quarta-feira, 20 de maio de 2009

Capítulo 28: Orange Sky pt. 2

- Sabemos que a situação pede medidas urgentes, Emily. Mas no momento infelizmente não podemos fazer nada. 
Seth simplesmente riu. Aquele Jack Tequila era um picareta. Bem, era um picareta muito esperto pelo menos, para ter conseguido tudo o que tinha. Mas Seth, de alguma forma, admirava pessoas assim. Que faziam por merecer. E então, para se juntar a Emily, Brett, e Jack, chegou Locke. Aquela pessoa que poderia fazer o que quisesse em relação a situação que tinha deixado Tequila sem saber o que fazer. 

-//- 

Alguns dos mitos que cercavam o submundo sobrenatural - que era formado de mitos no final das contas; ninguém era capaz de saber toda a verdade sobre aquilo – diziam sobre uma figura chamada de o Observador. Era uma pessoa, aparente e fisicamente comum, que tinha uma habilidade de saber de coisas além do alcance dos sentidos normais de qualquer um. Ele podia ouvir o que quisesse, seletivamente, qualquer coisa ao alcance de sua visão. Ele não era enganado por disfarces e ilusões que qualquer outro poder sobrenatural pudesse criar. Tinha uma memória que guardava qualquer coisa que tivesse visto, mesmo inconscientemente. E também uma forma limitada de telepatia, no sentido de ler mentes. Não qualquer coisa, mas era com certeza algo que poucos podiam fazer. Além de uma certa premonição sobre as coisas que ainda estavam por vir, como insights sobre os acontecimentos futuros. E ele também tinha o dom especial de não envelhecer, e poder viver até duzentos anos – o tempo-limite que a Realidade permite a um Observador viver. Mais do que isso não seria justo. E acontecia que esse mito era verdade; sempre havia um Observador, em algum canto do mundo. O Observador presente do ano de 2009, quando se passaram os eventos daquele final de semana em Los Angeles, tinha se sagrado como o mais bem-sucedido de todos. Tinha escondido sua natureza, sabia negociar suas informações, e tinha sido o primeiro a atingir o prazo-limite de duzentos anos de vida. O problema é que esse Observador não tinha pensado muito na passagem dos anos... e o seu prazo terminava ali naquele final de semana. 

-//- 

- Saudações. 
- Quem seria você? – Jack Tequila perguntou a Locke, com seu tom de certa forma arrogante de sempre. 
- Ele é um velho amigo. Está tudo bem, Jack. Esse é Locke. Locke, esse é Jack Tequila, líder dos anarquistas. 
- Sim, eu sei. É um prazer finalmente conhecê-lo. 
- O prazer é meu. 
- Jack, serei breve. O que sabemos sobre essa situação? 
- Praticamente nada. Apenas que eram explosivos já instalados dentro do ateliê, e que foram detonados na hora da explosão. Com um controle remoto, não com um detonador-relógio. Só sabemos o que a polícia também sabe. 
- Entendo. E estamos investigando alguma coisa? 
- Coloquei meu pessoal de confiança para fazer uma busca pelo que pode ter acontecido. Mas até agora, nada. Estou esperando. 
Seth sentiu que Jack ainda esperaria por algum tempo. Não muito. O que ele esperava viria a seu encontro. 

-//- 

A pessoa que hoje é conhecida por Seth Reel ou Seth Daniels Cuervo (não há registros sobre seu nome verdadeiro) nasceu em Leeds, Inglaterra, no ano de 1809. Pouquíssimas pessoas sabem sobre sua origem, e nenhuma além dele mesmo sabe exatamente todos os detalhes sobre sua vida. Seus pais trabalhavam nas fábricas de lã da cidade, no pleno começo da revolução industrial, e esse seria o caminho que ele iria seguir, provavelmente. Mas então ele se deu conta de sua condição diferente dos humanos comuns, e resolveu viajar pelo mundo. Assumindo identidades falsas por onde passava, sempre mudando de nome e de casa – as pessoas não podiam perceber que ele não envelhecia. E assim o atual Seth Reel foi pirata, passou anos com uma tribo indígena no meio do Arizona, gravou filmes independentes no final da década de 80, assistiu às duas guerras mundiais, viajou por toda a América, Europa, e Polinésia, e inúmeros outros feitos. Bem, quando se tem o poder de ver e ouvir tudo que se passa, e um tanto de esperteza, precisa-se de dinheiro para o que? 

-//- 

- Acho que ele pode nos ajudar, também. 
- Quem, Locke? – Emily perguntou, olhando para os lados. 
- Ele ali. 
- Reich! - seu velho mentor espiritual. Aconteceu numa fase em que ela teve um bloqueio criativo, e mais uns problemas pessoais. Por não acreditar em terapia mundana, procurou uma ajuda mais mágica. E foi o mago quem resolveu seu problema. Depois disso, os dois mantiveram algum contato, mas ela nunca mais precisou de ajuda do tipo. Mas agora, ela só queria entender o que tinha acontecido – e ele era alguém que sempre entendia das coisas. 
- Boa noite, Emily. É um grande prazer revê-la – ele disse, enquanto ela o abraçava. 
- Reich, estes são Brett, Jack Tequila, e Locke. 
- Muito prazer. 
- E o que lhe traz aqui, senhor? – perguntou Jack. 
- A conjuntura do acontecimento maior. O que me disseram é que essa explosão é só um começo. Aliás, sinto muito, Emily. 
- Tudo bem. O que seria esse acontecimento maior? 
- Ainda não sei. Tudo que consegui descobrir é que envolve o Sonhar, aquele menino chamado Eddie, e que algo vai parar. 
“Bem, ninguém sabe nada sobre o envolvimento do antigo príncipe”, Seth pensava consigo mesmo. Enquanto via Locke sair daquele lugar, tão do nada quanto entrou. 

-//- 

Seth tinha chegado em Los Angeles pela última vez seis meses atrás. Era sua cidade favorita, de todas que tinha visitado pelo mundo. E quando ainda precisava de uma história para se estabelecer ali, conheceu Eddie. Por algum motivo, Seth sabia que podia confiar nele. Então contou sua história, e explicou sua situação. E Eddie simplesmente aceitou que ele fosse seu primo. Pois Seth não gostava de chegar a novos lugares e não ter uma pequena rede social pronta lhe esperando. Os dois se beneficiavam nesse acordo: um tinha já todos os contatos do outro (que não eram poucos), e o outro tinha acesso a informações que pouquíssimas pessoas tinham. 

-//- 

- O que é o Sonhar, e quem é Eddie? – Jack perguntou a Reich. 
Brett e Emily também não tinham idéia do que se tratava o Sonhar. E quanto a Eddie, Brett tinha visto-o apenas duas vezes na vida, e Emily nenhuma. Ou seja, tudo que Reich tinha falado que sabia era apenas uma grande incógnita para os que o ouviam. E então ele explicou, sobre as fadas, e seu reino, e qual sua ligação com Edward Reel. E também quem era Edward Reel. A pessoa que podia salvar o mundo da estrela vermelha que caía. E então o Avatar de Reich o lembrou que ele tinha algumas coisas para fazer, o que fez ele se despedir dos presentes ali. E Emily e Jack ficaram a conversar, com Brett como um mero espectador. Como sempre. 
- Boa noite, senhores. – uma voz repentinamente interrompeu a conversa. – Posso me juntar a vocês? 
E ali chegava Raposa. Em busca da sua diversão da noite. Jack Tequila apenas olhou para ele, e subitamente toda a dúvida sobre o que tinha acontecido ali sumiu. Claro, só podia ter sido ele. O “vilão” daquele pequeno mundo à parte que acontecia em Los Angeles. Jack fez o máximo que podia para manter a calma, e se dispôs a conversar. O ar estava pesado, de tanta tensão que havia entre os dois. 
“Agora começa o show de verdade”, o Observador sorriu. Mas mal sabia ele que aquela seria a penúltima noite de sua vida.

Nenhum comentário: