Se perguntassem a um narrador onisciente o que ele diria sobre o amor após os eventos daquele final de semana em Los Angeles, ele diria cinco coisas.
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Parte 1: O amor eterno
Ele chegou, e viu-a ali, sentada na areia.
- Locke. - ela disse, ainda olhando fixamente para o mar.
- Boa noite, Becky.
- Sua Banalidade me machuca. Você está há tempo demais nesse mundo.
- Eu sei disso. Perdão. Mas serei breve.
- Você tem que ser. Precisa estar em outros lugares ainda hoje.
- E depois partir.
- Sim. Chegou sua hora.
Becky não gostava de falar sobre partidas, desde que Brian tinha ido embora. Um dia que ela nunca esqueceria por toda a vida seria o seu casamento; ela estava com um vestido branco e flores no cabelo, e ele com uma elegante roupa de cavaleiro. A vida dela era bem mais simples, aos dezessete anos: os dois juraram fidelidade eterna um ao outro, e viveriam felizes para sempre. Mas então veio a guerra, e levou de Becky seu amor. Ela nunca tinha amado outra pessoa antes, e nunca mais amaria. Seu coração estava preso a ele por todo o sempre. Mas o que seria o amor? Ela ia perguntar a Locke, mas quando se deu conta ele já tinha ido embora. Ficou contemplando as ondas por mais um tempo. Tinha que esperar.
- Ei... eu incomodo se sentar aqui? - um desconhecido lhe perguntou.
- Diria que não. Mas infelizmente, vou ter que dizer que sim. As ondas estão conversando comigo.
- Entendo.
- Mas que bons ventos soprem para você esta noite.
Ela até conversaria com aquela pessoa, que certamente teria algo bom para lhe dizer. Aquele mortal estava encantado, havia Glamour nele. Ele veria coisas bonitas aquela noite ainda. Grande sorte a dele. Então a pessoa que Becky esperava chegou.
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Parte 2: O amor próprio
O que seria o amor? Para Alice, nunca tinha significado muita coisa. E naquele momento, menos ainda. Era sexta-feira, Locke tinha acabado de lhe deixar, porque precisava "resolver uns assuntos". Ela também precisava resolver os dela. Precisava encontrar alguma felicidade em sua constante luta pela sobrevivência. Alice sentia que não era mais possível viver assim, sozinha no mundo, abandonada por tudo e todos. Caminhar pela noite sem um rumo não parecia um bom começo. Então ela viu a namorada de Eddie e seu tio caminhando também, do outro lado da rua por onde ela andava. Por mais que ela não gostasse de Vivian, não podia negar que sentia uma certa inveja de tudo que ela tinha. Ela tinha pessoas que gostavam dela, um conforto na vida. Ela tinha amor, ela era feliz. Mas, cada um com seus problemas, e inclusive Alice com os dela. O problema de não ter ninguém na vida. Não mais. Não mais se importaria com coisas assim. Machucada por tudo que tinha passado, ela resolveu que não precisava de mais nada para continuar sobrevivendo. A vida era uma eterna batalha, e por mais que a dela não fosse um prazer momentâneo constante, era um prazer quando vista por uma tal visão panorâmica. Uma que ela tinha adquirido em algum instante aonde resolveu viver com seus próprios termos. E Alice viveu bem assim até aquele momento, e viveria bem até o final de sua vida.
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Parte 3: O amor perfeito
Era algo que Eddie pensou vendo-a ali, andando calmamente, enquanto ele corria para fora do Sonhar. Sua vida teria sentido sem Vivian? Com certeza. Seria a mesma coisa? Com certeza não. E por mais óbvio que isso seja, pensar aquilo em um instante fugaz foi uma forma de descoberta que o deixou simplesmente feliz. Ele tinha visto ela mais uma vez, após achar que isso seria impossível. E como Vivian era linda. Era uma beleza extraordinária, uma simplicidade, e perfeição em cada detalhe de seu rosto e corpo. E ela era carinhosa, se preocupava com ele, assombrosamente inteligente, e esperta também. E tinha um sorriso que conseguia salvar qualquer dia de Eddie, por pior que fosse. Conseguia um feito raro: o de ser linda até mesmo na hora em que acorda. E Eddie adorava a risada dela, mais tímida impossível, e o jeito que ela esfregava seus pés nos dele embaixo do coberto nas noites mais frias, e também o jeito que ela falava espanhol. Era um sotaque fofo, e engraçado, e lindo. Como qualquer único detalhe daquela garota. “Deus, como eu amo essa garota.”, a única verdade que ele poderia encontrar a respeito da própria vida. Ele era apenas mais um garoto decadente de classe média, que fez uma infinidade de escolhas erradas, a vida inteira. Mas, era um garoto decadente sortudo. Tinha a melhor namorada do planeta inteiro. E boa parte do planeta concordaria com ele quando dissesse isso. “E o amor só é amor quando é recíproco”, ele tinha lido ou ouvido alguma vez em algum lugar. Pois o dele, além de ser recíproco, era perfeito. E amor-perfeito era a flor que Vivian tinha citado uma vez para ele, num momento qualquer em que estavam planejando o seu futuro casamento. Ela queria amores-perfeitos por toda parte na cerimônia. E no outro dia, Eddie foi a uma floricultura, para ver a tal flor, que nunca tinha ouvido falar na vida. Bem, flores não eram com ele. E ele teve que ir a quatro floriculturas, até achar o amor-perfeito. Era realmente algo lindo. Até para ele, que não era muito fã de flores. E naquele dia Vivian ganhou um buquê de amores-perfeitos de presente.
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Parte 4: O amor cinematográfico
Brett então virou-se e foi embora. Agora ele não tinha mais um carro, e precisava chegar em casa antes do amanhecer. Pois é, agora ele era um vampiro. Sem volta. Tudo por causa de Mary Stuffs, a menina que ele pagou um pau absurdo a High School inteira. E qual foi a sua surpresa quanto ela apareceu ali na rua, andando sozinha, 4:30 da manhã de sábado. Tecnicamente domingo, mas o dia não termina até que se durma. Ou seja, era sábado.
- Oi. – ela disse, aparentemente acanhada.
- E porque você fez isso comigo?
- Sabe, Brett... impulso. O que tem me movido para tudo o que eu tenho feito ultimamente.
- Não parece uma boa desculpa.
- E não é. Parei de me importar com pedir desculpas. - ela realmente sabia ser uma filha-da-puta. “You’ll be a bitch because you can...”, Brett lembrou-se do John Mayer tocando enquanto ele desenhava a caricatura dela. – Mas sabe, eu realmente gosto de você. – sim, ela sabia mesmo ser uma filha-da-puta.
- Eu preciso pensar sobre isso. – respondeu, desconcertado.
- Claro, amore. – e ela ficou parada ali, como se ele tivesse que pensar naquilo exatamente naquele momento.
O que ficou foi o silêncio. Então ele tentou começar a dizer alguma coisa, mas ela desatou a falar. Era desesperador, ver Stuffs falando sem parar sobre a desconstrução da vida, e o amor casual, e sorte e destino. Mas era algo extraordinariamente apaixonante; mais ainda dadas as circunstâncias da noite passada. E conversaram por uma hora mais ou menos, até que perceberam que o sol estaria para nascer em breve. E Mary Stuffs dormiu com Brett naquela noite, e na noite seguinte também. E ela pode, naquelas duas noites, não ter o convencido das razões pelas quais ele se tornou um vampiro, mas, pelo menos, ela o convenceu de que ele estava desesperadamente apaixonado e que o que queria era apenas estar com ela. E assim é o amor cinematográfico: ele nasce em um momento qualquer, dá o ar de sua graça na hora mais inesperada possível, e nos marca para sempre.
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Parte 5: A falta de amor (citando a letra que dá nome a esse capítulo, “Do you feel love, or a lack thereof?”)
Raposa simplesmente odiava esses malditos poderes mágicos que ele não conseguia ter. Como os do Duque Ariser, e do velho Reich, e da tal Becky Summers. Ele tinha ouvido falar alguma coisa dela por aí, que era rainha das fadas, coisas assim. Mas não suspeitava que ela conseguisse simplesmente se teletransportar, e aos outros também. Enfim, Alice no momento era simplesmente um pequeno incômodo, assim como tinha sido Eddie. Isso ele podia deixar para depois. Tinha que tratar de negócios no momento. Aliás, era isso o que ele ia fazer quando encontrou Alice. Encontrar Chris e pegar sua recompensa. Afinal, ele não tinha explodido um ateliê à toa. E aquilo ainda iria lhe dar um tanto de cabeça: uma hora ou outra ele teria que lidar com Jack Tequila, e também com a própria Emily e todos aqueles que estariam do lado dela. Bem, duas coisas: primeiro, ele estava ganhando algo grande, e não se tratava apenas de dinheiro; e segundo, o que era a vida sem um pouco de desafio? Desafio era tudo para Raposa, desde que ele tinha resolvido que o mundo era sem graça demais, e que precisava de um agente do caos. Era isso o que ele se sentia, uma força que bagunçasse toda a ordem em que estava fundamentado aquele fechado micro-universo que era sua vida. A sua vida, e as vidas que giravam ao redor dele. Pois ele tinha lido uma teoria científica uma vez: o que impede de toda sua vida ser uma ilusão, nas quais as outras pessoas são apenas fantoches ou imagens criadas por nós mesmos? Então, a idéia de que o universo gira em torno de você mesmo é um tanto justificável, e atraente. Pelo menos foi para Michael Forwell. E ele realmente abraçava isso. Bateu na porta que o levaria a Chris, falou a senha como de costume, e ali estava ele sentado lhe esperando. Conversaram, debateram um pouco sobre os planos para o sábado a tarde, e também para o fim de noite da sexta, Raposa pegou o que queria, e foi embora. A diversão o aguardava na Ocean Avenue.
terça-feira, 19 de maio de 2009
Capítulo 27: Love
Postado por
Luiz Costa
às
11:31
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