- Eddie? O que você quer aqui?
- Vamos conversar, Howie. É importante.
- Entre.
Aquilo era algo que Eddie achou que nunca ia ver: O Hell’s vazio e trancado em pleno sábado à noite.
- Como estão as coisas?
- Ah, você sabe... nada bem.
- Becky se foi, Howie. Além de Ling. Realmente, não são bons tempos.
- Como foi no Sonhar?
- Me ajudou a esclarecer algumas coisas. Mas acho que o que tem acontecido aqui é mais importante. Porque a avenida parou?
- Não tenho idéia. Eu vim pra cá às 6 da tarde, e tudo já estava estranho assim. E desde então fiquei aqui, para ver se acontece alguma coisa.
- Entendo. Aliás, você teria uma bússola por aí, Howie?
- Não. Não tenho.
- Então, acho que vou indo. A gente se vê. E boa sorte.
- Pra você também.
-//-
- Você voltou, filho.
- Sim senhor.
- Já lhe disse pra me chamar de você, Eddie... não?
- Desculpa.
- O que conseguiu no Sonhar?
- Alguma experiência a mais. Mas... só.
- Bonito o céu que você conseguiu, aliás.
- Foi Becky, né.
- E o Glamour que ainda lhe sobrava.
- Porque eu absorvi todo esse Glamour, aliás?
- Começou com Vivian. Ela tinha renunciado a isso, então o Glamour fugiu dela para algum lugar. Você foi o caminho mais fácil, era a pessoa com mais Banalidade que havia ali perto. Então, como se não fosse o suficiente para um anular ao outro, você começou a absorver mais e mais Glamour, enquanto ficava apenas cada vez mais banal. Até o ponto em que você começou a ver quimeras, o que foi quinta-feira. E nisso antigas profecias foram reinvindicadas, e deu no que deu.
- E o que eu tenho para fazer agora então, Reich?
- Você sabe o que tem que fazer. No fundo, sabe. Por isso você sempre se deu bem na vida, sua intuição é forte. Então, simplesmente vá atrás do que quer. E tudo se resolve.
- Certo. E porque a Ocean Avenue parou?
- Aconteceu coisa demais, desde que você entrou no Sonhar, e durante o dia. Tudo isso levou ao que vemos aqui. Já ouviu sobre termodinâmica? Se a quantidade de entropia em um sistema chega a um máximo, ele simplesmente congela. É mais ou menos assim o que aconteceu. Eventos demais.
- Como o que, por exemplo?
- O antigo príncipe dos vampiros está querendo seu lugar de volta. O ateliê de uma peça importante na sociedade explodiu. Bem, do ateliê você sabe. E mais muita coisa que ainda não foi revelada. E ah, seu primo Seth está morto.
Aquilo sim foi um choque para Eddie. Seth morto? Não, não era possível.
- Como? – disse, atônito.
- Ele era um Observador. Nunca ouviu sobre esse mito?
- Não.
- Por alguma razão, sempre existe uma pessoa no mundo que consegue ver e ouvir e sentir além dos limites normais dos humanos, e de qualquer limite de qualquer pessoa. E por alguma razão, só pode existir um Observador, e ele não pode viver mais do que duzentos anos. É o tempo que o Universo lhe dá para aproveitar e aprender. E a hora de Seth chegou. Sinto muito.
- Tudo bem.
- Fique com isso, Eddie. – Reich tirou uma bússola do bolso e estendeu para ele, com um sorriso no rosto. – E vá encontrar Jack Tequila. Os piratas podem lhe dizer aonde.
- Muito obrigado, senhor.
-//-
- Você voltou, Edward.
- Sim. Com o que vocês pediram. – ele disse, entregando a bússola nas mãos de Morte.
- Olhe bem para onde ela aponta... é para onde você tem que ir agora.
Eddie olhou bem para a agulha, e viu que ela apontava para um cartaz em um poste, já no calçadão da praia. Era um anúncio de casas à venda, em Brentwood, um bairro um tanto longe dali. Ir andando não era uma possibilidade muito viável, e não haveria ônibus ou metrô àquela hora da madrugada. Ele viu os piratas virando para ir embora, se despediu deles, e começou a andar. A conjuntura cósmica seria bondosa, com certeza.
-//-
- Eddie?
- Brett, certo?
- Sim.
- Você ia pular naquele mortal ali, não?
- Eu ia. Preciso de sangue agora.
- Se controle. Ele não está bem.
- Como assim?
- Não sei, eu sinto Glamour nele.
- Entendi. E a sua vida como o escolhido que pode salvar tudo, como tem sido?
- Um monte de coisas pra fazer. – Então uma idéia surgiu na cabeça de Eddie, como se uma lâmpada tivesse sido acesa. – Brett, cadê seu carro?
- Estacionado no Hell’s Kitchen. Desde quinta-feira.
- Eu preciso dele.
- Como?
- Preciso estar em Brentwood, e logo. Faz parte da tal vida como escolhido, sabe...
Brett olhou bem. Ele não precisaria do carro, de qualquer maneira. E andar pela noite estava um tanto confortável, depois de tudo o que tinha acontecido. Simplesmente tirou as chaves do bolso, e estendeu para Eddie.
- Me diga aonde eu posso deixar o carro e as chaves quando não precisar mais.
- Pode levar no meu prédio. Richards, 2097, apartamento 34. Pare o carro na frente, e deixe a chave na minha caixa de correio. Ah, é um Porsche amarelo, se você não se lembra.
- Lembro sim. Muito obrigado, Brett.
- É legal fazer alguma coisa para resolver a situação, sabe.
- Pois é. E como andam as coisas pra você?
- Tudo estranho demais. Mas a gente dá um jeito.
- Com certeza. Vou indo nessa. Até qualquer hora, meu caro. – e os dois se abraçaram, antes de cada um seguir seu caminho. Eddie correu de volta ao Hell’s, pegou o Porsche e seguiu para Brentwood.
-//-
Quando Eddie entrou no quiosque, o silêncio caiu sobre o lugar. Nenhum rosto conhecido ali, a não ser o de Morte e Oculto. Mas Eddie nunca tinha visto aquelas pessoas antes.
- Quem é você? – o cara que parecia com Morte lhe perguntou.
- Meu nome é Edward Reel. Os piratas me mandaram para cá.
- Você é o garoto da estrela. Meu nome é Jack Tequila. Sente-se, por favor.
- Prefiro ficar de pé. E do que se trata essa reuniãozinha, afinal?
- Estamos discutindo sobre os fatos que têm acontecido desde ontem, e o que faremos em relação a eles no futuro. Se tiver algo a acrescentar, fique a vontade; caso contrário, continuaremos de onde paramos.
- Por hora, nada a dizer. – Eddie disse, enquanto encostava em um dos pilares e acendia um cigarro. – Não se importam, né?
- Não.
- Então, continuando meu raciocínio... – o Oculto disse – é visível a incapacidade de nosso líder de manter a ordem na cidade. Temos visto isso desde ontem, e ainda mais com o que aconteceu hoje à tarde. Nenhum do nosso sangue pode ter agido, e mesmo assim a situação está em um nível insuportável.
- O que você sugere então, Chris?
- Que se esqueça essa idéia de estado anarquista. Todos os vampiros que estão nessa cidade desde antes da sua revolução podem dizer sobre o caos que tem acontecido aqui. Você e sua gangue intervêm tanto, Jack, que essa idéia de liberdade foi corrompida. Quem manda é a sua milícia, essa história de cada um faz o que quer está errada. Eu sou a favor da reinstalação do Principado.
- E para você ser o príncipe novamente, Chris?
- Bem, nos vinte anos em que fui príncipe, a cidade viveu em relativa paz. Comparada ao que é hoje.
- Foi você que explodiu meu ateliê, seu maldito. – uma voz feminina surgiu na reunião repentinamente. – Faz tudo parte do seu planinho.
- Como, Emily? – Jack Tequila perguntou.
- Chris pagou Raposa para explodir meu ateliê. Provavelmente ele está ligado ao que aconteceu hoje à tarde também.
- De onde você tirou isso? – ele perguntou de volta, claramente se fazendo de mal informado.
- Seth Daniels Cuervo me disse.
- E quem seria Seth Daniels Cuervo?
- Ele era o Observador de nossa era. – Eddie respondeu. Disso as pessoas ali não sabiam, mas, pelo menos conheciam a lenda do Observador.
- Então, a história é real? – Jack perguntou.
- Sim.
- E aonde encontramos Seth?
- Ele morreu. Hoje à tarde. O prazo dele nesse mundo acabou.
- Ótima prova que vocês têm contra mim. A palavra de um cara que supostamente é uma lenda, mas que já está morto.
- Chris, o engraçado dessa situação é que ninguém tem provas. – Jack disse. – Temos apenas o que todos nós vimos, e o que Emily e Edward acabaram de trazer para nós. E todas as evidências apontam contra você. Sabemos que é sua cara, esperar pacientemente mais de 25 anos para executar um plano que não poderia ter falhas e tomar seu lugar de volta. Todos sabem que você nunca esteve contente com a situação.
- Tudo bem. Então é assim. Certo. Eu sou o culpado por tudo. Apenas provei que sua forma de gestão dessa cidade é falha, e que com simples coisas dá para desconstruir o mundinho utópico que você fabricou. O que você vai fazer agora, Jack Tequila?
- Bem, há a punição padrão para essas coisas.
Jack, em questão de frações de segundo, tirou uma estaca do bolso, e a arremessou contra Chris, bem no peito. Em uma fração de segundo menor ainda, ele simplesmente fez um movimento com a mão, e a estaca desviou seu caminho, e acertou Eddie. Em cheio. Então, Chris saiu voando dali, em uma velocidade que claramente nenhum deles conseguia alcançar.
-//-
- Eddie! Espere!
Ele parou e esperou, já na alameda que levava à rua sem saída.
- Emily, certo?
- Sim. O que você vai fazer agora?
- Resolver um antigo problema meu. Acertar as contas com Raposa.
- Eu posso te ajudar de alguma forma?
- Não sei.
- Você é um carniçal, certo?
- Sim.
- Então, faça bom proveito disso. Abra a boca. - Emily cortou o próprio pulso com sua unha, e despejou um tanto de sangue na boca de Eddie. – Agora você pode fazer coisas que não conseguia antes.
- Eu sinto isso a cada sangue diferente que tomo.
- Bem, é assim que acontece. Boa sorte, Edward.
- Obrigado.
-//-
- Você quer realmente fazer isso, Alice? É perigoso, você sabe.
- Sim, eu sei. Mas é algo que tem me incomodado, e que eu sei que se não resolver, vai voltar depois. Então, vamos nessa.
- Tudo bem. Aliás, o que você fazia sentada na calçada essa hora?
- Perdi o sono. O dia foi muito longo. Aí fica aquela história, você fica tão cansado que não dorme.
- E o que aconteceu durante o dia?
- Hmm... não lembro. Droga, de novo.
- Amnésia?
- Sim. Quinta tive a mesma coisa. Pelo menos eu tinha Seth para me contar o que aconteceu.
- Agora não mais.
- Sinto muito pelo seu primo, Eddie.
- Sinto muito pelo seu amigo, Alice.
- Tudo bem. É ali o lugar.
- Sim, me lembro. Certo, faltam vinte minutos para as seis. A gente fuma um cigarro, enquanto vê o que faz. E entramos daqui a dez minutos.
- Por mim tudo bem.
Enquanto acendia seu cigarro, Eddie desejou algo a Raposa. Que ele aproveitasse da melhor forma possível seus últimos minutos de existência. Olhou para Alice, e sorriu por ela estar ali. E ele não precisar fazer tudo sozinho.
domingo, 31 de maio de 2009
Capítulo 33: Leave The Pieces
Postado por
Luiz Costa
às
11:03
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