Eddie tomou um susto aterrador quando a coisa lhe puxou, sem dúvidas. Por algum motivo ele tinha aquela cena gravada em sua mente, como algo que tivesse visto em um filme marcante, ou seriado, qualquer coisa assim. E apesar do frio absurdo que estava a água, e do cansaço que estava sentindo por não dormir desde quarta-feira a noite, ele conseguiu resistir aos tentáculos que o seguravam, e puxavam, e debatiam. Parte por causa da sua força sobrenaturalmente aumentada de carniçal, e parte por causa da energia que todo o Glamour ainda impregnado em si lhe dava. Se soltava, por partes, lenta e penosamente, mas ainda assim de forma constante. Ele não gostaria de contemplar a própria morte e ver que morreu para uma criatura do lago cheia de tentáculos. Seria ridículo. Preferia morrer de overdose. Uma overdose de álcool, MDMA, e heroína. Seria divertido, sem dúvidas. Ou então morrer cometendo suicídio, para ser congelado e reanimado em um estado de sonho lúcido. Ou então, morrer nos braços de Vivianne, dormindo. Os dois com muitos anos, talvez uns setenta. Com filhos, e netos. Melissa, Alissa, Marianne. E Brad. Seriam os nomes dos quatro filhos deles. E a força dessas idéias mais estilosas sobre a morte lhe deu a vida que ele precisava para não morrer ali. Então conseguiu colocar a cabeça para fora da água. Respirou, juntou tudo o que tinha, e perfurou um dos tentáculos. Ele não sabia que conseguia fazer isso, mas de alguma forma surgiram lâminas de Glamour nos braços dele, e ele rasgou a criatura. Inteira. O sangue começou a espirrar para todos os lados, e a água foi se tornando verde. Sim, o sangue da quimera era verde. Aquilo era a situação mais repugnante que Eddie tinha passado em toda a vida. E aquilo o queimava. Além de verde, era ácido. Ele saiu do lago o mais rápido que pôde, deitou na pequena praiazinha que havia ali, e agonizou. Seu corpo doía de forma lancinante extrema, e em todos os lugares possíveis. Muito. Ele definitivamente não queria morrer queimado por sangue verde ácido.
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Depois de algum tempo, a dor começou a passar. Lentamente. E ele já conseguia andar. Viu uma cachoeira, caminhando por alguma trilha. O sol estava se pondo, começava a ficar mais frio, então ele entrou debaixo da cachoeira. Estava um gelado insuportável, mas a água era como algo que lhe limpava. E limpava também suas idéias. E sem ele saber, limpava parte do Glamour que estava ali preso, querendo sair. Então a água do pequeno lago aonde a cachoeira caía começou a cintilar (não o que estava cheio de ácido; aquele pareceria ficar cheio de ácido para sempre, talvez). A água começou a cintilar, de forma bela. Com todas as cores do arco-íris. E estranhamente, com umas cores que ele também nunca tinha visto na vida. Era engraçado, ver além do espectro normal do olho humano. E Eddie se lembrou de seu primo, Seth. Bem, não era seu primo, para falar a verdade. Mas era um cara que via totalmente além do espectro normal do olho humano. Via, e ouvia, e sentia. Sinestesicamente. E de forma diferente da que de Eddie na cachoeira, que sentia um gosto de chocolate na água em que ele mergulhava. Um gosto de chocolate, e um som de veludo em cores que ele nunca imaginou ver. Aproveitou aquele momento, conseguiu deixar sua mente completamente vazia. Então saiu da água, e caminhou para longe. E queria ver mais alguns cartões-postais do Sonhar, também.
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Eram umas 4 da tarde, talvez. Ou não, porque o céu daquele lugar ali tinha dois sóis. Como se um nascesse no leste e o outro no oeste, e tivessem seu crepúsculo na nascente do outro sol. Eddie queria ter estado consciente ao meio-dia; seria interessante ver os dois parados, fundidos em um lugar só. Bem, se fosse assim mesmo que acontecesse. Ele tinha dormido boa parte da noite, e a manhã inteira, e mais um pouquinho de tarde; deitado ali na floresta das folhas de plástico. E o que ele esperava ser o pior aconteceu: a paisagem se tornou um deserto. Definitivamente ele não queria andar por um deserto no Sonhar. E teve seu receio confirmado quando algo que podia ser definido como uma tribo de homens-lagarto nômade saiu repentinamente da areia.
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- Mãos para cima, forasteiro. Renda-se, você não tem escolha.
Eram cinco lagartos, e tinham lanças. E eram um grupo engraçado; 4 brutamontes, e o líder era um baixinho metido a invocado. Mas o tom de voz dele era firme, e transpirava liderança. Sem dúvidas. Eddie olhou para eles, e não teve escolha além de erguer os braços, resignado.
- Qual o seu nome?
- Edward.
- Eu sei de onde você veio. Você é o arauto da estrela.
O líder dos lagartos contemplou o céu. Eddie também. Ela estava cada vez maior, e maior. E mais vermelha.
- O que farão comigo, então?
- Você tem que ser sacrificado em cima do altar do sol eterno. Se não, ela não vai sumir nunca.
Eddie olhou, e achou aquela história simplesmente estranha demais. Ser sacrificado por homens-lagarto, não. De jeito nenhum. Ajoelhou-se, fingindo deixar ser amarrado, e quando chegaram dois dos lagartos, ele agiu. As lâminas de Glamour que tinham funcionado contra o monstro do lago estavam de volta. Mas os nômades não eram tão relapsos assim, e a luta foi até bem justa. Eddie rodava golpeando todos os lados, dava pulos que seriam impossíveis em outras situações, e adquiria cada vez mais uma compreensão e agilidade maior com os próprios movementos. O primeiro dos lagartos morreu com a própria lança: o arauto da estrela partiu a arma do inimigo e cravou-a em seu pescoço. A vantagem numérica já não se tornava mais de tanta valia, naquela situação ali. O segundo lagarto teve a cabeça decepada pela lâmina de Eddie, em um momento de descuido; o terceiro foi derrubado no chão, e teve o crânio amassado com uma pisada. A força do carniçal estava muito maior do que em qualquer momento. Sobraram apenas o líder e mais um de sua tribo: mas esse mais um foi perfurado pela lâmina de Glamour.
- Você até que é um guerreiro de não se jogar fora, humano.
- Eu já fui humano. Agora sou muito mais.
Não era Eddie que falava, era como se alguma entidade estivesse apenas controlando o corpo dele. A luta estava difícil, o pequeno lagarto líder do grupo era muito ágil, aparava todos os golpes. Por mais que Eddie tentasse golpeá-lo com suas lâminas, parecia tudo em vão. Então ele percebeu, não precisava das lâminas. Quando desviou do que foi o último golpe do nômade, ele saltou para trás. Saltou algo como uns cinco metros.
- O que é então, fugindo da batalha? - o lagarto disse, correndo em sua direção.
- Não. Terminando com ela.
Eddie simplesmente agitou as mãos. Uma pequena esfera de energia vermelha, estranhamente parecida com uma miniatura da estrela que caía do céu, surgiu de suas mãos, e acertou o nômade em cheio. Uma explosão sacodiu o deserto, o lagarto e tudo que havia de cenário ali se pulverizou, e foi carregado pelo vento, como um Glamour em forma pura, em pó. Eddie contemplou a cratera que ficou ali, bem diante dos seus pés, e se sentiu cansado. Ele tinha gasto energia demais naquela luta. Se sentou na beira da cratera, e descansou. Seu processo de tirar o Glamour de seu corpo estava quase acabando. Mas ainda faltava alguma coisa. Olhando para a montanha que repousava silenciosamente na linha do horizonte, ele encontrou o que faltava. Ficou sentado por apenas mais alguns minutos, então se levantou.
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- Mãos para cima, forasteiro. Renda-se, você não tem escolha.
Eram cinco lagartos, e tinham lanças. E eram um grupo engraçado; 4 brutamontes, e o líder era um baixinho metido a invocado. Mas o tom de voz dele era firme, e transpirava liderança. Sem dúvidas. Eddie olhou para eles, e não teve escolha além de erguer os braços, resignado.
- Qual o seu nome?
- Edward.
- Eu sei de onde você veio. Você é o arauto da estrela.
O líder dos lagartos contemplou o céu. Eddie também. Ela estava cada vez maior, e maior. E mais vermelha.
- O que farão comigo, então?
- Você tem que ser sacrificado em cima do altar do sol eterno. Se não, ela não vai sumir nunca.
Eddie olhou, e achou aquela história simplesmente estranha demais. Ser sacrificado por homens-lagarto, não. De jeito nenhum. Ajoelhou-se, fingindo deixar ser amarrado, e quando chegaram dois dos lagartos, ele agiu. As lâminas de Glamour que tinham funcionado contra o monstro do lago estavam de volta. Mas os nômades não eram tão relapsos assim, e a luta foi até bem justa. Eddie rodava golpeando todos os lados, dava pulos que seriam impossíveis em outras situações, e adquiria cada vez mais uma compreensão e agilidade maior com os próprios movementos. O primeiro dos lagartos morreu com a própria lança: o arauto da estrela partiu a arma do inimigo e cravou-a em seu pescoço. A vantagem numérica já não se tornava mais de tanta valia, naquela situação ali. O segundo lagarto teve a cabeça decepada pela lâmina de Eddie, em um momento de descuido; o terceiro foi derrubado no chão, e teve o crânio amassado com uma pisada. A força do carniçal estava muito maior do que em qualquer momento. Sobraram apenas o líder e mais um de sua tribo: mas esse mais um foi perfurado pela lâmina de Glamour.
- Você até que é um guerreiro de não se jogar fora, humano.
- Eu já fui humano. Agora sou muito mais.
Não era Eddie que falava, era como se alguma entidade estivesse apenas controlando o corpo dele. A luta estava difícil, o pequeno lagarto líder do grupo era muito ágil, aparava todos os golpes. Por mais que Eddie tentasse golpeá-lo com suas lâminas, parecia tudo em vão. Então ele percebeu, não precisava das lâminas. Quando desviou do que foi o último golpe do nômade, ele saltou para trás. Saltou algo como uns cinco metros.
- O que é então, fugindo da batalha? - o lagarto disse, correndo em sua direção.
- Não. Terminando com ela.
Eddie simplesmente agitou as mãos. Uma pequena esfera de energia vermelha, estranhamente parecida com uma miniatura da estrela que caía do céu, surgiu de suas mãos, e acertou o nômade em cheio. Uma explosão sacodiu o deserto, o lagarto e tudo que havia de cenário ali se pulverizou, e foi carregado pelo vento, como um Glamour em forma pura, em pó. Eddie contemplou a cratera que ficou ali, bem diante dos seus pés, e se sentiu cansado. Ele tinha gasto energia demais naquela luta. Se sentou na beira da cratera, e descansou. Seu processo de tirar o Glamour de seu corpo estava quase acabando. Mas ainda faltava alguma coisa. Olhando para a montanha que repousava silenciosamente na linha do horizonte, ele encontrou o que faltava. Ficou sentado por apenas mais alguns minutos, então se levantou.
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