?
- Mesmo com as cores. Ah, eu prefiro quadros, ou fotografias. Elas capturam apenas um único momento, então a tarefa de criar a história fica com você. É um tanto mais criativo o processo. E mais difícil de ser feito. Hoje em dia, qualquer um com um celular na mão faz um vídeo e coloca na internet, e faz sucesso com isso. Essa vulgarização da arte me incomoda.
- Mas é uma forma de popularizar a criação, não é?
- Mas popularizando, você nivela por baixo. A qualidade diminui. Há mais pessoas criando, mas menos pessoas com o talento, ou o conhecimento para fazer algo bom. A mesma coisa se aplica ao jornalismo, ou a qualquer outro campo que tenha se popularizado com a Internet. A publicidade piora a cada dia, se quiser um exemplo prático e visível.

-//-

- Você já recebeu uma mandinga de amor?
- Chavecos furados não, Brett. Por favor.
- Ah, mas diga que não é bonitinho...
- Não. Mas é engraçadinho. E na verdade, é o suficiente. - e Emily surpreendeu-o com um beijo. O melhor da vida inteira dele, de longe.
- A sua mandinga do amor é melhor que a minha.
- Eu não tenho aonde dormir, Brett. Me leva pra sua casa.
Era um pedido impossível de não se atender. Um segurou a mão do outro, e caminharam para a casa de Brett. O carro dele ainda estava parado no Hell's Kitchen.

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- Bem, se não fosse você, eu não poderia entrar mais aqui, né? - Brett disse enquanto abria a porta. O relógio marcava três e meia da manhã.
- Locke é mais responsável por isso do que eu. E Jack também. Ou seja, nem tenho tanto crédito assim. E você ainda deve um favor a Locke, não se esqueça disso.
- Eu sei... o que seria esse favor para ele?
- Não tenho a mínima idéia. Quando chegar a hora você saberá.
- Sim... quer ouvir o que?
- Lenny Kravitz. Tem?
- Sim.
Os dois sabiam logo a primeira música de cor. Cantaram juntos, olhando um nos olhos do outro. E foram se aproximando. Brett segurou Emily pela cintura e a beijou. Até deitarem no sofá, ficarem ali por alguns minutos, e ela surtar.
- Não. Eu não posso fazer isso com você.
- Como assim, Emily?
- Você é um garoto. Recém-abraçado, e perdido na sua nova condição. - ela disse enquanto se levantava. - Não é justo. Eu não posso te dar o que você precisa, e nem você pode me dar o que eu preciso.
- Mas...
- Eu quero tudo de bom pra você. E depois a gente conversa.
Assim como ela tinha surgido do nada na vida de Brett, saiu por aquela porta. O salto alto fazendo o barulho mais triste que ele ouviria no final de semana. Bem, não se pode ter tudo na vida. Ele apenas ficou olhando pra cima, e ouvindo Lenny Kravitz sozinho. Até pegar no sono.

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Emily bateu a porta do prédio ao sair. E teve a maior surpresa que jamais imaginaria.
- Como você chegou aqui?
- Eu ainda sinto sua presença nos lugares. Mesmo que não queira.
- Chris... o que você está arrumando?
- É o destino se manifestando. Hora das coisas voltarem a ser como eram.
- Saia da minha frente.
- Eu queria apenas te ver uma última vez antes de tudo acontecer.
- Eu nunca mais quero te ver, em nenhum momento da minha existência.
- Peço desculpas por ter que ser assim.
- Guarde-as para mais tarde. - Emily disse enquanto se virava e ia embora. Procurar um hotel para ficar. E pensando em Chris, ela entendeu o que ele estava fazendo. O problema é que na hora que ela conseguiu falar com Jack, já era tarde demais. E o plano daquele maldito fazia um tanto de sentido.

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Capítulo 29: A Lack of Color

Andar com seu tio até que estava agradável, considerando que ela sentia absurdamente a falta de Eddie. Ele tinha sumido na semana anterior, e nas duas vezes que os dois se encontraram na quinta e na sexta, conseguiram passar apenas alguns minutos juntos. Mas então ela chegou a Ocean Avenue, e ficou respondendo a inúmeras perguntas, sobre Eddie, e Raposa, e Alice, e coisas que ela não se importava em responder. E um tanto chatas, do mesmo jeito. A vida estava um tanto sem cor naqueles minutos. Então, quando lhe disseram que podia ir embora, ela foi. Foi para casa tentar dormir. Dormiu bem, mais por cansaço do que falta de coisas para se preocupar. Dormiu com os anjos, e sonhou com seu namorado.

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- Tem alguma coisa a dizer sobre o que aconteceu aqui, Michael? – Jack respondeu para Raposa quando ele chegou.
- Depende do que você quer saber.
- Você conhece as leis aqui, certo?
- Sim. Manter a Máscara, e não mexer com nada nas áreas que você marcou no mapa, vinte anos atrás. – Máscara se referia ao acordo entre os vampiros de esconder sua existência dos mortais. – Se bem que, achei que em um estado anarquista não houvessem leis.
- Não é bem assim, você sabe.
- Sim, eu sei. - Brett se sentia profundamente incomodado pela presença daquele cara ali. Era o tipo de pessoa que tornava qualquer ambiente desagradável.
- Michael, seja sincero. O que você fez esta noite?
- De mim você não vai tirar nada, sabe disso.
- O que veio fazer aqui então?
- Passear. Saber como estão as coisas.
Brett conseguia ver, Jack Tequila estava para explodir de raiva. E Emily também, apesar de ficar quieta o tempo inteiro. Ele ouviu mais um pouco de farpas trocadas dos dois lados, e então o tal Michael foi embora.
- Quem é ele, Jack? – Brett perguntou.
- Michael Forwell, mais conhecido como Raposa. Maior traficante de heroína de Los Angeles, e um dos vampiros mais poderosos e influentes da cidade. Como se fosse um chefão do mal, ou coisa assim.
Brett se colocou a pensar, a visão que Jack tinha do mundo era um tanto distorcida. Cego pelos próprios ideais de liberdade para todos, ele parecia querer forçar sua idéia a outras pessoas. Quem era ele para querer fazer aquilo? A imagem de figura importante que Brett tinha criado a respeito dele começava a se desfazer; Jack parecia agora apenas mais um escroto. Assim como o tal Raposa.

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- Jack, esta é Vivian, minha sobrinha. E namorada do Eddie. Vivian, estes são Jack, Emily, e Brett.
Brett se lembrava dela claramente. A menina do all-star cáqui que ele tinha visto na véspera, à tarde. E ele não tinha falado nem uma palavra sequer na presença dela. E nem falaria naquela ocasião também. Ficou sem escutar uma palavra do que ela dizia, hipnotizado pela beleza fora do comum presente ali.

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- Reich... 
Brett olhou para o cara que chegava. O que o gerente do Hell’s Kitchen teria a ver com aquilo?
- Howie. Um prazer revê-lo. Junte-se a nós.
- Não, queria conversar em particular... pode ser?
- Tudo bem. – e os dois saíram para dar uma pequena volta.
- Lembra quando a Sombrinea estava ali, né? – Howie sabia que Reich era um Parente das fadas, por isso via quimeras. O velho mago olhou para o ateliê; a Sombrinea tinha sumido. – Eddie acabou com ela.
- Como?
- Não sei, foi um momento meio aleatório. Do nada eu vi ele de braços abertos, então a Sombrinea foi pegá-lo, e ela se desfez. Em pedaços de Glamour branco. E o Eddie sumiu.
- Ele voltou para o Sonhar – Reich disse, depois de pensar algum tempinho.
- O que ele foi fazer lá?
- Alguma coisa que só ele poderia fazer. Além de parar a estrela.
- Qual estrela?
- Percebeu uma estrela vermelha no céu, algum tempo atrás?
- Sim.
- Ela está caindo em cima de nós. Agora não mais porque Eddie foi para o Sonhar, e a estrela o segue. Mas quando ele voltar, a estrela vai voltar junto. A não ser que ele a pare antes.
- Entendi.
- Muito obrigado pela informação, Howie. Me ajudou a ligar alguns fatos isolados que eu tinha. Agora o que temos a fazer é esperar, e desejar boa sorte a ele. E cuidar dos nossos assuntos, porque ainda há muito o que acontecer por aqui.
- A gente se fala, Reich.

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- Eddie entrou no Sonhar agora pouco. Parece que cada um tem que cuidar da sua vida, agora. Não há o que fazer, Jack.
- Vou dar uma volta então. Ver se consigo mais alguma coisa.
- Boa sorte, Jack. E muito obrigado. – Emily disse, o abraçando. E Brett não deixou de sentir uma pontinha de ciúmes. E parece que logo trinta segundos depois de Jack Tequila ir embora, chegou Seth. Aquilo estava bizarro demais para Brett. Era como se o mundo fosse pequeno demais, e todas as pessoas que ele conhecesse tivessem alguma ligação com essas maluquices sobrenaturais que estavam pipocando a cada momento.
- Então é assim: - Seth chegou dizendo – eu sei o que vocês querem saber. Mas tudo tem um preço.

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Seth havia pensado muito a respeito da curiosidade ultimamente. Podia-se dizer que curiosidade era a característica que melhor definia a espécie humana. Além do cérebro com capacidade teoricamente infinita de aprendizado, e o polegar opositor. Mas isso eram questões biológicas. Agora, de onde veio a curiosidade, se não pela evolução? Ou ela veio pela evolução? Indivíduos curiosos teriam mais chance de sobreviver e se reproduzir e passar seus genes de curiosidade adiante?

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- Primeiro: qual o seu nome, jovem?
- Pode me chamar de Seth, senhor Reich Crow.
- E qual seria o preço que você pede por o que a gente quer saber?
- Favor se paga com favor.
- Eu não costumo negociar nesses termos, Seth. Sinto muito.
- O que é um favor para você? – Emily respondeu, praticamente ignorando o que Reich tinha dito a Seth.
- Não sei. Algo que eu precise em uma hora oportuna.
- Quem explodiu o meu ateliê?
- Raposa. A mando de alguém.
- Quem é esse alguém?
- Chris. Você o conhece.
Emily ficou em silêncio, aparentemente chocada. Alguns momentos depois, disse:
- Vamos dar uma volta, Brett?
- Claro.
E os dois saíram, e deixaram Reich e Seth ali. Os dois se olharam por um momento, uma visível tensão no ar. E cada um seguiu seu lado. Aquela rodinha que tinha se formado próxima ao cerco policial se desfazia ali.

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Enquanto Alice voltava para casa, ela ficou pensando no último pedido que Locke tinha lhe feito. Era algo realmente simples, e ela estaria livre para sempre. Ele tinha dito que não podia mais permanecer perto dela. Para seu próprio bem. E também, ele queria ir embora. Ela devia viver a própria vida. De volta a ser uma pessoa normal. Viver indefinidamente não era o que podia ser chamado de vida. A vida não era completa sem a morte. Pessoas pensavam constantemente que a morte era o contrário da vida, mas não, eram apenas partes de um ciclo. Alice acreditava em reencarnação. Ela gostava de pensar que em vidas passadas poderia ter sido outras coisas, como uma atriz de teatro, escritora, caçadora, ou uma águia. Ela gostaria de ser uma atriz de teatro. Por isso, terminou entrando em um curso de artes cênicas logo na segunda-feira que seguiu aquele final-de-semana. Mas enfim, viver uma vida longe de Locke parecia ser uma boa idéia. Por mais que ela gostasse dele, e ele tivesse sido uma peça crucial em sua vida, seria bom estar livre novamente. Aquilo estava a desgastando, mais do que podia suportar. Ela queria ser totalmente independente de novo. E precisava fazer uma última tarefa. No domingo de manhã. Ou seja, tinha muito tempo livre pela frente ainda. Foi para casa, e dormiu. Dormiu com os anjos, e não sonhou com nada.

Capítulo 28: Orange Sky pt. 2

- Sabemos que a situação pede medidas urgentes, Emily. Mas no momento infelizmente não podemos fazer nada. 
Seth simplesmente riu. Aquele Jack Tequila era um picareta. Bem, era um picareta muito esperto pelo menos, para ter conseguido tudo o que tinha. Mas Seth, de alguma forma, admirava pessoas assim. Que faziam por merecer. E então, para se juntar a Emily, Brett, e Jack, chegou Locke. Aquela pessoa que poderia fazer o que quisesse em relação a situação que tinha deixado Tequila sem saber o que fazer. 

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Alguns dos mitos que cercavam o submundo sobrenatural - que era formado de mitos no final das contas; ninguém era capaz de saber toda a verdade sobre aquilo – diziam sobre uma figura chamada de o Observador. Era uma pessoa, aparente e fisicamente comum, que tinha uma habilidade de saber de coisas além do alcance dos sentidos normais de qualquer um. Ele podia ouvir o que quisesse, seletivamente, qualquer coisa ao alcance de sua visão. Ele não era enganado por disfarces e ilusões que qualquer outro poder sobrenatural pudesse criar. Tinha uma memória que guardava qualquer coisa que tivesse visto, mesmo inconscientemente. E também uma forma limitada de telepatia, no sentido de ler mentes. Não qualquer coisa, mas era com certeza algo que poucos podiam fazer. Além de uma certa premonição sobre as coisas que ainda estavam por vir, como insights sobre os acontecimentos futuros. E ele também tinha o dom especial de não envelhecer, e poder viver até duzentos anos – o tempo-limite que a Realidade permite a um Observador viver. Mais do que isso não seria justo. E acontecia que esse mito era verdade; sempre havia um Observador, em algum canto do mundo. O Observador presente do ano de 2009, quando se passaram os eventos daquele final de semana em Los Angeles, tinha se sagrado como o mais bem-sucedido de todos. Tinha escondido sua natureza, sabia negociar suas informações, e tinha sido o primeiro a atingir o prazo-limite de duzentos anos de vida. O problema é que esse Observador não tinha pensado muito na passagem dos anos... e o seu prazo terminava ali naquele final de semana. 

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- Saudações. 
- Quem seria você? – Jack Tequila perguntou a Locke, com seu tom de certa forma arrogante de sempre. 
- Ele é um velho amigo. Está tudo bem, Jack. Esse é Locke. Locke, esse é Jack Tequila, líder dos anarquistas. 
- Sim, eu sei. É um prazer finalmente conhecê-lo. 
- O prazer é meu. 
- Jack, serei breve. O que sabemos sobre essa situação? 
- Praticamente nada. Apenas que eram explosivos já instalados dentro do ateliê, e que foram detonados na hora da explosão. Com um controle remoto, não com um detonador-relógio. Só sabemos o que a polícia também sabe. 
- Entendo. E estamos investigando alguma coisa? 
- Coloquei meu pessoal de confiança para fazer uma busca pelo que pode ter acontecido. Mas até agora, nada. Estou esperando. 
Seth sentiu que Jack ainda esperaria por algum tempo. Não muito. O que ele esperava viria a seu encontro. 

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A pessoa que hoje é conhecida por Seth Reel ou Seth Daniels Cuervo (não há registros sobre seu nome verdadeiro) nasceu em Leeds, Inglaterra, no ano de 1809. Pouquíssimas pessoas sabem sobre sua origem, e nenhuma além dele mesmo sabe exatamente todos os detalhes sobre sua vida. Seus pais trabalhavam nas fábricas de lã da cidade, no pleno começo da revolução industrial, e esse seria o caminho que ele iria seguir, provavelmente. Mas então ele se deu conta de sua condição diferente dos humanos comuns, e resolveu viajar pelo mundo. Assumindo identidades falsas por onde passava, sempre mudando de nome e de casa – as pessoas não podiam perceber que ele não envelhecia. E assim o atual Seth Reel foi pirata, passou anos com uma tribo indígena no meio do Arizona, gravou filmes independentes no final da década de 80, assistiu às duas guerras mundiais, viajou por toda a América, Europa, e Polinésia, e inúmeros outros feitos. Bem, quando se tem o poder de ver e ouvir tudo que se passa, e um tanto de esperteza, precisa-se de dinheiro para o que? 

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- Acho que ele pode nos ajudar, também. 
- Quem, Locke? – Emily perguntou, olhando para os lados. 
- Ele ali. 
- Reich! - seu velho mentor espiritual. Aconteceu numa fase em que ela teve um bloqueio criativo, e mais uns problemas pessoais. Por não acreditar em terapia mundana, procurou uma ajuda mais mágica. E foi o mago quem resolveu seu problema. Depois disso, os dois mantiveram algum contato, mas ela nunca mais precisou de ajuda do tipo. Mas agora, ela só queria entender o que tinha acontecido – e ele era alguém que sempre entendia das coisas. 
- Boa noite, Emily. É um grande prazer revê-la – ele disse, enquanto ela o abraçava. 
- Reich, estes são Brett, Jack Tequila, e Locke. 
- Muito prazer. 
- E o que lhe traz aqui, senhor? – perguntou Jack. 
- A conjuntura do acontecimento maior. O que me disseram é que essa explosão é só um começo. Aliás, sinto muito, Emily. 
- Tudo bem. O que seria esse acontecimento maior? 
- Ainda não sei. Tudo que consegui descobrir é que envolve o Sonhar, aquele menino chamado Eddie, e que algo vai parar. 
“Bem, ninguém sabe nada sobre o envolvimento do antigo príncipe”, Seth pensava consigo mesmo. Enquanto via Locke sair daquele lugar, tão do nada quanto entrou. 

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Seth tinha chegado em Los Angeles pela última vez seis meses atrás. Era sua cidade favorita, de todas que tinha visitado pelo mundo. E quando ainda precisava de uma história para se estabelecer ali, conheceu Eddie. Por algum motivo, Seth sabia que podia confiar nele. Então contou sua história, e explicou sua situação. E Eddie simplesmente aceitou que ele fosse seu primo. Pois Seth não gostava de chegar a novos lugares e não ter uma pequena rede social pronta lhe esperando. Os dois se beneficiavam nesse acordo: um tinha já todos os contatos do outro (que não eram poucos), e o outro tinha acesso a informações que pouquíssimas pessoas tinham. 

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- O que é o Sonhar, e quem é Eddie? – Jack perguntou a Reich. 
Brett e Emily também não tinham idéia do que se tratava o Sonhar. E quanto a Eddie, Brett tinha visto-o apenas duas vezes na vida, e Emily nenhuma. Ou seja, tudo que Reich tinha falado que sabia era apenas uma grande incógnita para os que o ouviam. E então ele explicou, sobre as fadas, e seu reino, e qual sua ligação com Edward Reel. E também quem era Edward Reel. A pessoa que podia salvar o mundo da estrela vermelha que caía. E então o Avatar de Reich o lembrou que ele tinha algumas coisas para fazer, o que fez ele se despedir dos presentes ali. E Emily e Jack ficaram a conversar, com Brett como um mero espectador. Como sempre. 
- Boa noite, senhores. – uma voz repentinamente interrompeu a conversa. – Posso me juntar a vocês? 
E ali chegava Raposa. Em busca da sua diversão da noite. Jack Tequila apenas olhou para ele, e subitamente toda a dúvida sobre o que tinha acontecido ali sumiu. Claro, só podia ter sido ele. O “vilão” daquele pequeno mundo à parte que acontecia em Los Angeles. Jack fez o máximo que podia para manter a calma, e se dispôs a conversar. O ar estava pesado, de tanta tensão que havia entre os dois. 
“Agora começa o show de verdade”, o Observador sorriu. Mas mal sabia ele que aquela seria a penúltima noite de sua vida.

terça-feira, 19 de maio de 2009

Capítulo 27: Love

Se perguntassem a um narrador onisciente o que ele diria sobre o amor após os eventos daquele final de semana em Los Angeles, ele diria cinco coisas.

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Parte 1: O amor eterno

Ele chegou, e viu-a ali, sentada na areia.
- Locke. - ela disse, ainda olhando fixamente para o mar.
- Boa noite, Becky.
- Sua Banalidade me machuca. Você está há tempo demais nesse mundo.
- Eu sei disso. Perdão. Mas serei breve.
- Você tem que ser. Precisa estar em outros lugares ainda hoje.
- E depois partir.
- Sim. Chegou sua hora.
Becky não gostava de falar sobre partidas, desde que Brian tinha ido embora. Um dia que ela nunca esqueceria por toda a vida seria o seu casamento; ela estava com um vestido branco e flores no cabelo, e ele com uma elegante roupa de cavaleiro. A vida dela era bem mais simples, aos dezessete anos: os dois juraram fidelidade eterna um ao outro, e viveriam felizes para sempre. Mas então veio a guerra, e levou de Becky seu amor. Ela nunca tinha amado outra pessoa antes, e nunca mais amaria. Seu coração estava preso a ele por todo o sempre. Mas o que seria o amor? Ela ia perguntar a Locke, mas quando se deu conta ele já tinha ido embora. Ficou contemplando as ondas por mais um tempo. Tinha que esperar.
- Ei... eu incomodo se sentar aqui? - um desconhecido lhe perguntou.
- Diria que não. Mas infelizmente, vou ter que dizer que sim. As ondas estão conversando comigo.
- Entendo.
- Mas que bons ventos soprem para você esta noite.
Ela até conversaria com aquela pessoa, que certamente teria algo bom para lhe dizer. Aquele mortal estava encantado, havia Glamour nele. Ele veria coisas bonitas aquela noite ainda. Grande sorte a dele. Então a pessoa que Becky esperava chegou.

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Parte 2: O amor próprio

O que seria o amor? Para Alice, nunca tinha significado muita coisa. E naquele momento, menos ainda. Era sexta-feira, Locke tinha acabado de lhe deixar, porque precisava "resolver uns assuntos". Ela também precisava resolver os dela. Precisava encontrar alguma felicidade em sua constante luta pela sobrevivência. Alice sentia que não era mais possível viver assim, sozinha no mundo, abandonada por tudo e todos. Caminhar pela noite sem um rumo não parecia um bom começo. Então ela viu a namorada de Eddie e seu tio caminhando também, do outro lado da rua por onde ela andava. Por mais que ela não gostasse de Vivian, não podia negar que sentia uma certa inveja de tudo que ela tinha. Ela tinha pessoas que gostavam dela, um conforto na vida. Ela tinha amor, ela era feliz. Mas, cada um com seus problemas, e inclusive Alice com os dela. O problema de não ter ninguém na vida. Não mais. Não mais se importaria com coisas assim. Machucada por tudo que tinha passado, ela resolveu que não precisava de mais nada para continuar sobrevivendo. A vida era uma eterna batalha, e por mais que a dela não fosse um prazer momentâneo constante, era um prazer quando vista por uma tal visão panorâmica. Uma que ela tinha adquirido em algum instante aonde resolveu viver com seus próprios termos. E Alice viveu bem assim até aquele momento, e viveria bem até o final de sua vida.

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Parte 3: O amor perfeito

Era algo que Eddie pensou vendo-a ali, andando calmamente, enquanto ele corria para fora do Sonhar. Sua vida teria sentido sem Vivian? Com certeza. Seria a mesma coisa? Com certeza não. E por mais óbvio que isso seja, pensar aquilo em um instante fugaz foi uma forma de descoberta que o deixou simplesmente feliz. Ele tinha visto ela mais uma vez, após achar que isso seria impossível. E como Vivian era linda. Era uma beleza extraordinária, uma simplicidade, e perfeição em cada detalhe de seu rosto e corpo. E ela era carinhosa, se preocupava com ele, assombrosamente inteligente, e esperta também. E tinha um sorriso que conseguia salvar qualquer dia de Eddie, por pior que fosse. Conseguia um feito raro: o de ser linda até mesmo na hora em que acorda. E Eddie adorava a risada dela, mais tímida impossível, e o jeito que ela esfregava seus pés nos dele embaixo do coberto nas noites mais frias, e também o jeito que ela falava espanhol. Era um sotaque fofo, e engraçado, e lindo. Como qualquer único detalhe daquela garota. “Deus, como eu amo essa garota.”, a única verdade que ele poderia encontrar a respeito da própria vida. Ele era apenas mais um garoto decadente de classe média, que fez uma infinidade de escolhas erradas, a vida inteira. Mas, era um garoto decadente sortudo. Tinha a melhor namorada do planeta inteiro. E boa parte do planeta concordaria com ele quando dissesse isso. “E o amor só é amor quando é recíproco”, ele tinha lido ou ouvido alguma vez em algum lugar. Pois o dele, além de ser recíproco, era perfeito. E amor-perfeito era a flor que Vivian tinha citado uma vez para ele, num momento qualquer em que estavam planejando o seu futuro casamento. Ela queria amores-perfeitos por toda parte na cerimônia. E no outro dia, Eddie foi a uma floricultura, para ver a tal flor, que nunca tinha ouvido falar na vida. Bem, flores não eram com ele. E ele teve que ir a quatro floriculturas, até achar o amor-perfeito. Era realmente algo lindo. Até para ele, que não era muito fã de flores. E naquele dia Vivian ganhou um buquê de amores-perfeitos de presente.

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Parte 4: O amor cinematográfico

Brett então virou-se e foi embora. Agora ele não tinha mais um carro, e precisava chegar em casa antes do amanhecer. Pois é, agora ele era um vampiro. Sem volta. Tudo por causa de Mary Stuffs, a menina que ele pagou um pau absurdo a High School inteira. E qual foi a sua surpresa quanto ela apareceu ali na rua, andando sozinha, 4:30 da manhã de sábado. Tecnicamente domingo, mas o dia não termina até que se durma. Ou seja, era sábado.
- Oi. – ela disse, aparentemente acanhada.
- E porque você fez isso comigo?
- Sabe, Brett... impulso. O que tem me movido para tudo o que eu tenho feito ultimamente.
- Não parece uma boa desculpa.
- E não é. Parei de me importar com pedir desculpas. - ela realmente sabia ser uma filha-da-puta. “You’ll be a bitch because you can...”, Brett lembrou-se do John Mayer tocando enquanto ele desenhava a caricatura dela. – Mas sabe, eu realmente gosto de você. – sim, ela sabia mesmo ser uma filha-da-puta.
- Eu preciso pensar sobre isso. – respondeu, desconcertado.
- Claro, amore. – e ela ficou parada ali, como se ele tivesse que pensar naquilo exatamente naquele momento.
O que ficou foi o silêncio. Então ele tentou começar a dizer alguma coisa, mas ela desatou a falar. Era desesperador, ver Stuffs falando sem parar sobre a desconstrução da vida, e o amor casual, e sorte e destino. Mas era algo extraordinariamente apaixonante; mais ainda dadas as circunstâncias da noite passada. E conversaram por uma hora mais ou menos, até que perceberam que o sol estaria para nascer em breve. E Mary Stuffs dormiu com Brett naquela noite, e na noite seguinte também. E ela pode, naquelas duas noites, não ter o convencido das razões pelas quais ele se tornou um vampiro, mas, pelo menos, ela o convenceu de que ele estava desesperadamente apaixonado e que o que queria era apenas estar com ela. E assim é o amor cinematográfico: ele nasce em um momento qualquer, dá o ar de sua graça na hora mais inesperada possível, e nos marca para sempre.

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Parte 5: A falta de amor (citando a letra que dá nome a esse capítulo, “Do you feel love, or a lack thereof?”)

Raposa simplesmente odiava esses malditos poderes mágicos que ele não conseguia ter. Como os do Duque Ariser, e do velho Reich, e da tal Becky Summers. Ele tinha ouvido falar alguma coisa dela por aí, que era rainha das fadas, coisas assim. Mas não suspeitava que ela conseguisse simplesmente se teletransportar, e aos outros também. Enfim, Alice no momento era simplesmente um pequeno incômodo, assim como tinha sido Eddie. Isso ele podia deixar para depois. Tinha que tratar de negócios no momento. Aliás, era isso o que ele ia fazer quando encontrou Alice. Encontrar Chris e pegar sua recompensa. Afinal, ele não tinha explodido um ateliê à toa. E aquilo ainda iria lhe dar um tanto de cabeça: uma hora ou outra ele teria que lidar com Jack Tequila, e também com a própria Emily e todos aqueles que estariam do lado dela. Bem, duas coisas: primeiro, ele estava ganhando algo grande, e não se tratava apenas de dinheiro; e segundo, o que era a vida sem um pouco de desafio? Desafio era tudo para Raposa, desde que ele tinha resolvido que o mundo era sem graça demais, e que precisava de um agente do caos. Era isso o que ele se sentia, uma força que bagunçasse toda a ordem em que estava fundamentado aquele fechado micro-universo que era sua vida. A sua vida, e as vidas que giravam ao redor dele. Pois ele tinha lido uma teoria científica uma vez: o que impede de toda sua vida ser uma ilusão, nas quais as outras pessoas são apenas fantoches ou imagens criadas por nós mesmos? Então, a idéia de que o universo gira em torno de você mesmo é um tanto justificável, e atraente. Pelo menos foi para Michael Forwell. E ele realmente abraçava isso. Bateu na porta que o levaria a Chris, falou a senha como de costume, e ali estava ele sentado lhe esperando. Conversaram, debateram um pouco sobre os planos para o sábado a tarde, e também para o fim de noite da sexta, Raposa pegou o que queria, e foi embora. A diversão o aguardava na Ocean Avenue.

terça-feira, 12 de maio de 2009

Capítulo 26: Postcards From Italy

Eddie pensava, e aquilo tinha sido meio sem sentido. Ele tinha vindo para o Sonhar, e tudo que tinha feito era ter conversado com um gato maludo amarelo, e visto paisagens bonitas, e quase ter morrido três vezes. Bem, ele tinha pensado bastante na vida também. Talvez fosse o suficiente. Mas ele ainda tinha que chegar ao topo da montanha. Talvez ver mais uma paisagem bonita, antes de poder ir embora. O sol já se punha, a noite ia caindo. Se os dias no Sonhar acompanhavam os dias na Terra, devia ser sábado. E ele não tinha a mínima idéia da quantidade de coisas que acontecia por lá, em sua ausência. E não tinha idéia da quantidade de coisas que ainda aconteceria quando voltasse.


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Após andar mais um tempo pelo deserto, a paisagem se transformou em um campo gramado, salpicado com pequenas flores brancas e azuis. Borboletas com asas luminescentes voavam por todo o lugar, iluminando aquela noite que caía. Então começaram a aparecer árvores por onde Eddie andava, repentinamente. E o gramado salpicado de flores se tornou um pântano. Será que a geografia do Sonhar era pré-estabelecida, ou as coisas mudavam conforme a passagem dele?
- Elas se ajustam conforme o que você sente, e o que você precisa. - uma voz grave e soturna respondeu. Eddie virou-se atrás da voz, e viu um velho de um olho só encostado em uma das árvores do pântano. Era um velho maltrapilho, com três corvos pousados em seus ombros.
- Você sabia o que eu estava pensando?
- Eu sei o que você pensa, tudo o que já pensou, o que ainda vai pensar.
- Quem é você?
- Apenas mais uma quimera. Como todas que você já encontrou aqui nessa terra. Mas ao mesmo tempo, diferente de todas.
- E você tem uma função para mim em minha passagem?
- Certamente. Mas isso é algo que você tem que descobrir.
Eddie olhou para aquela figura, atônito. Ele realmente não tinha a mínima idéia do que um velho de um olho só podia significar naquele momento. Mas bem, o gato amarelo também não fez nenhum sentido... tampouco nada do que ele tinha visto ali. Eddie foi para o Sonhar acreditando que tinha um propósito especial, e acabava de descobrir que essa história de propósito não era algo para se acreditar. O ser humano nasce, cresce, vive sua vida, e morre. Sem uma direção especial. Talvez o propósito da vida fosse a própria vida em si. Justo. Virou as costas para o velho, e saiu dali. Ele só queria chegar naquela montanha. O velho do pântano não tinha nada de especial.
- Acertou em cheio, garoto. Você vai se dar bem. - Eddie ouviu pela última vez a voz dele, enquanto caminhava em direção a montanha. Enquanto caminhava de volta para casa.

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Alguma coisa que ele queria ter naquela viagem era uma máquina fotográfica. Para voltar para casa com os cartões-postais da sua viagem. Fotos não são para guardar, são para mostrar para os outros. Mas Vivian adoraria ver a cachoeira cintilando em Glamour, ou aquele grande campo de trigo. Então ele se lembrou, Vivian tinha um quadro igual ao do campo de trigo que ele viu, na casa dela. E então tudo fazia sentido: ele já tinha visto todas aquelas paisagens em algum momento da sua vida. Árvores de plástico, como a música do Radiohead. Fogo queimando tudo, como na música do Death Cab for Cutie. A lagoa espelhada, ele via em uma foto que seus pais tinham na parede de casa, em um mural de obras de grandes fotógrafos. A cachoeira caindo em um pequeno lago era um lugar em Palmdale, que ele tinha estado seis meses atrás, com Vivian, Seth, e mais alguns amigos. O deserto lhe lembrava o Atacama, um lugar no Chile que ele tinha visto em uma revista e sempre quis viajar para lá. E aquele campo gramado era um cartão-postal da Itália que sua tia tinha lhe dado de presente aos 12 anos de idade. O único lugar que ele não conseguia resgatar em nenhum lugar da sua mente era o pântano. Aquele pântano era realmente estranho para ele. Não importava, algo de novo ele tinha visto então.

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Depois do pântano, ele se viu de volta ao campo de girassóis. Os girassóis simplesmente surgiram no lugar dos charcos, e das árvores retorcidas, e do lamaçal. E bem a sua frente, o caminho prateado que ele tinha andado em sua outra visita ao Sonhar se abria. Ele claramente levava à montanha, em um caminho sem interrupções. Eddie resolveu não pensar em nada, até estar no topo da montanha. Concentrou-se apenas em chegar lá. E ele não precisava pensar mais em nada para isso. Então, chegou.

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Lá, finalmente ele viu alguma pessoa normal ali. Um homem na casa dos trinta, com uma roupa comum. Do lado dele, uma placa indicava "L.A.", uma placa de madeira antiga escrita a carvão. Ou alguma coisa que parecia carvão.
- Saudações, Edward.
- Também estava me esperando?
- Sim, claro. Desde que entrei nesse lugar.
- Como assim, você não é mais uma quimera?
- Não. Sou um ser humano normal. Então um dia eu fui Encantado e trazido pra cá. Por algum motivo qualquer. Algum Karma que eu cometi na minha vida.
- Qual foi o seu Karma?
- Dizem que crimes. Furto, assalto a mão armada, seqüestro. Então me trouxeram pra cá, no momento em que ia ser capturado pela polícia. Pelo menos para isso passar 20 anos no Sonhar me serviu. Agora que você chegou sou um homem livre.
- Então te deixaram aqui só para me esperar.
- Sim. Paguei meu Karma. Ficar 20 anos sem comer, sem dormir, sem falar com ninguém. Pelo menos eu não sentia fome, ou qualquer outra necessidade. Mas digamos que pensei bastante.
- Vamos sair daqui então? - Eddie disse, inquieto. Tanto por querer voltar ao mundo real logo, quanto pela presença daquele homem.
- Preciso te dizer um recado antes. E mostrar, também.
Então o homem da roupa comum estalou os dedos, e a névoa, que por algum motivo cobria o lado de lá da montanha, sumiu. Então Eddie olhou, e viu Los Angeles. Uma áreal rural, algumas fazendas de algodão (iluminadas por luz artificial, o branco do algodão brilhava incrivelmente no meio da noite), e a grande estrada interestadual, e mais a frente a cidade. Ele via os prédios do centro, e conseguia distinguir os lugares da cidade toda: Silver Lake, Malibu, Chinatown, Hollywood, Long Beach. Nunca tinha visto a cidade com uma visão tão boa assim. Aquele ali, era um cartão-postal do Sonhar que ele queria.
- Que coisa sensacional. - Eddie disse atônito.
- Disseram que você ai queria uma lembrança, então... - e o cara do Karma lhe estendeu uma foto daquela vista, belíssima. - O cartão-postal mais bonito do Sonhar.
- Muito obrigado.
- É meu dever. Então, funciona assim: desça correndo, ou voando, o mais rápido que puder. Você tem que gastar o Glamour que ainda lhe sobrou nisso. Você ainda estará nesse mundo, e só voltará ao mundo real quando chegar à praia. É só seguir em linha reta daqui. E você passará por lugares-chave para sua próxima tarefa. Que será daquele lado. Então, boa sorte.
- Agradeço novamente.
O homem apenas assentou com a cabeça, e sorriu. Eddie entendeu ele: sairia finalmente daquele lugar. Sua experiência no Sonhar tinha sido algo bom, mas ele nunca mais ia querer voltar para lá. Nunca. Se virou de volta para montanha abaixo, deu uma última respirada naquele ar impregnado de Glamour, e começou a correr. Aquela corrida em velocidade desenfreada montanha abaixo terminou sendo a coisa incontrolavelmente mais emocionante, e mais aterradora, de toda sua vida.

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Voar não lhe agradava tanto. Ele preferia correr a uma velocidade incrível, e se esforçando para desviar de quaisquer obstáculos que encontrava pelo caminho. E para isso, ele tinha uma intuição, noção espacial e destreza corporal realmente fora de quaisquer padrões comuns. E ele passou por lugares incríveis, passou por estradas movimentadíssimas se esquivando entre carros, passou no meio da fazenda de algodão que ele tinha visto lá de cima, e sim, aquilo realmente brilhava. Passou por bairros ricos do subúrbio, bairros pobres do subúrbio, pelo seu próprio bairro, e na frente da sua casa. Ele queria chegar em casa logo. Passou pela frente do pequeno prédio comercial que tinha visto na quinta a tarde, e os quatro dragões ainda estavam lá. E então ele passou pelo lado do que o deixou mais feliz do que qualquer lugar em que ele tenha passado. Ele, que tinha achado que nunca mais a veria novamente.

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Vivian andava, sozinha, sem prestar atenção na noite. Então ela sentiu alguma coisa. De alguma forma, Eddie tinha passado do seu lado, muito rápido, e tinha encostado em seu braço. Então ela sentiu como se o Glamour tivesse voltado para ela. De repente, ela se sentiu uma Changeling de novo. E ela sorriu quando um duende sentado em uma placa de trânsito lhe sorriu.

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Ele correu pela Ocean Avenue, e de algum modo aquela avenida estava estranha. Parecia... quieta, vazia, alterada. E aquela quimera sombra não estava mais por lá. E o Hell's Kitchen, estava fechado. Muito estranho. Então correu mais, em linha reta. Viu o lugar aonde tomou seu último sorvete com Vivian, e a casa noturna que seus amigos tinham lhe alugado para seu aniversário de 19 anos. Foi um dia inesquecível, aquele. Para ele, para Vivian, e para qualquer pessoa que estava ali. E quando chegou a praia, parou de correr, e sorriu. Ela estava ali esperando ele, de novo.

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Capítulo 25: Escape Artists Never Die

Eddie tomou um susto aterrador quando a coisa lhe puxou, sem dúvidas. Por algum motivo ele tinha aquela cena gravada em sua mente, como algo que tivesse visto em um filme marcante, ou seriado, qualquer coisa assim. E apesar do frio absurdo que estava a água, e do cansaço que estava sentindo por não dormir desde quarta-feira a noite, ele conseguiu resistir aos tentáculos que o seguravam, e puxavam, e debatiam. Parte por causa da sua força sobrenaturalmente aumentada de carniçal, e parte por causa da energia que todo o Glamour ainda impregnado em si lhe dava. Se soltava, por partes, lenta e penosamente, mas ainda assim de forma constante. Ele não gostaria de contemplar a própria morte e ver que morreu para uma criatura do lago cheia de tentáculos. Seria ridículo. Preferia morrer de overdose. Uma overdose de álcool, MDMA, e heroína. Seria divertido, sem dúvidas. Ou então morrer cometendo suicídio, para ser congelado e reanimado em um estado de sonho lúcido. Ou então, morrer nos braços de Vivianne, dormindo. Os dois com muitos anos, talvez uns setenta. Com filhos, e netos. Melissa, Alissa, Marianne. E Brad. Seriam os nomes dos quatro filhos deles. E a força dessas idéias mais estilosas sobre a morte lhe deu a vida que ele precisava para não morrer ali. Então conseguiu colocar a cabeça para fora da água. Respirou, juntou tudo o que tinha, e perfurou um dos tentáculos. Ele não sabia que conseguia fazer isso, mas de alguma forma surgiram lâminas de Glamour nos braços dele, e ele rasgou a criatura. Inteira. O sangue começou a espirrar para todos os lados, e a água foi se tornando verde. Sim, o sangue da quimera era verde. Aquilo era a situação mais repugnante que Eddie tinha passado em toda a vida. E aquilo o queimava. Além de verde, era ácido. Ele saiu do lago o mais rápido que pôde, deitou na pequena praiazinha que havia ali, e agonizou. Seu corpo doía de forma lancinante extrema, e em todos os lugares possíveis. Muito. Ele definitivamente não queria morrer queimado por sangue verde ácido.

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Depois de algum tempo, a dor começou a passar. Lentamente. E ele já conseguia andar. Viu uma cachoeira, caminhando por alguma trilha. O sol estava se pondo, começava a ficar mais frio, então ele entrou debaixo da cachoeira. Estava um gelado insuportável, mas a água era como algo que lhe limpava. E limpava também suas idéias. E sem ele saber, limpava parte do Glamour que estava ali preso, querendo sair. Então a água do pequeno lago aonde a cachoeira caía começou a cintilar (não o que estava cheio de ácido; aquele pareceria ficar cheio de ácido para sempre, talvez). A água começou a cintilar, de forma bela. Com todas as cores do arco-íris. E estranhamente, com umas cores que ele também nunca tinha visto na vida. Era engraçado, ver além do espectro normal do olho humano. E Eddie se lembrou de seu primo, Seth. Bem, não era seu primo, para falar a verdade. Mas era um cara que via totalmente além do espectro normal do olho humano. Via, e ouvia, e sentia. Sinestesicamente. E de forma diferente da que de Eddie na cachoeira, que sentia um gosto de chocolate na água em que ele mergulhava. Um gosto de chocolate, e um som de veludo em cores que ele nunca imaginou ver. Aproveitou aquele momento, conseguiu deixar sua mente completamente vazia. Então saiu da água, e caminhou para longe. E queria ver mais alguns cartões-postais do Sonhar, também.

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Eram umas 4 da tarde, talvez. Ou não, porque o céu daquele lugar ali tinha dois sóis. Como se um nascesse no leste e o outro no oeste, e tivessem seu crepúsculo na nascente do outro sol. Eddie queria ter estado consciente ao meio-dia; seria interessante ver os dois parados, fundidos em um lugar só. Bem, se fosse assim mesmo que acontecesse. Ele tinha dormido boa parte da noite, e a manhã inteira, e mais um pouquinho de tarde; deitado ali na floresta das folhas de plástico. E o que ele esperava ser o pior aconteceu: a paisagem se tornou um deserto. Definitivamente ele não queria andar por um deserto no Sonhar. E teve seu receio confirmado quando algo que podia ser definido como uma tribo de homens-lagarto nômade saiu repentinamente da areia.

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- Mãos para cima, forasteiro. Renda-se, você não tem escolha.
Eram cinco lagartos, e tinham lanças. E eram um grupo engraçado; 4 brutamontes, e o líder era um baixinho metido a invocado. Mas o tom de voz dele era firme, e transpirava liderança. Sem dúvidas. Eddie olhou para eles, e não teve escolha além de erguer os braços, resignado.
- Qual o seu nome?
- Edward.
- Eu sei de onde você veio. Você é o arauto da estrela.
O líder dos lagartos contemplou o céu. Eddie também. Ela estava cada vez maior, e maior. E mais vermelha.
- O que farão comigo, então?
- Você tem que ser sacrificado em cima do altar do sol eterno. Se não, ela não vai sumir nunca.
Eddie olhou, e achou aquela história simplesmente estranha demais. Ser sacrificado por homens-lagarto, não. De jeito nenhum. Ajoelhou-se, fingindo deixar ser amarrado, e quando chegaram dois dos lagartos, ele agiu. As lâminas de Glamour que tinham funcionado contra o monstro do lago estavam de volta. Mas os nômades não eram tão relapsos assim, e a luta foi até bem justa. Eddie rodava golpeando todos os lados, dava pulos que seriam impossíveis em outras situações, e adquiria cada vez mais uma compreensão e agilidade maior com os próprios movementos. O primeiro dos lagartos morreu com a própria lança: o arauto da estrela partiu a arma do inimigo e cravou-a em seu pescoço. A vantagem numérica já não se tornava mais de tanta valia, naquela situação ali. O segundo lagarto teve a cabeça decepada pela lâmina de Eddie, em um momento de descuido; o terceiro foi derrubado no chão, e teve o crânio amassado com uma pisada. A força do carniçal estava muito maior do que em qualquer momento. Sobraram apenas o líder e mais um de sua tribo: mas esse mais um foi perfurado pela lâmina de Glamour.
- Você até que é um guerreiro de não se jogar fora, humano.
- Eu já fui humano. Agora sou muito mais.
Não era Eddie que falava, era como se alguma entidade estivesse apenas controlando o corpo dele. A luta estava difícil, o pequeno lagarto líder do grupo era muito ágil, aparava todos os golpes. Por mais que Eddie tentasse golpeá-lo com suas lâminas, parecia tudo em vão. Então ele percebeu, não precisava das lâminas. Quando desviou do que foi o último golpe do nômade, ele saltou para trás. Saltou algo como uns cinco metros.
- O que é então, fugindo da batalha? - o lagarto disse, correndo em sua direção.
- Não. Terminando com ela.
Eddie simplesmente agitou as mãos. Uma pequena esfera de energia vermelha, estranhamente parecida com uma miniatura da estrela que caía do céu, surgiu de suas mãos, e acertou o nômade em cheio. Uma explosão sacodiu o deserto, o lagarto e tudo que havia de cenário ali se pulverizou, e foi carregado pelo vento, como um Glamour em forma pura, em pó. Eddie contemplou a cratera que ficou ali, bem diante dos seus pés, e se sentiu cansado. Ele tinha gasto energia demais naquela luta. Se sentou na beira da cratera, e descansou. Seu processo de tirar o Glamour de seu corpo estava quase acabando. Mas ainda faltava alguma coisa. Olhando para a montanha que repousava silenciosamente na linha do horizonte, ele encontrou o que faltava. Ficou sentado por apenas mais alguns minutos, então se levantou.

sexta-feira, 8 de maio de 2009

Capítulo 24: Ballade 4 part 1

Aquele lugar era quente, nisso não haviam dúvidas. Mas o calor era algo que Eddie tinha aprendido a gostar, desde que tinha se mudado para a Califórnia. E nas únicas vezes que voltou para Boston a passeio, ele tinha passado frio. Como se seu corpo tivesse ficado desacostumado ao ar gelado. E o fato engraçado é que ele tinha vários e vários casacos. Como um para se sentir com estilo, um para "dia de aventura", e um para os dias da mendicância, e também o casaco da finesse. E Los Angeles era absurdamente quente. Ou seja, um desperdício. Mas, os dias frios valiam a pena. Mesmo.

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Tudo o que ele queria era um pouco de comida. A fome aperta, quando não se come na quinta, nem na sexta, nem no sábado. E era sábado, e ali estava ele. Caminhando no meio do fogo. Mas a fome não importava tanto assim. Ele queria era estar com alguém. A necessidade de pessoas é muito maior do que a de comida, ou água, ou coisas mundanas assim. Somos seres humanos, somos como insetos sociais. Precisamos de outros a nosso redor. E no momento, ele queria estar com alguém. Ele queria estar com Vivian, na verdade. Desesperadamente queria estar com ela.

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Pimenta. Algo que ele definitivamente não gostava. Não gostava de pimenta, não gostava de feijão, não gostava de fast-food. Preferia não comer a comer alguma fast-food. E ele não gostava de acordar e não ter um cigarro, não gostava de assistir a shows parado em lugares ruins, não gostava de cachaça. Eddie sabia tudo do que não gostava, mas não sabia do que gostava. Mas de repente ele soube: gostava de tomar sorvete com sua namorada, gostava dos dias em que acordava apaixonado, por uma razão qualquer; gostava de passar noites acordado ouvindo música, e sentindo a música em si. Música, a maior invenção da humanidade em todos os tempos. Sem dúvida.

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Seus vizinhos. Seus vizinhos eram engraçados. Um dos seus vizinhos era um pequeno empresário, em algo do ramo de transportes; e trabalhava em casa. E seus outros vizinhos eram um casal, pareciam recém-casados. Sem crianças. E a única reclamação que ele ouviu na vida inteira foi uma vez em que Eddie e seus amigos ficaram fumando maconha a tarde inteira. E o vizinho da empresa de transportes reclamou, porque a fumaça ia direto para a janela do quarto de sua filha. Então, eles pararam de fumar de tarde na sala. E começaram a fumar fechados no escritório. "Escritório do banza, boa tarde". E o banza tornava as tardes das pessoas felizes. Bons tempos.

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Terapia, algo em que definitivamente Eddie não acreditava. Como psicólogos dizem entender a mente humana? O ser humano nunca vai entender a própria mente. E a dos outros então, nem se fala. Simplesmente impossível. E Eddie tinha lido algo de psicologia por alguns tempos, um pouco de Freud, Jung, Rogers. E Skinner. Skinner definitivamente era um picareta. Que não entendia a vida. Tampouco Freud, ou Jung. Presos num raciocínio próprio, uma visão do mundo e da mente pré-concebida, que devia se aplicar a tudo. Mas Rogers era um cara bacana. Foi o primeiro que entendeu que a única pessoa que pode ajudar a uma pessoa é ela mesma. No momento, Eddie precisava desesperadamente de uma auto-ajuda. "Sincronicidade ou porque nada é por acaso", começou a lembrar desse livro. E definitivamente, ele estar ali não era uma simples obra do acaso. Caminhando pelo Sonhar, ele entendeu. E o fogo terminou. Depois de um incêndio, ele tinha ouvido em algum lugar, várias sementes conseguiam brotar por causa do calor. E por mais que um incêndio acabasse com a vida na floresta, ele trazia alguma vida nova. Renovando, e se renovando. Criando o próprio combustível para poder voltar depois. O fogo, esse sim era um cara esperto.

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Verifique o seu pulso, é a prova de que você não está escutando. Para o chamado que sua vida está lhe passando. O ritmo de uma letra de dias vazios. Com medo do mundo ali fora, você devia explorar. Coloque as sombras de lado, e ande por esses grandes lugares. Luzes de abajur fazem as sombras brincar. E pôsteres colocam as paredes de lado. A televisão é sua janela, a vista não vai te deixar triste. Então coloque sua fé em um programa de tarde da noite. Aposto que você nem ao mesmo sabia; dependendo de quão longe você vai, os números dos canais mudam. Com medo do mundo ali fora, você devia explorar. Coloque as sombras de lado, e ande por esses grandes lugares. Bem que, ultimamente não posso te culpar. Eu vi o mundo, e as vezes desejo que seu quarto tivesse espaço para dois. Então vá destrancar a porta, e ache porque você veio. Os grandes lugares, por favor deixe os grandes lugares. Verifique o seu pulso, é a prova de que você não está escutando, para o chamado que sua vida está lhe passando. O ritmo de uma letra de dias vazios. "Como eu gosto de John Mayer", Eddie pensou. E aquela letra de algum modo fazia um total sentido para ele.

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Um espelho. Eddie reparou que não se olhava em um espelho há muito tempo. Mentira, ele tinha olhado para um espelho no Hell's Kitchen, na quinta-feira. Na hora em que Vivian lhe ligou, ele estava se olhando no espelho. Mas antes disso, havia muito tempo em que ele não olhava em um espelho. Talvez por não gostar do que via. Com certeza, por não gostar do que via. E caminhando pelo Sonhar, ele viu uma lagoa espelhada. E quando olhou, percebeu que não tinha tanta antipatia assim por espelhos. Ou tinha, e só caminhando por ali conseguiu ficar contente com sua vida. Então parou, e ficou olhando para a lagoa, agachado. Até alguma coisa repentinamente o puxar para dentro da água.

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Capítulo 23: Grapevine Fires

Folhas de plástico tinham exatamente o gosto que Eddie imaginou que tivessem; um gosto de plástico. Bem, ele estava de volta ao Sonhar, e agora com um maior entendimento sobre o que era aquele mundo. Ou seja, folhas de plástico com gosto de plástico não era uma coisa tão estranha assim, ali. Foi então que viu um gato amarelo em cima de das árvores, sorrindo para ele.
- Bom dia, forasteiro. - a quimera falou.
- Estamos de noite, não?
- Mas a noite é uma parte do dia, não?
- Faz sentido.
- Menos do que parece.
- Como?
- Ainda se fala boa noite por aí. Ainda se fala boa noite de onde você vem?
- Sim.
- Então não faz tanto sentido a noite ser uma parte do dia, porque as pessoas ainda falam boa noite, e não boa noite e bom dia. Mas agora é noite e também é dia. Então eu digo bom dia e você boa noite.
O gato continuou com esse papo por alguns minutos ainda. Eddie estava olhando, sem entender absolutamente nada. Só saiu do seu transe diante daquela bizarrice quando ouviu um "enfim, o que lhe traz aqui?".
- Vim para cá para descobrir, na verdade.
- Para essa floresta?
- Para o Sonhar.
Então o gato ficou em silêncio, e olhou-o longamente.
- Você é o garoto que Becky esperava. Então eu realmente estou no lugar certo.
- Você estava me esperando também?
- Estava esperando alguém que não sabia quem era. Becky me pediu. Então, você aqui significa que os piratas já saíram, cogumelos de Glamour estão florescendo pelo seu mundo, e que a estrela vermelha voltou.
- Como?
- Você é como uma perturbação no Sonhar, antes puxando Glamour de tudo, e agora irradiando tudo o que ficou preso em você. Os piratas são entidades antiguíssimas, sempre citadas em profecias como presságios de eventos importantes. E as profecias que os envolvem não erram. Cogumelos de Glamour aparecem no seu mundo por causa da tênue conexão com o nosso. É como se a sua presença aqui perturbasse também os mundos paralelos. E é assim que funciona. E essa estrela é o seu prazo. Se olhar bem, ela está aumentando.
Eddie olhou para onde o gato apontou. A estrela estava muito maior do que na última vez que tinha olhado para ela, no campo de girassóis.
- E ela vai cair.
- Sim, garoto. Uma estrela cadente é seu prazo. Faça o que tem que fazer, que é o que vai parar ela.
- Não era bom eu correr, então?
- Mas vai correr para onde?
- Não sei.
- Você não precisa correr, há meios mais fáceis.
- Como assim?
- Você vai entender. Me conte alguma coisa do seu mundo.
- O quê?
- Os últimos cinco anos. Como progrediu a cultura pós-moderna nesses cinco anos?
- Para trás.
Isso era algo que incomodava Eddie um tanto. A segunda metade da década de 2000 era um absoluto fracasso em termos de inventividade nas artes, ou nas sociedades. Era como se o mundo tivesse se estagnado no final de 2005, e tudo o que surgiu depois era absoluto lixo demais para fazer alguma diferença na cultura humana. Haviam apenas computadores mais potentes, mas funcionando essencialmente da mesma forma.
- O fim dos tempos está próximo. - o gato lhe respondeu.
- Duvido.
- Porque você duvida?
- A humanidade, por mais irresponsável consigo mesmo que seja, ainda tem o desejo de viver. E cuidado com o que deseja, dizem.
- Principalmente aqui.
- Faz sentido.
- Menos do que parece.
- De novo?
- Se você deseja, quer ter. Então não precisa ter cuidado. Porque por mais irresponsável consigo mesmo que você seja, ainda tem o desejo de viver. Então não ia desejar algo que precisa de cuidado.
Eddie olhou intrigado para o gato metido a filósofo picareta.
- Então o que eu preciso fazer aqui?
- Me dizer seu nome, forasteiro.
- Eddie.
- Tudo bem, vou te chamar de Ted. O que você acha, Ted?
- Pode ser.
- Qual seu refrigerante preferido, Ted?
- Não bebo refrigerante.
- Qual seu melhor dia da semana, Ted?
- Segunda-feira.
- Um bife ou um pé de alface, Ted?
- Um bife. Porque essas perguntas?
- Para descobrir o que você precisa fazer aqui, Ted.
- E o que eu preciso fazer aqui?
- Ficar longe dos pés-de-alface. Ainda mais porque eles estão vindo, Ted.
- Como assim?
O gato apontou com a cabeça. Eddie virou-se e viu um pequeno batalhão de pés-de-alface sedentos por sangue. "Não é possível...", Eddie pensou. Seria engraçado se não fosse tão aterrador.
- Vamos, Ted. - e o gato pulou no ombro de Eddie. - Corra, e muito.
Ted correu, e muito. Ainda mais quando descobriu que não precisava correr, haviam meios mais fáceis. De tanto correr, seus pés começaram a não tocar mais o chão. Então ele estava praticamente voando, a uma velocidade absurda. Os pés-de-alface ficaram para trás, e então ele e o gato pararam.

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- Qual o seu nome, gato?
- Gato.
- Seu nome é gato?
- Gato amarelo, na verdade.
Eddie riu. Queria é entender o seu propósito ali. Estavam no meio de um campo de trigo, que parecia não ter fim em qualquer lado que se olhasse.
- Olhe ali, Ted. Vai começar um incêndio.
- Aonde?
- Ali, lá no fundo. Em três, dois, um.
E o fogo surgiu, repentinamente. Eddie olhou, longamente, e entendeu. O propósito dele era estar ali, parado, olhando. Aquelas chamas eram para ele tão fortes, e simples, e belas, que ele sentia não precisar de mais nada. Então ele olhou para o gato, deixou-o ali e saiu caminhando. Para longe do fogo, e do trigo. Subitamente ele sabia que precisava estar em outro lugar. E o fogo não queimou nem um pouco quando Eddie caminhou por dentro dele.