segunda-feira, 25 de maio de 2009

Capítulo 30: Sweetest Goodbye

- Quem é Chris, Emily?
- Um antigo affair. Coisa de trinta anos atrás. Deixa pra lá.
- É que sei lá, você pareceu meio mal quando Seth disse o nome dele...
- Sim, fiquei. Sabe, às vezes pessoas saem da sua vida, de vez. E então surgem subitamente do nada de novo. Ainda mais o que Seth disse, sobre o ateliê e tal. É difícil acreditar em coisas assim.
Emily parecia um tanto triste. Andaram em silêncio mais um tempo, até que Brett percebeu o lugar para onde andavam, incoscientemente: o parque da Ocean Avenue com a Richards. Aquele que ele colocava comida para os pássaros todo dia, - e que agora teria que colocar de noite - e aonde tinha se sentado com Mary Stuffs na noite anterior. Chegava até a ser engraçado, o jeito como aquele parque fazia uma grande parte da sua vida.
- Vamos sentar ali? - Emily perguntou, apontando para um banco aleatório. Não chegava a ser bem aleatório, era exatamente o mesmo que ele tinha se sentado com Stuffs. Incapaz de recusar a um pedido de Emily, e sem vontade de escolher um outro qualquer e sugerir para ela, ele sentou. As coisas não tinham cara de que terminariam bem aquela noite. Ou então terminariam muito melhor do que o esperado.

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Ela olhava triste, para pontos quaisquer no ambiente. Claro que não tinha o mínimo interesse no que via, estava perdida nos próprios pensamentos. Ele apenas fitava seus olhos com um sorriso bobo no rosto. Ficaram assim por vários minutos.
- Do que você tem medo, Brett?
- Altura. Beiradas, pra falar a verdade. Qualquer lugar em que haja a possibilidade de cair mais do que dois metros.
- Beiradas são tão... emocionantes. - Emily falou, enquanto subia no banco do parque, com os braços abertos. - Não sei, às vezes eu queria me jogar de um prédio. Pra saber como é cair, sabe.
- Dizem que dá pra se ver a vida inteira diante dos olhos, enquanto está caindo. Pelo menos com o Tom Cruise foi assim.
- Quem é Tom Cruise?
- Um ator famoso, no Vanilla Sky... ah, você não gosta de filmes, lembrei. Deixa pra lá.
- Tudo bem. - ela disse, voltando a se concentrar em se equilibrar na ponta dos pés na beirada do banco do parque. Brett apenas sorria. Aquela mulher era um tanto maluca. E um tanto atraente.
- E do que você tem medo, Emily?
- Acho que... de matadouros de vacas. Sabe, aonde fazem hambúrgueres, e tal. Aquilo é um tanto horripilante. - Definitivamente, esse era um medo engraçado. Mas fazia todo sentido. - E tenho medo de laboratórios também. Todas aquelas pessoas de branco, mexendo com líquidos estranhos e microscópios e coisas ininteligíveis.
- Por curiosidade... em que ano você nasceu?
- 1925. Aqui em L.A. mesmo.
- E como é ver mais de oitenta anos passando?
- É... não sei. Eu não consigo pensar na minha vida sem todo esse tempo que passou. Não é algo que se explique, simplesmente aconteceu. É o acaso, sabe. Ou o destino. Não sei.
- Qual dos dois faz mais sentido pra você?
- Os dois juntos. - Melhor resposta para Brett, impossível. - Há um caminho traçado, mas os acidentes de percurso que acontecem o redefinem completamente. E aí não temos mais idéia de onde viemos, ou para onde vamos. - Emily desceu do banco e se sentou, com o rosto pertíssimo do de Brett. - Assim como eu não sei para onde a noite absurdamente estranha de hoje vai. - Ele olhou-a nos olhos por um momento, e tentou beijá-la. Tudo que ela fez foi virar a cabeça para o lado e sorrir de volta. - Ainda não, querido. Ainda não. Você precisa aprender mais um pouco.

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- Como eram os filmes em 1925?
- Eu não me lembro né, tinha acabado de nascer.
- Ah é... então, como era em 1945?
- Não tinha cores. Era um tanto chato. Por isso que eu não gosto até hoje.
- Mesmo com as cores?
- Mesmo com as cores. Ah, eu prefiro quadros, ou fotografias. Elas capturam apenas um único momento, então a tarefa de criar a história fica com você. É um tanto mais criativo o processo. E mais difícil de ser feito. Hoje em dia, qualquer um com um celular na mão faz um vídeo e coloca na internet, e faz sucesso com isso. Essa vulgarização da arte me incomoda.
- Mas é uma forma de popularizar a criação, não é?
- Mas popularizando, você nivela por baixo. A qualidade diminui. Há mais pessoas criando, mas menos pessoas com o talento, ou o conhecimento para fazer algo bom. A mesma coisa se aplica ao jornalismo, ou a qualquer outro campo que tenha se popularizado com a Internet. A publicidade piora a cada dia, se quiser um exemplo prático e visível.

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- Você já recebeu uma mandinga de amor?
- Chavecos furados não, Brett. Por favor.
- Ah, mas diga que não é bonitinho...
- Não. Mas é engraçadinho. E na verdade, é o suficiente. - e Emily surpreendeu-o com um beijo. O melhor da vida inteira dele, de longe.
- A sua mandinga do amor é melhor que a minha.
- Eu não tenho aonde dormir, Brett. Me leva pra sua casa.
Era um pedido impossível de não se atender. Um segurou a mão do outro, e caminharam para a casa de Brett. O carro dele ainda estava parado no Hell's Kitchen.

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- Bem, se não fosse você, eu não poderia entrar mais aqui, né? - Brett disse enquanto abria a porta. O relógio marcava três e meia da manhã.
- Locke é mais responsável por isso do que eu. E Jack também. Ou seja, nem tenho tanto crédito assim. E você ainda deve um favor a Locke, não se esqueça disso.
- Eu sei... o que seria esse favor para ele?
- Não tenho a mínima idéia. Quando chegar a hora você saberá.
- Sim... quer ouvir o que?
- Lenny Kravitz. Tem?
- Sim.
Os dois sabiam logo a primeira música de cor. Cantaram juntos, olhando um nos olhos do outro. E foram se aproximando. Brett segurou Emily pela cintura e a beijou. Até deitarem no sofá, ficarem ali por alguns minutos, e ela surtar.
- Não. Eu não posso fazer isso com você.
- Como assim, Emily?
- Você é um garoto. Recém-abraçado, e perdido na sua nova condição. - ela disse enquanto se levantava. - Não é justo. Eu não posso te dar o que você precisa, e nem você pode me dar o que eu preciso.
- Mas...
- Eu quero tudo de bom pra você. E depois a gente conversa.
Assim como ela tinha surgido do nada na vida de Brett, saiu por aquela porta. O salto alto fazendo o barulho mais triste que ele ouviria no final de semana. Bem, não se pode ter tudo na vida. Ele apenas ficou olhando pra cima, e ouvindo Lenny Kravitz sozinho. Até pegar no sono.

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Emily bateu a porta do prédio ao sair. E teve a maior surpresa que jamais imaginaria.
- Como você chegou aqui?
- Eu ainda sinto sua presença nos lugares. Mesmo que não queira.
- Chris... o que você está arrumando?
- É o destino se manifestando. Hora das coisas voltarem a ser como eram.
- Saia da minha frente.
- Eu queria apenas te ver uma última vez antes de tudo acontecer.
- Eu nunca mais quero te ver, em nenhum momento da minha existência.
- Peço desculpas por ter que ser assim.
- Guarde-as para mais tarde. - Emily disse enquanto se virava e ia embora. Procurar um hotel para ficar. E pensando em Chris, ela entendeu o que ele estava fazendo. O problema é que na hora que ela conseguiu falar com Jack, já era tarde demais. E o plano daquele maldito fazia um tanto de sentido.

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