sexta-feira, 8 de maio de 2009

Capítulo 24: Ballade 4 part 1

Aquele lugar era quente, nisso não haviam dúvidas. Mas o calor era algo que Eddie tinha aprendido a gostar, desde que tinha se mudado para a Califórnia. E nas únicas vezes que voltou para Boston a passeio, ele tinha passado frio. Como se seu corpo tivesse ficado desacostumado ao ar gelado. E o fato engraçado é que ele tinha vários e vários casacos. Como um para se sentir com estilo, um para "dia de aventura", e um para os dias da mendicância, e também o casaco da finesse. E Los Angeles era absurdamente quente. Ou seja, um desperdício. Mas, os dias frios valiam a pena. Mesmo.

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Tudo o que ele queria era um pouco de comida. A fome aperta, quando não se come na quinta, nem na sexta, nem no sábado. E era sábado, e ali estava ele. Caminhando no meio do fogo. Mas a fome não importava tanto assim. Ele queria era estar com alguém. A necessidade de pessoas é muito maior do que a de comida, ou água, ou coisas mundanas assim. Somos seres humanos, somos como insetos sociais. Precisamos de outros a nosso redor. E no momento, ele queria estar com alguém. Ele queria estar com Vivian, na verdade. Desesperadamente queria estar com ela.

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Pimenta. Algo que ele definitivamente não gostava. Não gostava de pimenta, não gostava de feijão, não gostava de fast-food. Preferia não comer a comer alguma fast-food. E ele não gostava de acordar e não ter um cigarro, não gostava de assistir a shows parado em lugares ruins, não gostava de cachaça. Eddie sabia tudo do que não gostava, mas não sabia do que gostava. Mas de repente ele soube: gostava de tomar sorvete com sua namorada, gostava dos dias em que acordava apaixonado, por uma razão qualquer; gostava de passar noites acordado ouvindo música, e sentindo a música em si. Música, a maior invenção da humanidade em todos os tempos. Sem dúvida.

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Seus vizinhos. Seus vizinhos eram engraçados. Um dos seus vizinhos era um pequeno empresário, em algo do ramo de transportes; e trabalhava em casa. E seus outros vizinhos eram um casal, pareciam recém-casados. Sem crianças. E a única reclamação que ele ouviu na vida inteira foi uma vez em que Eddie e seus amigos ficaram fumando maconha a tarde inteira. E o vizinho da empresa de transportes reclamou, porque a fumaça ia direto para a janela do quarto de sua filha. Então, eles pararam de fumar de tarde na sala. E começaram a fumar fechados no escritório. "Escritório do banza, boa tarde". E o banza tornava as tardes das pessoas felizes. Bons tempos.

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Terapia, algo em que definitivamente Eddie não acreditava. Como psicólogos dizem entender a mente humana? O ser humano nunca vai entender a própria mente. E a dos outros então, nem se fala. Simplesmente impossível. E Eddie tinha lido algo de psicologia por alguns tempos, um pouco de Freud, Jung, Rogers. E Skinner. Skinner definitivamente era um picareta. Que não entendia a vida. Tampouco Freud, ou Jung. Presos num raciocínio próprio, uma visão do mundo e da mente pré-concebida, que devia se aplicar a tudo. Mas Rogers era um cara bacana. Foi o primeiro que entendeu que a única pessoa que pode ajudar a uma pessoa é ela mesma. No momento, Eddie precisava desesperadamente de uma auto-ajuda. "Sincronicidade ou porque nada é por acaso", começou a lembrar desse livro. E definitivamente, ele estar ali não era uma simples obra do acaso. Caminhando pelo Sonhar, ele entendeu. E o fogo terminou. Depois de um incêndio, ele tinha ouvido em algum lugar, várias sementes conseguiam brotar por causa do calor. E por mais que um incêndio acabasse com a vida na floresta, ele trazia alguma vida nova. Renovando, e se renovando. Criando o próprio combustível para poder voltar depois. O fogo, esse sim era um cara esperto.

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Verifique o seu pulso, é a prova de que você não está escutando. Para o chamado que sua vida está lhe passando. O ritmo de uma letra de dias vazios. Com medo do mundo ali fora, você devia explorar. Coloque as sombras de lado, e ande por esses grandes lugares. Luzes de abajur fazem as sombras brincar. E pôsteres colocam as paredes de lado. A televisão é sua janela, a vista não vai te deixar triste. Então coloque sua fé em um programa de tarde da noite. Aposto que você nem ao mesmo sabia; dependendo de quão longe você vai, os números dos canais mudam. Com medo do mundo ali fora, você devia explorar. Coloque as sombras de lado, e ande por esses grandes lugares. Bem que, ultimamente não posso te culpar. Eu vi o mundo, e as vezes desejo que seu quarto tivesse espaço para dois. Então vá destrancar a porta, e ache porque você veio. Os grandes lugares, por favor deixe os grandes lugares. Verifique o seu pulso, é a prova de que você não está escutando, para o chamado que sua vida está lhe passando. O ritmo de uma letra de dias vazios. "Como eu gosto de John Mayer", Eddie pensou. E aquela letra de algum modo fazia um total sentido para ele.

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Um espelho. Eddie reparou que não se olhava em um espelho há muito tempo. Mentira, ele tinha olhado para um espelho no Hell's Kitchen, na quinta-feira. Na hora em que Vivian lhe ligou, ele estava se olhando no espelho. Mas antes disso, havia muito tempo em que ele não olhava em um espelho. Talvez por não gostar do que via. Com certeza, por não gostar do que via. E caminhando pelo Sonhar, ele viu uma lagoa espelhada. E quando olhou, percebeu que não tinha tanta antipatia assim por espelhos. Ou tinha, e só caminhando por ali conseguiu ficar contente com sua vida. Então parou, e ficou olhando para a lagoa, agachado. Até alguma coisa repentinamente o puxar para dentro da água.

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