terça-feira, 12 de maio de 2009

Capítulo 26: Postcards From Italy

Eddie pensava, e aquilo tinha sido meio sem sentido. Ele tinha vindo para o Sonhar, e tudo que tinha feito era ter conversado com um gato maludo amarelo, e visto paisagens bonitas, e quase ter morrido três vezes. Bem, ele tinha pensado bastante na vida também. Talvez fosse o suficiente. Mas ele ainda tinha que chegar ao topo da montanha. Talvez ver mais uma paisagem bonita, antes de poder ir embora. O sol já se punha, a noite ia caindo. Se os dias no Sonhar acompanhavam os dias na Terra, devia ser sábado. E ele não tinha a mínima idéia da quantidade de coisas que acontecia por lá, em sua ausência. E não tinha idéia da quantidade de coisas que ainda aconteceria quando voltasse.


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Após andar mais um tempo pelo deserto, a paisagem se transformou em um campo gramado, salpicado com pequenas flores brancas e azuis. Borboletas com asas luminescentes voavam por todo o lugar, iluminando aquela noite que caía. Então começaram a aparecer árvores por onde Eddie andava, repentinamente. E o gramado salpicado de flores se tornou um pântano. Será que a geografia do Sonhar era pré-estabelecida, ou as coisas mudavam conforme a passagem dele?
- Elas se ajustam conforme o que você sente, e o que você precisa. - uma voz grave e soturna respondeu. Eddie virou-se atrás da voz, e viu um velho de um olho só encostado em uma das árvores do pântano. Era um velho maltrapilho, com três corvos pousados em seus ombros.
- Você sabia o que eu estava pensando?
- Eu sei o que você pensa, tudo o que já pensou, o que ainda vai pensar.
- Quem é você?
- Apenas mais uma quimera. Como todas que você já encontrou aqui nessa terra. Mas ao mesmo tempo, diferente de todas.
- E você tem uma função para mim em minha passagem?
- Certamente. Mas isso é algo que você tem que descobrir.
Eddie olhou para aquela figura, atônito. Ele realmente não tinha a mínima idéia do que um velho de um olho só podia significar naquele momento. Mas bem, o gato amarelo também não fez nenhum sentido... tampouco nada do que ele tinha visto ali. Eddie foi para o Sonhar acreditando que tinha um propósito especial, e acabava de descobrir que essa história de propósito não era algo para se acreditar. O ser humano nasce, cresce, vive sua vida, e morre. Sem uma direção especial. Talvez o propósito da vida fosse a própria vida em si. Justo. Virou as costas para o velho, e saiu dali. Ele só queria chegar naquela montanha. O velho do pântano não tinha nada de especial.
- Acertou em cheio, garoto. Você vai se dar bem. - Eddie ouviu pela última vez a voz dele, enquanto caminhava em direção a montanha. Enquanto caminhava de volta para casa.

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Alguma coisa que ele queria ter naquela viagem era uma máquina fotográfica. Para voltar para casa com os cartões-postais da sua viagem. Fotos não são para guardar, são para mostrar para os outros. Mas Vivian adoraria ver a cachoeira cintilando em Glamour, ou aquele grande campo de trigo. Então ele se lembrou, Vivian tinha um quadro igual ao do campo de trigo que ele viu, na casa dela. E então tudo fazia sentido: ele já tinha visto todas aquelas paisagens em algum momento da sua vida. Árvores de plástico, como a música do Radiohead. Fogo queimando tudo, como na música do Death Cab for Cutie. A lagoa espelhada, ele via em uma foto que seus pais tinham na parede de casa, em um mural de obras de grandes fotógrafos. A cachoeira caindo em um pequeno lago era um lugar em Palmdale, que ele tinha estado seis meses atrás, com Vivian, Seth, e mais alguns amigos. O deserto lhe lembrava o Atacama, um lugar no Chile que ele tinha visto em uma revista e sempre quis viajar para lá. E aquele campo gramado era um cartão-postal da Itália que sua tia tinha lhe dado de presente aos 12 anos de idade. O único lugar que ele não conseguia resgatar em nenhum lugar da sua mente era o pântano. Aquele pântano era realmente estranho para ele. Não importava, algo de novo ele tinha visto então.

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Depois do pântano, ele se viu de volta ao campo de girassóis. Os girassóis simplesmente surgiram no lugar dos charcos, e das árvores retorcidas, e do lamaçal. E bem a sua frente, o caminho prateado que ele tinha andado em sua outra visita ao Sonhar se abria. Ele claramente levava à montanha, em um caminho sem interrupções. Eddie resolveu não pensar em nada, até estar no topo da montanha. Concentrou-se apenas em chegar lá. E ele não precisava pensar mais em nada para isso. Então, chegou.

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Lá, finalmente ele viu alguma pessoa normal ali. Um homem na casa dos trinta, com uma roupa comum. Do lado dele, uma placa indicava "L.A.", uma placa de madeira antiga escrita a carvão. Ou alguma coisa que parecia carvão.
- Saudações, Edward.
- Também estava me esperando?
- Sim, claro. Desde que entrei nesse lugar.
- Como assim, você não é mais uma quimera?
- Não. Sou um ser humano normal. Então um dia eu fui Encantado e trazido pra cá. Por algum motivo qualquer. Algum Karma que eu cometi na minha vida.
- Qual foi o seu Karma?
- Dizem que crimes. Furto, assalto a mão armada, seqüestro. Então me trouxeram pra cá, no momento em que ia ser capturado pela polícia. Pelo menos para isso passar 20 anos no Sonhar me serviu. Agora que você chegou sou um homem livre.
- Então te deixaram aqui só para me esperar.
- Sim. Paguei meu Karma. Ficar 20 anos sem comer, sem dormir, sem falar com ninguém. Pelo menos eu não sentia fome, ou qualquer outra necessidade. Mas digamos que pensei bastante.
- Vamos sair daqui então? - Eddie disse, inquieto. Tanto por querer voltar ao mundo real logo, quanto pela presença daquele homem.
- Preciso te dizer um recado antes. E mostrar, também.
Então o homem da roupa comum estalou os dedos, e a névoa, que por algum motivo cobria o lado de lá da montanha, sumiu. Então Eddie olhou, e viu Los Angeles. Uma áreal rural, algumas fazendas de algodão (iluminadas por luz artificial, o branco do algodão brilhava incrivelmente no meio da noite), e a grande estrada interestadual, e mais a frente a cidade. Ele via os prédios do centro, e conseguia distinguir os lugares da cidade toda: Silver Lake, Malibu, Chinatown, Hollywood, Long Beach. Nunca tinha visto a cidade com uma visão tão boa assim. Aquele ali, era um cartão-postal do Sonhar que ele queria.
- Que coisa sensacional. - Eddie disse atônito.
- Disseram que você ai queria uma lembrança, então... - e o cara do Karma lhe estendeu uma foto daquela vista, belíssima. - O cartão-postal mais bonito do Sonhar.
- Muito obrigado.
- É meu dever. Então, funciona assim: desça correndo, ou voando, o mais rápido que puder. Você tem que gastar o Glamour que ainda lhe sobrou nisso. Você ainda estará nesse mundo, e só voltará ao mundo real quando chegar à praia. É só seguir em linha reta daqui. E você passará por lugares-chave para sua próxima tarefa. Que será daquele lado. Então, boa sorte.
- Agradeço novamente.
O homem apenas assentou com a cabeça, e sorriu. Eddie entendeu ele: sairia finalmente daquele lugar. Sua experiência no Sonhar tinha sido algo bom, mas ele nunca mais ia querer voltar para lá. Nunca. Se virou de volta para montanha abaixo, deu uma última respirada naquele ar impregnado de Glamour, e começou a correr. Aquela corrida em velocidade desenfreada montanha abaixo terminou sendo a coisa incontrolavelmente mais emocionante, e mais aterradora, de toda sua vida.

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Voar não lhe agradava tanto. Ele preferia correr a uma velocidade incrível, e se esforçando para desviar de quaisquer obstáculos que encontrava pelo caminho. E para isso, ele tinha uma intuição, noção espacial e destreza corporal realmente fora de quaisquer padrões comuns. E ele passou por lugares incríveis, passou por estradas movimentadíssimas se esquivando entre carros, passou no meio da fazenda de algodão que ele tinha visto lá de cima, e sim, aquilo realmente brilhava. Passou por bairros ricos do subúrbio, bairros pobres do subúrbio, pelo seu próprio bairro, e na frente da sua casa. Ele queria chegar em casa logo. Passou pela frente do pequeno prédio comercial que tinha visto na quinta a tarde, e os quatro dragões ainda estavam lá. E então ele passou pelo lado do que o deixou mais feliz do que qualquer lugar em que ele tenha passado. Ele, que tinha achado que nunca mais a veria novamente.

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Vivian andava, sozinha, sem prestar atenção na noite. Então ela sentiu alguma coisa. De alguma forma, Eddie tinha passado do seu lado, muito rápido, e tinha encostado em seu braço. Então ela sentiu como se o Glamour tivesse voltado para ela. De repente, ela se sentiu uma Changeling de novo. E ela sorriu quando um duende sentado em uma placa de trânsito lhe sorriu.

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Ele correu pela Ocean Avenue, e de algum modo aquela avenida estava estranha. Parecia... quieta, vazia, alterada. E aquela quimera sombra não estava mais por lá. E o Hell's Kitchen, estava fechado. Muito estranho. Então correu mais, em linha reta. Viu o lugar aonde tomou seu último sorvete com Vivian, e a casa noturna que seus amigos tinham lhe alugado para seu aniversário de 19 anos. Foi um dia inesquecível, aquele. Para ele, para Vivian, e para qualquer pessoa que estava ali. E quando chegou a praia, parou de correr, e sorriu. Ela estava ali esperando ele, de novo.

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